Terça-feira, 15 de Junho de 2010

.Apanhada

Eu sou uma daquelas pessoas que nunca encontra ninguém conhecido em lado nenhum. Conhecido meu. Centros comerciais, festas, passeios na rua e nada. Raramente me aparece um amigo, um conhecido, um parente. Quando ando com a A. (amiga) ou com o An. passo o tempo a dizer que eles são o Zé dos plásticos em pessoa: não podemos dar um passo sem que esbarrem com alguém que conhecem dos sítios mais improváveis. Mas por estes dias fui apanhada. Não por alguém que eu conhecesse, mas que me conhecia a mim.

Tinha trazido o carro naquele dia. Quando saí, lembrei-me que os collants azuis que precisava para o outro dia já tinham um buraquito no dedo grande. Parei no Oeiras Parque para levar uns novos e já estava de saída quando um senhor agente da autoridade me disse “peço desculpa”. Parei, olhei para ele e as minhas pernas tremeram um bocadinho, pela minha cabeça só passavam ideias tontas: “o que é que eu fiz agora? Queres ver que saí da loja e não paguei as meias?”. “Desculpe interrompê-la, mas esteve nas Jornadas de Segurança, não esteve?”. Sim, tudo verdade. “Recordo-me de a ver lá com o Dr. P., a levar-lhe umas coisas. No outro dia vi-a passar aqui, e como a sede agora é aqui perto, pensei logo que não estava enganado”. Pois, não, sou eu. “Pronto, era só isso. Obrigada e desculpe lá”. Olhei para ele e tentei reconhecer um traço, um sinal, mas não. Ri-me na minha cabeça: fardados são todos iguais. E saí dali, depois de lhe deixar um meio sorriso, a achar um bocadinho estranha toda aquela cena: dois polícias a falar comigo e eu de saco de loja de lingerie na mão. Nunca encontro ninguém e quando encontro estou assim.

Ontem fui à reunião de crescidos de segunda-feira. Quando é a minha vez de falar tremo um bocadinho, mas depois passa. Gosto do sítio. Quando saio posso ir comer um gelado sentada só com o Tejo pela frente, ou posso fazer compras onde mais gosto, na Baixa. Ontem decidi-me pela segunda opção. Estava a ver a montra da Zara (tirei os óculos de sol para ver melhor) e na minha cabeça ia alternado a música que o meu iPod me dava com os comentários à roupa. Foi quando percebi que estavam a falar para mim. “Desculpa, tu não estudaste na FCSH?”. Sim, conhecemo-nos? Tu não, eu sim. Enquanto ele falava, fui olhando para ele, bom ar, giro (ai L., tu e os narizes esquisitos, diria a minha mana), t-shirt verde com a frase No rules e ténis all stars a condizer (reparei quando baixei a cabeça para parar a música). Não me lembrava de todo de alguma vez ter visto aquela cara. Mas ele conhecia-me, mesmo. Lembrava-se de me ver entrar na faculdade “sempre a olhar em frente, nunca para o chão”, das minhas meias aos buracos incluindo “umas vermelhas diferentes muitos giras”, das minhas saias “como a preta de ganga à chinesa”, da actuação da tuna nas escadas da entrada, das flores no cabelo, do meu grupo de amigos e “de uns miúdos que andavam sempre sozinhos e tinham ar de cromos com quem te davas”. A minha cara devia estar, por esta altura, já muito estranha. Como era possível aquilo. Mas não éramos da mesma turma, pois não? “Não, antropologia”, disse ele, e acrescentou “continuas com o rapaz louro da associação?”. E foi aqui que dei uma gargalhada. Perseguição? “Não, achava-te piada, ao teu ar, que continua igual”. E comecei a despedir-me, que tinha aula, que ainda tinha de comer qualquer coisa. “Posso ao menos ficar com o teu nome e o teu contacto?”, e eu não deixei. Agradeci e disse que podia continuar a ser só a rapariga da FCSH, das meias de rede de todas as cores, das saias de todos os tamanhos, das flores de todas as espécies e dos trabalhos de grupo com os meninos a quem chamavam “cromos”. Ainda lhe disse, sei lá porquê, que ainda uso aquela saia, mas só com meias muito escuras porque já é muito curta. Dei-lhe um aperto de mão de crescida e continuei em direcção ao metro, sem mais montras, enquanto ligava o meu iPod a condizer com os ténis e a t-shirt dele. Afinal não sou invisível, pensei eu. E já que não encontro gente conhecida, pelo menos vou encontrando alguém que me conheça. Por mais estranho e surreal que às vezes seja ser apanhada.

 

Lá fora: 

“And I wonder if I ever cross your mind / For me it happens all the time / (…) / Said I wouldn’t call / But I’ve lost all control / (…)” [Tiago: é verdade, a pimbalhice voltou a este blog]

"Afinal és autoritária." 

Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

. “Tonteiras” da minha cabeça

.Desde que mudámos para o TagusPark as coisas mudaram. Tirando os dias em que temos um carro à mão, ficamos fechados nas torres dias inteiros, sem outro passatempo para as horas vagas que não seja dar voltas ao edifício ou ver a evolução dos peixinhos (para mim tubarões, alguns malhados como vacas) no ‘nosso’ lago. Enfrentar a estrada-quase-autoestrada para chegar à civilização, sem passadeira ou qualquer passagem aérea, é tarefa a que só se entregam os mais ousados. Os outros, que não ousam, dão voltas ao edifício de olhos presos no chão. Cá dentro o ar é estranho. A Ma. diz que é a causa de todas as alergias e maleitas que nos apoquentam nos últimos tempos. Nos corredores as hostes dividem-se em dois grupos, os que gostam de aqui estar só porque moram mais perto e os outros, os que não gostam, onde me encaixo.

