Terça-feira, 10 de Maio de 2011

.Maravilhosa estupidez

Fui ao Porto no fim-de-semana, a um casamento, e apaixonei-me por estas três. Parece que ultimamente só me dedico à música, mas a explicação é outra. Quando não posso escrever sobre o que me apoquenta, refugio-me nestas coisas. E oiço, e canto, e danço, e rio, e choro… Agora com estas.

 

 

 

 

 

 

Lá fora:

"Para o mundo não, que nós não somos deste mundo."

"Odeio o ... ."

"Quero, só para dar uma festa aos meus pais."

"Mais do que o teu exterior, é o teu interior que mexe comigo."

 

L. às 13:04
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Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

.Deolinda [28-01-2011]

Deu para rir. Deu para chorar.

 

Ele passou e sorriu 

Ele passou por mim e sorriu,

E a chuva parou de cair.

O meu bairro feio tornou-se perfeito,

E o monte de entulho, um jardim.

(…)

Sou a mariposa bela e airosa,

Que pinta o mundo de cor de rosa,

Eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,

Que o amor é curto e deixa mossa,

Mas quero voar, por favor.

(…)

Se o mundo deu nisto e bastou um sorriso,

O que será se ele me falar.

 

Sem noção

“Tu não tens noção do que tens,

De quem és,

De quem sou para ti

E tu perdeste a noção

De quem

Gosta de ti.

Gosta de ti,

Sem a noção

De que o amor tem...

Gosta de ti,

Sem a noção

De que o amor tem fim.”

 

Parva que sou

“E fico a pensar,

Que mundo tão parvo

Onde para ser escravo é preciso estudar.” 

Lá fora: "Temos de falar sobre umas coisas."
Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

.Mãos frias. Coração quente. Amor para sempre

 

 

4ª | Dia 29

:O T.Z. levou-nos ao aeroporto às 4:00 da manhã.

:Escala de 3:00 em Madrid-Barajas.

:Apanhámos o Orlyval – train até Antony, e depois o metro até à Place de Italie (hotel).

:Passeio a pé desde o Hotel até ao Arco do Triunfo (Notre Dame, Louvre, Jardin des Tuileries, Place de la Concorde, Champs-Élysées - Feira de Natal).

:Subida ao Arco do Triunfo.

:Dormir sem jantar.

 

5ª | Dia 30

:Tentámos ir ao Louvre, mas estava muita fila.

:Andámos na Roda Gigante (com um senhor a tentar infiltrar-se para uma voltinha connosco).

:Visita a Sacré-Coeur.

:Passeio em Montmartre (Praça dos Pintores, Moulin Rouge, Estação Abbesses, café da Amélie – vimos chouriço português e ‘bolo rei/especialidade portuguesa’ à venda).

:Almoçámos num jardim escondido na Place de Abbesses, os rissóis que levámos de Portugal, onde havia um mural com ‘amo-te’ em várias línguas.

:Passeio pelas ruas de Paris – parámos numa loja de congelados espectaculares e conseguimos encontrar um supermercado barato, o DIA.

:Visita a Les Halles e ao George Pompidou.

:Mocha Praliné no Starbucks.

:Tentámos entrar em Notre Dame, mas a fila já estava fechada.

:Passeio nos Bateaux Mouches.

:Tentámos encontrar uma sopa por menos de 5€ no Centro Comercial perto do Hotel, mas acabámos a fugir de uns cães iguais ao Rex.

:Jantar dividido entre o McDonald's e o KFC.

 

6ª | Dia 31

:Visita a Notre Dame – igreja e torres. Saí da fila para acalmar a minha má disposição com um chá de 3€ no café em frente.

:Visita ao Museu de História Natural – Anatomia e Grande Evolução.

:Visita a Les Invalides – almoçámos na cafetaria.

:Chegámos ao Louvre às 16:30, mas por ser véspera de ano novo fecharam às 17:00 – já não conseguimos visitar.

:Descanso no Hotel para aguentar a grande noite.

