Quarta-feira, 24 de Março de 2010

.A Mafalda

Sempre que dizia que gostava de Mafalda Veiga era a mesma coisa. “Mas tu gostas disso?”, “Mas ela tem só uma música ou são todas iguais?”, “Não adormeces?”, “Só pode ser solidariedade alentejana”, coisas assim. Há gostos que tenho perfeita noção de quando entraram na minha vida, do dia, da hora, do momento. Como Florbela Espanca. Era costume os avós e os pais trazerem-me qualquer coisa sempre que saíam da aldeia para uma consulta ou apenas em passeio. Foi assim que aumentei a minha colecção de bonecas de porcelana – que a mana fez questão de destruir por medo e que hoje eu agradeço, e a minha biblioteca. Foi numa dessas saídas que a avó T. me trouxe, de Évora, um livro de sonetos de Florbela Espanca. Estava no 9º ano, tinha acabado de mudar de casa, e, recordo-me, devorei-o na tarde em que o recebi, sentada no chão, encostada à cama de gavetas, com as minhas calças de ganga novas da Lee, uma blusa azul e preta que eu adorava, e os sapatos pretos de ondas da Ocean Pacific. Foi a mesma coisa com Vaya com Dios. Lá estava o cd deles, depois do papel de embrulho escolhido pela avó A. para a noite de Natal. Conhecia uma ou duas músicas, nada mais. Até àquela noite de Natal, em que a mana e eu vestimos saias iguais de cores diferentes compradas na Mexicali com o dinheiro dos mealheiros, e adormecemos a ouvir o cd vezes sem conta. Agora sou viciada, encafuei-os no meu iPod e rogo-lhe pragas de cada vez que vêm cá em concerto e eu não os consigo apanhar.

Mafalda Veiga não sei. Fui coleccionado cd a cd, concerto a concerto, conversa a conversa. Com a minha trupe do costume, a mana, o J., a Su., os C.. A achar piada à partilha da terra, da escola, da Mariazinha que vai lá a casa e que um dia também andou na dela. Mas não sei qual foi o primeiro encontro, por mais que pense nisso. No último cd fiquei um bocadinho desiludida. Como se tivesse o direito de ficar. Confesso que não lhe dediquei muito tempo, que fiquei apenas pelo que o rádio me dava. Não gostei, achei muito comercial, pouca Mafalda. E, pela primeira vez, um cd dela não foi para a minha estante.

Esta semana fizemos as pazes com esta música, que anda em modo repeat no meu iPod. Às vezes, dou por mim a encontrar na escrita de outros, nas palavras de outros, exactamente aquilo que queria dizer e não estava a conseguir. Com a Mafalda é assim. Outra vez. Gosto muito.

 

 

Balançar

“Pedes-me um tempo,

para balanço de vida.

Mas eu sou de letras,

não me sei dividir.

Para mim um balanço

é mesmo balançar,

balançar até dar balanço

e sair...

 

Pedes-me um sonho,

para fazer de chão.

Mas eu desses não tenho,

só dos de voar.

 

Agarras a minha mão

com a tua mão

e prendes-me a dizer

que me estás a salvar.

De quê?

De viver o perigo.

De quê?

De rasgar o peito.

Com o quê?

De morrer,

mas de que paixão?

De quê?

Se o que mata mais é não ver

o que a noite esconde

e não ter

nem sentir

o vento ardente

a soprar o coração...

 

Pedes o mundo

dentro das mãos fechadas

e o que cabe é pouco

mas é tudo o que tens.

Esqueces que às vezes,

quando falha o chão,

o salto é sem rede

e tens de abrir as mãos.

 

Pedes-me um sonho

para juntar os pedaços

mas nem tudo o que parte

se volta a colar.

 

E agarras a minha mão

com a tua mão e prendes-me

e dizes-me para te salvar.

De quê?

De viver o perigo.

De quê?

De rasgar o peito.

Com o quê?

De morrer,

mas de que paixão?

De quê?

Se o que mata mais é não ver

o que a noite esconde

e não ter

nem sentir

o vento ardente

a soprar o coração.”

