Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

.Pessoas

Fui jornalista durante pouco tempo – nem carteira cheguei a pedir, mas deu para perceber uma coisa: se pudesse, escrevia apenas sobre pessoas. Lembro-me de uma vez, enquanto estava a trabalhar nas revistas dos barcos, ter ido entrevistar um casal português que vivia num barco com os dois filhos menores, os únicos portugueses que já tinham dado a volta ao mundo de barco por duas vezes. Adorei conhecê-los, conhecer aquelas histórias que nunca me atreveria a viver. Escrevi um artigo que achei, modéstia à parte, realmente bom. Os colegas que leram gostaram bastante e o pai do meu chefe da altura, um senhor exigente que nos corrigia os artigos, chegou a ligar-me para elogiar a escrita, o encadear das histórias – disse-me que tinha sido um dos melhores artigos que já lera sobre o assunto. O pior foi quando o chefe me chamou à sala para falarmos sobre o artigo e rasgou as folhas à minha frente. Afinal, o que era aquela porcaria? Os leitores queriam saber que avarias enfrentaram, como tinha reagido o barco, como funcionaram as velas, e coisas assim. Saber como tinham aulas os miúdos? Quem eram os amigos? Como se encontravam? Como se passavam 24 horas num barco sem se cansar? Isso não interessava para ninguém. E lá voltei eu a Cascais, à conversa com eles, para poder então escrever o artigo que interessava ao meu chefe e aos leitores da revista, mas não a mim. Talvez tenha sido nesse dia que percebi que nunca ia chegar longe no jornalismo – moldei o artigo a mim, àquilo de que gostava – as pessoas, quando, afinal, não era isso que devia ter feito. Mas é possível ser-se jornalista sem deixar uma marca pessoal?

Na minha terra, há já algum tempo, formaram uma associação de jovens. Não faço parte, limito-me a participar em algumas das iniciativas e, ainda que não seja próxima de todas as pessoas que a compõem, tenho muito orgulho delas. Porque, continuando algumas pela terra ou só estando nela ao fim-de-semana, tiveram a coragem de se juntar para lutar por qualquer coisa. Organizam torneios de tudo e mais alguma coisa, fazem festas, passam filmes, reivindicam – e tudo isto me parece muito bem. Não há muito tempo passaram a ter também um jornal e convidaram-me agora para escrever qualquer coisita para lá. Não demorei muito a escolher o tema – pessoas. Cada uma desta aldeia deve ter uma história gira para contar, uma lição para ensinar, um gesto que faça rir. E o melhor é aproveitar agora, enquanto ainda estão cá, e registar e dar a conhecer este património da aldeia.

Para primeira edição escolhi uma pessoa que toda a gente conhece, o senhor M.C.., o jornalista da terra. Não se formou na área, mas poderia muito bem formar gente. É ele que todos os meses escreve as novidades da terra para o jornal do concelho, e nem a doença o impede de continuar a fazê-lo.

Tirei o dia de férias e estou pela minha aldeia. Ontem tive o melhor feriado possível – em casa, com os pais, a mana e os respectivos apêndices, à volta do lume, com comida, jogos e muita  conversa. Agora estou sozinha em casa, a mãe está a trabalhar na loja, o pai foi à lenha com o Z., a mana foi com o namorado a V.N. arranjar os pneus da carrinha do pão que já teve dois furos hoje. Estou a ganhar coragem para sair de casa e ir bater à porta do senhor M.C.. Falamos muito quando nos encontramos por acaso, ele até veio visitar o pai quando foi operado, mas desta vez é diferente. Primeiro porque não entrevisto ninguém há muito tempo, depois porque acho que é sempre melhor que nos contem coisas porque querem e não só porque perguntamos. Vou tomar um banho bem quente, ligar o rádio que tanto orgulho dá ao pai, e começar a pensar no que lhe vou perguntar daqui a instantes. O medo há-de passar quando lá chegar, ou não fosse eu a L. de sempre – quando a conversa começar o difícil vai ser parar. Ou não fosse este o meu tema preferido de todos – pessoas.