Esta semana recebemos a visita de uma delegação de Macau. Uma inspectora entendida em cantonês ouviu-os falar dos nossos caniços – os bambus do nosso jardim de inverno que há muito deixaram este mundo e que continuam a enfeitar o nosso rés-do-chão. Parece que o facto de os termos deixado morrer não abona a nosso favor. Significa maus agouros, coisas negativas. E percebo, uma vez mais, que não devemos culpar o mundo pelos nossos erros, pecados e problemas. Não foi o TagusPark que mudou o ar, as nossas vidas, nos mudou. Fomos nós, só nós. Nós que não soubemos cuidar dos nossos caniços.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.Esta é a porta de emergência do nosso segundo andar. Costumo dizer, meio a brincar, que a minha vida é muito semelhante a ela. Quando vamos pelo corredor sabe bem encontrá-la. Dá luz, vê-se o verde das árvores, do relvado do campo de golfe. Só quando chegamos mais perto percebemos que é tudo ilusão. Se a abrirmos, dá para o ar, para o vazio, sem nada que nos segure.

 

.A minha madrinha sempre teve umas filosofias à frente do tempo dela. Na terrinha, viam-na com os ares de Paris a retribuir-me os meus estalos e puxões de cabelos em dose reforçada e mandavam-lhe olhares reprovadores. Não percebiam que aquelas eram as primeiras e últimas vezes que eu fazia as coisas – percebia que custava. Com ela aprendi uma série de lições – e continuo a aprender. Lembro-me de nós, de mão dada, numa rua a fazer compras. Pelos detalhes da minha memória, tenho quase a certeza que era na baixa de Setúbal. À nossa frente, um senhor de calças pretas, gesso velho na perna, boina preta e uma blusa branca quase tão escura quanto as calças, pedia dinheiro para dentro de uma caneca. E eu puxei-lhe o braço e pedi uma moeda para o senhor. A resposta dela, sempre olhos nos olhos, foi “se desses uma moeda a toda a gente que pede, não terias para ti”. E continuámos as compras. Interiorizei aquilo até hoje, e, por mais que tenha de fechar os olhos e chorar depois de passar por alguma situação mais infeliz, raramente deixo moeda. Às vezes, como a minha mãe me ensinou um dia, levo-os a comer a qualquer lado ou volto atrás para lhes deixar comida. Mas moedas são raras as excepções. Ontem percebi quais são elas. Percebi, finalmente, o que me comove e chega ao coração e à carteira. É com música. Basta entrarem no metro de concertina na mão, fazerem com o que o meu pé comece a mexer sozinho, provocarem-me um sorriso sincero, e lá vou eu, quase sem perceber, com a mão à carteira. Nos meus tempos de avenida de Roma, um senhor que a vida obrigou a dizer ‘obrigada’ numa língua diferente da sua, percorria a linha verde com uma concertina, uma coluna e um sorriso tão honesto que me desarmava. Cheguei a entrar no metro só para o ver, para o ouvir, tamanha era a dose de felicidade que me dava. Quando deixava a moeda no mealheiro improvisado numa velha garrafa de água, que ao tocar no fundo fazia sempre aparecer um ‘obr’gado’, não conseguia deixar de pensar “madrinha desculpa lá, mas este merecia mesmo”. Ontem outra vez.

 

.Falta menos de um mês para o meu aniversário. Eu sou sempre a rapariga das grandes festas, das grandes listas, dos grandes planos. Talvez por isso, e porque me conhecem, no fim-de-semana foram várias as pessoas que me perguntaram, “então, e planos para o 5 de Julho?”. E eu tive dificuldade em explicar-lhes que este ano não quero nada. Nem existe uma prenda que eu queira receber. São 26 anos, a uma segunda-feira. A última vez que os fiz neste dia da semana estava em Beja, com o C., a mana e o meu Az., que nunca me falta nestes dias, e a única coisa que encontrámos aberta foi um açude. Desta vez não tenho nada. Nem lista de sítios, das pessoas que quero comigo ou das comidas para dividir entre mim e a mãe. Sei que vou estar de férias nesse dia e no seguinte, porque sempre tive a mania de aproveitar o meu dia das 00:00 às 23:59, e que vou faltar à primeira aula do trabalho final da pós-graduação. Estes são os meus planos. Tenho um meio secreto, que passa por estar no Alentejo, preparar uma cesta de pic-nic com a mãe e aparecer na cortiça para almoçar com o pai e os colegas de trabalho dele.

Desde pequenina que costumo estrear uma roupa nova nos anos. Nos tempos em que não comprávamos tantas coisas esta era uma das coisas que eu mais gostava em fazer anos. Ter uma roupa nova. Por norma era sempre comprada de véspera, porque as coisas não ficam muito tempo novas no meu armário: comprava e vestia logo (nem que fosse para dançar ao espelho) ou dormia com elas bem agarradas a mim. Este ano também mudei isso: o vestido (à L. normal e não crescida) e os sapatos que namorava há uma eternidade já estão ali, no armário, à espera que o 5 de Julho chegue. E o 5 de Julho este ano vai ser diferente. Não quero nuvens, não quero sombras. É o meu limite, a minha marca, o tempo que dei a mim mesma. E, pela primeira vez, não quero que chegue rápido. Este ano, não quero fazer anos.

 

.Penso nisto tudo, em tantas outras coisas que entram na minha cabeça sem que me peçam licença ou tenham ordem definida, e a única coisa que oiço é a minha mãe, dentro de mim, com a frase que me diz sempre que me sai um grande disparate ou um plano megalómano, “Ai filhota, filhota, essas tonteiras da tua cabeça”.

 

Lá fora: “E até parece que estou a mentir, / As palavras custam a sair, / Não digo o que estou a sentir”

 

Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

.Eu passei por aqui e ninguém contou a minha história (V)

