Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

.Coisas minhas

 

 

.Pela segunda vez na minha vida, fui à medicina no trabalho. O médico era o mesmo de há dois anos atrás. Recebeu-me com dois beijinhos e com os meus exames na mão. Que eu estava perfeita. Nada a registar no electrocardiograma , “como vê aqui não tem problema nos eixos, na urina nada a registar – deu tudo negativo, e vê muito bem, caso continue a usar os mesmos óculos. Para a sua altura tem pouco peso”. Eu ri – todos os dias a lutar contra a balança e afinal estou magra. “Mas isso sou eu que, como pode ver, gosto mais de chicha”. E depois riu ele muito, enquanto eu tentava perceber a resposta. Achei que era melhor falar-lhe das borbulhas que de repente me invadiram a cara como se eu tivesse regressado à adolescência. “Ah, isso é porque a menina está com as hormonas desreguladas”. Mas dá para ver nos resultados? “Não, percebi a olhar para si. E doenças? Nestes dois anos”. Só gripe A. “Ahhhhhh! Que sorte! Já passou!”. É por estas e por outras que só vou ao médico quando estou quase a morrer ou me telefonam a dizer que está na hora.
 
.No outro dia ligaram-me do dentista do aparelho. O meu dentista é igual ao Richard Gere mas com os dentes mais bonitos. Lembro-me do rosto dele sobre o meu, com dezenas de diplomas por trás, a questionar-me, todos os meses durante dois anos, como é que eu, menina que lhe parecia tão inteligente, queria ser jornalista. Foi uma época boa. Do secundário, dos amigos, da viagem de finalistas (em que os elásticos que brilhavam no escuro me denunciavam nas discotecas), da entrada na faculdade. No telefonema, disseram-me que estava na hora de regressar. Sim, que já passei para os casos perfeitos, mas tenho de voltar para ver se está tudo bem e porque ainda tenho os ferrinhos por trás. E eu tenho medo de regressar lá. Porque me lembra coisas boas e ando com uma veia saudosista do pior que há. Tenho saudades desses tempos e do meu aparelho. De mudar de cor todos os meses e vir a Lisboa só para o fazer. Tenho saudades. Mas talvez sejam das hormonas.
 
.Durante a minha vida inteira, devo ter dormido até ao meio-dia uma mão-cheia de vezes. Não gosto, estraga-me o dia. Fico com uma sensação de dia perdido. Por isso, mesmo que me deite tarde, o meu despertador natural não me deixa ficar na cama até depois das dez. Por norma, acordo quando a casa ainda está vazia, com o cheiro da noite. Se estou em casa, corro para a varanda e fico ali a ver a lezíria e os carros a passar, enquanto deixo o meu pensamento ir com eles. Se estou no Alentejo, procuro os primeiros chinelos disponíveis, por norma do meu pai, o robe que está mais à mão, normalmente o meu, e corro para a loja. Sem saco, tento equilibrar nas mãos o leite, o pão quentinho o queijo de ovelha que o viajante acabou de deixar. Às vezes, tenho visitas. A M. e o F. telefonam-me e pedem ovos mexidos. E eu tento equilibrar os ovos caseiros que a avó me passa para as mãos enquanto distribuo beijinhos pela loja e conto as novidades da semana. Acordar depois das dez significa perder tudo isto: a manhã, os carros, o pão quente, os miminhos de quem vai buscar o pão. Na sexta-feira cheguei tarde a casa. Foi uma noite de descobertas. Aninhei-me no sofá com o comando da tv cabo na mão até adormecer. O meu despertador chamou-me às onze horas. Fui para a rua ver a chuva cair e atirei do segundo andar um bocadinho de pão para o cãozinho do senhor que vive numa coisa estranha em frente ao prédio. Depois, o sono foi mais forte que eu e voltei a fechar os olhos no sofá. Acordaram-me às três e meia. Que não era hora de dormir, que me levantasse, que não sei que mais. Nunca tinha sentido, em dias assim, aquela vontade de não abrir os olhos, de ficar do outro lado. De continuar ali a sonhar que era uma repórter num sítio longe de tudo. O telemóvel já registava 10 chamadas da minha mãe. Não sei se tinha alertado já a polícia e os hospitais. Mau hábito, disse-lhe eu. Esta coisa de continuar a avisá-los sempre que chego ao trabalho, a casa e a todo lado, talvez já não faça sentido aos 25. E tentei acordar debaixo de um banho quente, com máscaras pelo cabelo e pela cara, enquanto lá fora o mundo estava chateado comigo porque ousei acordar depois dele. Se me tivesse lembrado, talvez justificasse com as hormonas.
 