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

.Partilha

Não sei se é de mim ou dos outros, mas ultimamente não é fácil agradarem-me nem eu agradar a alguém. Não nos contentamos com pouco, queremos tudo. Partilhamos o que nos vai cá dentro. Mas o tudo está sempre a mudar.

 

Vim para casa fazer bolo de laranja com sementes de papoila, que ficaram espalhadas por todo o chão. Precisava deste conforto. Cheira bem aqui. Neste sítio onde já não tenho vontade de ficar, que já mal sinto como meu. Tenho vontade de voltar a arrumar tudo, mas ainda é cedo. Já está pronto. Trinco as sementes. Gosto disto. No pão, no chocolate, nos bolos, gosto de qualquer coisa para trincar. É por isso que a mãe mete nozes na mousse e amêndoas no salame. A mãe, que sabe tudo, mesmo sem que eu o partilhe, e que talvez por isso já me tenha ligado hoje mais do que o normal. Aconchego-me no beijo que me dá de despedida, enquanto me diz que estou sempre a fazer coisas estranhas na cozinha e que me vai dar a forma de silicone que não teve coragem de estrear. O telemóvel não tem mais nada [queremos sempre mais]. Volto ao sofá, à minha série, com a minha fatia de bolo. Olho à volta, volto a trincar mais uma semente. Ninguém para partilhar.

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

.Hoje (nestes dias)

L. não saias de casa com a cabeça molhada. L. sai do sol que faz tão mal. L. assim ficas doente. L. … E uma vez mais, entre tantas recomendações, a mãe tinha razão. Dei por mim doente logo no início da semana. A noite de segunda para terça foi passada de olhos abertos, com a febre a fazer-me alternar entre frio de bater os dentes e calor de ananases, e com o meu estômago a recusar tudo o que eu lhe oferecia. Foi assim que passei o dia de terça também, com umas olheiras de todo o tamanho, com o corpo a não deixar o sono levar a melhor, deitada sem me mexer muito. Queria dormir e as preocupações, e a doença, e o mau estar, a tomarem conta de mim. As cores, os materiais, o dinheiro, as contas, os planos por organizar não me saíam da cabeça. Gosto de ter tudo organizado. Tenho um documento desde 2007 com todos os meus movimentos bancários registados, com a descrição de todas as despesas, com todos os gastos anotados. As tarefas têm outro documento só para elas e todo o santo dia o meu telemóvel toca com lembretes do género “estender a roupa”. Gosto da minha vida organizada. Não gosto de surpresas.O simples facto de não saber para que data marcar uma mudança, que despesas vou ter no mês seguinte, se vou perder ou não todas as minhas poupanças com uma venda que já se atrasa há um ano, estão a tirar-me o sono e o sorriso. Ontem, para compensar todas estas preocupações e outras tantas que não são para aqui chamadas (L., não devias partilhar toda a tua vida naquela página), quis gelado de chocolate belga da Häagen-Dazs, o meu preferido. Tive uma vontade tão, mas tão grande que lá abdiquei dos 6€ a bem da minha satisfação momentânea (L. não sejas assim forreta – só a roupa é que te faz gastar dinheiro). E ainda bem, ou hoje não teria como afogar as mágoas ao ler as notícias sobre o que aí vem – já sei que esta coisa de não ser funcionária pública para umas coisas mas ser para outras, as más, me apanhou agora em força. A modos que ando assim. Com apertos e dores estranhas. Com insónias e preocupações. A tentar dar lugar às boas notícias, que também as houve. E à espera. De chegar ao meu sofá para devorar o que sobrou do meu gelado, do fim-de-semana inteirinho com os pais, que outros tomem finalmente decisões, que as obras comecem para começar também mais uma mudança, que tanta coisa aconteça para que me possa organizar então. À espera de outros dias, de outras coisas (melhores). O hoje, destes dias, não me chega. Porque estou assim, nesta indefinição. Fora de combate, como na música que me aquece por estes dias. Hoje (nestes dias) não me recomendo.*

 

“Não queiras saber de mim

Esta noite não estou cá

Quando a tristeza bate

Pior do que eu não há

Fico fora de combate

Como se chegasse ao fim

Fico abaixo do tapete

Afundado no serrim

 

Não queiras saber de mim

Porque eu estou que não me entendo

Dança tu que eu fico assim

Hoje não me recomendo

 

(…)

 

Amanhã eu sei já passa

Mas agora estou assim

Hoje perdi toda a graça

Não queiras saber de mim”

 

*Não fiques triste com este post. Sabes bem quais foram as partes boas destes dias. E estavas em todas. Nas más também.

