Terça-feira, 8 de Maio de 2012

.O B'lota

A minha terceira participação. Como sempre, entusiasmei-me a escrever e ultrapassei, em muito, o espaço que me é dado. Esta é a versão final, mais pequenina. Quando encontrei a Od. no fim-de-semana disse-me que chorou a ler, o tio Deusdado também mo disse na outra edição. E eu não posso deixar de me sentir um bocadinho orgulhosa com isto. Não se trata apenas de contar aos outros quem foram estas pessoas, do que são feitas, é muito mais do que isso.  Mais do que tudo, gosto quando se reconhecem nas minhas palavras, quando se encontram nelas. Fico feliz por me confiarem aquilo que de mais importante têm, a sua vida, e me deixarem escrever sobre isso. Haverá histórias melhores do que aquelas que realmente aconteceram? 

 

A Od. é da família, é mãe da minha madrinha, e mora mesmo em frente da minha casa do Alentejo.

  

"As noites são agora passadas no cadeirão, a televisão ligada, com as fotos de quem mais ama ali ao lado, e a ver nascer das suas mãos, em gestos decorados, rendas que prendem toda a sua atenção. Foi na casa ao lado da que a acolhe agora que nasceu Od. Filipa da Silva, a 21 de Junho de 1938. Foi ali, naquele mesmo sítio, que cresceu, a segunda rapariga dos oitos filhos que os pais trouxeram ao mundo. Foi a última a nascer, quando o irmão mais velho tinha já atingido a maioridade. O pai, M.da S. P., era um homem da terra, a mãe, F. M. da Silva, veio dos Montes Frades, onde o pai trabalhava. Fez a escola até completar a quarta classe e gostou. Gostava das rodas, de pular, dos amigos, de cantar. Foi com essas mesmas cantigas, desses tempos, que ensinou as primeiras palavras em português à neta que nasceu em França. Depois da escola ficou em casa, a ajudar a mãe e a aprender todas as tarefas para a vida. Ali, mesmo ao lado de casa, encontrou o amor de uma vida. O Prates tinha nascido na Chamusca, mas regressou à terra do pai quando completou 7 anos. Trabalhava na oficina do Ramalho, na casa onde agora mora a vizinha Q.. Um dia, vinha ela com a bilha cheia de água do sítio da Custódia Albina, porque a dali não prestava para beber, quando ele a fez parar, na vereda, perto de um sobreiro que ainda lá está, para a pedirem namoro. Tinha13 anos, mas esperaram até aos 18 para que o namoro começasse a sério. Até lá, olhavam um para o outro, e foram deixando crescer o amor que ainda hoje diz sentir dentro dela. Casaram corria o ano de 1962, em Lavre, e um ano depois chegou a primeira filha, a Ma.. Ficaram a viver na casa onde hoje vive a Maria J., e dedicavam-se à agricultura. Chegaram a ir a Campo Maior fazer searas de tomate, nas Herdades da Amoreirinha e da Barranca. Em 1966 chegou o segundo filho, o Jo.. Quando as receitas começaram a não ser as suficientes, em Novembro de 1973, o Prates rumou a França. Em Agosto de1974 a família reuniu-se em Paris. O Jo. tinha a mesma idade que o pai quando se viu forçado a mudar de casa. A princípio não gostaram da ideia, mas depois veio a escola, os amigos, o domínio da língua nova e foram-se acostumando. Ele continua por lá, onde casou e deu dois netos à Od.. O outro neto está em Portugal, para onde a filha regressou. O primeiro trabalho longe do país onde nascera foi na casa de uma professora de línguas que falava espanhol, ajudava nas tarefas diárias. Passou depois para a casa daquela a quem ainda hoje trata por “a minha velhinha”. Chegou quando esta tinha 83 anos, e só saiu depois da sua morte, aos 101. Este foi o seu último trabalho, como lhe pediu o marido antes de falecer. Ali, naquela casa, encontrou uma família. Era responsável pelas tarefas da casa. Quando se juntava a família toda, a Od. também ocupava o seu lugar à mesa, como membro. Quando o Prates adoeceu, convidaram-nos a ficar ali, num quarto daquela casa, que tinha elevador e não o obrigava a subir até ao 4º andar pelas escadas. Enquanto ocupava as suas funções, o Prates fazia companhia à velhota no sofá que se vê no álbum de fotos do 100º aniversário, que o neto ofereceu à Od. Nas três vezes em que o Prates foi operado tinham uma senhora que a substituía para que lhe pudesse fazer companhia na clinica, no outro lado da cidade. Ia de manhã e só regressava à noite, para fazer companhia à velhota, e sempre lhe pagaram o ordenado da mesma forma. O Prates não teve tanta sorte, nem sempre o ordenado era pago a horas na empresa de alumínios, e nem sempre as pessoas o tratavam da melhor forma. Viria a falecer em 1996, em Portugal, vítima da doença. A Od. regressou para fazer companhia à sua velhinha, que faleceu em casa só com ela. Reformou-se aos 65 anos, num sistema de pontos que não olha ao trabalho de uma vida e a todos os impostos que tanto custaram a pagar. Como a reforma não lhe permitia manter a casa de Paris e não queria sobrecarregar os filhos, regressou à sua casa, nas C..  Há dias em que se arrepende, de se ter mudado, de não ter tirado a carta. Tinha tudo ao pé da porta, conseguia resolver tudo sozinha. Agora, com a explosão do multibanco, acabou-se o resto. Guarda boas recordações dos tempos de França, e tem saudades. Acha que teve sorte, sempre em casas boas, de pessoas educadas, que a estimaram. Ainda hoje, quando lá regressa, se encontra com a filha da sua velhinha. “Esta foi a minha vida, mas ainda não acabou”, diz em jeito de remate. E começa a falar dos netos, da Mar., já com a idade que tinha quando foi pedida em namoro pela primeira vez, do Ri., a quem já imagina um namorico agora que chegou à faculdade, do To., que arranjou uma namorada num país diferente. Quando o Prates chegou a Paris não tinham telemóveis nem internet e amor não diminuiu. Agora têm todas as facilidades, e do longe se faz perto. Para eles, que lhe distraem o pensamento entre um e outro ponto de renda, um desejo entre tantos outros. Os avós nunca namoraram mais ninguém e sempre se amaram um ao outro. Que os netos tenham essa sorte também."