Estou:
Lá fora: “(…) soubesse eu artifícios de falar sem o dizer (…)”
Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

.Chuva

 

 

No outro dia a M. dizia-me que sou, provavelmente, a única pessoa que ela conhece que gosta de chuva. E gosto mesmo. Ontem deambulei por Lisboa, à chuva, de chapéu fechado na mão, sob o olhar reprovador de quem passava e via os pingos grossos a cair no meu casaco. Fui a pé do centro comercial até à faculdade. De iPod nos ouvidos, e chuva na cara, enquanto olhava para dentro. Liguei aquele modo que me leva ao destino sem que eu perceba como lá cheguei. Andei até estar molhada de mais, se é que isso existe. A verdade é que não conheço nada melhor que a chuva para uma série de coisas. O barulho que reconforta, embala, acompanha. O toque que desperta e lava a alma.
Estou:
Lá fora: "You ain't seen the best of me yet (...)"
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

.Dias

 

 

Há dias em que me pergunto: “L., onde estavas com a cabeça quando voltaste a estudar?”. Ando cansada, já o confessei a mim mesma. Há dias em que não sei como faço o trajecto da minha cama até ao chuveiro. Às 05:45, quando o meu corpo pede só mais 5 minutos, o meu cérebro obriga-se a pensar em todas as razões que tenho para acordar, feliz de preferência. É desses pensamentos que a água que vai caindo me desperta e me lembra o que a noite lá fora teima em esconder: é um novo dia.
 
Quando chego a casa à meia noite, quando perco os comboios e fico à espera tanto tempo sozinha, quando não tenho forças para nada, quando a única coisa que penso é em dormir e não faço mais do que bocejar, amaldiçoo o dia em que me inscrevi nas aulas.
 
Ontem obriguei-me a fazer um exercício: pensar em tudo o que já ganhei desde que voltei a estudar e de que forma isso influenciou a minha vida. E percebi que há mais coisas positivas do que desmotivadoras. Voltar a estudar é, por si só, uma vitória. Penso nas pessoas que gostavam de voltar a fazê-lo e não podem. Conhecer pessoas. Se há coisa que eu gosto, é de pessoas. E tenho conhecido muitas, de várias idades, com histórias de vida e experiências fascinantes. Os professores. É giro não ter de andar com calhamaços atrás, estar ali mais para aprender a experiência profissional e pessoal de cada um do que decorar teorias sem qualquer aplicação prática.
 
Na segunda-feira recebemos um módulo novo, um professor novo. Entrámos na área do protocolo. “Introdução ao Protocolo”. Confesso que, ao início, fiquei irritada com o atraso dele, com a falta de fotocópias. Como é que alguém assim podia dar aulas de protocolo? Talvez estivesse irritada por estar a faltar a uma coisa importante, ao aniversário da avó do C. que completou 85 anos. Mas fiquei na aula e resisti mesmo depois de um intervalo de 30 minutos.
 
Ontem voltou a ter aula connosco. E voltou a chegar atrasado. Foi um dia mau no trabalho: más notícias nos jornais, acidentes, tudo aconteceu. E senti que precisava mesmo daquela aula, daqueles colegas, de uma coisa diferente. Por isso resolvi não me irritar e absorver o máximo daquela aula. E consegui. Ou tentei. Porque me irritei a sério com o burburinho de algumas colegas. Ver algumas delas a folhear livros, a estudar para o exame da próxima semana, a não ouvir o professor nem a responder quando ele lhes falava, deixou-me um bocadinho irritada. Soou-me a desrespeito. Por ele e por nós. Depois do intervalo, tal como na aula de segunda-feira, o número de pessoas ficou reduzido a metade. Perderam o documentário sobre a organização da visita da rainha, os convites verdadeiros enviados pelos Gabinetes do Presidente da República, do Primeiro-ministro, dos vários Ministérios. Perderam as histórias engraçadas, o que se faz quando tudo se altera à última da hora, os desvios ao protocolo. Eu ganhei tudo isto.
 