O Sr. J. foi uma das primeiras pessoas que conheci quando cheguei a este trabalho, há quase três anos. Às vezes começamos a gostar das pessoas sem razão aparente, sem motivos palpáveis, sem nada que o justifique. Mas com o Sr. J. não foi assim. Eu soube, no primeiro instante em que o vi, o que me fez gostar dele para além do sorriso: é muito parecido ao avô X.. O mesmo tamanho, magro, já só com cabelo nos lados onde os óculos assentam, a mesma maneira desajeitada de colocar as mãos quando fala. O Sr. J. é muito tímido e raramente olha para nós quando fala. Trata-me por "m’nha m’nina" e nunca sei como me cumprimenta: tanto pode trazer um aperto de mão forte, como dois beijinhos rápidos ou um abraço apertado. Depende dos dias. E eu tenho sempre a mesma reacção, sempre que ele abre a porta da sala para um “bom dia m’nha m’nina’, como é que está hoje?” fico numa posição também desajeitada, que permita qualquer uma das três coisas. Na antiga sede este ritual era diário, agora há dias em que o substituímos por um “bom dia Sr. J.” da minha parte e um aceno de cabeça, quase vénia, da parte dele quando esperamos o autocarro ou quando entro com ele já sentado. O Sr. J. é o faz-tudo daqui. Apesar da idade (que não sei qual é), carrega com secretárias, cadeiras, móveis sem ajuda de ninguém e fá-los passar por sítios que julgaríamos impossíveis à partida. Não sei muitas coisas sobre ele. Sei que mora a dois minutos a pé da estação de Santa Apolónia, que quando faz frio veste sempre o mesmo casaco de fato-de-treino, que anda sempre por aí a fazer qualquer coisa, que bebe sempre uma garrafa de vinho pequenina ao almoço. Sei que tem um terreno com horta ali perto de Torres e dois sobrinhos de quem gosta muito – um é militar em Beja e não quer voltar porque arranjou lá uma “pesseguita”. Na sexta-feira à tarde saímos juntos do autocarro e ele já me ia desejar um “bom fim-de-semana m’nha m’nina” quando eu o apanhei antes, “hoje vou consigo de metro, não tenho de correr para o comboio mas para o apanhar a si, que anda muito depressa”. E ele esperou por mim e corremos os dois nas escadas, enquanto o senhor do metro esperava por nós para poder dar sinal às portas que estava na hora de sair de Sete Rios. Estavam muitos lugares livres, mas ele preferiu ficar de pé. E eu fiquei com ele. Contei-lhe que ia até à Baixa trocar os óculos de sol porque vieram com defeito e que ainda ia comprar os bilhetes para o concerto, para onde ia arrastar a minha mãe. E ele falou-me da horta, das batatas que já devem estar estragadas depois de duas semanas sem ir lá – a cunhada vai lá regar qualquer coisita, mas não é suficiente, do que as pesseguitas fazem aos rapazes, de que acha que sou "muito boa m’nina" pra ele onde quer que o veja, "como há poucas”. Chegámos à Baixa quase sem dar por isso. Deu-me dois beijinhos e um abraço tão apertado que me fez sair uma gargalhada alta de mais, e lá soltou o “bom fim-de-semana m’nha m’nina, não se esqueça de me dizer quando sair a nota lá da escola, ai estes professores já não são como antigamente!”. Saí da carruagem e estava a tentar olhar para o relógio da estação quando senti apertarem-me as mãos. Era um senhor que me fez lembrar o Pai Natal – uma farta cabeleira branca, barba aparada e olhos mais azuis que alguma vez tinha visto. “Estou feliz. Vim a ouvir a vossa conversa. Pensei que já ninguém tinha paciência para velhos.”, disse-me. E eu queria responder-lhe. Dizer que aquilo era uma coisa normal, que era o Sr. J., um amigo meu. Que gosto de conversar. Que gosto de saber coisas. Mas já não fui a tempo, porque ele já estava a chegar às escadas. Olhei para o lado e o metro já lá ia, com o Sr. J. junto ao vidro a dizer-me adeus, e o relógio a passar também para o minuto seguinte a lembrar-me que já não tinha muito tempo para fazer tudo e correr para o comboio, com destino ao fim-de-semana. Na segunda-feira tive de ir ao Algarve a uma reunião e almocei mais cedo. No refeitório ainda não estavam as colegas de outros dias e partilhei a mesa com uns senhores de quem gosto muito – o Sr. V. dos jornais, o Sr. G. da manutenção e o Sr. J..  Assim que me sentei retomámos a conversa do metro, “Então m’nina, a sua mãe aguentou-se? O meu sobrinho também foi lá a essa coisa do Rio. O mais novo, que ainda não tem pesseguita, mas levou o carro cheio. Às tantas tem e a gente não sabe. E olhe, consegui aproveitar umas batatitas. Quer que lhe traga algumas?”. Saí de lá a correr quando vi que só tinha cinco minutos para apanhar as minhas coisas e ir ter com o motorista. “Vá lá m’nina, não se atrase por nossa causa”, gritou-me enquanto eu já corria por entre as mesas. Hoje, assim que cheguei, do varandim do segundo andar ouvi-o chamar-me do primeiro: “m’nina, m’nina, a viagem correu bem?”. E, enquanto eu respondia, já não olhava para mim, brincava com as mãos sem saber onde as pôr, até que decidiu pôr uma no bolso e deixar a outra no corrimão, ao mesmo tempo que ia andando para fazer qualquer coisa, com o casaco de sempre, o do fato-de-treino.

 

 

 

Lá fora: "Cada um é como um murro no estômago"
Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

.Férias

Tirei o dia de férias para estudar. O segundo exame é já na segunda-feira e o protocolo teima em não me entrar na cabeça. O plano era simples e parecia fácil: acordar, estudar todo o dia com pequenas pausas para comer, e só parar para voltar à cama. E, mais uma vez, percebi porque não gosto de fazer planos: simplesmente não os cumpro. São duas da tarde e já tomei um banho de espuma, vi Anatomia de Grey e Irmãos e Irmãs, fui a pé ao ecoponto e comprar pão, dancei entre divisões com o volume do rádio no máximo, experimentei roupa nova, lavei os sapatos que o Inverno teimou em cobrir de bolor, naveguei no facebook, espreguicei-me no sofá, actualizei o iPod, mudei o puff para a varanda com vista para a Lezíria e sentei-me nele com os apontamentos no colo, mas estudar, nada. O meu cérebro devia concentrar-se em grandes questões, como saber quando deve o anfitrião ceder ou não o lugar de honra, porque não se senta a esposa ao lado do marido, ou porque deve o convidado ocupar lugar de destaque apesar de não estar no artigo 7º da lei 40/2006. Mas não, anda longe. Quando o pensamento e a vontade não se cruzam, é difícil obrigar o corpo a fazer o que quer que seja. Vou cozinhar. E depois comer. É o meu plano a curto prazo. Pode ser que daqui a pouco, sem dar por isso, só porque não cumpro planos, esteja a estudar.