Sexta-feira, 23 de Março de 2012

.O B'lota

A minha segunda participação. (Tenho a sorte deste senhor ser meu tio)

 

Esta é uma história que não começa na aldeia, mas um bocadinho mais ao lado. Corria o ano de 1923 quando nasceu um dos 14 filhos de A. S. P. e M. F. P., um dos 10 que sobreviveu, o único que ainda existe, no monte das Casas Novas. Baptizou-se M. Deusdado, como o marido da madrinha, filha do feitor geral do Vale da Lama, para quem a mãe trabalhou. Ficou órfão de pai muito cedo, aos 9 anos – a doença não se deixou vencer nem pela água que veio de Fátima, pelo caminho de ferro, até São Torcato, depois de a beber faleceu. Começou a trabalhar cedo, num café de Montemor, logo depois de fazer o exame da quarta classe nessa mesma cidade, onde chegou de carroça. Não ficou muito tempo, o dono era “uma excelente pessoa”, mas o irmão acabou por ir buscá-lo, por causa da falta de respeito que havia na casa. Regresso à terra para se dedicar às suas terras, à agricultura, não quis seguir os estudos que o podiam ter levado a ser aquilo que gostava, professor. Por essa altura, a concertina era uma companhia para ele e para os outros, nos bailes e festas onde tocava. Teve de comprar outra depois de ver a GNR apreender-lhe a que tinha. Afinal, o senhor que lha vendera tinha-a comprado com o produto de um roubo de uns suínos, só detectado quando os animais já estavam na salsicharia. Tratava dos animais, fazia searas com os irmãos, numa altura em que se semeava muito, até que, aos 20 anos, a tropa o levou de novo embora, para Lisboa. Foi nessa altura também que se deixou de cantorias e se desfez da concertina. Assentou praça a 17 de Dezembro e por lá ficou cinco meses, depois mudou-se para o Quartel General da 4ª Região Militar, em Évora, e em Julho de 1946 passou à disponibilidade. Houve um General que o quis convencer a ficar, tinha uma letra tão bonita e tanta vontade, mas o apego ao campo e à terra era mais forte. Quando voltou atrás, a vida já não lhe permitiu ingressar novamente no exército – o General havia liderado uma revolta contra Salazar, e passara também ele à reserva, forçada. Regressou, uma vez mais, às terras que lhe pertenciam. A mulher, Cl., lembra que era um jovem bonito e de conversas bonitas. Aos 18 anos começou a fazer os versos que lhe valem a alcunha de poeta da terra, nos ajuntamentos com os rapazes, em resposta às desgarradas dos mais velhos. Talvez tenha sido isso, a cara, o dom da palavra, que roubou o coração de uma moça de boas famílias em Évora. Mas o coração já estava dado à Cl., apesar de o pai dela não aceitar muito bem. Foi só em 1952 que ganhou o direito de namorar como os outros rapazes, à janela, de 15 em 15 dias, até antes do sol-posto. Um direito conseguido com dificuldade: numa das festas da terra, numa corrida de cavalos, acabou por cair e ser levado ao hospital, em Lavre, quase dado como morto. A Cl. saiu de casa, sem ordem dos pais, subiu à carroça do futuro cunhado, e correu para o hospital, onde o encontrou em coma, do qual viria a acordar. A reprimenda nunca chegou, e uns anos depois veio o casamento. Casa não tinha, “mas nunca ninguém deixou de casar por causa disso”. O sogro construiu uma para a filha, de onde saíram só 25 anos depois, depois de dividida a herança da família. A primeira pessoa a bater-lhe à porta foi um mendigo, logo no dia a seguir ao casamento. “Foi uma bênção, era o pobre da Cl.”, que já o conhecia de casa dos pais, onde costumavam ajudar quem lá passava a pedir. Deram-lhe uma moeda, comida ainda não havia ali, e nunca mais o viram. Foi naquela casa que viu nascer a filha e o filho. Era ela pequena, apenas com dois anos, quando seguiu a vida da agricultura noutra terra, em Elvas, onde foi administrar searas de trigo e arroz que chegaram a dar 22500 sacas. Voltou à aldeia, e logo depois nasceu o filho, que veio de surpresa. Começou uma vida nova, dedicou-se ao gado, e, pouco a pouco, nas pastagens do Vale da Lama que arrendou ao sogro, foi juntando rebanhos e uma vacaria. Eram 42 vacas, todas com nome, que lhe reconheciam a voz, e o fizeram chorar quando foi obrigado a desfazer-se delas. O filho, ao ver-lhe as lágrimas, ainda se ofereceu para dar o dinheiro do mealheiro – gesto inocente de criança que ainda hoje comove os pais. A ligação aos animais sempre foi muito forte, e nem as feridas, o braço e o pulso partido que lhe causaram, o fizeram gostar menos deles. Mudou para a casa onde ainda hoje vive já a filha tinha completado o curso de professora. Começou a trabalhar por essa altura com um senhor do Norte, também no mesmo ramo, uma ligação com cerca de 20 anos que terminou agora, quando se retirou para descansar. Ainda dá uns passeios de carro, um hábito que demorou a adquirir – só depois de 32 anos de carta juntou à bicicleta a pedal e a motor, na garagem, um carro. Ajuda na ida às compras ou na visita aos netos e bisnetos, quando vêm ao continente. O primeiro custou-lhe 220 contos, “uma pechincha”, diria o cunhado Marcelino. “Vão rir-se da história da tua vida, marido, mas foi honesta”, diz a Cl., que tem nos olhos o mesmo amor de há quase 60 anos. Uma vida que pode se resumida assim: “Não me importa ser quem sou, / Não me sinto envergonhado, / Pois sendo aquilo que sou, / Sou sempre o M. Deusdado.”

