Sexta-feira, 17 de Agosto de 2012

.Casa

Em Março, a notícia de que iria estar três meses sozinha em casa deixou-me mais triste do que eu poderia alguma vez imaginar. Fiz planos, tantos planos, para sobrepor àqueles que tinha já planeado para a casa onde estávamos a morar apenas desde Janeiro. Uma casa nova, num prédio velho, tão minha quanto nenhuma outra tinha sido. Tudo tão ao meu jeito, tão perfeita, tão nossa. Acabei por não estar sozinha. Mais triste, com o pensamento mais longe, mas nunca sozinha. Os amigos, a família, foram chegando, um a um, às vezes muitos ao mesmo tempo, semana após semana. Tudo ajudou o tempo a passar. Os jantares com a madrinha, a semana com a mana, outra com a afilhada, as mensagens da T., da V., da prima Mina, a companhia diária da A., os telefonemas dos pais e das avós a toda a hora, o saber que o Z. voltaria, em três meses, àquela casa, tão nossa, aos nossos planos a dois. Não passaram sem doer, mas acabaram por passar. E o Z. voltou e voltámos aos nossos dias e dei por mim a pensar que os dias passam a uma velocidade maior do que eu gostaria. Pensei aquilo que penso tantas vezes quando quero muito que chegue uma coisa, “sem pressa, L., daqui a pouco vais estar lá com saudades deste dia, aproveita”.

Podia apontar uma data de defeitos à casa, a mim, ao Z., a nós, mas são também eles que nos tornam, a nós e à nossa casa, naquilo de que eu gosto. Podia falar da banheira mal posta, do silicone a sair, da porta velha, dos móveis com buracos ou grandes de mais, das vizinhas de baixo que se enganam e tocam à nossa campainha às 05:00 da manhã, mas tudo isso faz parte da nossa casa. Podia falar das nossas discussões, desentendimentos, momentos de apatia. Mas tudo isso faz parte de nós, e termina sempre num abraço apertado com um beijo demorado. Preciso desses defeitos, todos os dias, nestes que passam a correr, e que terminam no sofá da nossa casa, com a minha cabeça no ombro que mais gosto.

E os dias passaram, e as tão desejadas férias chegaram. Uma semaninha apenas, primeiro, para ver, finalmente, Barcelona e para as festas da terrinha. E foi tudo tão bom. Conhecer coisas, depois estar com os meus e com tudo aquilo a que um dia se resumiu a minha vida. Foi no domingo à noite, quando abri a porta e senti o cheiro da nossa casa, o nosso cheiro, que percebi, uma vez mais, que a minha mãe tem sempre razão. O nosso coração é sempre dos nossos, dos que nos amam e fizeram crescer, mas um dia muda-se de malas e bagagens para a nossa casa. E a minha é ali. Naquele prédio velho, naquela casa nova, no Z.. A minha casa é ali quando lá estamos juntos, a minha casa somos nós.

 

E agora que venham mais duas semanas de férias. Que venha a Curia e o Alentejo do Z.. A vontade é grande, ainda que tenha de confessar que já estou com saudades dela, da nossa casa.

 

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

.Simples

Sempre tive pena de não conseguir escrever com palavras complicadas. Mais no trabalho do que na vida. Tenho tendência a simplificar, a deixar tudo num plano em que toda a gente possa perceber. Quando leio um discurso realmente bem escrito, uma nota com palavras que não me ocorreriam facilmente, lamento isso. Quem me dera poder saber escrever de tantas maneiras, de forma elaborada também. Mas depois oiço músicas destas, com poemas assim, feitos de palavras simples, que conseguem chegar tão depressa cá dentro, e fico sem pena nenhuma. Gosto assim delas, das palavras. Simples.

 

 

"Olha lá

Já se passaram alguns anos

Nem sequer vinhas nos meus planos

Saíste-me a sorte grande

 

E eu cá vou

Usando os louros deste achado

Contigo de braço dado

Para todo o lado

 

Eu vou até morrer

Ser teu se me quiseres

Agarrado a ti

Vou sem hesitar

 

E se o chão desabar 

Que nos leve aos dois

Vou agarrado a ti

 

Meu amor

Na roda da lotaria

Que é coisa escorregadia

Saíste-me a sorte grande

 

E eu cá vou

À minha sorte abandonado

Contigo de braço dado

Para todo o lado

 

