Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

.Feliz Natal e um 2019 cheio de coisas boas

(Tenho andado muito ausente do blog, mas sinto que isso vai mudar.)

Esta não é uma publicação de Natal, mas para todos os dias. Nem quer ser, de todo, uma publicação de autoelogio ou autorreconhecimento . São antes constatações de alguém que chegou aos 34 mãe de dois filhos e que gostava que eles crescessem num mundo melhor sendo pessoas boas. Pensamentos de alguém que, longe de sonhar com a perfeição – tantas são as falhas que em si encontra, ambiciona ser também melhor todos os dias. E que acredita, convictamente, que os pequenos gestos têm tanto valor quanto os maiores, que as ações que acontecem longe da vista de outros são muitas vezes as mais merecedores de reconhecimento e que todas as pessoas são iguais e podem contribuir para melhorar o dia de alguém e o mundo em que vivemos.

Nos últimos tempos vivi quatro situações que me fizeram refletir. Três que me deixaram feliz, outra que me levou ao limite no extremo oposto. Num dia que vai ficar marcado em mim por muita coisa, apanhei os dois na escola e fui para o carro com as mochilas, o bibe, os casacos, ele ao colo, ela pela mão. Já estava escuro e chovia. Depois de os meter nas cadeirinhas e arrumar tudo, percebi que tinha um carro estacionado na estrada e que me ia dificultar a manobra. O dono estava no carro e tentei fazer-lhe sinal. Ignorou todas as minhas tentativas e uma manobra que podia ter sido feita de uma vez, foi feita em vinte. Respirei fundo e pensei: “Hoje vou responder”. Baixei o vidro na direção dele e a primeira coisa que fez foi mandar-me embora. Respirei fundo outra vez e respondi-lhe: “Desculpe? Vou-me embora? Viu-me entrar no carro, com duas crianças, à chuva, viu o meu pedido, e foi incapaz de me facilitar a manobra?”. A resposta dele veio seca e dura: “Não tenho de facilitar a vida a ninguém quando não me facilitam a mim. Não consigo entrar em casa porque os paizinhos estacionam em frente à minha garagem!”. Na verdade, em parte, ele tinha razão. Mas como eu lhe disse, senti-me no direito de lhe responder porque eu não o faço: posso dar uma volta maior, posso estacionar mais longe, mas não vou buscar os meus filhos a tapar garagens ou a tapar outros carros. Ele ali estava, a barrar a saída de quem lhe barrava a entrada, para confrontar os infratores, e não podia mover o carro um milímetro para não perder a oportunidade. Disse-lhe, antes de partir: “Muito mal vai o mundo quando imitamos os comportamentos daqueles que criticamos. Não está a ser melhor do que eles”. E segui, triste e de coração na boca.

A segunda situação aconteceu num dia em que fui buscar a Aurora. O pai estava de serviço, o Jaime doente comigo, e saímos diretamente do médico para a escola. Nesse dia, o autocarro da natação atrasou-se e acabámos por ficar ali mais tempo. Carregava o Jaime na mochila, e numa mão tinha as fotos de Natal da escola. Vi vir, na nossa direção, um senhor carregado de caixas de fruta. Estava à conversa com mães de amigos dos dois e percebi que o senhor já se preparava para por as caixas em cima do joelho para conseguir abrir a porta. Então fui lá eu. E o senhor ficou tão agradecido, com um gesto tão pequenino, que não parava de insistir mesmo eu dizendo que não: “Escolha lá uma fruta para o seu menino”. Nesse dia regressámos a casa com um mamão debaixo do braço e o coração cheio.