:Jantar no Hippopotamus (porco caramelizado).

:Meia-noite passada nos Champs-Élysées, na montra da Cartier (de botas de borracha), com mais 200 mil pessoas. Garrafa de champanhe e passas de uva nas mãos.

:Loucura para apanhar transporte de volta ao hotel – conseguimos na Ponte de Alma, depois de muita confusão, empurrões e companhias estranhas.

:Maquinistas do metro e operadores de som nas estações pregavam partidas.

:Consegui ligar aos pais, aos avós, à mana, à madrinha, e à minha M., que chegou aos 13 anos. O telefonema do primo F. foi o que mais me marcou.

 

Sábado | Dia 1

:Dormir até ao meio-dia.

:Visita ao Museu do Perfume.

:Visita a La Villete. Vimos o documentário Hubble na Géode, num ecrã de 180º graus.

:Visita à Torre Eiffel – subimos depois de duas horas na fila. O elevador esteve avariado algum tempo. Apanhámos a primeira chuva das férias.

:Crepe com framboesa e caramelo antes da entrada no metro.

:Jantar no McDonald's.

:Ida para o aeroporto – passámos a noite nas cadeiras, com um sr. louco a cantar e a fazer várias vozes e coreografias. Check-in às 04:45.

 

Domingo | Dia 2

:Escala de 3:00 no aeroporto de Madrid – Barajas. Avião atrasou 2:00, e nós já lá dentro.

:O R. foi buscar-nos ao aeroporto.

:Deixámos oficialmente o frio que nos acompanhou todos estes os dias. A temperatura mais alta rondou os 3º.

:Banho de espuma, unhas cortadas e frango assado do vizinho para nos sentirmos em casa.

 

2ª | Dia 3

:Ida ao Alentejo para receber mega dose de mimos.

:Almoço com os papás – e muita sopa da mamã.

:Visita do T. para pôr a conversa de muito tempo em dia.

:Visita aos avós.

:Jogar Wii com a minha M..

:Regressar a Lisboa antes das 21:30, para ‘minimizar’ os castigos.

 

Já chegou. Entrei de mãos frias e coração quente. A desejar um 'para sempre'. Feliz 2011.

 

Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

.Do bem e doutras coisas...

Eu e a minha mana não temos estado muitas vezes juntas nos últimos tempos. Ainda assim, quando estamos, dedicamos uma boa parte do tempo a espicaçar-nos. ‘Nunca me ligas’, ‘liguei-te mais vezes que tu a mim’, ‘só me ligas para pedir favores’ e argumentos muito parecidos são atirados uma à outra, meio a sério, meio a brincar. Nós, que os dizemos e os ouvimos, sabemos que isto não é nada, que é só porque gostamos muito uma da outra, e passados cinco minutos já estamos bem – para quem nos ouve, como a minha mãe, é que não é bem assim.

Eu e a minha mana não temos estado muitas vezes juntas nos últimos tempos. E, por isso, na véspera do último feriado combinámos um jantar para por a conversa em dia. Saí do trabalho, parei em Alenquer para beber um capuccino com a madrinha, e segui para a zona do tornado – Santarém, para jantar com a menina. E claro que, entre as garfadas no chinês, também soltámos os argumentos do costume. Muito à conta das minhas gargalhadas no meio da conversa séria.

A minha mana nunca ligou muito à escola, nunca nos disse o que queria ser quando fosse grande até terminar o 12º, e nunca lhe conhecemos muitos interesses. De repente, chega à faculdade, as notas sobem a pique, faz voluntariado, formações e coisas do género, e dedica-se a causas de crescidos. Olhar para ela a falar de coisas sérias, com o tom de voz que empresta sempre a estas situações, enquanto gesticulava com as mãos, só me fazia rir. E não era um riso de desdém, ou de qualquer outra coisa má, era de orgulho, mas acho que ela não percebeu muito bem.

