Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

.Até sempre

[elotopia.net] 

 

Tenho medo da morte. Pavor mesmo. Acho que nunca a vou compreender. Ainda no sábado, em conversa com o padre Carlos, lhe confessei que este é o meu grande pecado. Não é só da minha. Tenho muito mais medo da dos outros. Quando era pequenina, e estas ideias me passavam pela cabeça, simulava uma dor de barriga e metia-me na cama com os meus pais. E quando imaginava que podiam ser eles, agarrava-os com muita força e deixava cair uma lágrima. Às vezes lá percebia que, se é uma coisa assim tão certa, o melhor era não perder tempo a pensar coisas destas e aproveitar. Mas continuava com medo. Quando ia a caminho da escola com a Vera, pela vereda, lembro-me de pedirmos para morrer juntas, porque tínhamos medo de ir sozinhas. Talvez assim doesse menos. Ou fosse menos qualquer coisa. O meu primeiro contacto com a morte foi aos seis anos. A do meu bisavô. Lembro-me que a minha mãe me explicou mais ou menos o que tinha acontecido e eu insisti em ir ao funeral. Lembro-me apenas do veludo preto da saia da minha avó. E de deixar de ver aquele sr. magro e bem disposto que ficava em casa dos avós de tempos a tempos. Seis anos depois, voltou a bater-me à porta. Desta doeu mais. Levou-me um avô que pensava ser meu pai. Que passava quase 24 horas comigo. E que, apesar de eu saber que ele estava a sofrer, me fez ser egoísta e desejar mais um minuto, uns dias, ... uns segundos. Nesse dia jantei com as minhas primas que tudo fizeram para me animar. As minhas tias fizeram-me canja de pombo e arroz, a minha preferida. Mas nada ajudava. Sentia apenas um aperto enorme e uma vontade desesperada de correr para perto da avó e tomar conta dela. Tal como ele me tinha pedido, naquela despedida que eu não percebi que o era. Estava lá deitado na cama. Deixou-me apanhar as moedas que tinham caído para o chão na altura em que tinha trocado de roupa e falou muito a sério para mim. Pediu-me que tratasse bem da avó e que tirasse um curso, porque a loja já não estava a dar. E eu ri-me e disse que não era altura para falar dessas coisas, teríamos muito tempo. Mas não tivemos. Percebi ali que aquele é o tipo de coisas que nunca devemos dizer. Porque não fazemos mesmo a mínima ideia. Ao longo dos anos fomo-nos encontrando mais vezes. Assim, de lado, não directamente, mas deixando sempre mossa. Este ano foi mais dura. Entrou de repente e levou o Tuto. Depois o Ilídio. Depois a Mabília. Assim, sem um qualquer sinal de aviso. Sem se preocupar com os que ficam. Com as lágrimas. Com as saudades. Com a falta. Com tudo o que passou e vai doer lembrar. Com tudo o que ficou por fazer.

 

Hoje voltou a aparecer. E levou o tio Marcelino. Ou o tio Pechincha. Talvez digam que era velhinho. Que teve uma vida cheia. Ainda assim. Vou guardar na memória os almoços de terça-feira na avó Teresa. Aqueles em que ele chegava sempre mais cedo e esperava pelo meu pai sentado no banco da rua. Depois aproveitava para nos contar histórias. Do que fazia com o avô Xico, o mano mais novo. De como era a loja. Da primeira e última vez em que andou de carro. Nesta chorámos a rir. Estava habituado a andar sempre com a sua burrita e a sua carroça. Quando pegou no carro dos pais, numa curva mais apertada, não se lembrou de usar os travões e só dizia "Ió, ió, ió". Mas o carro não foi obediente, como a sua burrita, e acabou por chocar contra a parede. Nunca mais tocou num volante. Mas corria tudo. Lembro-me do meu pai lhe ligar preocupado por não saber dele. Do outro lado do telefone, com uma gargalhada, soltava: "estou no Porto, foi para onde apanhei boleia". Costumava ficar à saída da aldeia, e ir com o primeiro carro que passasse. Normalmente ficava por Vendas Novas, ali nos cafés, com quem aparecesse. À tarde, esperava por outra boleia qualquer. Quando ficava por lá à noite, em casa dos netos, ia até ao Asterix com eles, o "Xarix", como ele dizia. Não havia puto que não o conhecesse. Ou então ficava pela terrinha. Sentado no banco no largo dos cafés. Ou sentado no pequeno muro perto de casa dele. Não era difícil encontrá-lo. Sempre de preto, atento a tudo, com a ajuda da cacheira. Dizíamos: "Olá tio". E ele parava, procurava-nos com o olhar, e dizia sempre: "Olá meninas, 'tão boas? Já lá apareço". Hoje não apareceu. E, quando o foram procurar, encontraram-no caído à porta de casa. Parece que estava ali desde domingo à noite. E que sofreu. Sem que ninguém pudesse ajudar. Não, ela não é justa. Aceito que seja inevitável, que remédio, mas não é justa. Nem nunca a hei-de perceber ou aceitar. Um dia ajustamos contas. Vais ver. Até sempre Tio Pechincha.