A terceira história anda à volta de um senhor que trabalha na escola deles. Costuma estar na rua, todas as manhãs, a varrer o chão, a apanhar folhas ou a mudar os carros. E vejo, com tristeza, que passam muitas pessoas por ele sem que o vejam sequer. Lembro-me sempre da música do Mr. Cellophane. Quase parece transparente. É que ele, talvez habituado a não ser visto, ali está, num ritmo constante que nunca é quebrado pela passagem de ninguém. Pode ser uma coisa de alguém que cresceu numa aldeia – ou que aprendeu com os pais – mas para mim ninguém é transparente e merece sempre um bom dia. Se trabalha na escola dos meus filhos, se em algum momento contribui para o bem-estar deles, merece o meu reconhecimento e o meu bom dia. E, tanto eu como a Aurora, lho dizemos todos os dias. Ainda andamos a aprender algumas tradições desta escola a que ainda chamamos nova, mas de uma delas estamos fãs. Primeiro deixo o Jaime no berçário e depois entrego a Aurora na sala comum e, com ela lá dentro e eu cá fora, corremos ao longo das janelas enquanto mandamos beijinhos, fazemos corações e declaramos o nosso amor uma pela outra. Estávamos nós nesta figura num destes dias quando me apercebo que o senhor, que não estava na rua quando chegámos, saiu do sítio de onde estava agora, ao fundo, e veio ter comigo só para me dizer bom dia. Retribui, sorri-lhe, e segui para o trabalho de coração cheio.

No outro dia, enquanto procurava uma prenda para as trocas dos miúdos na escola (até 1,5€, a loucura!), fui a uma loja perto do trabalho que tem uma escadaria enorme lá dentro. Já ia a subir a escadas com as compras, rumo à caixa, quando percebi que para trás tinha deixado uma senhora já com alguma idade. Não podia fazer muito mais, mas ofereci-me para levar as compras dela. E ela olhou para mim e disse: “A menina ainda tem avós, de certeza. Já ninguém pensa muito nos velhos, mas quem tem algum que estime ainda se vai lembrando”. E eu partilhei com ela que, felizmente, ainda tenho três. E fiquei a saber o nome dos seus filhos, dos netos, onde mora, de onde é. Ganhei dois beijinhos e os maiores desejos de felicidades para os meus. Saí de lá e liguei aos meus avós de coração apertado – costumamos falar todas as noites, mas senti vontade de lhes dizer logo como são importantes para mim.

São histórias pequeninas, de coisas corriqueiras, mas que me fizeram pensar. Que se aproveite o Natal para repensar os gestos, as atitudes, quem somos, mas que se leve tudo isso para o ano inteiro. Deixar um carro meter-se à estrada mesmo que não nos tenham feito o mesmo. Dar prioridade a quem a tem. Oferecer ajuda. E voltar a oferecer, mesmo que a primeira oferta tenha sido recusada. Oferecer o lugar nos transportes a quem mais precisa. Cumprimentar as pessoas. Reconhecer que neste ciclo da vida todos fazemos falta. Que a profissão, o dinheiro na conta e a roupa que vestimos não nos definem. Tratar tão bem o Diretor, quanto o Secretariado, a Equipa da Limpeza, o Motorista ou o Porteiro, porque a falta de um compromete o trabalho de todos.  Agradecer o que temos. Agradecer o que fazem por nós, por mais insignificante que nos pareça à primeira vista. Respeitar o outro, o seu trabalho e o seu espaço. Gritar o amor que sentimos. Ser melhores do que aqueles que criticamos. Gastar tempo com os outros. Fazer por estar presentes no que realmente importa. Lutar pelo que nos faz feliz e não por fazer os outros infelizes. Não criticar, muito menos quando não sabemos a história toda. Contar até 10 quando alguém faz alguma coisa que não gostamos em vez de responder de imediato com 10 pedras na mão. Ser justos. Ser pacientes. … Talvez algumas coisas sejam mais fáceis do que outras. Talvez levemos mais tempo a por algumas em prática do que outras. Mas não custa tentar, não custa começar. Quando vivi algumas destas situações lembrei-me daqueles vídeos que tantas vezes circulam por aqui, em que alguém faz uma boa ação e aquilo se transforma como uma bola de neve e as boas ações sucedem-se. Vamos lá fazer uma coisa destas na vida real. Tentemos ser um exemplo. Vamos lá contagiar os outros e transformar isto numa coisa melhor. Vamos lá começar nesta época de reflexão. Vamos lá começar hoje. Feliz Natal e um 2019 cheio de coisas boas.

 

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