A minha mana, que este ano passa a ser uma senhora-animadora-sóciocultural-e-educadora-comunitária, está muito crescida. Está a estagiar na Cais. E uma das minhas gargalhadas veio daqui, eu desculpava-me porque uma das minhas mudanças da nova vida crise-económica-pessoal é ter deixado de comprar a revista Cais, que comprava desde que me lembro de vir a Lisboa. E ela explicava-me que eu não me devia preocupar, que ela e a colega estão a desenvolver um projecto que vai ajudar as pessoas que a associação acompanha a ter outra fonte de rendimentos. E isto é uma coisa muito séria, e importante, mas só me fazia rir. De orgulho.

Eu e a minha mana não temos estado muitas vezes juntas nos últimos tempos. Mas hoje vamos estar. A iniciativa é da Cais, o convite da mana. Hoje vou ter o meu primeiro dia de voluntariado. Dizia isso mesmo à mãe, e ela, no seu tom rápido e sucinto, disse-me logo: “Ai rapariga, não te preocupes com isso. Não fizeste isso, fizeste outras coisas boas, que para o mal, felizmente, nunca te deu”. E eu quero acreditar que sim.

Eu e a minha mana não temos estado muitas vezes juntas nos últimos tempos. Mas quando estamos é bom. E é para fazer coisas boas. Como sempre, como hoje.

 

 

RTP online

Associação "Cais" distribui pão e bebidas quentes no Martim Moniz

2010-12-16 | 20:38:09

A caminho do Natal, há este ano um olhar especial para as iniciativas de solidariedade. A crise sugere uma outra preocupação para com os mais desfavorecidos. No Martim Moniz, em Lisboa, há até Domingo, distribuição gratuita de pão e bebidas quentes. É uma iniciativa da Associação Cais, com o sugestivo título de Pão de todos; pão para todos.

http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Associacao-Cais-distribui-pao-e--bebidas-quentes-no-Martim-Moniz.rtp&headline=20&visual=9&article=400095&tm=8

 

 

 

 

Estou:
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Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

.“Oh these times are hard / Yeah they’re making us crazy (…)”*

 

 

 

 

 

Quando o mundo se torna pequeno ou grande de mais, quando os que me rodeiam não sabem ser a minha casa, quando não encaixo em sítio nenhum, não é difícil encontrar-me. Posso estar em três sítios: aqui neste blog, atrás de um livro, ou com uma máquina fotográfica pela frente.

 

*Lá fora: "(...) Don’t give up on me baby."

For the first time - The Script

 

Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

.“Deixa que a vida te aconteça. Acredita – a vida está sempre certa”*

Sempre fui a miúda das caixas de recordações, das agendas, das fotografias, das coisas que se deixam tocar para mais tarde me levarem ao lugar que ocuparam um dia. Nesta última semana de férias não guardei nada. Nem um talão, uma foto, ou uma pedra. Nada palpável. Limitei-me a abrir o coração e a alma o mais que pude, e a deixar com eles a tarefa de registarem tudo o que aconteceu. E resultou. Não me lembro de me sentir tão marcada com alguma coisa alguma vez. Entre mudanças, viagens, praias, conversas, danças, hotéis, lojas de decoração, limpezas e coisas-muito-boas, percebi que estou diferente. E há quem o tenha notado. E ache bom. Há também quem me julgue louca, quem se preocupe, quem me olhe com apreensão, quem não me compreenda. Mas não faz mal. Esta semana percebi que estou mais forte. Mais decidida. Mais cheia. Mais autónoma. Mais ligada. Diria até mais feliz. Claro que o medo não desapareceu. Mas estou a deixar que a vida ‘me’ aconteça. E há quem diga que ela está sempre certa.

 

*Rainer Maria Rilke – poeta alemão (1875-1926)

 

 

 

Lá fora: "Não és homem de uma mulher só. Vais fazer asneira, tenho a certeza absoluta."

Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010

.5 estrelas

 

 

A avó está normal. Quer levar prendas a toda a gente, dá gorjetas a mais e não nos deixa pagar nada porque “estamos na Curia”. Traz um monte de gotas para lhe pormos nos olhos de dez em dez minutos e quer jantar cedo para poder ver todas as novelas da noite. Acha todos os vestidos que experimentamos curtos e zanga-se porque tiramos muitas fotos.

 

A Matilde está normal. Apanha muitas birras e pede todos os dias para dormir comigo. Quando adormece na cama dela, dá-me a mão e, mesmo a dormir profundamente ou por mais voltas que dê, não a larga até de manhã. Pede para andar de gaivota todos os dias e briga com a mAna várias vezes ao dia. Continua a mais desarrumada.

 

O Francisco está normal. Basta abrir a boca para eu começar a rir. Brinca com tudo, mete toda a gente a dar gargalhadas e é a minha companhia do ginásio. É o inventor das frases das férias. Tem as t-shirts mais divertidas que conheço e dá tudo por um “pão-do-carico” logo de manhã. Luta com a Matilde pelo prémio de mais desarrumado das férias.

 

A mAna está normal. Distribui a roupa pelas gavetas, acumula a suja numa, e experimenta coisas que não sabe se há-de comprar. Dá respostas tortas que dão inicio a várias discussões. Choca com a Matilde de 5 em 5 minutos. E com o namorado de 10 em 10. Acha que está sempre gorda. Começamos a cantar as mesmas músicas, ao mesmo tempo, do nada, e damos por nós com pensamentos iguais.

 

Eu continuo normal. Quero ir à piscina só para torrar, trago o livro sempre atrás e a máquina fotográfica colada à mão. Peço que me obriguem a comer só sopa ao jantar e depois acabo por ser a que come sempre mais. Tomo o mesmo pequeno-almoço todos os dias. Uso sempre as escadas enquanto eles vão pelo elevador. Choro no cinema, fujo para falar ao telemóvel. Deixo-o no quarto o dia todo e espero ter boas notícias quando volto a pegar nele à noite. Tento organizar os dias com planos e tenho a mala sempre arrumada, apesar de ser a que trago mais roupa.

 

Este ano trocámos o D. João pelo QuinaBiba. O nosso hotel perdeu uma estrela. Só fomos 3 vezes à farmácia. Fomos, pela primeira vez, visitar um museu. Conhecemos Tamengos, Anadia e Sangalhos tão pertinho da Curia e onde nunca tínhamos ido. A loja dos senhores velhotes do jardim fechou. Não fomos a pé aos Apartamentos. A avó convenceu o Francisco a cortar o cabelo. Mudámos de restaurante do leitão. Não terminei de ler nenhum livro. Não fomos uma única vez ao jacuzzi. A mana não teve herpes no olho ou no nariz. E trocou o carro das meninas pelo dos meninos nas férias todas. Mas a Curia está normal. E isso é mais que bom, é 5 estrelas.

Lá fora: "Para vocês é despachar, para mim é aproveitar"
Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

.Nós fomos...

...e as nossas sandochas, vindas directamente do Alentejo, também. Fui eu, o C., a mana, o moço dela, a mãe, a madrinha e o puto dela. Arrepiámo-nos com o Homem do Leme nas vozes do Tim e da Mariza, rimos com a minha entrevista para a Rádio Renascença, delirámos com a filosofia do João Pedro Pais, aturámos a Leona-pobrezita, sonhámos com o Elton e emocionámo-nos com Trovante. Eu e a mana quase fazemos (sempre) a festa sozinhas - dançamos e cantamos como se estivéssemos sozinhas no quarto, mas o nosso grupo foi uma mistela perfeita: quatro mulheres aos pulos (com pausas para comer) e três guarda-costas bem compostos atrás.

 

 

 

Lá fora: "Sem pendura que a vida já me foi dura
Para insistir na companhia."

Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

.O meu fim-de-semana

Na sexta saí mais cedo, com o Alentejo na cabeça. A mãe fazia anos no sábado, mas, pela primeira vez desde que estes dias especiais calham ao fim-de-semana, não íamos estar juntos. A minha mãe tem alguns sonhos fáceis, fáceis de realizar e que nós não nos esforçamos por cumprir. Um deles é visitar Vila Nova de Mil Fontes. E o meu pai, que é um miúdo engraçado, levou-a no outro dia a ver uma fonte nos arredores da aldeia e disse-lhe, “Maria, agora só faltam 999”. O outro é passear no Douro. E este ele realizou nos anos dela: um cruzeiro no Douro no fim-de-semana. Partiam do Alentejo às 02:30 da manhã, por isso, eu e a mana, abancámos na sala prontas a fazer a maior festa de anos. Acabámos por adormecer e só acordámos quando os ouvimos descer as escadas. Cantámos os parabéns, dançámos, demos prendas, visitámos os padeiros, e ficámos na rua, descalças, a dizer adeus até o carro desaparecer enquanto ela nos mandava para a cama "que não eram horas para uma coisa daquelas". Depois, às 08:00, a mana também foi embora para uma formação de crescida, e deixaram a casa do Alentejo por minha conta e do C.. Foi uma sensação tão estranha que quase me fui embora dali e revi todos os planos para o fim-de-semana. Aquela casa só faz sentido quando estamos os quatro, vá, no mínimo 3, só comigo não dá.

No sábado havia feira da ladra na terrinha e convidaram-me a participar. Ganhei o ‘prémio’ de tendeira-mais-tendeira, completamente imbuída do espírito, com uma manta atulhada de roupa que o tempo foi obrigando a sair do meu roupeiro e do da mana. Para mudar de sítio, fechava a manta com tudo ao monte, e voltava a abrir sem muita preocupação. Pedi trocos à avó, que me deu 15€ em moedas sem qualquer contrapartida, e montei a tenda com um só objectivo: conseguir dinheiro para lhe pagar. Cheguei lá com tudo marcado, etiquetas bonitinhas desenhadas pelo C., mas quando vi a concorrência resolvi uniformizar tudo. E assim vendi coisas giras, como umas calças ainda marcadas a 40€ que nunca cheguei a vestir, por 2,5€. E até tive períodos de saldos, 10 minutos em que tudo estava a 1€. Foi assim que dobrei o valor dos trocos da avó, o que me permitiu saldar despesas, pagar a minha parte da prenda da mamã e ainda reservar umas moedas para um lanche de caracóis. Percebi que ser tendeiro é muito difícil – um dia inteirinho ao sol, muita conversa, muitos espirros, cuidado com a bolsa do dinheiro e dizer que sim a todas as manifestações das freguesas. Às 17:00, altura do teatro de rua, já estava de rastos, e acabei por adormecer ali mesmo na rua, com a cabeça no ombro do C., sempre atento às vendas.

Enquanto se despedia, a mãe ia dizendo “estamos sempre desencontrados, ai que não devia ir, nunca vos tenho cá e agora vou sair”. E como foi embora cheia de remorsos, deixou o frigorifico cheio de comida. Para ajudar a esvaziá-lo, e para matar saudades, enchemos a mesa lá de casa à noite, com a minha Su., a avó, o primo F. – para apanharmos todas as faixas etárias, e fomos comendo: caldo verde, bacalhau à Brás e lombo de porco no forno com castanhas. Enquanto víamos fotos e contávamos as novidades, ao meu telemóvel chegavam mensagens a lembrar-me como estou velha – ao ponto de faltar ao concerto da Mafalda ali tão perto.