Eu vou até morrer

Ser teu se me quiseres

Agarrado a ti

 

Vou sem hesitar

E se o chão desabar 

Que nos leve aos dois

Vou agarrado a ti

 

Vou sem hesitar

E se o chão desabar

Que nos leve aos dois

Vou agarrado a ti

Vou agarrado a ti

Vou agarrado a ti"

 

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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

.Música

Lá por casa, no Alentejo, sempre se ouviu muita música. Os pais tinham uma aparelhagem grande, com um vidro que eu utilizava como espelho, e onde me ia vendo enquanto cantava e dançava – aos poucos deixei de me conseguir ver toda lá, e só as pernas apareciam. Não é difícil encontrar por lá microfones de todas as espécies – madeira, cortiça – as pessoas sabiam da minha veia artística e ofereciam-me, muitas vezes feitos por eles próprios. Chegaram a querer inscrever-me no Mini Chuva de Estrelas, de tanto me ouvirem a cantar “mãe sobe a semanada”, dos Onda Choc. Ainda bem que lhes passou. Num destes dias, enquanto ia para casa depois de mais um dia de trabalho, ouvi Joana, um dos discos que os pais também tinham. Comecei a cantar aquilo como se tivesse ouvido todos os dias e a lembrar-me de todas estas coisas, perdidas no baú das recordações.

 

Ontem, quando fazia a ronda habitual pelas notícias, li esta. O Wando (“Você é luz / É raio estrela e luar / Manhã de sol / Meu iaiá, meu ioiô”) morreu. Já não sei como foi parar o cd duplo lá a casa, mas foram muitas as vezes que eu, já com a mana, já na nossa casa de agora com uma aparelhagem nova e um espelho onde apareceríamos sempre, mesmo que crescêssemos mais um metro, cantámos e dançámos com ele como companhia. Quantas lágrimas aturou ele, de desgostos de amor, de brigas, sentada no chão do quarto, costas na cama, e a música dele de fundo. Neste domingo, quando passar lá por casa, vou procurá-lo, deu-me saudades, e nunca se sabe quando pode fazer falta.

 

E por falar em música, deixar aqui esta, que não me sai da cabeça, misturada com tantos outros pensamentos que me assombram por estes dias.

 

“Ninguém disse que os dias eram nossos

Ninguém prometeu nada.

Fui eu que julguei que podia arrancar sempre

Mais uma madrugada.

 

Ninguém disse que o riso nos pertence

Ninguém prometeu nada.

Fui eu que julguei que podia arrancar sempre

Mais uma gargalhada.

 

E deixar-me devorar pelos sentidos,

E rasgar-me do mais fundo que há em mim

Emaranhar-me no mundo, e morrer para ser preciso,

Nunca por chegar, ao fim.” [Mafalda Veiga]