L. às 12:45
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

.Só

Há teorias que vou ouvindo por aí e que me fazem tanto sentido que resolvo agarrá-las para mim também - mas a referência à fonte nunca é esquecida. Esta pertence à Ve.-do-cabelo-curto – que agora já é comprido, ou do-piercing. Tinha de a tratar assim por existirem duas Ve. na minha vida, e nem sempre as pessoas percebiam de quem estava eu a falar. Esta Ve., a do-piercing (a outra já falei dela aqui), sempre teve umas teorias muito engraçadas. O tempo foi apagando muitas delas, já não falamos tanto quanto gostaria, e já vão longe os tempos em que partilhávamos as mesmas salas de aulas no secundário. Ficou-me esta: “Mais vale mal acompanhada do que sozinha. Não há nada pior do que solidão”. Eu estou habituada a pessoas. Desde que nasci que ia para a loja assim que acordava, que fazia sestas entre as voltas da farinha ou do pão, que aprendi a estudar no meio do barulho por não gostar do silêncio, que ligo a televisão ou o rádio assim que chego a uma casa vazia, que detesto estar sozinha, que faço tudo por uma companhia e chego a dormir de luz acesa quando não há mais ninguém em casa. Encaixei-me nas palavras dela, vi que estava certa. Mas a mãe sempre me disse “todos precisamos do nosso espaço e da nossa solidão”. E talvez tenha chegado a minha hora de o perceber. Esta semana estou a fazer um horário que me permite sair às 15:30. Assim que posso, entro no carro e sigo, sozinha, até à praia mais perto do trabalho, em Paço de Arcos. Já gostei muito de praia, já gostei pouco, e este ano dei por mim a sentir mesmo falta dela, talvez por não ter podido ir tantas vezes. Como companhia levo apenas a toalha, o iPod e o livro do Haruki, a quem abri a porta mais uma vez. O ritual tem sido o mesmo todos os dias: chego, estendo a toalha, corro para um banho capaz de refrescar até os pensamentos mais negros, e depois volto à areia, para alternar entre a leitura, a música, os pensamentos soltos e as pessoas que me rodeiam. Ali, perdida na areia, tenho descoberto o prazer de estar sozinha. E hoje, enquanto espero ansiosamente pela hora de saída para repetir todos estes passos, penso em como meter conversa com a Ve.-do-piercing. Quero dizer-lhe que me lembrei dela, que tenho saudades da boa disposição que trazia todos os dias, das férias sem pais no Algarve e dos tempos que partilhámos juntas. E que, às vezes - talvez mesmo só às vezes, a teoria dela está errada. Às vezes - talvez mesmo só às vezes, estar sozinha é muito melhor do que estar mal acompanhada.

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

.Considerações finais

Já trabalho há alguns anos e o começo foi duro – entre outras coisas más, os recibos verdes só permitiam uma semana de férias por especial favor. Agora, com cerca de um mês para tirar, trato sempre estes dias com muita estima, e faço por dividi-los da melhor forma pelo ano inteiro. Nada de três semanas seguidas (esta modalidade em que nos inseriram só tem mesmo isto de bom), que intervalado é muito melhor. Estive uns dias de férias, por Londres e no Andanças, voltei ao trabalho, depois fui para a Curia, voltei a trabalhar esta semana, e na próxima volto a estar de férias. Já tive passeio, descanso, agora quero Alentejo e praia. Vou aproveitá-los bem, porque as próximas férias são só depois do Natal – vamos conhecer Barcelona. O .se perguntarem por mim digam que voei também vai de férias, para se despedir desta espécie de Verão. Voltamos dentro de uma semana.