Lá fora: [pip]
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

.O B'lota

A minha primeira colaboração:

 

O Sr. MC é um homem da terra que conhece tão bem. Aqui nasceu, na casa que um dia ocupou o espaço onde agora podemos ver “o monte que era do Rafael”, corria o Verão de 1937, no dia 17 de Julho. A escola também foi feita na aldeia, até à quarta classe, aquilo que mais adorou. Gostava tanto das letras como dos números, e quando a professora ditava os problemas do quadro chegava a dar a resposta mal ela terminava de falar. O companheiro de carteira, o A. P., “também era uma pessoa importante nestas coisas”, mas ele chegava a passá-lo. Nesse tempo, as meninas estavam no edifício agora ocupado pela Associação de Jovens e os meninos na escola que um dia existiu perto do J. F.. Só se visitavam uns aos outros uma vez por semana para fazerem provas. “Quem me dera que tivessem feito por mim o que fiz pela minha filha, a A.”, diz com alguma tristeza. Os tempos eram outros, e depois da escola chegou o trabalho no campo. O primeiro foi na Pita Mariça, a tirar os lismos dos campos de arroz com um ancinho. Ganhava 4 tostões por dia, e o patrão dava-lhe mais um por semana. Depois disso correu aqueles mesmos campos com uma lata pendurada ao pescoço, de pau na mão, para espantar os pardais, “mas eles não tinham vergonha, pousavam a uns100 metros”. Foi ali, no mesmo sítio, que experimentou mais uns quantos trabalhos diferentes e que seguiu as pisadas do pai, como anotador das folhas de ponto, onde escrevia as horas que o rancho fazia. Ainda tem folhas anotadas pelo pai. Ao sábado chegava o patrão, J. S., que estendia a saca carvoeira com as notas e as ia distribuindo de acordo com o que ele ia dizendo. Não falhava, “ainda hoje de cabeça vou a muito lado”. E vai, a memória do Sr. MC surpreende-nos a cada frase: as datas, os nomes, as histórias, estão na ponta da língua. Gostou dos tempos que ali passou, na Pita Mariça, e das coisas que fez antes de se dedicar à construção civil. Para atrás ficou o sonho de se tornar engenheiro civil, mas a prática acompanhou-o, “assim que assentava o primeiro tijolo já estava a ver o acabamento lá em cima, porque é nos bons princípios que estão os bons fins”. O jornalismo só chegou mais tarde, há quase 40 anos, mas tem gosto naquilo que faz. “Todos devemos fazer uma acção pela terra”, defende, e esta é a dele. Fá-lo por todos os assinantes da terra, que chegou a ter o maior número do concelho, e por todos os que optaram por viver noutros sítios mas deixaram parte do pensamento e do coração na aldeia. Quando o encontram fazem questão de lhe agradecer, como poderiam saber de tudo aquilo se ele não o escrevesse? E chegam a ligar-lhe para confirmar apostas que às vezes surgem entre um e outro copo de vinho no café, a memória do Sr. MC é o melhor tira-teimas da aldeia. Agora gostava de passar a tarefa a alguém, mas não encontra quem o queira substituir. Para saber as notícias corre a aldeia, telefona, investiga, “não quero erros que possam dar barracadas”, mas, agora, a doença que lhe apanhou o pulmão, “a terceira tragédia em cinco anos”, prende-o mais ao sofá e já não lhe deixa tanto tempo como gostaria para se dedicar à escrita. Também as idas ao Santa Maria lhe roubam tempo. O mesmo hospital para onde foi em 1983, depois de cair do telhado da obra do J. C., de helicóptero, o segundo que veio a V. N. buscar um doente. Só acordou treze dias depois, na cama de casa, sem poder ouvir do lado direito. “Estava marcado assim”, conta sem se lamentar, “acredito no destino, mas auguro sempre um bom futuro”. E dele fez parte a esposa, a D. F.. Conheceram-se no trabalho, mas não a trabalhar. Foi na obra do J. R., ali nos Carapuções. Ela pediu-lhe um conselho sobre uma barra para o muro, e ele respondeu-lhe que só lhe podia dar alguma coisa do concelho de Montemor, do de Coruche não tinha nada. “E aproveitou-se o seguimento da conversa, e deu no que deu”, há já quase 50 anos. Apesar do namoro, portou-se bem, a casa ainda hoje está de pé. Da boca do Sr. MC, que não se cansa de falar para quem não se cansar de ouvir, saem histórias que nos fazem viajar a uma aldeia que nunca vimos (“sabias que havia uma praça de touros ao pé da antiga escola?”), conhecer pessoas que nunca cruzaram os nossos dias (“o A. A. levava tudo pela frente”) e saber da nossa própria história (“no dia em que nasceste levei a tua avó a Montemor com a M. M.”). “A vida antigamente era mais bonita”, e o Sr. MC lembra-se melhor dessas coisas antigas do que das de agora. Está só à espera de uma visita, que tanto gosta de receber e fazer mesmo sem ser por doença, para voltar a contá-las. E há muitas mais no sítio de onde estas vieram.