L. às 14:55
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

.Apaixonada

Não sou uma pessoa com um grande amor pelos animais. Sou incapaz de os maltratar mas, se puder, dou uma volta enorme para não me cruzar com eles. Como em tudo na vida, claro que há excepções. Também eu tive coelhinhos, pintainhos, porcos da Índia, bichos-da-seda, um esquilo (que histórias tivemos com o Cajó!) e talvez outros que agora não me lembro. E cães e gatos. Gostava mesmo deles, mas quando morriam, atropelados, envenenados, de males vários, o processo de luto era tão penoso que percebi que o melhor era não tê-los, esta seria a única maneira de não sofrer. E depois houve aquele susto com o pastor alemão igual ao Rex, logo comigo que vi todos os episódios e chorei com as perdas dele, que me tentou morder quando eu tinha uns seis anos. Não me acertou, mas apanhou o braço da avó, que me tentava defender, e que nunca mais voltou a ser o mesmo. Nem eu. A partir dai, nada de cães e gatos na minha vida. Claro que sempre houve um ou outro que me conseguiu conquistar. O Scotty do meu pai, e a bicharada toda que existe no monte do Z.. E até lhes pego ao colo e deixo que se aninhem aos meus pés perto do lume. Só não tenho muita intimidade com a cadelita Duda porque ela come ratos. Já a vi comer um enorme e deitá-lo fora logo depois, mesmo à nossa frente, por se ter engasgado com o rabo. Não foi bonito. Com a minha irmã a história é diferente, é a maior defensora dos animais em geral e dos cães em particular. Deixassem os meus pais e todas as noites os cães estariam lá em casa, de preferência no quarto dela. Foi por isso que quando me começou a falar dos dois pequenotes que a Borboleta tinha trazido ao mundo não lhe liguei muito, era uma obsessão como todas as outras anteriores. Chegámos a discutir à mesa porque ela queria levar-me a vê-los e eu achava melhor gastar o meu tempo com a família que vejo tão poucas vezes. No feriado lá me convenceu e levou-me a conhecer as duas mascotes lá de casa. Os dois cãezitos são mesmo especiais e giros – sem querer ofender a mãe, devem sair ao pai, que não sabemos quem é, porque dela não têm nada. E qualquer coisa mudou. Andei com eles ao colo, demos beijinhos à esquimó, deixei-os roer os atacadores das botas novas e sujar um dos meus casacos preferidos, dei-lhes comida à boca e até me fui despedir deles com a lagrimita no olho, de acordo com o estatuto de novos membros da família. O pior foi escolher os nomes. Rimos, discutimos e lá chegámos a uma conclusão depois de muita luta. A única exigência do pai era que o lourinho fosse 'Leão', e é verdade que ele tem porte, pose e comportamento de rei (as birras que apanha quando ralhamos com ele por morder o mano são de mais), masas mulheres da casa queriam uma coisa diferente. Decidir a quatro não foi fácil - não queríamos nomes de pessoas, os apelidos de pessoas da terra também não ajudavam e somos todos muito diferentes. E o que rimos com a mãe que há uns tempos atrás nem mexia em computadores quando se saiu com "e se procurássemos na net?", e leu todas as sugestões estranhas de sites brasileiros sem sucesso. Foi no jogo do Sporting que encontrámos o nome final – depois de gostarmos as três só tivemos de convencer o pai. A mana estava num sítio do estádio com a mãe, eu noutro com o Z. e o pai ainda noutro sítio diferente. Quando entrou a nova mascote no relvado pensei que era mesmo aquilo, e a mana pensou o mesmo porque quando estava a escrever-lhe uma mensagem chegou a dela com a mesma ideia. A mãe aprovou e o pai foi um bocadinho forçado, mas ficou convencido. E assim baptizámos um de Jubas, a fera birrenta, e o outro de Ruca, que só pensa em morder calças e atacadores e foge das fotografias. Dou por mim a pensar neles muitas vezes e percebo que mudou mesmo qualquer coisa. Tenho saudades, preocupações, pergunto por eles nos telefonemas para casa, quero estar com eles o mais depressa possível, gostava de trazê-los comigo para Lisboa e fico com o coração apertadinho só de pensar que lhes pode acontecer alguma coisa enquanto estou longe. O Z. já tinha insinuado e eu não queria admitir, mas os sintomas são óbvios e chegou a hora de assumir. Estou apaixonada. Mas, vendo bem, quem não ficaria?

 

 

 

 

O meu carro (batido) tinha umas colunas com vida própria. Sempre que passava num buraco ou numa lomba uma delas deixava de funcionar e outra ganhava vida. Quando o Z. tentou arranjar (ele consegue, mas sobram sempre peças), teve de cortar um dos fios e foi logo o da memória. O meu rádio deixou de memorizar postos e cada viagem é uma aventura e um desafio até encontrar uma música ou uma estação que agrade. Hoje, já estava a chegar a casa, apanhei a Star e começou a dar uma música que normalmente me faz rir, dançar e pensar em coisas boas. Hoje, sei lá porquê, fez-me qualquer coisa estranha e comecei a chorar desalmadamente. Pensava em mim, pensava na Di. e no Nu., que sem se saber muito bem como perderam a mãe de um dia para o outro, pensava nos meus pais – entrei às dez e saí às sete e tal de rastos quando eles terminaram o dia depois de mim e às cinco da manhã já o tinham começado, sei lá. Foi tudo. E foi a música. A do rádio do meu carro batido, que já não tem colunas com vida própria, mas ainda me consegue surpreender.