O domingo foi mais esquisito – não gosto de dias com muitas misturas. Começou mal, com o funeral do tio que um dia ousou apresentar-me ao pai da minha mãe. Fui sozinha, em representação da família. E foi estranho, como todos os funerais. As pessoas estão muito tempo sem se ver, e aproveitam aqueles momentos para pôr a conversa em dia. Temos de lhes mostrar o nosso melhor sorriso, enquanto por dentro estamos um bocadinho destruídos. E tive de enfrentar toda a família do pai da minha mãe – com as pessoas a tentar explicarem quem eu era sem passarem por ele. Queria dizer-lhes que não fazia mal, há coisas que não podemos mudar. Mas foi estranho estar ali assim, a uma fila de distância dele, a falarem-me dele, e não poder pelo menos trocar um olá. Saí dali à pressa, antecipando alguuns encontros, e comecei a romaria das despedidas. Passei nos avós, dancei ao som da concertina do avô e depois fiz-me novamente à estrada, para um rodízio e um passeio na praia. Terminei o dia com um “parabéns a você” ao M., um passeio no CCB, na exposição da Joana Vasconcelos, e um jantar no meu chinês preferido. Cheguei a casa à meia-noite.

Quando chego ao comboio, na segunda-feira bem cedo, a primeira coisa que a Li. me pergunta é como correu o fim-de-semana. E eu conto-lhe, todos os pormenores. E ela diz-me sempre a mesma coisa: “fico cansada só de te ouvir, eu não aguentava”. E eu penso, penso e chego sempre à mesma conclusão: mas existem fins-de-semana diferentes deste? Não conheço.

 

[Eu e o primo F., no Bailarico dele, já sem os sapatinhos bonitos]

 

 

Lá fora: "Espero que tenha sido a última vez"
L. às 16:33
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Terça-feira, 11 de Maio de 2010

.12

Este foi o número exacto de vezes que chorei desde sexta-feira. 12. Ando uma choramingas do pior que existe. Não me controlo, acontece qualquer coisa e lá vem um rio de lágrimas. Fiz-me à estrada para o Alentejo no sábado, esqueci a via verde e segui pela auto-estrada até VN, debaixo de uma chuva que não me deixava acelerar. Fui recebida por um meio sorriso da mãe. E esta foi a primeira vez.

A segunda foi quando entrei na casa de banho e não vi o espelho, antes embutido nos azulejos. No lugar dele estava um mais pequeno, redondo, de substituição, e por trás via-se só cimento. Olhei para o fundo e o nosso polibã também tinha sido substituído – no lugar dele estava agora um novo, grande, com hidromassagem, luzes e rádio. E foi quando o pai entrou por ali adentro todo entusiasmado, a ensinar-me a mexer com os botões e a ligar-me a rádio Amália para eu ouvir enquanto tomava banho, depois de um telefonema que me deixou triste, que começou. Mas isto não é bom?, dizia-me ele. E eu abracei-o com muita força, enquanto tentava encafuar as lágrimas que teimavam em sair bem no fundo de mim.

E lá fomos os cinco – a mãe, o pai, a mana e o moço dela, para o baile de finalistas do primo F.. Foi quando ele me apareceu à frente, de cabelo à betinho, fato e gravata, o sorriso que eu mais gosto e um beijinho na testa, que voltei a abrir a torneira. Dei por mim a pensar nas coisas que ouvi tanta gente dizer-me um dia: peguei-te ao colo, dei-te banho, troquei-te a fralda, e agora aqui estás tu, crescido, com uma miúda debaixo do braço, quase a caminho da faculdade.

Passei pela mesa das professoras e aí chorámos todos – eu pela quarta vez. Falámos dos amigos, da turma, das escolhas, dos momentos que não voltam atrás, de como aquele baile teve um dia tanto significado para nós. Sentei-me depois na mesa reservada à família, e começou a passar o vídeo composto de fotos de todos os finalistas, ao som do Forever Young, Fame e Não há estrelas no céu. Quinta vez. Estava a prometer a mim mesma que era a última, quando sou abraçada por trás em pleno salão de baile. E foi quando olhei para trás que esqueci as promessas. Sexta vez. Era o CS.. Fomos da mesma turma desde o 9º ano, amigos até mais não, passámos por situações más, mesmo más, juntos, boas e muito boas também. Enfrentámos juntos a entrada na faculdade, o assumir das opções que nunca deviam ser escondidas e de alguns erros. E de repente, de um dia para o outro, entra num cruzeiro para trabalhar e está anos sem nos visitar, deixando só uma foto de cada país por onde passa na nossa caixa de email. Depois veio a S., também da turma do secundário. Colega de casa da Travessa Henrique Cardoso. Amiga do peito. E começámos a falar e a partilhar segredos que desiludiriam talvez quem nos rodeia. E não uma à outra. Sétima vez.