L. às 11:00
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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

.Pessoas

Fui jornalista durante pouco tempo – nem carteira cheguei a pedir, mas deu para perceber uma coisa: se pudesse, escrevia apenas sobre pessoas. Lembro-me de uma vez, enquanto estava a trabalhar nas revistas dos barcos, ter ido entrevistar um casal português que vivia num barco com os dois filhos menores, os únicos portugueses que já tinham dado a volta ao mundo de barco por duas vezes. Adorei conhecê-los, conhecer aquelas histórias que nunca me atreveria a viver. Escrevi um artigo que achei, modéstia à parte, realmente bom. Os colegas que leram gostaram bastante e o pai do meu chefe da altura, um senhor exigente que nos corrigia os artigos, chegou a ligar-me para elogiar a escrita, o encadear das histórias – disse-me que tinha sido um dos melhores artigos que já lera sobre o assunto. O pior foi quando o chefe me chamou à sala para falarmos sobre o artigo e rasgou as folhas à minha frente. Afinal, o que era aquela porcaria? Os leitores queriam saber que avarias enfrentaram, como tinha reagido o barco, como funcionaram as velas, e coisas assim. Saber como tinham aulas os miúdos? Quem eram os amigos? Como se encontravam? Como se passavam 24 horas num barco sem se cansar? Isso não interessava para ninguém. E lá voltei eu a Cascais, à conversa com eles, para poder então escrever o artigo que interessava ao meu chefe e aos leitores da revista, mas não a mim. Talvez tenha sido nesse dia que percebi que nunca ia chegar longe no jornalismo – moldei o artigo a mim, àquilo de que gostava – as pessoas, quando, afinal, não era isso que devia ter feito. Mas é possível ser-se jornalista sem deixar uma marca pessoal?

Na minha terra, há já algum tempo, formaram uma associação de jovens. Não faço parte, limito-me a participar em algumas das iniciativas e, ainda que não seja próxima de todas as pessoas que a compõem, tenho muito orgulho delas. Porque, continuando algumas pela terra ou só estando nela ao fim-de-semana, tiveram a coragem de se juntar para lutar por qualquer coisa. Organizam torneios de tudo e mais alguma coisa, fazem festas, passam filmes, reivindicam – e tudo isto me parece muito bem. Não há muito tempo passaram a ter também um jornal e convidaram-me agora para escrever qualquer coisita para lá. Não demorei muito a escolher o tema – pessoas. Cada uma desta aldeia deve ter uma história gira para contar, uma lição para ensinar, um gesto que faça rir. E o melhor é aproveitar agora, enquanto ainda estão cá, e registar e dar a conhecer este património da aldeia.

Para primeira edição escolhi uma pessoa que toda a gente conhece, o senhor M.C.., o jornalista da terra. Não se formou na área, mas poderia muito bem formar gente. É ele que todos os meses escreve as novidades da terra para o jornal do concelho, e nem a doença o impede de continuar a fazê-lo.

Tirei o dia de férias e estou pela minha aldeia. Ontem tive o melhor feriado possível – em casa, com os pais, a mana e os respectivos apêndices, à volta do lume, com comida, jogos e muita  conversa. Agora estou sozinha em casa, a mãe está a trabalhar na loja, o pai foi à lenha com o Z., a mana foi com o namorado a V.N. arranjar os pneus da carrinha do pão que já teve dois furos hoje. Estou a ganhar coragem para sair de casa e ir bater à porta do senhor M.C.. Falamos muito quando nos encontramos por acaso, ele até veio visitar o pai quando foi operado, mas desta vez é diferente. Primeiro porque não entrevisto ninguém há muito tempo, depois porque acho que é sempre melhor que nos contem coisas porque querem e não só porque perguntamos. Vou tomar um banho bem quente, ligar o rádio que tanto orgulho dá ao pai, e começar a pensar no que lhe vou perguntar daqui a instantes. O medo há-de passar quando lá chegar, ou não fosse eu a L. de sempre – quando a conversa começar o difícil vai ser parar. Ou não fosse este o meu tema preferido de todos – pessoas.

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

.A avó Mariana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre a conheci como a avó velhinha, nunca por bisavó. Tem um nome bonito, escolhido há já 91 anos, Mariana, mas todos a tratamos assim. Ficou viúva muito cedo, com sete filhos, depois de ter casado aos 17 anos. O avô Al. foi o primeiro a chegar. Morou sempre naquela casa pequenina, depois de V.N., ao lado de uma das filhas. Lembro-me de ir lá com os avós e nunca ter passado da cozinha. Sentava-me nas cadeiras encostadas à parede, ao lado dos armários cheios de pratos antigos, e via a mesa no meio, sempre sem pó, sempre cheia de fotografias a preto e branco de pessoas que nunca cheguei a conhecer, e uma caixinha de bolachas que abria para nós. Só a idade a obrigou a sair de lá. A avó Mariana é muito pequenina e magrinha. Tanto que cheguei a ter medo de a partir sempre que lhe dava um abraço mais apertado. Sempre a comparei a uma folha no Outono, leve e transparente. Na primeira vez que a visitei no lar quase não a reconheci – não estava sentada à chaminé, não vestia preto, não trazia lenço na cabeça. Foi o sorriso que ma mostrou. Ontem voltei lá e já não consegui vê-lo. Foi na 6ª que os avós me disseram que a avó Mariana estava muito doente. Deitada numa cama, deixou de abrir os olhos, mal come, mal fala, só se vê uma mancha pequenina debaixo dos lençóis com o coração a bater devagarinho. Ontem voltei lá e foi tão estranho. Reclamamos da morte quando vem de surpresa e nos leva aqueles de quem gostamos sem tempo para mais um beijo, mais um abraço, mais qualquer coisa que seja. E ontem ali estava eu, com esse tempo que tanto reclamei em outras vezes, a ter a minha despedida da avó Mariana. A senhora R., que toma conta dela e não a larga um instante, diz que Deus não deve tardar a levá-la, e para já não esperarmos melhoras. E eu sentei-me ao pé dela, dei-lhe um beijo, dei-lhe a mão que ela tentou apertar, alisei-lhe a cara e o cabelo, sempre igual, contei-lhe que vai ser bisavó mais uma vez – o tio Ma. vai ser pai, e lá lhe consegui arrancar algumas palavras a esforço. Faltam-lhe as forças para falar, os olhos já não abrem, o corpo dói-lhe todo quando lhe tocamos e parece mais pequenina do que nunca. Ontem despedi-me da avó Mariana. Agradeci-lhe as histórias, as festas, as tardes de conversa na chaminé dos avós, as bolachas na cozinha pequenina dela, o lembrar-se de mim até à última conversa, o gostar de mim como uma neta-de-coração ainda que o sangue o negasse, enquanto lhe segurava a mão e procurava decorar todos os traços do rosto dela. Nunca hei-de aceitar a bem a morte, quer se faça anunciar ou apareça sem eu dar conta, quer leve novos ou velhos. E agora aqui estou, com uma angústia no peito, um peso no coração. Despedi-me dela, talvez não a veja nunca mais, e no entanto ela ainda está ali, viva, com o coração a desistir de bater a cada minuto que passa. Ontem, quando vinha para Lisboa, vi uma estrela cadente. E o meu desejo foi para a avó Mariana. Que ela, a que eu não gosto nem entendo, venha então. Que a leve de mansinho, sem dor nem sofrimento, num sono descansado. Que tenha a senhora R. lá ao lado, a dar-lhe a mão como tem dado todas as noites, para que ela não tenha medo e sinta todo o amor que há à volta dela. Nesse momento, ela vai poder descansar então de tantos anos cheios, de tantas dores, de tantas outras coisas. E nós vamos poder então maldizer a morte, que nos leva quem gostamos, e chorar, já sem ver um coração pequenino e descompassado a bater-lhe no peito,  debaixo de uns lençóis cobertos de rosas. Mas esta espera, este lugar em que me encontro, eu e todos aqueles que conhecemos a avó Mariana, dói muito. E a morte, aqui tão perto, há-de dizer que nunca nos há-de entender, que não nos decidimos se preferimos só mais um bocadinho ou que ela nos roube tudo de uma vez só. E eu hei-de dar-lhe sempre a mesma resposta: também eu nunca te hei-de entender.

Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

.O meu cabelo e a Dona Al.

 

Nos dias em que vou cortar o cabelo entro numa espécie de depressão. Costumo dizer aos meus pais que foi a única coisa que fizeram bem, e é a única de que gosto realmente em mim. Quando tirei as extensões, em Novembro de 2009, ele estava tão fraquinho que a minha cabeleireira não hesitou em reduzi-lo a metade. Esse foi um dia de choro, e, desde ai, não voltei a pôr lá os pés. Na semana passada achei que estava na altura de lhe dar um corte e combinei com a mãe para sábado. Já tinha o meu cortado – sem choros, e estava lá sentada, a esperar pela mãe. Foi quando ela chegou, a Dona Al.. Ficou parada, perto da porta, até que lhe dessem a certeza que podiam atendê-la mesmo sem marcação. “Amanhã é dia de votos, e queria levar o cabelo e as unhas arranjaditos”, justificava-se. Ficou ali, parada, naquela posição uma data de tempo. “Então posso mesmo avisar o meu marido que vou ficar aqui?”, só quando lhe repetiram o sim se sentou. Eu estava perto da Be., que arranjava as unhas à senhora que trabalha no Tóquinho, e da Sa., que cortava o cabelo da mãe, e ela lá atrás, no sofá. Não dei por ela se levantar. “Esses caracóis são mesmo seus ou fez mise? Ai que cabelo bonito, ai que palminho de cara. Posso sentar-me aqui?”, e sentou. Falámos. Do meu cabelo, do dela. Das unhas bonitas que tinha. “Que idade tem?”, 26, dizia-lhe eu. “É que era uma boa menina para o meu neto. Coitadito, já vai na quarta e aquilo não lhe corre bem. A terceira era uma Barbie lá de fora, de outro país. Sabe o que são Barbies, menina? Só querem arranjar-se e passear, não fazem nada em casa. Depois deixou essa e andou com outra Barbie. Mas essa deixou o marido e o filho. É aqui que está a diferença entre as prostitutas, que ganham a vida assim, e as p****, que magoam os outros sem pensar, percebe menina?”. E eu lá ia acenando que sim, com uns sorrisos e uns nãos pelo meio – que até podia conhecer o neto, pelo nome não ia lá, já saí dali, onde andei à escola, há mais de oito anos. De vez em quando o silêncio metia-se pelo meio, mas ela não deixava. “Sabe, houve uma vez que lhe liguei para ir jantar lá a casa – a casa onde criei os meus netos, e disse-lhe que podia levar a Barbie. Vi logo que aquilo não dava, e não deu. Agora ficou com a casa toda mobilada, sozinho, trocou o carro e diz que não quer saber mais de mulheres. E eu que queria tanto vê-lo casado”. E eu tranquilizava-a, que a mulher da vida dele há-de aparecer, é só ter calma. “Deus a ouça menina, Deus a ouça. Mas Deus não quer nada comigo. No outro dia fui confessar-me e sabe o que me disse o padre? Deus gosta muito de si, é por isso que a põe à prova. E eu respondi-lhe logo, ele que vá procurar outra que eu já estou farta”. A sinceridade dela fez-me dar uma grande gargalhada, a que ela se juntou. Não sabia ainda que a vida tinha mesmo sido má com ela, e que até já lhe tinha levado um filho. Já íamos adiantadas na conversa quando chegou o marido dela. “Veja lá como ainda é bonito e charmoso, já com 91 anos”, e era. Como se conheceram?, quis eu saber. “Ele esperou por mim. É mais velho dez anos, já estava neste mundo à minha espera. Esperou que eu viesse do Algarve até aqui. Dantes andava por aí sem se preocupar muito, agora não me larga, deve ter medo que eu morra. Mas eu ainda quero estar cá muitos anos. Amanhã até vou votar”. O tempo passou a correr. E eu ali, sentada no puff laranja, com a Dona Al. à minha frente, na cadeira, sem chegar com os pés ao chão, e o marido lá atrás, no sofá, sempre atento ao olhar dela. “Vamos embora filhota?”, ouvi dizer a minha mãe. E a Dona Al. também se levantou, deu-me dois beijinhos e um abraço. “Foi um gosto conhecê-la, que cabelo bonito, que palminho de cara”. Cheguei perto da mãe a tempo de ouvir a Sa. dizer “pobrezita da sua filha, que seca apanhou”, ao que a mãe respondeu “ela gosta é destas coisas”. E gosto mesmo. Mesmo em dias de cortar o cabelo.