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Lá fora: "The more I see the less I know. But I know one thing."
L. às 14:13
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Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

.Caminho

Quando era mais pequena, metia conversa com toda a gente. Ia ter com as pessoas e dizia o que me vinha à cabeça sem pensar muito nisso. O meu avô X. costumava dizer-me que, por dia, eu formava uma equipa de futebol diferente, tamanha era a quantidade de gente que eu conhecia. Para os meus pais isto era um problema. Na praia, raramente parava na barraca deles, e era normal encontrarem-me numas mais à frente, a pedir uvas ou a contar coisas sem jeito nenhum. Se me chamavam a atenção por estar a falar com estranhos, a minha resposta era sempre a mesma: “acham que, com aquela cara, me iam fazer mal?”. Em casa, na terrinha, não me portava melhor. Corria as casas todas dos vizinhos, oferecia-me para almoçar, jantar, jardinar ou qualquer outro estrago, fazia questão de ajudar a levar as compras da loja aos sítios mais estranhos, e tinha uma grande tendência para me agarrar aos beijos a pessoas que faziam outras fugir a sete pés. Advogada dos pobres e oprimidos, dizia-me a minha mãe. Mas depois cresci, e deixei-me de algumas destas coisas. Deixo passar oportunidades de outro mundo apenas porque a minha língua deixou de dizer o que lhe apetece e passou a dar uns segundos de atenção ao cérebro, que a trava muitas vezes. O meu pai é quem mais me dá na cabeça, “L.S., tu não eras assim, mas o que é que te aconteceu?, O teu estágio só correu mal porque tu agora ficas calada e esperas que os outros reparem que existes!, E não disseste nada?, Mas tu estás doida?, Reage!, Responde!”. Há muito tempo que percebi uma coisa que me irrita, os pais têm sempre razão e o que dizem acontece sempre, mais cedo ou mais tarde. É por isso que eu ou a mana chegamos a pedir para se calarem quando percebemos que vão dizer alguma coisa que não queremos que aconteça, tamanho é o poder das profecias que eles deitam ao mundo. E o meu pai foi bastante claro comigo, “se continuas assim, não chegas longe”.

Na semana passada, o trabalho obrigou-me a sair do meu posto de trabalho. Tive de representar o serviço noutras bandas, com outra equipa de trabalho, e, decidi eu, com outra postura. Nada de vergonha, nada de timidez, nada de deixar passar oportunidades ao lado e não as agarrar. Agarrei em muita lata, no meu melhor sorriso e raciocínio, e fui para as Jornadas. Foram dois dias muito engraçados. Os contactos são o nosso maior trunfo, dizem-me lá na pós-graduação. E eu, imbuída desse espírito e dos conselhos do meu pai, encarreguei-me de acrescentar bastantes ao meu telemóvel e à minha vida. “Não somos colegas do TagusPark”, “É não sei quem? Foi comigo que falou no outro dia”, “Então se acontecer não sei o quê, posso ligar-lhe?”, “Da bancada parlamentar de onde? Claro, anote o meu”, “Com esse ar, vê-se logo que é um dos voluntários forçados da Academia”, “Computador? Claro, use o meu”.  Mas, o melhor dos dois dias, foi ter dois companheiros que me fizeram companhia o tempo todo. “Ajudante de quê? Ah, não sabia que isso existia”. “Major quê? Ah, não sabia que ele era Major”. Rimos muito, principalmente quando descobriram que tinham a idade do meu pai e se ficaram a sentir mal por isso.

Um dia depois estava no Alentejo, pronta a contar ao meu pai os meus progressos e mostrar-lhe a minha longa lista de contactos. Mas não foi preciso, porque ele estava ao meu lado no momento em que recebi um mail que dizia: “Esse sorriso é uma grande arma. O serviço tem muita sorte em te ter. Serás bem recebida em qualquer equipa”. Ele sorriu, deu-me um beijinho no cabelo, e disse-me: “parece que, afinal, estás no bom caminho”. E eu, que tenho andado um bocadinho desorientada, procurei agarrar-me àquela profecia, aninhar-me nos braços dele, e sorrir, enquanto na minha cabeça me imaginava a andar numa estrada cheia de papoilas e espigas. Um bom caminho.

 

Estou:
Lá fora: "Morrer, mas de que paixão?"
Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

.Caracóis

Maldivas - Olhuveli, Junho 2009

 