Quando o relógio bateu as dez, fiz o de sempre: peguei nos saquinhos, iPod nos ouvidos, e corri para o metro. Perdi-o por segundos, mas talvez tudo tenha mesmo uma razão de ser. Pouco depois, chegou ali o professor com uma colega minha de turma. Ela saiu mais cedo, mas ele continuou comigo até quase ao final da linha. Parecia-me desiludido, inseguro, com a cabeça escondida entre o cachecol. Perguntou-me o que tinha achado da aula, que nunca tinha tido tão pouco feedback de uma turma, que sentiu que metade das pessoas não o tinha ouvido e a outra metade tinha desistido. E eu, peguei num bocadinho das últimas forças que me restavam (não todas, porque ainda faltava correr para o comboio), e disse-lhe que sim. Que tinha gostado. Que achava muito interessante. Que me seria muito útil no trabalho. Que na primeira aula tinha faltado a uma coisa muito importante para estar ali. Que acordar cedo e chegar tão tarde a casa não me tinham impedido de marcar presença mais uma vez. Que ele não se preocupasse que provavelmente aquelas reacções eram justificadas pelo cansaço e pela proximidade do exame. Nunca me tinha imaginado assim. A animar um professor. Mas valeu a pena, porque, antes de ele sair, consegui ver um sorriso.
 
Entretanto a paragem dele chegou. “Tem cartão?”. Cartão? Peço desculpa, não estou a perceber. “Cartão pessoal, com contactos”. Percebi então que não estou assim tão crescida quanto pensava: não tenho um cartão pessoal. Não, não tenho. “E como é que se chama?”. L. P.. “Não me vou esquecer de si”. Eu também não.
 
E depois foi tudo igual. Saí em Santa Apolónia, corri para o comboio e não consegui adormecer em toda a viagem. Fui passando as músicas do iPod, sempre em modo aleatório, até encontrar as que mais gosto. Hoje voltei a desligar o despertador às 05:45. A desejar só mais 5 minutos. A encontrar-me debaixo do chuveiro perdida em mil pensamentos com um só objectivo: convencer-me que este dia vai valer a pena.

 

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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

.Banda sonora

Gosto de imaginar a minha vida com banda sonora. Como se fosse um filme. Tenho músicas mais generalistas: para os momentos tristes, para os momentos alegres, para os momentos a sós ou para aqueles com muita gente. Depois tenho outras para momentos mais específicos, como atravessar a estrada, entrar em sítios com muitas pessoas, dar um simples abraço ou um beijo sentido. Tenho músicas para pessoas e para sítios. Tenho outras que dão para tudo. No meu iPod, disponíveis a qualquer momento.  Músicas que gosto de imaginar como pano de fundo para a minha história. Para o meu filme.

 
São estas:

 

 

 

Lá fora: os professores falam, falam e falam...
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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

.4 meses, 3 semanas e 5 dias

elotopia.net
 
Continuo a pensar que devo ter feito alguma coisa muito errada numa vida anterior. Perdi o meu iPod. E acabo de estabelecer um novo recorde: 4 meses, 3 semanas e 5 dias. Eu, que abro a mala dezenas de vezes antes de sair de qualquer lado para ver se lá está tudo, perdi o meu iPod. Algures entre o comboio e a minha casinha. Nem aqueceu o lugar. Depois de uma semana que teve tanto de boa como de má, pensei que merecia algum descanso. Mas enganei-me. Talvez tenha sido por causa da joaninha. No que toca a estas coisas, tenho um azar que aumenta exponencialmente a cada dia que passa… Ou a cada novo gadget que passa pelas minhas mãos. Ainda há menos de duas semanas deixei cair o telemóvel no chão do hospital e lá se foi o ecrã. Com ele foi-se também o meu espectacular telemóvel cor-de-rosa, todas as mensagens que tinha religiosamente guardadas, todos os contactos que estavam nele, todas as notas que orientavam a minha vida ao pormenor, ouso até dizer, toda a minha vida. Pensava eu, até hoje. Porque hoje é que ela desapareceu.
Há cerca de 4 anos, tentava eu ligar para a minha mãe enquanto atravessava a estrada no Campo Pequeno, deixei cair o telemóvel. Já estava no passeio, mas claro que ele bateu exactamente no vinco e, puf, saltou para o meio da estrada, onde vários carros lhe passaram por cima enquanto o vermelho não caiu. Resultado: ecrã partido. Os papás vieram do Alentejo de propósito e ofereceram-se um igual. Que eu fiz questão de deixar no mesmo estado, dois dias depois, ao cair da mesa-de-cabeceira enquanto eu tentava desligar o despertador. Tenho azar. Ou isso, ou fui realmente muito má numa outra vida.
Estou triste. Muito. Com aquela sensação “estrago-tudo-onde-toco”. Por isso, aqui fica um apelo sincero aos utentes da linha da Azambuja: caso tenham encontrado um iPod nano verde, giríssimo, com capa verde e cheio de músicas espectaculares, é meu e era tão bom que mo devolvessem. E até podemos combinar, sei lá, uma recompensa. Estou disposta a tudo, perder duas vezes a vida em tão pouco tempo é mau demais. 4 meses, 3 semanas e 5 dias. Uma má média. Até mesmo para mim.
 