 

 

Estou:
Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

.A ti-Clarinda

A ti-Clarinda já conta 84 anos e mora num monte um bocadinho mais acima, emoldurado pelos figos de palma, quando chega a época deles. Pelo monte os anos vão passando sem deixar marca nem mudar o ritmo de outros dias. As paredes são sempre brancas, as flores sempre vivas. O frigorífico não chega ali. E a máquina de lavar não trabalha muito bem – depois de terminar, é preciso voltar a enxaguar a roupa toda no tanque, logo ali ao lado. Gosta de comer linguiças: corta a tripa de um lado ao outro e vai tirando o que quer com um garfo, depois volta a fechar para conservar melhor. Porque o frigorifico não chega ali. Gosta das linguiças que faz, com a carne picada grossa. E gosta de ajudar a picar também nas matanças de porcos dos vizinhos. Não percebe que lhe tirem o que pica, às escondidas, para voltarem a picar em bocadinhos mais pequenos. – Estou a fazer mal? Não gostam assim? E desconfia quando lhe dizem que ainda não começaram a picar, quando já são horas. As tripas já tinham sido lavadas sem que tivesse dado conta, não ia deixar passar mais uma coisa. É por isso que sai da cozinha, deixando para trás a tarefa que lhe deram para a ocupar, com a ligeireza no pé que a idade lhe deu, e escondida atrás do preto que a carrega. Chega ali, à casa das matanças, agarrada à porta, e não consegue esconder o ar de tristeza de quem se descobre enganada quando só queria ajudar. Não disse uma palavra, olhou só, com um olhar cansado, triste, capaz de entrar por nós adentro e magoar mais que palavras. Só a chegada do neto lhe trouxe um sorriso à cara. Um sorriso que escondeu só para ela quando se despediu de nós, para o levar pela mão até ao monte, onde os figos de palma já se esconderam do frio. A ti-Clarinda tinha acabado de descobrir que ainda serve a alguém, a ele, que veio de longe só para a ver. É uma descoberta importante, quando se tem 84 anos e uma mentira que os outros julgam piedosa nos faz duvidar de nós. E levou-o pela mão, até ao monte mais acima, talvez a pensar no que havia por lá que lhe pudesse dar ao lanche. É que, ali, ainda não chegou o frigorífico.

 

 

Estou: na ressaca de um fim-de-semana perfeito.

Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

.Os melhores €4.65 da minha vida

Estou viciada nas sopas do McDonalds. Não é um mau vício, já fui dona de alguns bem piores. Ontem, antes da aula, rodei pelo 2º andar do Colombo, a tentar decidir-me quanto ao lanche, até parar ali, pela segunda vez no mesmo dia. Numa fila para comprar uma sopa – a de feijão branco, a minha preferida. “Compras-me um penso?”, ouvi dizer enquanto me puxavam a camisola. Olhei para o lado, era um miúdo giro, pequeno e redondo, de olhos verdes e t-shirt branca a fazer publicidade a uma marca qualquer. E que tal um lanche?, disse-lhe eu. “Pode ser. Quero um Big Mac”. “Também não és pobre a pedir”, disse-lhe a senhora da caixa. “Tenho fome”, foi o troco dele. E aquela resposta fez-me sentir tão mal que prometi a mim mesma nunca mais dizer “tenho fome” só porque o meu estômago reclama da hora. Batatas e sumo? “Água, tenho sede”. E ficámos a conversar, na fila e no lanche. Fiz-lhe perguntas, muitas. Chama-se Francisco. E estás aqui a fazer o quê, não devias estar na escola? “Estou de férias e tenho de ajudar os meus pais”. E eles? “Na feira, a vender coisas”. Tem 9 anos e passou para o 5º ano, “nunca chumbei!”. E não te custa, andares aqui? Eu acho que não tinha coragem, e olha que eu tenho muita lata. “Não, já estou habituado. Às vezes respondem-me mal, noutras vezes nem me ligam, mas também há pessoas boas, como tu”. Fiz-lhe uma festinha no cabelo. "Às vezes acho que as pessoas têm medo de me tocar", respondeu ao meu toque. Fazes mal? "Não, mas devem achar que sou piolhoso ou assim". Estás a olhar para a maior piolhosa de sempre, até já apanhei bem crescidinha, gostam de mim, nada a fazer. Tens medo de me tocar por isso? "Claro que não", riu-se.  E namoradas? “Nah, gosto de uma rapariga da escola, mas não sou muito de namorar – e agora com as férias ela ia esquecer-me”. Ela sabe ao menos que gostas dela? “Fazes muitas perguntas! Não, não lhe disse, não sou muito de namorar”. Olhei para o relógio e percebi como a Mafalda tem razão, “o tempo corre / só quando dói é devagar”. Não te importas de ficar sozinho? “Estou habituado, e a minha irmã anda aí também, a fazer o mesmo que eu”. Posso roubar-te uma batata? “Foste tu que pagaste, tiras as que quiseres”. Lembrei-me da Ru. (ou Ri., como ela prefere), uma menina refugiada de 9 anos que conheci no aniversário aqui do estaminé. Foi ter comigo para pedir bolachas, mas depois não queria lanchar comigo porque tinha vergonha que eu pagasse, e só aceitou quando lhe expliquei que podíamos ser amigas – e os amigos oferecem coisas uns aos outros. Roubei-lhe a batata (são tuas, está dado) sem pensar nos 10€ que vou ter de acrescentar à caixa da dieta*. “Tens uma blusa muito gira, aí com essas coisas a segurar – nunca tinha visto. E fica bem, assim com os teus caracóis a tocar aí. Há pessoas a quem o cabelo parece que não encaixa, mas o teu fica-te bem”. Francisquito, olha que eu acho que tu tens um jeitão para namorar. E dei-lhe um beijinho na bochecha com sardas, como eu gosto, enquanto corria para o metro de batata frita na mão – onde investi os melhores €4.65 da minha vida.