Tenho boa memória. Disso, não me posso queixar. Tenho muitas falhas, uma data de defeitos, coisas menos boas, mas, no meio disto, safa-se a minha boa memória, a minha atenção aos detalhes. Não para tudo, é claro. Mas se me falarem do primeiro dia de cada nova escola, dum beijo arrebatador, de uma lágrima que me fizeram cair, consigo lembrar-me da roupa que tinha vestida, das roupas dos que me rodeavam, das palavras que foram ditas e dos sonhos que me acompanharam nessas noites. Quando era mais pequena, costumava dizer que eram os meus caracóis que não deixavam as memórias sair. Mas isso já lá vai. A memória e os caracóis. Da última vez que fui à cabeleireira, há duas semanas talvez, ela cortou até mais não e deixou-me com ar de mulher casada (- Já não era sem tempo, dizem-me muitas vozes). Que o meu cabelo estava uma porcaria, tão fininho, tão estragado, que estava a ficar sem cabelo, que se passava qualquer coisa de certeza, que era a minha anemia de estimação que estava de volta, que ela dizia sempre a toda a gente que o meu era o melhor cabelo que lá passava e não fazia ideia que ele estava assim. E eu saí de lá a chorar. Que, no toca ao meu cabelo, sou muito sensível. Costumo dizer que foi a única coisa em que os meus pais se esmeraram, a única que saiu bem e que eu gosto (vá, também gosto dos meus ombros quando não estão cheios de borbulhas, que é o caso – como toda eu, aliás). E vá de fazer análises, vá de tomar coisas para o cabelo, vá de ouvir ralhar de toda a gente – que estou igual, que o cabelo está igual, que são coisas da minha cabeça.
Tudo isto para provar uma coisa: os meus caracóis seguravam realmente as minhas memórias, parece-me. É que desde a altura em que os cortei, tudo mudou. Perdi o cartão do serviço (que já apareceu, mas sem fita), deixo o telemóvel em casa, deixo o cartão multibanco em todo o lado, esqueço-me do que vesti no dia anterior, não consigo processar recordações nem escrever na agenda se já passaram alguns dias. No domingo perdi mesmo o meu cartão. Não estava nos sacos, nem na bolsa da bolsinha. Ontem, depois de toda a gente me assustar com as clonagens e histórias parecidas, resolvi que era altura de ligar para as lojas onde estive nesse dia. Tinha a certeza que ele estava lá – ultimamente também tenho umas certezas estranhas. Atendeu-me o segurança do centro comercial. Que não existia lá nenhuma loja com aquele nome. “Formenina?”, não, Fornarina. “Desculpe menina, mas isso não existe aqui”. E eu, que não me apetecia muito teimar, desliguei depois de agradecer e de dizer que passava lá no fim-de-semana. Só quando a M. me chamou à atenção percebi como estou toda baralhada. Liguei para o Campera em vez do Freeport. E quando liguei para o sítio certo, claro que estava lá o meu cartão.
Esta fase-má-da-minha-memória não é toda má, também tem aspectos positivos. Está a dar-me oportunidade de reciclar algumas coisas. Há uma música, que agora está sempre a passar em todo o lado, que tanto me deixa nos píncaros como na cave. E isto já me andava a chatear. Ontem à tarde dei boleia ao An. e à Li., do trabalho até Sete Rios, para não perderem o comboio. Seguimos pela A5, a velocidades que não podem ser escritas, com a Li. ao meu lado a rir de todos os disparates que o An. dizia lá de trás, e ele a mudar o posto da rádio com o guarda-chuva. Só parou quando encontrou a tal música e começámos os três a cantar e a dançar. E sem que eu tivesse reparado nisso, substituí uma memória. Mais tarde, enquanto esperava pela aula no carro embalada pelo rádio e pela “Alice no País das Maravilhas”, ela voltou a dar. E à minha cabeça só vinha esta imagem. Da Li. ao meu lado, a rir e a dizer-me que eu estava a ir muito depressa, do An. lá atrás, a bater-nos com o chapéu de chuva, e a dizer para não me preocupar com a multa porque o Papa vem cá e vai haver amnistia para toda a gente, a perguntar-nos se gostamos “de beijos com cuspo ou sem cuspo”, e se quando dançamos abanamos “a cabeça ou só o corpo”. E eu prefiro esta imagem, porque me deixa sempre bem.
O problema é que não mando em nada disto, como percebi agora – nem nas minhas memórias, nem nos meus caracóis. Não sei se eles as seguram realmente. Não sei se são apenas coincidências. Se é só uma fase má, para os dois. Mas que eles têm alguma relação estranha, isso ninguém me tira da cabeça – com ou sem caracóis.
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Lá fora: "Faz d conta q está td bem,e andas às voltas qd estás a sós"
Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

.Comboios

 

Quase diariamente, a CP entra nos meus temas de conversa. Porque ela está, mesmo, quase diariamente na minha vida. Cada dia com a CP é uma aventura. Nunca sabemos o que nos pode acontecer. E, invariavelmente, falamos sobre isso. Se o nosso comboio se atrasa, se o de ligação não espera, se por isso temos de ficar uma hora à espera do autocarro que nos leva ao fim do mundo, também conhecido como TagusPark. Se chegamos ao nosso destino.
 
Estar na última paragem da linha do comboio trouxe algumas condicionantes à minha vida. Faz-me acordar mais cedo, chegar mais tarde, conhecer mais pessoas, tentar descobrir maneiras de diversão nas estações de partida e de ligação.
 
Olho para os comboios como um submundo. Um mundo, à parte, que faz a ligação entre a minha casa e o meu trabalho. Sabemos de cor onde cada um entra e sai, com quem, onde gosta de se sentar, mas muitas vezes não trocamos um único bom dia. Ontem, no Campo Pequeno, encontrei um senhor que costuma sentar-se ao meu lado quando vou já muito tarde, depois das aulas. Cumprimentei-o, ele respondeu, e só depois percebi que o conheço apenas dali e nunca tínhamos trocado uma única palavra.
 
Ir para última paragem da linha do comboio trouxe-me muitas coisas. Menos boas e boas também. Trouxe duas pessoas importantes à minha vida. O An. e a Li.. Conhecíamo-nos do trabalho e costumávamos trocar apenas um ‘olá’. Depois, percebemos que partilhávamos o mesmo comboio e começámos também a partilhar lugares. Como entro logo na primeira paragem e eles só entram um bocadinho mais à frente, distribuo os meus sacos pelos lugares livres para que ninguém os ocupe até lá. Depois de me despachar a tempo de manhã e conseguir lugar para o carro, esta é a minha primeira tarefa matinal.
 
O An. e a Li. são muito importantes para mim: fazem parte de três dos meus mundos. Dos comboios, do trabalho, dos amigos. Fomos construindo uma amizade que se sobrepôs ao barulho do comboio. Não nos preocupamos com o volume das gargalhadas, com as conversas, criámos, os três, um sub-submundo. Não partilhamos só os lugares, o comboio e o local de trabalho. Partilhamos o nascer do sol no Tejo logo a seguir a Braço de Prata, as corridas diárias, as novidades, as coisas más e as boas, as iguarias que trazemos nos sacos, o iPod e a Time Out à quarta-feira. Às vezes, naqueles dias em que me custa muito acordar, é pela certeza da companhia deles que me levanto também.
 
Ali, no nosso sub-submundo, não interessa se entramos na primeira paragem ou mais à frente. Se o nosso banco está ocupado ou não. Se temos raízes em Cabo Verde, deixámos a Moldávia para trás ou só vamos ao Alentejo ao fim-de-semana. Se as nossas cores oscilam entre o escuro e o claro. Temos um objectivo comum: chegar ao destino. Juntos.