 

L. às 14:59
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Sexta-feira, 29 de Julho de 2011

.'Bora lá

Conheci Londres há já muito tempo. Tinha acabado de chegar à escola nova, no 9º ano, quando a professora de inglês nos lançou o convite. Tínhamos tantas tarefas entre mãos (reuniões, angariações de dinheiro, convencer os pais, …), que achei que seria uma missão impossível. Quando dei por mim no avião ao lado do Tuto nem acreditei muito bem. Foi assim que me estreei nas viagens de avião, numa espécie de viagem de finalistas – eu, que era nova ali; com os colegas do 9º ano. Foi uma semana muito intensa. Ficámos divididos em casas de família e logo aí tivemos a primeira surpresa. Os colegas contavam-nos sobre as famílias divertidas que lhes tinham calhado em sorte, com pizas, idas ao cinema, passeios pela cidade. Eu e as minhas três colegas de casa engolíamos em seco: estávamos desterradas num sótão, com cancelas e cadeados em todos os andares, portas com três fechaduras e permissão para entrar apenas em três sítios: quarto, casa-de-banho e copa (nada de levar o prato para a cozinha depois de terminada a refeição, éramos brindadas com um olhar fulminante). Trancávamos a porta também, não fosse o filho da dona da casa – rapaz que se apresentou de toalha à cintura, sem pele que se visse entre tantas tatuagens e piercings, nos atacasse. Pior do que tudo isto era a comida. O nosso primeiro pequeno-almoço resumiu-se a um ovo cozido e uma caneca de chá ou café. Num dos primeiros jantares tivemos de mentir e dizer, no nosso inglês aflito, que já tínhamos comido qualquer coisa na rua: duas batatinhas cozidas às 16:00 (disse ela), uma fatia de queijo e uma de tomate não nos seduziram. E lá veio novo ralhete. Não sabíamos se devíamos chorar ou rir (não percebíamos metade do que dizia, era qualquer coisa como falta de responsabilidade, tinha ela preparado aquilo para nós às 16:00…). E fomos para o castigo, o nosso espaço – ou o único onde podíamos estar longe dela. De Londres recordo bem duas coisas: a amizade que cresceu entre todos, e a falta de sol. Não dava para fazer a fotossíntese, não dava para animar, era um céu carregado em cima de nós dia e noite (acho que ainda hoje vejo no céu de Londres a cara da senhora a ralhar connosco). Lembro-me da visita ao Sega World, da descida rápida num aparelho qualquer da Pepsi (tenho uma foto em que só não se vêem as minhas amígdalas porque já as tinha tirado), do porta-chaves que comprei com a minha fotografia, do vidro da montra que se partiu mesmo à nossa frente, do melhor cachorro que já comi comprado numa rua com modelos humanos nas montras a um senhor que adorava Lisboa, do dia em que deixámos a escola inteira à espera no comboio porque ninguém nos avisou que a hora mudava e ganhámos uma viagem a velocidades indescritíveis pela cidade com o guia, dos tops que todas comprámos iguais, da estátua dos leões a que subi para tirar uma foto para dar ao pai (e as dores que senti nos pés quando saltei de lá), da bola de futebol que uns senhores de barco na Serpentine nos devolveram (tenho uma foto no meu quarto nesse mesmo sítio), de um colega ter ficado para trás no metro e o pânico se ter instalado, de ter enjoado o McDonalds por ser quase a única coisa comestível. Mas, do que nos lembramos todos ainda melhor, é da noite passada no aeroporto. Ninguém contava com o acidente na auto-estrada, nem que o piloto não nos deixasse entrar depois do nosso pequeno atraso. Chorei nem sei bem porquê – talvez porque sou mesmo chorona, de mão dada com o Tuto, enquanto tentava ligar para avisar os pais. A verdade é que este talvez tenha sido o melhor momento de Londres: passar a noite naqueles bancos (confortáveis, não como os de Paris, onde se dorme muito mal – por experiência própria), tirarmos fotos uns aos outros a dormir de boca aberta ou em poses mais impróprias, ver a V. comer um Big Mac às 04:00 da manhã, fugir de polícias por jogarmos à bola nas escadas rolantes, tirar fotos em todas as máquinas disponíveis pelo aeroporto enquanto tivemos libras, marcou-nos mais, aproximou-nos mais. Fazendo contas, conheci Londres há 13 anos atrás. Está mesmo na hora de voltar lá. Depois do mau tempo, da greve dos senhores espanhóis, das ameaças da TAP, parece que é mesmo hoje. O roteiro está feito, quase todo gratuito. Já está tudo enrolado na mochila e os líquidos divididos pelos frasquinhos de 100ml, nada de bagagem de porão, porque tempo é coisa que nos falta e vale libras. Eu e o Z. voltamos ao ar hoje às 19:30. - Não saltes desta vez L.-inha!, diz-me o senhor Viseu enquanto me deseja boas férias. Não, desta vez é mesmo até Londres. ‘Bora lá.