Estou:
Lá fora: o barulho das recordações...
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Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

.A (des)ordem da vida

 

 

Todos devíamos chegar a velhinhos. Ser crianças, filhos, depois adolescentes, pessoas grandes, namorados, maridos e mulheres, pais, avós, velhinhos e depois, sim, cair. Esta ordem não devia nunca ser alterada. E este ano isto não pára de acontecer...

Na sexta, quando cheguei de Paris, tinha uma mensagem que dizia apenas "Preciso de ti". Não pensei que fosse tão grave, nem que não pudesse fazer nada para alterar as coisas. Depois de cair de uma escada, a mãe do Carlitos, o meu par do rancho desde que me lembro e o mano mais velho que simplesmente nasceu de pais diferentes, faleceu. Ninguém substitui uma mãe, disso tenho a certeza. Custa-me que não vás ter a tua em tantos momentos importantes da tua vida, mas principalmente no teu dia a dia. O telefonema ao final da tarde, o prato preferido ao fim-de-semana, os miminhos à noite, o "'tou com as gaiatas" tantas vezes repetido... Quero que saibas que, na ausência de uma pessoa tão importante na tua vida (talvez a fruta-mor tenha razão por uma vez e ela esteja mesmo lá em cima a tomar conta de ti), tens aqui duas manas fantásticas. Não menos nem mais do que antes desta perda horrível, mas da mesma maneira de sempre. Para os abraços de sábado, os crepes das tardes de domingo, as conversas na cozinha com a minha mãe, as saídas à noite, as dormidas em Lisboa, os segredos partilhados, os minutos de mal-dizer, as danças só nossas, as paixões contidas, mas também para os momentos de partilha e lágrimas...

Um beijinho enorme da salada mais doce da tua vida [Pêra e Pêssego].

Estou: vazia, mais uma vez...
Lá fora: [silêncio]
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2007

Passa por mim...

 

"Os que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de sim, levam um pouco de nós". [Antoine de Saint-Exupéry]

 

Um dia, há já alguns anos, cheguei à Travessa H.C. pela primeira vez. Os prédios escuros, as pessoas apressadas, o sentimento de responsabilidade. Até aí, Lisboa resumia-se a um deixar o carro no Seixal, apanhar o barco e navegar depois na linha de metro pela cidade. Para a passagem desta Lisboa sombria e desconhecida a uma colorida e amiga, muito contribuiram tantas pessoas que tantas (ou tão poucas) vezes passaram por mim. Mas passaram, e isso deixa sempre qualquer coisa. Uma delas estava lá, no primeiro dia. Nas escadas do n.º15 da Travessa H.C.. Tinha o cabelo branco, óculos e um sorriso contagiante. Falava pelos cotovelos e estava sempre lá, naquelas escadas, com uma piada, um sorriso, um piscar de olho. Dizia a filha: "Não liguem ao meu pai, já está taralhoco!". Acho que não... Era uma pessoa que encarava a vida com um sorriso... E que tantos me provocou. Hoje, está numa cama... Ouço-o gemer e chorar todos os dias e percebo que algum dia temos que nos despedir das pessoas que mais gostamos. Não queria... Não quero. Quero aprender o segredo de não chorar na altura da partida, acreditar que nos espera um sitío bem melhor e guardar com a mesma força e presença todos os momentos bons que passámos com elas. "Até já menina". "Até já vizinho".

 

 

foto: Vanessa Rodrigues

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