 

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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

.Destino

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De vez em quando sinto vontade de voltar às minhas caixas de recordações. Para além das cartas, dos bilhetes, das fotos, dos momentos palpáveis, vou guardando cds e pens onde ‘encaixoto’ as recordações virtuais. Esta semana encontrei o meu primeiro trabalho jornalístico da faculdade, datado de 2002, num desses cds. É uma coisa um bocadinho triste – o prof. Nelson Traquina não hesitou em dar-me um mísero 15. Uma reportagem sobre nós próprios, contada na terceira pessoal do singular. E saiu isto. Só lhe consegui arrancar uma melhor nota com temas bastante macabros, como assassinatos e outras coisas que tais. Lembro-me do 18 que me deu por ter sido eu a única a colocar no lead a carta onde uma jovem mãe confessava porque tinha morto os filhos e o marido e se suicidava a seguir. Foi nesse dia que percebi que o meu destino passava pelo Correio da Manhã ou pelo 24 Horas. Não passou, pelo menos por enquanto. Já passou pelos bancos, pela televisão, pela escrita sobre barcos, agora pelos ‘cidadãos estrangeiros’.
Nos últimos tempos, senti-me um bocadinho parada. Sem um objectivo, sem nada diferente para fazer, sem nada para estudar. Todas as coisas sobre as quais fui organizando os meus dias terminaram – a catequese, o rancho, os mil e um empregos, as mil e uma actividades. Agora, limito-me a correr. A correr para o comboio, a correr para o autocarro, a correr para o trabalho, a correr para terminar a revista de imprensa a horas, a correr para o trajecto inverso, a correr para fazer o jantar, lavar, limpar, arrumar, namorar. Por isso decidi voltar a estudar. E no dia 18 lá estarei eu, de volta à faculdade, para uma pós-graduação. Deixei de lado aquilo que pensei ser o meu destino, o jornalismo. Pelo menos por enquanto – parece-me a mim, e vou arriscar “Imagem, Protocolo e Organização de Eventos”.
Confesso que me sinto um bocadinho perdida. Atrás de mim, nos últimos dias, andam uns apontamentos para um Concurso. Leis e mais leis. Em casa as impressões feitas há meses impedem o pó de cair na estante. Porque me inscrevi? Pergunto-me todos os dias. Os mesmo dias em que todos me dizem para estudar. Não me sinto motivada. Talvez por ter quase a certeza que não vou conseguir superar este objectivo e isso me custar um bocadinho. Nunca fui de negativas, nem de ficar pelo caminho, mas quase que adivinho um ponto final nesta história. E o medo de desiludir os que me rodeiam não me deixa. Quem sou eu, uma entre milhares, para conseguir uma das 30 vagas? E, caso o milagre aconteça, estarei eu à altura deste novo desafio? Continuo a arrastar as cópias já amachucadas de tantas viagens e de tão pouco uso. Talvez a publicação da data final das provas me traga um empenho a sério. Por hoje, fico por aqui. À espera que ele decida o melhor para fazer comigo. Ele, o destino.
 
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“Quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto, mas quem conta uma vida, decididamente, fica com muito por dizer. Mais ainda quando essa vida está no inicio e tem ainda muitos caminhos por percorrer, muitas escolhas por fazer. A L. mora algures no Alentejo, tem dezanove anos e ajudou a perceber o dia e a mentalidade de um jovem no interior.
O facto de os bisavós terem uma padaria e mercearia, que começou por ser a única na aldeia, influenciou-a sem dúvida. Diz com orgulho, que foi naquela loja que a aldeia teve pela primeira vez acesso a uma televisão e pôde ver o homem chegar à lua. A “Casa Silva” deu-lhe assim a possibilidade de conhecer toda a gente e de se tornar uma neta daqueles velhos clientes habituais. O sol continua a tocar a planície alentejana que serviu de fundo a esta entrevista. Acrescenta, com um sorriso nos lábios, que talvez tenha sido este contacto de aldeia que lhe deu o bichinho das novidades, das vidas alheias, de estar em cima do acontecimento – do jornalismo, que quer seguir desde o terceiro ano.
A loja trouxe-lhe ainda a possibilidade de lidar com um grande homem, o avô paterno. Foi naquelas idas à praça, todas as manhãs durante alguns anos, que se estabeleceram conversas, trocaram-se conhecimentos, criou-se uma grande amizade, que nem mesmo a doença e a morte conseguiram destruir.
C. L.. Escrito desta maneira, parece nem vir no mapa, mas esta terrinha alentejana, já na fronteira com o Ribatejo, nunca se apresentou como uma limitação para a L.. O Rancho Folclórico da aldeia, o qual frequenta há catorze anos, mostrou-lhe o país de uma ponta à outra, possibilitou-lhe o contacto com outras pessoas, outras culturas e hoje diz-se uma pessoa de mente aberta.
Enquanto apanha os caracóis no elástico e conta que o cabelo é mesmo a única coisa que gosta, aproveita para contar os seus defeitos. Diz quem a conhece que o pior é mesmo a facilidade com que amua, consequência de uma teimosia e de um orgulho extremos. “Entre triste e contente, ela muda de humor com a mesma rapidez com que se lhe dá uma critica… ou um sorriso. Mas parece que ambos se convertem na motivação para o próximo passo. Curioso…!”, conta-nos um amigo, o C..
Sentada à porta de um dos moinhos centenários da aldeia, conta que a sua maior qualidade é a capacidade de iniciativa. Lembra com saudade que, nas duas escolas que frequentou nas C., organizava semanalmente teatros, festas e outras actividades que permitiram tornar os dias quentes do Alentejo mais divertidos. Viver num mundo à parte, não tem só vantagens. Para continuar os estudos, era necessário sair bem cedo de casa, não só na hora como também na idade. Mas não foi isso que a abalou e em M., participou no jornal da escola para não dar férias à criatividade.
A poesia, sempre fez parte da sua vida, gosto que adquiriu com um livro de sonetos de Florbela Espanca. Pode mesmo dizer-se que todas as mulheres que admira são alentejanas, a poetisa Florbela Espanca, a mãe e as avós. “Tinha 6 anos e já fazia versos para os meus amigos, nas festas de aniversário”, conta-nos enquanto passamos pela escola primária. Recorda que a sua professora do primeiro ano lhe ofereceu um livro do poeta António Aleixo, devido ao seu gosto pela leitura, e que o gosto pelas quadras acabou por pegar.
Depois de ter entrado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa, na licenciatura de Ciências da Comunicação, o tempo que passa na aldeia é cada vez mais diminuto. No entanto, isso não a impede de dar catequese ao 5º ano e de organizar algumas festas em conjunto com os amigos: “Tentamos que a vida na aldeia seja uma experiência agradável para todos. A maior parte das pessoas só conhece a parte dura da vida, o trabalho no campo, muitas vezes ainda de sol a sol. Os bailes e as festas, além de um excelente ponto de encontro, ajudam a esquecer ou a calar os sonhos e as vidas que não puderam viver”. A descoberta de que a L. costuma apresentar algumas destas festas, fez pensar que o seu objectivo com o curso de Jornalismo seria chegar a pivot, coisa que tratou de esclarecer: “Já pensei nisso algumas vezes. Mas confesso que há outras coisas que me fascinam muito mais na profissão. O jornalismo de investigação parece-me ser uma boa opção.” Com alguma tristeza por parte da mãe, segredou ainda que não hesitaria numa reportagem de risco, como a de guerra.
O curso há muito que estava escolhido, a escolha da faculdade foi aconselhada pela professora de português do secundário, antiga estudante da Universidade Nova de Lisboa. Conta que nem tudo foi mau na chegada à capital, o facto de ter ido morar com três antigas colegas de secundário, tornou mais fácil a adaptação à cidade, ajudou a controlar a falta da família e dos amigos e a enfrentar os problemas inerentes à vida longe de “casa”. A Tuna da faculdade, com todo o convívio e amizade que proporciona, apresentou-se-lhe como uma verdadeira terapia para suportar as saudades do Alentejo.
Vícios? “É o que não me falta”, acrescenta a sorrir. O telemóvel é um companheiro inseparável. Confidenciou ainda ser uma consumidora compulsiva, dificilmente resiste a roupa. A lua, talvez por ser regente do signo caranguejo, tem um papel fundamental na sua vida, as paredes do seu quarto são partilhadas, tanto por tudo o que diz respeito a este magnifico satélite do planeta Terra, como por fotografias: “Sou incapaz de não trazer fotografias das pessoas mais importantes comigo. Fotografo tudo, sou capaz de gastar rolos e rolos com pormenores que parecem insignificantes”.
O Sporting é outra das suas grandes paixões, talvez por influência do pai, que sempre a levou ao estádio: “Vou aos jogos sempre que posso, é viciante. Costumam dizer-me que não é normal uma rapariga tão entusiasta em relação ao futebol”.
Não podíamos deixar de falar no amor. Enquanto passa em frente à nova igreja, construída com a ajuda de toda a população, confessou, com uma enorme gargalhada, ser muito namoradeira. Disse ter como grande exemplo o amor dos pais, casados desde os 16 anos e com amor para durar. Deste casamento, resultou ainda uma pessoa muito especial, a sua irmã. Apesar dos 6 anos que as separam, L. não tem problemas em afirmar que é mesmo a sua melhor amiga. “Como acontece na maior parte das aldeias, as pessoas acabam por casar com conterrâneos, tornando a população numa grande família. Encontramos sempre algum grau de parentesco”, justifica assim a sua sorte em ter crescido perto dos familiares mais chegados, como os avós, sempre com tanto para ensinar.
Continua a caminhar pela aldeia. A L. pára e indica o sítio onde foi construída a primeira casa da aldeia, feita de cortiça, ainda hoje a base da economia desta pequena população. Diz que, se pudesse escolher, teria nascido exactamente ali. José Saramago, no seu livro “Levantado do Chão”, fala-nos do Monte das C. e diz que no cimo daquele pinhal, é possível ver Lisboa, “ (…) quem diria, nós que pensávamos morar no cabo do mundo”.”
Estou:
Lá fora: Vai partir da linha nº5 o comboio com destino a...
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