 

 

Volto na terça à noite, e na quarta de manhã sigo logo para o Andanças, em São Pedro do Sul, até sábado, com um grupinho bem bom. Como me dizia o rádio do meu popó há pouco, “o que faz falta é animar a malta”. ‘Bora lá.

 

Deixo por aqui a banda sonora dos meus pensamentos dos últimos dias, que tem tocado em modo repeat aqui no estaminé desde que a A. anda a treinar para o concerto de logo à noite (aqui não temos acesso ao YouTube, peço desde já desculpa se as imagens que acompanham o som forem muito más ou pirosas):

 

Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

.Best of

Recebo os alertas de novo comentário no blog através do email. Assim que os vejo chegar, com o separador laranja, fico logo ansiosa. O que é que eu terei escrito que levou alguém, que muitas vezes nem me conhece, a querer partilhar alguma coisa comigo? Não consigo deixar de ficar contente por isso. E, pela terceira vez desde que nasceu o .se perguntarem por mim digam que voei, recebi um do Sapo, a dar nota do destaque na homepage. Caramba, pensei eu, logo agora que ando tão desinspirada. Comecei então a pensar em tudo o que já escrevi nestes últimos 4 anos, e tive vontade de partilhar alguns dos posts que mais me marcaram. Foi um trabalho difícil, quase não resisti a colocá-los quase todos. Não foram todos importantes no momento em que os escrevi e partilhei? Foram. Uns para sempre, outros apenas naquele instante. Mas o meu blog é isso mesmo: importante para mim. Ou melhor, sou eu. Aqui fica a minha espécie de best of, ou um resumo de mim, com os cortes a que o tempo presente obriga.

 

Ficas comigo...? 

.Se perguntarem por mim digam que voei

.Hoje

.Da minha janela

.Salto e bico, 1, 2, 3

.Dois palmos

.Miúda

.Anjo da guarda

.D. Maria

.Tatuagem

.A Casa Silva

.Contributo

.Mentiras, probabilidades e borboletas

.A sul da fronteira, a oeste do sol

.25

.A desejo

.Destino

.Falar

.A mAna Luísa

.Caracóis

.Luz

.

.Eu

.5 estrelas

.Puzzle

.Uma vez, uma vez boa

.Sítios (o fim-de-semana das amigas para mim)

."Não há nada mais raro no mundo do que uma pessoa que possamos suportar sempre"*

.No céu

Todos daqui: Vidas

 

 

Lá fora: "É a crise."
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Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

.26/27

Amanhã faço anos outra vez. Desde a última vez que o fiz aconteceram tantas coisas! Se naquele dia me dissessem como ia estar a minha vida neste momento talvez não tivesse acreditado. Talvez me imaginasse menos forte, com menos coragem, menos certezas, menos eu. Passou um ano. E mudou tanta coisa, fiz tantas coisas novas, encontrei um normal-bom. Um dia, há alguns anos atrás, sonhei que tinha 27 anos e acordei mesmo assustada. Ainda faltava tanto… Agora é já amanhã. E se, por um lado, é uma entrada estranha, por outro não posso deixar de dar razão ao parente Senaita, envelhecemos mesmo a desejo. Queixo-me que já são tantos, e o primeiro desejo ao morder a vela é que os primeiros doze dias de 27 anos passem a correr. É aí, no final desses dias, que se volta a compor o quadro que me deixa da maneira que estou hoje e vou estar amanhã, na entrada dos 27. Com medo de o dizer, não vá a pintura estragar-se, mas a senti-lo. Estou bem, estou feliz.

