Domingo, 7 de Março de 2010

.Tenho tempo para…? / Não tenho tempo para…?

 

 

Ao domingo de manhã, no Alentejo, salto da cama bem cedo. Desço as escadas em bicos dos pés para não acordar o resto da malta e venho até à cozinha ter com a mãe. À hora a que desço, abro a porta que separa a sala da cozinha, e deixo-me envolver pelo calor do lume que a mãe já fez e pelo cheiro dos muitos tachos que já ocupam o fogão. Ficamos uns instantes nos braços uma da outra, enquanto lhe digo “gosto tanto de si”, e ela me responde “para quê, se eu não gosto nada de ti”. Ontem já tínhamos feito os planos para hoje: pequeno-almoço juntas e uma ida à missa, onde já não ia desde Junho. Sentei-me na cadeira do pai, enquanto fazia a revista de imprensa por estar de serviço, e escutava os desabafos da mãe, que só parava para me fazer um miminho. Depois escolhemos a roupa juntas e seguimos para o café, apertadinhas debaixo do mesmo guarda-chuva, com os olhos postos numa torrada com muita manteiga.
 
Agora, ‘temos’ um padre novo. Nos dois sentidos: na terra e na idade. Ainda não tinha assistido a nenhuma missa com ele. Sentei-me no banco de trás com a mãe. Perto dos meus antigos meninos da catequese, que me deram abraços apertadinhos e disseram que tinham saudades minhas. E eu deles, muitas. Por curiosidade, e também porque, confesso, já tinha saudades de ir ali, ouvi o sr. padre com muita atenção. Agora cada domingo, contaram-me, é dedicada a uma catequese. Fazem representações, lêem, cantam e respondem às perguntas que ele lhes vai fazendo sempre com um sorriso nos lábios. O que é uma parábola? Quem acham que é o vinhateiro? E quem trabalha na vinha? E eu não pude deixar de sorrir enquanto o ouvia. Lembrei-me do nosso antigo padre, que nem nos dias dedicados aos miúdos se inibia de dizer entre dentes “este miúdo lê tão mal”, “lê mais alto”, “lê mais devagar”, “baixem a cabeça”. Foi uma homilia muito terra-a-terra, muito simples, mas capaz de ser percebida por todos e de tocar. “Todos os dias devemos fazer uma lista: tenho tempo para…? Não tenho tempo para…? Devemos dizer ‘amo-te’ sem medo, ‘gosto de ti’ todos os dias, ‘quero estar contigo’ mais vezes. Fazem isso? E com Deus?”. Deixou-me a pensar.
 
Muitas vezes sou acusada de ser sentimentalóide de mais. Muito beijoqueira. Piolho agarradiço. Ao longo da vida tenho acumulado alguns pecados, coisas que me fazem pesar o coração quando penso nelas, onde vejo que desperdicei o meu tempo bem e mal, consoante o dia em que olho para elas. Mas do que nunca me hei-de arrepender é de não ter tido tempo para dizer “gosto de ti”.
Estou:
Lá fora: "Caminharei, caminharei pela tua estrada (...)"
Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