.Contributo

Já dei/deixei o meu contributo ao mundo. Em http://bibescolas.ccems.pt/file.php/1/ESML/html_pagina/html_pagina/p_jornalismo.html.

 

 

Estou:
Lá fora: o rádio do meu popó...
Sexta-feira, 7 de Março de 2008

.Dois palmos

 

 

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Foi uma semana agitada. Já é sexta-feira, diz-me alguém. Vou para o Alentejo. Mas nem isso me descansa. Estou farta de viagens. De partidas, idas e chegadas. Farta de carros, autocarros e outras coisas que andam. Cansada, mas com mais dois palmos.

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São 20h23. De quinta-feira. Só agora vou para casa. Entro, num autocarro quase vazio, e demoro a encontrar lugar. Se estivesse cheio seria bem mais fácil. Encosto a cabeça ao vidro e nem os conselhos da prima I., que preferia cair a tocar em qualquer sítio de um transporte público, me fazem mossa. Fecho os olhos e adormeço. Acho que pela primeira vez. Acordo. Passaram-se poucos minutos. Na paragem do Colombo saem os adeptos do Benfica. E alguns espanhóis. Gosto de os ouvir falar, não há nada a fazer. Há tendas de cachecóis e roulotes de bifanas. Penso em como gosto de comê-las em dias de jogos, mesmo quando vejo onde e como são feitas. Volto a fechar os olhos, mas um buraco acorda-me. Já estamos em Benfica. Descubro uma estrada ao lado da escola (que ainda não decorei o nome) e finalmente percebo onde estacionam os professores. Uma das minhas dúvidas existenciais da manhã, quando faço o percurso inverso. Mais à frente, uma loja da Hello Kitty que a Matilde ia adorar. E a loja dos sofás que eu tanto gosto. Qualquer coisa lilás. Hoje não tem a menina à porta. Os restaurantes que anunciam o melhor marisco da zona, ali, no meio da cidade, estão cheios. E eu que pensava que ninguém lá entraria. Descubro uma Pull Outlet na rua por onde continuamos. Naquela em que sai um monte de miúdos que eu não percebo como vão sozinhos para a escola. Olho para os outros. Não vão os namorados surdos-mudos que normalmente partilham o banco de quatro lugares comigo. Nem o senhor engraçado, mas não muito simpático, que lê "Fecha os Olhos e Abraça-me". A senhora da mala Prada que carrega o mesmo livro há meses também não está lá. Estou desenquadrada. Este não é o meu grupo. E percebo que estou assim pela segunda ou terceira neste dia tão longo.