.Estou cheia de borbulhas. Muitas. Pareço uma adolescente. Faço máscaras atrás de máscaras sempre que estou em casa e deito-me com a cara cheia de pasta de dentes. Tenho trabalhos de grupo, saídas com as colegas da faculdade e apetite como nunca. Parece que sim, voltei à adolescência. E tenho as hormonas desreguladas.
 
.O meu pai ligou-me há pouco. Que a minha multa de estacionamento tinha finalmente chegado a casa. Lembrei-o que o dinheiro já estava lá no Alentejo, na nossa latinha, desde o dia em que fui multada porque não queria pensar mais nisso. E lembrei-me do QueijinHo. Companheiro de estrada e de multas, que agora já não é meu.’Ofereci-o’ à minha mana. Agora tenho um ABel, de gente crescida. Porque quero ser adolescente à força mas já não sou.
 
.Estou cansada. Mas talvez sejam só coisas minhas. Ou hormonas desreguladas.

 

Estou:
Lá fora: não oiço a Rádio Cidade...
Terça-feira, 7 de Abril de 2009

.Coisa feia, a inveja

elotopia.net

 

Fui multada. Não há eufemismos ou outras formas de o dizer que me façam sofrer menos. Fui multada. Uma pessoa não pode pensar que teve um fim-de-semana bom, que fez a primeira prova do vestido, almoçou açorda da mamã e do papá, ganhou ovinhos caseiros dos avós, um pastel de nata da avó, uma noite inteirinha com a afilhada, uma tarde de compras com a mana. Não pode pensar que teve um fim-de-semana realmente bom, que encontrou aquilo que quer levar no cabelo no dia do casamento, almoçou à beira rio, comeu um gelado daqueles de mistura e até ao foi ao cinema passado tanto tempo. Não, não pode pensar. Porque chega o Sr. Agente Tiago Sousa e multa o QueijiHo por estar mal estacionado em 60€. Exactamente no momento em que saboreava um daqueles gelados de bola cheios de sabores e que derretem mesmo a tempo de deixar a baunilha molinha, como eu gosto, nos jardins de Belém. Sr. Agente Tiago Sousa, foi inveja? Por estar a trabalhar a um domingo com tanto sol? Calha a todos, não é preciso desatar por aí a multar todos os popós que estão estacionados no parque para autocarros. Tanto sol, tanta gente, tanta festa, tanta feira, tanto artesanato, tantos pastéis, tantas ciganas a ler a sina, e o Sr. Agente de mau humor? Inveja, Sr. Agente? Deixe lá, logo lhe dão uma folga quando todos nós estivermos a trabalhar, com mais uns subsídios à mistura. Já ouviu falar de crise? E de pessoas que escolhem o ano de 2009 para casar? Anda uma pessoa a poupar que nem uma louca, nem entra em lojas para não cair em tentações, e depois perde assim, em segundos, 60€? Nem livros compra, devolve coisas por se sentir culpada! E aquela conversa de não haver impressos de multa em Lisboa? Já nem na Comunicação Social se pode confiar? E do aumento da criminalidade, já ouviu falar? Então corra atrás dos maus e vai ver que lhe sobra pouco tempo para essa coisa das multas de estacionamento.  Como não sou tão má quanto o senhor, não lhe desejo nada de muito mal. Apenas uma doençazita incapacitante temporária, algo que o impeça de passar multas durante uns dias. E, ainda assim, não sou tão má quanto o senhor. Sr. Agente Tiago Sousa, tenho apenas uma coisita a dizer-lhe: se era um bocadinho do meu gelado que queria, quanto muito do meu fim-de-semana, bastava pedir. A mala do QueijinHo até estava cheia de iguarias acabadinhas de chegar do Alentejo. Mas multar não valia a pena... Sr. Agente Tiago Sousa: coisa feia, a inveja!

Estou: multada...
Lá fora: chove...
Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

.Amor é...

 

 

Alugar um Yaris quando se pode levar qualquer outro carro do qual se gosta mais. E mais barato. E o Yaris vir equipado com uma embalagem inteirinha de strudel de maçã e morango. E levar-me nele ao chinês. E depois deixar-me conduzi-lo todo o fim-de-semana (atchim!). É amor... PASSEI O FIM-DE-SEMANA DE YARIS*!! Estou feliz :) (Que o QueijinHo não leia este post...)

 

 

*carro da minha vida, modelo antigo, cinzento rato (não peço muito...)

 

 

Imagem: elotopia.net

Estou:
Lá fora: "I'm in love, i'm in love... accidentally in love"
Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

"Cruzes credo e água benta para seguirmos a viagem..."