.Pecados

  @VladStudio

Nunca tive uma ideia muito dura de “pecado”. Dizer uma asneira, mentir, faltar à missa, brigar com a mana, não me esforçar o suficiente na escola. Uma lengalenga rápida e com sentido. Assim me tinha explicado a L., minha catequista por altura da primeira comunhão. Ao longo do tempo, fui adaptando os meus pecados aos dias de confissões, sempre na terrinha, por altura do Natal, da Páscoa ou em alturas de Primeiras Comunhões. Não percebia muito bem estes momentos. Deus não estava em todo o lado? Não via tudo? Não bastava pedir-lhe desculpa todas as noites nas minhas orações? Pois que não. E eu lá ia. Sempre um bocadinho antes da hora marcada, sempre com os amigos, sempre a dizer baixinho o acto de contrição para não o esquecer. Sentada em bancos de madeira que foram mudando com o tempo, assistia às pequenas brigas das senhoras que reclamavam porque alguém lhes tinha passado à frente, mesmo em dia de perdão. Esperava, pacientemente, sempre com a esperança de que não me saísse em sorte o padre da terra, que sempre me fez sentir pequenina. Quando não lhe conseguia fugir, lá vinha o interrogatório. E não respondeste mal aos pais? Não lhes tiraste dinheiro da carteira? Não tiraste nada da loja quando a avó não estava atenta? Nunca lhe contei tudo. Nem era por mal, mas tinha medo. Dele. E com Deus eu logo havia de ajustar contas. Quando chegasse altura. Afinal, ele que tudo via, ia perceber que os meus pecados nem eram assim tão graves comparados com todo o mal que andava no mundo. E ia perceber, de certezinha absoluta, que me tinha custado mesmo muito levá-los a cabo.
Foi por tudo isto que não percebi a justificação que ele (padre) deu aos pais dos meus meninos da catequese para o meu afastamento. “A L. não vai continuar com este grupo porque é uma grande pecadora”. Assim, sem mais nem menos. Com todas as letrinhas. Contado por oito pessoas, em alturas diferentes, para que não restassem dúvidas. Assim, dito em frente a amigos que não ousaram defender-me. Justificação: a L. vive com uma pessoa sem estar casada pela Igreja. E lá tive eu que reorganizar toda a ideia de pecado na minha cabeça.
Quando me mudei para a Lezíria, e o C. contou ao primito que a minha casa tinha rádios nas paredes e estores eléctricos, tive de prometer aos meus meninos que os levaria lá. Devia ter sido um fim-de-semana alegre-porque-sim e não alegre-de-despedida. Mas assim foi. Levamos os dois carros para a terrinha. Enchemo-los de meninos, de sacos-cama, de almofadas e de comidas. E regressámos apertadinhos, apertadinhos (o coração também). E foi bom. Muito bom. Os filmes, as conversas, os miminhos, os jogos, os passeios, o acampamento. Aprendi, como sempre. E espero ter-lhes ensinado alguma coisa também. Obrigada M., porque achares que a minha casa parece de novela e por teres comido a sopa toda. Obrigada T., pelas técnicas de engate e por achares que o meu arroz é melhor que o da tua mãe. Obrigada M., por quereres ser tão crescida e me arrancares tantos sorrisos. Obrigada J., porque finalmente percebeste que é bom ser pequenina e voltaste a sorrir. Obrigada S., por seres assim caladinha e teres gostado "até da fila para o banho". Obrigada N., pelas tuas gargalhadas e por nos dares música. Obrigada D., por achares que foi o “melhor” fim-de-semana da tua vida e pelo “L., serás sempre a minha catequista”. Obrigada M., por teres embarcado nesta aventura connosco. E obrigada C. e Pais por terem tornado esta aventura possível.
Chorei um bocadinho na viagem de regresso, enquanto cantávamos com a Rádio Cidade num dos carros e no outro se ouvia fado. Deixámo-los em casa, um a um. Não vou mentir e dizer que não custou. Nem dizer que é bom já não ter os fins-de-semana ocupados. Vou ter saudades. Sei que a amizade vai ficar. Mas sinto um bocadinho de inveja-da-boa por já não os acompanhar nesta fase tão importante. Por já não ter uma desculpa para estar com eles todas as semanas.
Na verdade, não me sinto uma “grande pecadora”. Peco assim um bocadinho. Digo uma asneira ou mentirinhas boas, falto à missa, brigo com a mana, não me esforço o suficiente na vida. Olho para dentro de mim e tenho a certeza. Não posso sê-lo. Sim, digo uma asneira ou mentirinhas boas, falto à missa, brigo com a mana, não me esforço o suficiente na vida. E percebo, agora sim. Nunca a lengalenga fez tanto sentido.
Estou:
Lá fora: [consigo ouvir as borboletas na minha barriga]
Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

."Senhor Deus, esta é a L."