 

E agora vou ali fazer brownie de chocolate com nozes para amanhã, e gomas para o Z. levar para o mato. Pelo meio há jantar romântico, ainda com a ementa por escolher. Ontem almoçámos os peixes que pescámos juntos. E foi bom. Na despedida dos 26, é assim mesmo que estou. Em modo bom, estou feliz.

Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

.Revista de Imprensa

Os custos do amor

por Miguel Esteves Cardoso, Jornal Público

 

 

Helena Sacadura Cabral. "Em quem eu voto é o grande segredo da minha vida"

por Vanda Marques, Jornal i

O pré-aviso chega por telemóvel: Helena Sacadura Cabral não se sente muito bem. Na manhã da entrevista a tensão arterial rondava os 19 valores, efeitos do calor e da campanha eleitoral, deduzimos. Mesmo assim não desmarcou a entrevista. Íamos preparados para receber uma quota mais reduzida de gargalhadas e um sentido de humor mais contido. A escritora, pilota de aviões, economista, professora, e mãe dos políticos Miguel e Paulo Portas, provou que estávamos errados. Numa conversa sem tempo limite falou dos livros, dos filhos, da economia e da herança de Pedro Álvares Cabral.

 

Tem mais um livro novo.

Vocês devem pensar que estou transformada numa fábrica de fazer livros. Em oito meses foram cinco ou seis já nem me lembro. Vou lhe explicar. Quando tive conhecimento da doença do meu filho mais velho [Miguel Portas, que foi operado a um cancro no pulmão] julgo que teria duas possibilidades de me aguentar firme. Uma seria tomando os dispositivos clínicos necessários, tranquilizantes e isso, outra seria embrenhar-me no trabalho que é sempre uma cura vital. Portanto, embrenhei-me no trabalho. Como sou economista, o custo-benefício de gastar dinheiro em medicamentos sem garantias, não compensava. Depois achei que a família ia precisar que eu estivesse, como estou sempre, forte e resistente. Aqui tem a razão para ter publicado tanto.

 

No livro "Caminhos do Coração" mistura viagens verdadeiras com ficção. Foi fácil?

Devo dizer, isto é uma vergonha mas é a verdade, que nunca tive o drama da folha branca. Naturalmente o que eu escrevo não presta para nada e talvez seja rigorosamente isso. Quando me meto ao computador desaparece o que tenho à volta. Nem sequer altero muita a escrita que é bem coloquial. O meu interesse é ser percebida. Não pelos intelectuais que não me encantam particularmente.

 

Porquê?

Acho que olham muito para o seu umbigo. Falam de um povo que não conhecem, com quem não falam, que só olham através de estáticas. Eu sou portuguesa ferrenha e divirto-me a ver as pessoas a conversar na esplanada, no eléctrico, são a marca do povo a que pertenço. Os políticos, como é público, não me interessam particularmente, o discurso deles menos um pouco. O que me interessa é fazer-me entender por pessoas que vivem experiências novas com o que eu escrevo ou que reconhecem os seus problemas, experiências, nas minhas. Ainda hoje tive uma senhora escreveu no meu blogue: "Leio o que escreve quando estou muito em baixo e isso ajuda-me".

 

Escreve sobre coisas tão diferentes como receitas e menopausa. Como decide?

São as coisas que eu gosto e estou me borrifando. Se fosse intelectual é que tinha de me tornar especialista de alguma coisa. Assim não. Tanto me faz que me conheçam como cozinheira, que sou boa, como cronista, que não sou má, como contista, que sou aceitável, ou como prosadora poética, que também sou. Pelo menos não me podem acusar que faça boa vida porque a faço a trabalhar.

 

(…)

Sempre quis escrever?

O meu pai tinha uma mania excelente quando eu tinha uns 10 anitos. Mandava-me subir para um banco, olhava para o relógio e dizia: "Tens cinco minutos e vais falar sobre um tema. Por exemplo, o sol". Isso deu-me uma enorme vantagem em relação às aulas. Ter um anfiteatro cheio de alunos ou com dois era igual. O primeiro livro que eu li foi o dicionário do Torrinha e o meu pai disse-me: "Vais pôr uma cruz em todas as palavras que desconheces". Como deve calcular estava cheio de cruzes. Esses exercícios deram-me uma enorme facilidade para escrever e falar. Não tenho dificuldade nenhuma a comunicar e pus isso a render. Na economia mais simples e nas coisas do quotidiano.