http://www.youtube.com/watch?v=du2rYBS5XN4

Lá fora: "Já estou aqui, o que é que queres mais?"
Sábado, 5 de Novembro de 2011

.À boleia

Acredito que, em muitas casas, a palavra-chave tenha passado a ser 'poupar'. E medidas para levar este objectivo em diante há de todos os tipos. As espectaculares, as boas, as que até se entendem e as ridículas. São todas medidas em que nós depositamos alguma esperança, e, ainda que agradeçamos os conselhos, são para levar em frente. Estávamos nós à boleia da crise, quando tudo começou a acontecer ao mesmo tempo. Em Dezembro, que está à porta, corro o risco de estar a pagar três casas: aquela para onde vou, a que finalmente está a ser vendida mas não sei quando termina o processo, e aquela onde continuo, por não ter terminado ainda o contrato de arrendamento. Só por esta razão tinha de poupar a sério. Mas, para além de pagar casas, tenho ainda outras funções vitais para cumprir e que implicam gastos. Assim, revimos todos os nossos custos e tentámos reduzir o possível, por muito que custe. A grande fatia, talvez uns 50%, dos nossos gastos ia para o combustível. De cada vez que vamos aos nossos Alentejos, ao meu e ao do Z. (algures entre Serpa e Espanha), não gastamos menos de 60€. E chegamos a fazer isto três vezes por mês. Claro que estar com a família não tem preço, e fazem sempre questão de nos mandar o carro cheio de coisas boas (aproveitadores!), entre tantas outras razões, mas também aqui tínhamos de cortar. E foi ao tentar solucionar o problema que chegámos a uma medida que não agradou a toda a gente: não vamos deixar de estar com os nossos, pois não, mas podemos poupar, por exemplo, pedindo que nos visitem mais vezes (o que os pais têm feito, mas os do Z. não têm essa liberdade). E indo à boleia. "Mas que graça tem isso se vocês têm carro? Às tantas, se tiverem de regressar de comboio ainda gastam mais, ...", foram algumas das coisas que ouvimos. Não vamos para a estrada de dedo no ar, não entramos em carros de estranhos, tratamos apenas de conciliar agendas. E começámos já no fim-de-semana passado. A mana termina as aulas do mestrado, em Lisboa, ao sábado de manhã. Fomos lá ter, deixámos lá o carro e seguimos viagem com ela. E foi um fim-de-semana para lá de bom. Almoçámos em casa dos sogros da mana, visitámos os avós a pé com tempo, aproveitámos os pais e fartámo-nos de rir com o dente acabado de partir da mãe (mesmo à frente, parecia mascarada!), fomos a uma festa das bruxas na terrinha (eu, a Su. e a mana de saltos altos e lábios bem vermelhos), passeámos numa feira de artesanato realmente boa também na terrinha e ainda tivemos direito a lanche de netos na avó T., a matar saudades da Curia, com fatias douradas, papas de abóbora, jogos de roda de outros tempos e muitas gargalhadas. No domingo à noite tivemos de regressar. À boleia. Com o namorado da mana, que nos deixou no nosso carro, a nós e aos sacos cheios de comida boa. Gostámos tanto desta medida - não gastamos dinheiro, aproveitamos a família ao máximo e não obrigamos ninguém a gastar mais do que gastaria, que já decidimos que é para repetir. E já utilizámos a mesma fórmula neste fim-de-semana que agora começou. Foi um começo atribulado - o Z. vendeu o carro inesperadamente às 23h em Lisboa, o carro da mana deixou de funcionar no parque subterrâneo da faculdade que fechava à mesma hora do negócio e os pais à nossa espera para o jantar, a caminho do Alentejo do Z.. Lá nos despedimos do carro do Z. (onde demos o primeiro beijinho), resgatámos a mana e o carro dela, jantámos com os pais à uma da manhã e chegamos ao Alentejo do Z. quase as quatro, de boleia no carro do amigo Di., que nos atura umas vezes e nós aturamos outras. A meias custa menos e não ofende ninguém. E, frases feitas mas verdadeiras, cada um sabe de si e os passos não devem ser maiores do que as pernas. Nós estamos a gostar disto. A nossa conta também. E parece que vamos continuar assim - a andar à boleia. (post escrito e publicado no telemóvel, desculpem qualquer coisita)

Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

.Revista de Imprensa

http://www.tvi24.iol.pt/internacional/idosos-amor-maos-dadas-eua-morte-tvi24/1291031-4073.html

Lá fora: "Voltaste a mentir-me..."
Domingo, 2 de Outubro de 2011

.Gestos (de amor)