Ps: não sei se isto abona a meu favor, mas entreguei sempre tudo o que encontrei e não me pertencia. Telemóveis, leitores de mp3, até uma nota de 20€ entreguei ao revisor. Hum, mentira. Há um telemóvel perdido nas gavetas do trabalho que encontrámos no meio da relva, eu e a R.. Ligámos para os únicos dois números da lista a explicar o sucedido e nunca ninguém ligou de volta. Até que acabou por ficar sem bateria e por ali ficou.
 
Ps2: Não quero que ninguém me ofereça um novo iPod. Nem um novo telemóvel. Já todos percebemos que é uma grande responsabilidade. E que eu não tenho mãozinhas para isso. Ou tenho. Durante 4 meses, 3 semanas e 5 dias.
Estou:
Lá fora: [silêncio]
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Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

.Amor é... (II)

 

 

 

 

Afogar o iPod depois de entornar meio litro de água na mala no meio do metro de Lisboa (- Menina, está a sair qualquer coisa da sua mala) e, dois dias depois, acordar com um "rasto" de capas de iPod de todas as cores que me conduziram a um novinho em folha... Verde. Voltei a ter vida. É amor.

Estou: verde
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Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

.iPod

 

Tenho uma paixão visceral (gosto desta palavra) pelo meu iPod. Em tempos cheguei a confundi-lo com a minha vida. Agora já nos distinguimos mais. E até chego a deixá-lo numa das malas espalhadas lá por casa até a saudade se tornar insuportável. E acabo sempre por ir buscá-lo. Porque me faz sorrir, porque me faz chorar, porque me dá confiança para ir no comboio, no autocarro ou atravessar a estrada sozinha. E porque ele me conhece como ninguém. A mim, aos meus vícios, às minhas fraquezas, aos meus truques, aos meus desejos, aos meus amuos, aos meus momentos bons. Sabe, melhor que ninguém, que apesar de eu saber perfeitamente que musica quero ouvir, insisto em clicar em “música aleatória”. Porque é aqui, só aqui, que gosto de ser surpreendida. E ele sabe fazê-lo também melhor que ninguém. É por isso que, enquanto rodo o dedo em busca da minha nova paixão, ele faz saltar do chapéu uma antiga, ali, no momento exacto para o reencontro. Hoje, estamos em sintonia outra vez. Basta ir a musica>listas>recently played. E lá estão elas. As duas. As preciosas. As que me fazem voltar atrás sempre que terminam. As dos sonhos, dos momentos bons. As que me fazem fechar os olhos quando vou na rua e sorrir enquanto sinto o sol na pele. E vai ser assim (como em tudo), até uma nova paixão aparecer. Mas, hoje, somos só nós. Eu e o meu iPod. E elas as duas.
 
“All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am
But these stories don't mean anything
When you've got no one to tell them to
It's true...I was made for you
(…)
You see the smile that's on my mouth
Is hiding the words that don't come out
And all of my friends who think that I'm blessed
They don't know my head is a mess
No, they don't know who I really am
And they don't know what I've been through but you do
And I was made for you...”
(The Story – Brandi Carlile)
 
“I walked across an empty land
I knew the pathway like the back of my hand
I felt the earth beneath my feet
Sat by the river and it made me complete
 
Oh simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin
(…)
And if you have a minute why don't we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?”
(Keane - Somewhere Only We Know - versão demo)

 

Adenda 1

E como ele se esforça para me ver feliz. Lá ia eu, a caminho do Colombo depois de almoço, com os phones nos ouvidos, clico em "músicas aleatórias" e, logo ali no número seis, lá estava ela. E a 7ª? A outra. Perfeito.