 

(…)

Com dois filhos políticos, nunca lhe passou pela cabeça entrar na política?

Na política? Tá doida? Sou uma criatura de Deus, sou uma criatura com juízo.

 

Porque não?

Acho que o poder exacerba o que as pessoas têm de menos bom.

 

Em todos os casos?

Não em todos, mas exercício da autoridade é a mais dolorosa das experiências. Chefiei pessoas e sei o drama de poder ser injusto, de não ter a certeza porque é que um aluno bloqueou, porque é um funcionário do Banco de Portugal não produziu. A autoridade não é simpática. Nem para as crianças. As mães às vezes têm de magoar um filho para ele crescer. Lembro-me que o Miguel era tremendo, nunca aprendia o "Não toca na tomada", "Não toca no aquecimento". Gostava de desafiar. Um dia eu disse-lhe: "Então dá cá o dedinho". Coloquei-o na ficha e ele: "Aiii". Mas continuava a testar. Gostava de se aproximar para ver se eu reagia. Coitadinho do Miguel, não foi uma criança fácil.

 

(…)

Divorciou-se de Portas e voltou a casar-se mas disse que teve os filhos com quem queria ter?

Nem nunca me passou pela cabeça ter filhos que não fosse do Portas.

 

Porquê?

Porque era o homem da minha vida e tem-se filhos do homem da nossa vida. Não se anda por aí a fazer filhos. Podemos dar uma volta com o vizinho, mas não ter filhos.

 

(…)

Lá fora: "E quem é que não gosta de ti?"
Segunda-feira, 18 de Abril de 2011

.Falámos

Na noite de sábado sonhei contigo. Estava num hospital, perto de Belém, com vista para o monumento aos combatentes do Ultramar – não me perguntes porquê. Sei-o porque era a vista da janela do corredor por onde passei muitas vezes, sempre à tua procura. Corri todos os cantos do hospital, e nada de ti. Perguntava a toda a gente, corria, entrava em todas as portas. Até te encontrar. Estavas de pé, encostado à cama, à minha espera, com uma t-shirt verde que sei não ser tua – nos sonhos baralho tudo, misturo tudo, vou buscar tudo. Era a t-shirt que o Z. levava no dia da viagem. Disseste-me: “Precisas mesmo de falar comigo, não é? Procuraste-me tanto”. Abriste-me os braços e eu encaixei-me neles, enquanto as lágrimas caíam antes mesmo de eu pestanejar – mesmo como nos últimos dias, como hoje. E falámos.

Hoje, a caminho de Lisboa, decidi parar no cemitério. Não me lembro nunca de ter entrado num sozinha. Não senti medo, só que precisava mesmo de ir ali. Estive lá uns dez minutos. Vi a placa nova, onde colocaram “Tuto” – mas alguém te tratava por Augusto?, pensei. Nem os professores o faziam. Vi as datas marcadas a dourado – quatro anos, já passaram quatro anos desde que saíste daqui. Fiquei ali, de pé, a intervalar as lágrimas com as rezas até acalmar. E falámos.

Já estava de saída quando ouvi “Menina, menina”. Confesso que me assustei, ia jurar que mais ninguém estava ali. Já devia ter mais de 70 anos, e estava de pé, em cima de uma das campas altas, a lavar o mármore, que o tempo escureceu, com um pincel e lixívia. Pensei que quisesse ajuda para descer – nem percebi como é que ela tinha conseguido subir. “Pode trazer-me este baldinho com água? É que se eu for buscar depois já não consigo subir”. Explicou-me onde era e fui lá. Quando lho entreguei, agarrou-me as mãos com força e, enquanto dizia “Deus lhe pague menina”, começou a chorar. E eu chorei com ela, já sem saber bem porquê. Uma vez mais. Depois entrei no carro e segui para o trabalho. E falámos.

Lá fora: [nada]

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