Assim que começaram a aparecer melancias nos supermercados, mal tinha começado o Verão, fiquei cheia de vontade de comer uma bem fresquinha. Estávamos a fazer as compras perto de casa e partilhei a minha vontade com o Z., enquanto olhava para as metades vermelhinhas já expostas. E ele, forreta de primeira, sai-se com esta: “não vamos levar isso, já viste o preço?, nem pensar nisso, depois os meus pais têm lá na horta e comes à vontade”. Claro que não lhe dei ouvidos, tinha tanta, mas tanta vontade e saudades de uma boa melancia que lá consegui juntar uma metade ao cesto das compras. Chegámos a casa e, antes de fazer o jantar, resolvi parti-la toda aos bocadinhos numa tacinha e pô-la na sala. Quando voltei, já com o jantar pronto, não havia nem um bocadinho para amostra. Então, o que é aconteceu? Ainda me passou pela cabeça que ele ma tivesse escondido, mas não, sem se aperceber tinha comido mesmo tudo – nem cheguei a provar. Mas, a verdade, é que o rapaz tinha razão: não me faltaram melancias durante todo o Verão. Estamos a entrar em Outubro e a horta dos pais ainda a dar. Temos trazido quilos e quilos delas, que transformamos em sumo na Bimby. Na semana passada não trouxemos, porque ainda tínhamos duas em casa, mas, azar-azarinho, por estarem ali há algum tempo, já não estavam muito boas e tivemos de fazer aquilo que menos gostamos, deitar tudo fora. E lá fiquei eu com vontade de comer melancia outra vez. Ontem voltámos ao supermercado e quando tentávamos decidir que fruta levar para casa partilhei a minha vontade com ele, que deu uma gargalhada do tipo nem-penses-nisso-só-podes-estar-a-brincar. Achámos melhor dar uma voltinha para comprar os outros itens da lista enquanto decidíamos. Tínhamos voltado àquela secção quando o telefone tocou, era a mãe. Sei que quando me liga fora de horas nunca tem boas notícias e confirmou-se, a avó Mariana tinha falecido há poucas horas. Fiquei ali, no meio da fruta, a encaixar o golpe de realidade, a conter as lágrimas, e o Z. só me disse: “Se te faz feliz, levamos melancia”, e passou-me uma metade vermelhinha para as mãos. Naquele momento, foi mesmo o melhor que eu podia ouvir e foi a única coisa que me fez sorrir. Esqueceu os argumentos dele, engoliu as palavras tantas vezes ocas que se dizem nestas alturas, e só se preocupou em ver-me feliz. Percebi, mais uma vez, que o valor dos gestos (de amor) não está no tamanho, na forma, nem no sítio. É só preciso amor. E pode bem ter a forma de uma melancia. [Obrigada]