[elotopia.net]

 

Nunca soube falar sobre Deus. Ele estava lá. Na missa, nas minhas orações, na minha vida. Mas nunca soube falar dele. Era quase um tabu. Algo que eu sentia, que me tinham ensinado a sentir, também, mas assim, só para mim. Era uma desculpa para passar as manhã de domingo com a avó, para dar uma moeda ou para recolher o dinheiro como eu tanto gostava (sempre que ganhava a corrida do "quem chega primeiro à cesta"). Era também uma desculpa para estar com os amigos, naquelas aulas de catequese orientadas pela prima A.. Foi por isso que, quando me convidaram para ser catequista, não soube bem o que dizer. Como ia fazer aquilo? Saltar os meus medos, expô-los em frente a gente que não conhecia. Disse sim. Experimentei. Porque não? Tive medo, naquela primeira aula. Eram muitos. Novinhos. Com a mesma dificuldade em falar de Deus. Muitos estavam ali apenas por obrigação. E resolvi animar a coisa. Nada de trabalhos de casa, nunca, os da escola já chegavam. Os primeiros cinco minutos seriam sempre de riso, para libertar energias. Haveria sempre jogos ou qualquer coisa assim, nada de passar a aula a ler. E, no final, haveria sempre tempo para falarmos de nós. Daquelas coisas que às vezes temos vergonha de partilhar, de perguntar, de dividir. E mais, haveria sempre lugar para uma boa aula num bom pic-nic depois de um bom passeio de bicicleta. Quando mudei de turma o medo voltou. Não só o de falar de Deus, mas também que não gostassem de mim, que não os conseguisse agarrar. Agora, espero ansiosamente por aquele bocadinho do fim-de-semana em que vou estar com eles. Com a D.. A menina que quer ser grande à força, que já pinta os olhos e deixa mensagens no messenger aos namorados. Percebe as piadas mais tarde, faz-nos sempre rir e insiste em chamar-me catequista. Com a J.. Que cresceu depressa de mais. Que nos olha sempre com um ar repreendedor por detrás dos óculos de massa. Que não acha piada a quase nada e dá conselhos a todos. Com a M.. A quem os quilinhos a mais lhe tiraram a segurança mas não o sorriso. Que faz doces e bolos como ninguém e que me manda mensagens todas as semanas. Com a S.. Que por detrás daquele cabelo grande e das saias que vai usando continua uma maria rapaz. Que parece muito tímida mas nunca pára quieta. E que está sempre a mexer no telemóvel. Com o N.. O mais pequenino. Na idade e noutras coisas. Meiguinho e irrequieto. O músico do grupo. Com o T.. O das piadas inteligentes. Que pode estar completamente distraído mas sabe sempre responder a tudo. Que me faz companhia na bicicleta até casa depois das aulas. Com o D.. O engatatão da turma. O que nos faz rir com as suas histórias. O que se assustou com o primeiro beijo. E o que não se esquece dos meus anos. Acima de tudo, somos amigos. Fazemos mais do que partilhar história e histórias. Aprendemos a conversar, a partilhar, a estar. Muitas vezes trocamos de lugar e sou eu que aprendo com eles. Diz-me o T.: "Deus pode mesmo estar presente em tudo o que fazemos...?". Sim, acho que sim, quando o fazes com bons sentimentos, acredito que é a Ele também que o estás a fazer. Ou que Ele está ali, só no gesto. Quando o fazes por mal, acredito que também te olha e te toca. Acredito que é aquele sentimento, no fundo de ti, que te leva a pensar que agiste mal. "Então Ele estava lá no beijo do D.? Coitado". Rimos. Sim, T., acredito que se houve amor naquele beijo, então Ele estava lá. "É por isso que é bom estar aqui, mostras-nos como o podemos ver assim, nas coisas todas". Eu também gosto muito de estar aqui. Com vocês. Foi por isso que decidimos que nem a Azambuja nos vai separar. Vai ser mais difícil. Menos vezes, mas maiorezitas. Só não queremos abdicar daqueles momentos. Juntos.

Afinal, é fácil falar Dele, basta sermos sinceros. Assim, como sou todas as noites quando falo com Ele. Assim, como a Ana daquele livro que outra Ana me mostrou. E começa sempre da mesma maneira. Boa noite senhor Deus, eu sou a L..

Estou:
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