 

 

* A caixinha da dieta, ou melhor, o lucro de todas as minhas falhas na dieta já deu frutos. Gastei num ida ao Meco no próximo dia 16 de Julho. Eu e a A. vamos ver Keane. Senhores, há alguma maneira de vos fazer cantar isto? É que, caso se confirme esta ausência do vosso alinhamento, terei de repensar toda a minha teoria dos sinais. E esta é uma teoria muito importante na minha vida. Está a ser-me tão penosa esta entrada nos 26, não queiram contribuir para o meu desarranjo interior. Obrigada!

 

 

O Scotty morreu ontem. Às 13:00, debaixo da árvore preferida dele. O Scotty era o cão mais antigo do meu pai. Foi, em tempos, um Ás na caça. Fazia, este ano, os mesmo anos que o primo F., 18. Ontem chorei um bocadinho por ele. Até porque era o cão da minha vida, o único que eu autorizava a fazer aquelas coisas habituais dos cães. Lembro-me da noite que passei em claro com o pai, a tentar fazê-lo engolir um comprimido de todas as formas e feitios porque estava mesmo muito doente. Sobreviveu, e continuou a ser o melhor a apanhar coelhos. No último ano começou a ouvir mal, a ganhar pelos brancos no focinho, a fazer grandes esforços para mudar de uma sombra para a outra. Ainda me despedi dele, no outro dia, com umas fotos giras. E voltei a falar-lhe do nosso segredo: de quando, às escondidas de todos, o soltava da casota dele e o sentava no meu colo, enquanto baloiçávamos no cantinho dos baloiços, por trás da casa da avó. Era um perdigueiro grande e gordo, mas encaixava bem no meu colo. Vou ter saudades do Scotty.

 

Vou deixar de ler a Maya. Ah, que tretas!, digo sempre, mas depois isto fica a matutar-me na cabeça. A palavra tem poder – escrita também! E hoje não é bom. “SAÚDE: Tenha cuidado com o consumo excessivo de fritos. / AMOR: Poderá sentir-se limitado e sufocado; exija que façam algumas cedências. / DINHEIRO: Em negociações deve acalmar algum nervosismo, redobrar atenção e não mostrar todos os trunfos!”.

 

Hoje levantei-me às 05:30 para ir correr. Eu, que tantas pragas roguei a quem deu o nome ao teste de Cooper, a correr é um verdadeiro milagre. Quando estou de férias na Curia, arrasto-me para o ginásio todas as manhãs com o primo F., e com todas as loucuras que ele vai dizendo lá me aguento na passadeira. Mas correr, de livre e espontânea vontade, sem qualquer aparelho a auxiliar, e às 05:30 da manhã, não é coisa da L.. Mas correu bem. Foi bom. Estou bem disposta e já sinto a celulite a fazer as malas. A partir de hoje, corrida às 05:30.

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Lá fora: 

“Sometimes it seems that the going is just too rough / And things go wrong no matter what I do / Now and then it seems that life is just too much / But you've got the love I need to see me through”

Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

.Hoje

Hoje apanhei o comboio das 06:39. Recebemos uma delegação estrangeira e não podia mesmo arriscar-me a perder o autocarro que nos leva até ao fim do mundo. Sempre que faço este esquema, o comboio nunca se atrasa. E lá vejo chegar a Li., toda contente por ter dormido mais meia hora que eu e ainda ter conseguido apanhar o mesmo autocarro.

Tirando os minutos de sono que perco, vir mais cedo, vir num comboio diferente do normal, é sempre uma aventura. Hoje portei-me muito bem, não meti conversa com ninguém, ninguém se meteu contigo. Vim todo o caminho de olhos meio fechados, só para não pôr os óculos que – alguém me disse e repetiu – me ficam mal. Cheguei a Sete Rios muito cedo. Sentei-me no mármore por baixo do viaduto, liguei o iPod enquanto percebia uma vez mais que já tem muitas porcarias, e escondi-me atrás dos óculos de sol – aqueles que me ficam mal. Estava assim, longe do mundo, quando me apertaram com tanta força que senti os óculos a estalar. Reconheci o dono do abraço pelo cheiro: era o Sr. J., que já me levantava no ar. Foi avô. No sábado. De uma Camila com o 2,200 kg e 48 cm. Do filho, que a filha já tem 39 anos mas ainda não quis nada destas coisas. E eu fiquei tão, tão feliz que, por momentos, esqueci o meu desarranjo interior. O Sr. J. tem mulher, filhos, neta – tem família. Tinha tanto medo que ele não tivesse ninguém para cuidar dele um dia. Mas tem. Vai ter a Camila, que ontem já lhe experimentou o colo. E o cheirinho bom do abraço dele, que me levou até ao autocarro às 08:05, enquanto a Li. me piscava o olho: “dormi mais meia hora que tu e cá estou eu”. Não faz mal. Hoje foi tão bom acordar cedo.

 

Hoje, depois de me ver no espelho da Pepe, fiz uma data de promessas. Até às férias da praia, ou viro top model ou rica. Fritos: 10€, bolos/doces: 15€, gelados: 5€, enchidos: 10€, directamente para uma caixa especial, criada para o efeito. Muito a sério. Mas isto é só a partir de amanhã, porque a mãe ligou à tarde, vêm trazer a mana a Santarém e trazem também um cozido para jantar aqui comigo. Sim, dieta, tem mesmo de ser. Mas hoje não. Amanhã.