 

Eram 16h40. Estava no meu lugar, naquela cadeira que a A. diz que não presta. L. pode subir ao gabinete do sr. Engenheiro? Subo. Tratam-me pelo diminutivo. Sorrio, de leve, estou cansada. Pode ir tirar fotos com a Inspectora. Sim? Vamos de carro. Eu e a "ah, ah, ah". Encontramos o director à porta. Sorrio novamente e ele olha para mim. Fica naquela posição em que não consigo perceber se espera um beijo ou um aperto de mão. E eu fico-me pelo sorriso. Sabia o meu nome. Surpreendeu-me. Foi simpático. A "ah, ah, ah" também. Entrámos pelo Colégio Militar adentro. Eram muitos. Pequenos e grandes, de igual. Sempre a correr. Em sentido, sempre, antes de falarem para nós. Começa a palestra. Tráfico de Seres Humanos. Alguns adormecem. São levantados com puxões de orelhas e ficam de pé, em sentido, até ao final. Poucos. Muitos mais seriam se o comandante (ou sei lá o quê) tivesse visto as minhas fotos. Poucas também, que as pilhas não duraram muito. Mesmo depois de toda aquela conversa "qualquer coisa" (triste, de chacha, ..., não sei o que lhe chame), numa sala cheia de gente, do sr. R., que insistia que eu precisava de "pilas" para poder levar a máquina. As "pilas" ou eram velhas ou de má qualidade. Tenho de lhe dizer que as "pilas"  dele não prestam. Rio-me. E volto à minha cadeira do auditório. O Inspector também ri. De outras coisas. Também ele já foi aluno ali. A minha boleia fica a cargo dele. L.? Não me é estranho esse nome. Fui eu que o chateei ontem com uns e-mails. Ri. Falamos do Sporting, dos traumas do Colégio Militar, ali, naquele bocadinho que separa a 'escola' da sede. Os carros dos adeptos já chegam ali. E os arrumadores também. Olho para o QueijinHo, continua estacionado. E é ali que vai passar a noite.

 

São 20h10. Entro. O segurança ri-se ao dizer-me boa noite. Normalmente, trocamos apenas um bom dia. Subo. A senhora da limpeza ainda não levou a chave da nossa porta. Vejo luz no gabinete da Dra. A. e vou até lá. Começo a falar antes de lá chegar. Antes de tempo, para variar. Está lá o Dr. M. P.. Desculpe, pensei que Dra. ainda estava. Não, ela reparou que a L. ainda não tinha chegado, correu bem? Fico sem reacção, ele também sabe o meu nome. E eu que pensava que só o sr. V., que nos traz os jornais, leva os cartões dos dvd's e é da minha terra, sabia. Olho o telemóvel. Chamadas, mensagens. Agarro na mala, no casaco, na pasta dos pendentes, no saco com piza que a mãe mandou e desço. Não me apetece esperar pelo elevador. Corro pelas escadas e, mais uma vez, quase caio. É no que dá usar botas bicudas com calças à boca de sino. Dou toque para casa e ligam-me poucos segundos depois. Perdi o autocarro, resmungo. E fico ali, à espera.

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São 07h30. Ainda estou cheia do jantar de aniversário da avó. Devia acordar mais tarde, mas os remorsos não deixam e acabo por me levantar. Sim, vou deixar a mana e as amigas na escola. Vejo a Mariazinha e mato saudades. Faço batido de morango e como queijo fresco com muita pimenta e pão da nossa padaria, como eu tanto gosto. A mãe prepara-me a comida para levar nesta segunda ida para Lisboa desta semana. O pai vai buscar-me mais uma bolinha de pão para eu levar. A mana apita-me, estamos atrasadas. Paro na Conservatória para alterar a morada do b.i.. Estou grande, tenho uma casa. Ninguém me disse que as fotos eram tiradas na hora. Fico com cara de sono, e de cabelo apanhado. Nem sequer me reconheço, pareço uma monstra. Assim que o receber, digo que o perdi e vou renová-lo. Acelero com o Quejinho. O pensamento passeia-se pelos próximos dias. Na sexta há mais. Quem mandou as avós fazerem anos com dois dias de diferença? No sábado há concerto dos Cure. E, no domingo, é dia de levar os avós a conhecer a casa nova. Quero férias. Cheguei a horas.

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São 14h21. É sexta. O dia começou cedinho. O sono passou no instante em que vejo o engenheiro e ele me dá dois beijinhos. Acordou cedo, L.. Tem de ser. Sorrimos e até partilhamos um café. Eu, que nem sequer gosto e que fico doida quando bebo um. Ali, na dona C. que não simpatiza comigo. Subo. Os jornais já me esperam. Nada de grave. Faço a revista de imprensa. Digo à jornalista da TV Record, pela milésima vez, que ainda não tenho resposta. Repito a lengalenga ao do Diário Económico. Escolho fotos, actualizo o site, subo e desço escadas, corro. Quero cama, colo. E tiro a grande conclusão da semana. Não vale a pena ficar chateada, magoada, triste, com as atitudes de quem gosto e me rodeia. Nem pensar que me estão a dar um valente pontapé. É mentira. São apenas empurrões. Daqueles que nos obrigam a crescer. E eu cresci. Exactamente dois palmos. E quase podia jurar que a piza da minha mãe também contribuiu para isso. Vá, dois palmos e meio.

  

adenda1

[São 17h25. Pensei que estava quase, quase a ir para casa. Enganei-me. No ecrã surge a indicação de novo e-mail. É do Dr. C. I.. Houve operações durante a noite, não sei quantos ilegais detectados, há que fazer nota. Toca o telefone. Não puderam ligar o gás, detectaram uma fuga. E, nisto, entra o sr. V.. Venho buscar o cartãozinho para o dvd de amanhã do Expresso. Então até amanhã, Cláudia. E é neste preciso momento que quase, quase choro. Inspiro e expiro fundo, bem devagarinho, como no médico, ganho força, e digo "L., senhor V., L.", no instante em que ele desaparece pela porta. E, bem perto de mim, um barulho tão familiar, o do burburinho da fila para os elevadores. É hora da saída. Mas eu fico por aqui. Assim, mais um bocadinho. Armada em crescida. Do alto dos meus mais dois palmos e meio.] 

 

adenda2

[São 19h52. É agora. Ser grande é difícil.]

Estou: crescida
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