Foi por esta altura que pensei que chegava de choro e subi ao palco para dançar ao som do Dj não sei das quantas, com a minha Su., que tão bem me fez nestes dias, e pela mão do primo F., que dançou comigo pela primeira vez. Estava tudo a correr muito bem: muita dança, muitas bifanas, caracóis às 03:00 da manhã e uma fatia de todos os bolos que estavam à venda. Mais ou menos por essa hora, decidimos passar para o Xárix, como dizia o tio Ma., o bar Asterix. Foi quando apanhei dois ex-namorados do tempo da escola, dos tempos em que um namoro se resumia a passar o intervalo juntos e a tentar tocar com a mão na mão do outro sem corar, que passaram o tempo a dizer-me “estás igual”, que começou a oitava vez. A nona só chegou já pela madrugada adentro, quando partilhei a cama com a mana – não dormíamos juntas há uma eternidade. Senti o braço dela por cima de mim, como nos velhos tempos, e veio-me tanta coisa à cabeça: as birras que apanhava porque não queria dormir sozinha, porque queria dormir comigo, como me abraçava com força, como era pequenina, como nem sequer ocupávamos metade da cama. Coisas que já passaram.

No domingo entraram por mim adentro sem pedir licença. A mim, que nunca deixei sequer que me fizessem o teste da agulha, mostraram-me um futuro que não planeei. E foi aí que chorei, pela décima vez. A décima primeira chegou à noite, quando partilhei a cama de 4m2 com a minha A.. Ela não reparou, porque o sono nos fez adormecer muito rapidamente. Mas enquanto transformávamos os dias em palavras, no escuro da noite, dei por mim com a cara molhada outra vez. A última só aconteceu ontem. Fui buscar o C. ao aeroporto, vindo de França. Os companheiros de viagem riam dele, porque me tinha comprado uma caixinha de bolinhos como os de Paris e passado o dia com ela na mão. De manhã até às sete da tarde, hora em que aterrou, andou com aquilo direitinho, certinho na mão e no colo. Foi quando saí do carro, já perto de casa, com o meu ar normal e desastrado, que atirei com a caixa ao chão e os bolos que não ficaram na estrada misturaram-se todos. Chorei, enquanto tentava limpá-los e provar pelo menos um bocadinho de todos. Um choro que se manteve até à noite, quando conversámos no sofá a ver “Sem Rasto”. O C. tem-me dito muitas vezes nos últimos tempos que só me vê feliz quando estou no Alentejo. Este fim-de-semana provei o contrário, nem lá consegui estar bem. Vejo os últimos tempos de forma diferente. Como se não houvesse espaço, como se não encaixasse, nem houvesse um sítio perfeito, como se não estivesse ninguém à minha espera num lugar qualquer, como se nem me reconhecesse a mim própria. E estou irritada. Comigo mais do com qualquer outra coisa. Porque o meu pai tem mesmo razão e sou uma choramingas que não luta por nada. Uma choramingas do pior que há. Elevada a 12.

 

Hoje é dia 11 de Maio. Dia do Tuto. Dos 26. Não consigo deixar de pensar que ele, que eu faço questão de trazer comigo todos os dias, é a pessoa que mais está desiludida com tudo o que faço. Imagino-o a subir as mangas da t-shirt, a endireitar o boné, e a dizer-me: “miúda, não foi nada disto que combinámos”, mesmo antes de me abraçar com um sorriso. Penso em ti todos os dias. Parabéns.

 

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