 

Lá fora:

"O que querias? Loucuras?"

"100 vezes, e não me atrasava tanto"

"Levo-te a Andorra para comprares uns óculos novos, uns Dolce & Gabbana espelhados"

Terça-feira, 8 de Junho de 2010

.Detalhes

Tenho boa memória. Às vezes deixo a mãe de boca aberta com a quantidade de detalhes que fixei na memória de dias que de tão velhos quase esquecemos que existiram. Talvez os recorde assim porque são muitos – os meus dias sempre tiveram muitos detalhes.

A nossa casa tem muitas casas. Quem chega ali, vê um L. que começa na dispensa da avó, à esquerda, e termina no primeiro andar da nossa casa. Vêem seis janelas, cinco portas, uma rede que em tempos disse Casa Silva. Eu vejo a casa da avó, depois a loja, depois a padaria, a arrecadação da loja e a nossa casa. Todas juntas, num L. como eu. Em tempos o nosso L. albergou mais alguém. O Cerca e a sua barbearia. A porta sempre aberta, lá na outra ponta, era um dos meus poisos mais certos. Quando os pais não sabiam de mim, das duas uma (ou três, como diz o meu Az.), ou estava nas vizinhas, ou na barbearia. A meter conversa com os clientes, a falar da vida com o Cerca, a experimentar todos os seus instrumentos onde conseguia deitar a mão ou à roda – quando estávamos só eu e ele, sentava-me na cadeira, gigante para mim, e rodava até mais não. Era uma barbearia muito simples, muito pequenina. As paredes que não deixavam perceber se eram verdes ou azuis, a cadeira de costas para a entrada, o espelho ao fundo, com o balcão para a navalha, as espumas, os pentes; os bancos encostados às paredes, os calendários nem sempre recomendáveis e que me suscitavam muitas perguntas. Ali sabia as novidades, aprendia os truques para as patilhas ficarem direitas e como segurar a navalha para não cortar ninguém. Ali aprendi as minhas primeiras asneiras e soube que o meu avô não era o pai da minha mãe.

Um dia, a nossa casa ficou pequena para todas as nossas tralhas e foi preciso acrescentá-la. E nasceu a nossa dispensa, agora da avó, onde a mãe podia passar a ferro e guardar tudo no armário de parede a parede. Nasceu onde antes era a barbearia. O Cerca saiu e levou com ele todas aquelas tralhas, todos os pentes que eu prendia nos meus caracóis, os cremes que tentava por meus nos braços que achava peludos de mais, os clientes com as suas notícias, o banco com o jornal onde eu tentava ler, e ele, a minha companhia de tantos dias. Mudou-se para outra casa e prometemos muitas visitas, que não cumprimos muito.

O Cerca chamava-me L.-ita, como os meus avós. E eu deixava, porque gostava dele. Assim que via o meu pai ou a minha mãe parava a carrinha e perguntava por mim. Às vezes mais do que uma vez por dia. E quando me apanhava, parava em qualquer lado, agarrava-me pelos ombros, e soltava a ladainha: “Ai, L.-ita, L.-ita, lembras-te de não sei do quê? O que a gente fez naquele dia? E quando tu dizias aquilo? Lembras-te? E quando o teu avô te apanhou a ler tão pequenina? Ai, L.-ita, L-ita, sempre o mesmo sorriso malandro e o mesmo brilho nos olhos”. 

No fim-de-semana a mãe ligou-me fora de horas. E eu tremo, porque sei que raramente é bom sinal. O Cerca tinha falecido. “Sentiu-se mal, foi às urgências, mandaram-no para casa e morreu”, e continuou, “estes médicos agora querem lá saber, querem é que a gente morra, nem prestam atenção aos detalhes”.

Apareci no Alentejo de surpresa. Para uma ida à piscina da minha M., um mergulho em Tróia, uns miminhos dos papás que já me faltavam. No sábado à tarde, o pai chegou moreno e carregado do terceiro dia da cortiça. Sentou-se no sofá de verga, por baixo da janela da cozinha e prendeu a cabeça entre as mãos, de cotovelos nos joelhos. “Onde é que eu agora vou cortar o cabelo? Ainda no fim-de-semana passado lá estive! Levava-me só 6€ e eu até deixava mais”, dizia. E eu não pude deixar de sorrir. Tendemos a ver os nossos pais a roçar a perfeição e ali estava eu a ver que o meu pai também é homem. Também tem aquela dificuldade em conjugar as palavras com os sentimentos, em dizer o que lhe vai na alma sem medos. Tenho a certeza que queria dizer que gostava muito do Cerca, que vai sentir saudades, que é mais um amigo que perdeu, que é mais um momento do mês que vai ter de cortar da agenda. Mas achei que não devia contrariá-lo. Abracei-o com força, dei-lhe um beijinho por cima do boné quente do sol e disse-lhe ao ouvido: “Aqui nesta casa, todas preferimos vê-lo com o cabelo grande e os caracóis no ar”. E fiquei a olhar para os detalhes, para o xadrez das almofadas, os buracos ainda com luz da persiana, o correio amontoado na mesa ao lado da cesta da fruta, as patilhas do pai tão direitinhas. “É tão fácil L.-ita, não tenho truque nenhum! Mas é pelos detalhes que eles cá voltam”, ouvia dizer o Cerca na minha cabeça, enquanto o tentava tirar da lista das pessoas que espero sempre encontrar ao fim-de-semana e passá-lo para o canto do coração onde vou alojando aqueles que já só posso ver nas minhas recordações, nas minhas saudades, nos detalhes dos meus dias passados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lá fora: "És só alguém sem o depois, mentaliza-te disso"

L. às 12:02
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