 

 

Sou a pessoa mais azarada que conheço. Azarada mesmo! Do tipo Donald na vida real. Sobre mim chove, logo ao lado, sobre um qualquer Gastão, faz sol. Se há escadas para cair, eu caio. Se há pedras para tropeçar, eu tropeço. Se há coisas para partir, eu parto. Se há coisas imprevisíveis, quase impossíveis e inimagináveis de acontecer, elas acontecem-me. Se há gente má para conhecer, eu conheço. Para cobaia, cá estou eu. Se tenho de decidir entre duas coisas, fico sempre pela mais feia ou pela errada. Se há pessoa com quem não me quero cruzar, lá está ela ao virar da esquina. E, mesmo que eu fique bem quieta, paradinha, sem me mexer, as coisas acontecem-me como se eu andasse à procura delas. Como ontem. Lá estava eu, na faixa da direita da rotunda, com o piscazito a indicar que ia sair logo na primeira saída, parada, como todos os outros que também queriam alcançar o IC19 . De repente, começo a sentir o "Queijinho" (um muito igual ao da imagem, mas mais tuning, com um aileron espectacular e bancos azuis), a encolher, a ser empurrado, com muito barulhinho de lata à mistura. Olho pela janela e lá o vi. Um camião que não me viu. E não parava... Durante segundos ainda pensei que ia morrer esmagada, mas, depois, lá resolvi tomar uma grande atitude e começar a apitar. Nem assim... Começou tudo a apitar e o raio do homem não percebia. Não sei como, lá percebeu que era um carro e não uma pedrita que não deixava o seu "trombas de ferro" mudar para a faixa pretendida. Claro que, como rapariga que sou, comecei logo, logo a chorar. Talvez assim as coisas se resolvessem mais rapidamente... Qual quê. Saiu de lá um sr.-ucraniano-com-dentes-de-ouro , que "menina ter pressa, menina não ter cuidado com carro grande, menina não deixar passar, ..." e mais um sem fim de meninas que não a minha pessoa, já que "a menina estar paradita quando sr. me começa a empurrar". Com muita pena minha, que queria já ter chegado ao trabalho. E pronto, lá fui olhar para o Queijinho, que já está habituado a estas andanças. Sem mim, já enfrentou três batidelas . Que era uma rua sossegada, familiar, de boas gentes. Qual quê outra vez. Por três vezes bateram nele e se pisgaram, e eu lá me sentava no passeio às oito da manhã, fazia-lhe uma festinha e chorava, para variar. Qual é a probabilidade de isto acontecer três vezes ao mesmo carro/pessoa? 0!!!! Mas a mim, 100%. E depois houve o fatídico dia 5 de Julho de 2006, quando íamos a caminho do meu jantarito de anos e um cromo qualquer, com pressa para ver o jogo de selecção, se "enfiou" entre mim e o carro da frente, sem um piscazito que nos alertasse, levou o da frente à frente, e claro que o Queijinho lhe deu um valente beijo. Pronto, mas ali estava eu. Próximo passo, ligar para a polícia. Rua? Pois, não sei. Então descubra e volte a ligar. Espere, espere, não desligue. Entretanto, e para tornar tudo mais interessante, chega a polícia de choque porque o pessoal resolveu todo começar a fazer a rotunda ao contrário e eles, acabadinhos de chegar de um encontro nada casual com uns meninos na estação do cacém, acharam por bem parar ali para pôr alguma ordem. Um deles, engraçadito por sinal, achou também por bem tomar conta de mim. Não se preocupe, fico consigo até chegar o colega da divisão de trânsito. E ali fiquei, bem protegida, não fosse o sr.-ucraniano-com-dentes-de-ouro querer fugir com o camião pelo meio das ruas de Massamá. Lá chegou o cromo para fazer o desenho do acidente que se saiu com esta: "pois, ele não a consegue ver". Imaginei logo o Queijinho com uma bandolete e umas antenas, talvez com um coração na ponta de cada uma, com brilhantes ou luzes. Assim sim, não haveria camião que não me visse. E foi assim. Colete, triângulo, soprar no balão, papelada. E convencer o sr.-ucraniano-com-dentes-de-ouro que eu não o podia ajudar na descrição do acidente? "Menina ajudar, menina eu não saber alfabeto português". Caramba, ali estava eu, ainda a controlar as lágrimas que teimavam em sair, com o meu pópó todo partidito , e quase com pena do sr.-ucraniano-com-dentes-de-ouro causador de tudo aquilo. Lá lhe expliquei que eu era a outra parte do acidente, que não podia escrever na parte dele. "Meu filha começa hoje primeiro dia aulas nesta escola, fica triste ver pai aqui acidente". Controla-te L., não podes sentir pena. Respirar fundo... Não há nada como uma manhã de segunda-feira!

 

[Alguém conhece uma bruxazita de confiança? Agradeço.]

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