Estou: cansada
Lá fora: está cinzento, cinzento...
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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

.Encosta-te a mim

 

Ontem voltei a andar de comboio . Não o fazia há muito tempo. Olhar as pessoas, inventar-lhes vidas, histórias, sentimentos. Ouvir conversas alheias, ver a paisagem de fugida, ouvir música sem preocupações. Com os phones nos ouvidos e a música que mais gosto a soar baixinho ao longe, para não me distrair de tudo o que tinha tão perto. De repente, percebi que estava a passar todas as músicas à frente... nenhuma me agradava, já estava cansada de tanto as ouvir. Então, obriguei-me a fazer um exercício mental: voltar atrás, ao tempo em que elas me diziam alguma coisa. Obrigar-me a ouvi-las e a pensar porque é que algum dia tinha sido tão bom fazê-lo. Àquelas e a outras que, com o passar do tempo, fui apagando do meu leitor de mp3 , depois do computador e mais tarde da minha vida. E a outras que, apesar de nunca terem lá entrado, me marcaram a memória a ferros.  "Do you have the time , to listen to me whine , ..." e imagino-nos no autocarro, eu e tu Tuto , a caminho das nossas visitas de estudo. A partilhar o banco, a música e o nosso leitor de CDS ultra moderno. "My dream is to fly, over the rainbow , so high " - nós as quatro, com a minha mana e a Joana, a dançar até não poder mais no Buddha . Começo a pensar noutras... Tayti, sim, as festas na terrinha. Eu e a Carolina ao rubro a dançar em cima das cadeiras, sob o olhar reprovador do Tuto e do Rui. "Quero o meu primeiro beijo, não quero ficar impune", o nosso primeiro beijo Carlos, que como o dos meninos da música também sabia a chicla de mentol. A música que teimava em tocar vezes sem fim pelas colunas espalhadas na aldeia durante as festas. "Não percas tempo, o tempo corre, só quando dói é devagar, ...". Ouvir Mafalda Veiga, deitada na relva de Évora, com a Susana e o Jorge. Ou ouvi-la pelo telemóvel, em tantos outros concertos que não pude estar presente. "I can feel it ...", as noites passadas na Worten com as gargalhadas da Inês, a timidez do Fred e a cumplicidade do Marco. Tantas da Shakira ... Eu a dançar em frente ao espelho com a minha mana. Pink Floyd ... a sair dos velhos discos dos meus pais e eu, pequenina, a dançar em frente à enorme aparelhagem e a tentar falar inglês. Durante umas explicações de filosofia, alguém me disse: "escuta esta". Atenta, começo a escutar, "Sim, o amor é vão, É certo e sabido, Mas então (porque não) porque sopra ao ouvido, O sopro do coração, ...". Um sinal? Não, nunca poderia sê-lo. "Amo a Laura, ...", o meu sofredor estágio na SIC. "Mona Lisa, Mona Lisa, ...", as minhas férias em Paris. "Nos caracóis tu atas uma fita e ficas tão bonita quando a dançar", as saídas do rancho, as danças com o Carlitos e com tantas pessoas que assistiam e ousaram experimentar. "Eu sou um quadrado, bonito de mais, tenho quatro lados e são todos iguais", a Matilde a cantar para o meu novo toque de telemóvel. "I can get no satisfaction...", eu e o Francisco, aos gritos, a tentar acompanhar as "Pedras Rolantes". Sucedem-se na minha cabeça a uma velocidade vertiginosa . E, por momentos, desejo tê-las todas ali. As músicas, as pessoas, os momentos... Ouço uma pequena música vinda das colunas do comboio (também esta me lembra tantas viagens, tantas esperas e partidas), e depois a voz de alguém, "próxima paragem: VF ". É a minha. Lá fora, ouço a música da vida: o vento que passa por mim, um pássaro que canta, os passos apressados das pessoas, o apito do comboio, os carros, as gargalhadas. Fecho os olhos, deixo o meu iPod escolher sozinho o que vou ouvir e deixo-me ficar ali. Alguém me apita, entro no carro e na rádio anunciam a nova música do Jorge Palma, "Encosta-te a mim". Também eu me encosto a quem me conduz e volto a fechar os olhos com muita força. Sim, é este o momento que eu quero que esta música guarde e faça renascer em mim sempre que lhe apetecer soar por ai...

Estou:
Lá fora: a música da vida
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