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

.Contrastes

Ontem foi dia de voltar ao dentista. Contas feitas, tirei o aparelho há oito anos e há mais de dez que pisei aquele consultório pela primeira vez. Acordei cedo para poder ir de comboio, um dos meus pequenos prazeres. De iPod nos ouvidos até entrar na carruagem, e a alternar entre “A vida secreta das abelhas”, da biblioteca de Oeiras, e as vidas que iam ocupando os bancos à minha volta, segui até Entrecampos. Voltei a pôr o iPod e comecei a andar para o fundo – as torres cor-de-rosa eram já ali e a consulta era só às 10:30 – talvez me atendessem mais cedo, pensei. Foi quando vi um casal de velhotes a correr para o comboio, que já tinha fechado as portas e começava a andar nesse instante. Ele ia mais à frente, ela tentava apanhar os dois. Olhei para eles, para os ténis branquinhos nos pés dele – como aqueles que oferecemos nos anos ao avô há tanto tempo e que ele continua a usar como se fossem a coisa mais preciosa deste mundo, e não pude deixar de ver ali, neles, os meus avós. Deu-me tanta pena vê-los assim, a correr, a bater com a mão na porta sem que isso travasse o comboio, que comecei a chorar ali mesmo, enquanto andava. Não sei explicar bem porquê, só senti o coração apertado, e chorei. Chorei por eles. Chorei por mim. Pelos medos, inseguranças, dores, e pelo que o tempo faz. Chorei pelo pai, por vê-lo de muletas, por não lhe poder dar aquilo que merece. Chorei pela mãe, por não poder ajudar a transformar mesmo os sonhos mais pequeninos em realidade. Chorei pela mana, pelas doenças, doencinhas e doencitas que a incomodam sempre. Pelo trabalho que começa agora a procurar, pelo mestrado onde quer entrar. Chorei pela avó T., a ser operada ao olho naquele momento. Pela avó A., com medo que os maus entrem pela casa adentro sempre que está sozinha. Pelo avô Al., ao imaginá-lo orgulhoso no palco a acompanhar as cantadeiras com a gaita-de-beiços. Pelo avô X., que já não está connosco. Chorei pelo actor de Spartacus, que morreu esta semana com a doença do Tuto (chorei por ele também), a mesma que, com a quimioterapia, enfraquece a Ce. de dia para dia. Chorei pelo sr. J.P., a quem o coração quase trocou as voltas e pela Cr., que sofre por isso. Chorei pelo Z., enquanto o imaginava em outros braços a dançar a música que estava a ouvir no momento da mesma forma que o faz comigo. Chorei pela Lily, heroína do livro guardado na mala, que acabava de encontrar May sem vida. Dei por mim a chorar por este mundo e pelo outro, por mim e por todos os outros. Talvez fossem lágrimas acumuladas em tantos dias, que precisavam apenas da mínima faísca para saírem para fora. E o dique rebentou, ali na plataforma de Entrecampos, ao ver o desalento de dois velhotes que acabavam de perder o comboio. Continuei a andar, aumentei o som e esperei que as lágrimas secassem. Só vejo o meu dentista preferido uma vez por ano, não ia receber o “cara linda, cá estás tu outra vez” lavada em lágrimas. Esperei na sala por pouco tempo e entrei para uma repetição destes últimos anos. “Cara linda, cá estás tu outra vez. Sorri. Abre. Fecha. Trinca. Que curso tiraste tu? Jornalismo? Como é que foste para isso? E onde estás agora? Ah, pois é, já não me lembrava. Continuas perfeita, com um sorriso perfeito. Flúor de limão, mentol ou morango? Volta cá daqui a um ano. Gosto em ver-te, cara linda”. E eu saí com o meu melhor sorriso, sem pensar que o mesmo discurso estava já a ser repetido à menina que entrava. Olhei para as horas, 10:37. Corri até ao Campo Pequeno para comprar uma massinha para o almoço e cheguei à plataforma ao mesmo tempo que o comboio – 10:57. Corri, entrei sem saber bem como, percebi que não tinha validado o bilhete, voltei a sair e a entrar e foi quase por milagre que segui viagem. Ou não. Estava tão absorvida na leitura que nem dei conta das pessoas que iam entrando e saindo, nem dos meus companheiros de viagem. Foi só quando a minha paragem se aproximou, e me encaminhei para a porta, que os vi. Não eram os mesmos da manhã, era outro casal de velhotes. Tinham tantos, mas tantos sacos, que não consegui imaginar como tinham chegado até ali. Duas malas térmicas grandes, um saco daqueles enormes de supermercado cheio, e dois carrinhos de compras, um deles bem grande. Tirei os fones, arrumei tudo na mala e fui ter com eles, posso ajudar a levar os sacos? Que sim, que podia, muita obrigada, que talvez o elevador estivesse a funcionar e aí seria mais fácil. Levei-os até lá, e tentei certificar-me de que não precisavam mais de ajuda. Foram tão convincentes que acreditei que alguém estaria lá em baixo à espera deles. Foi só quando desci as escadas e me dirigia para a saída que os voltei a ver, sozinhos, a tentar equilibrar tudo aquilo. Fui a correr, deixe-me ajudá-la, para onde vão? “Deus lhe pague, para o táxi”, dizia-me. Agarrei em dois dos sacos e senti mais uma vez o peso de tudo aquilo – muito mais do que o que estava lá dentro. Isto é muito pesado para si. E ela agarrou-me o braço, que as dores mal a deixavam caminhar, que já tinha caído desamparada no Areeiro e o joelho, negro, aumentava de tamanho e impedia-a de continuar. Ajudei-os a entrar no táxi, com um condutor nada simpático. Ainda ousei pedir-lhe para os ajudar a descarregar tudo o que traziam de outras hortas quando chegassem ao destino, mas o ar dele de espanto não me deixou mais descansada. Acho que ainda nem me tinha despedido deles e já as lágrimas tinham voltado a cair. Pelo peso dos sacos, pelo joelho dorido, pela falta de alguém à espera deles. Por tudo e por nada, pelos males do meu mundo e do mundo dos outros. Segui para o carro, à espera para me levar até ao trabalho, debaixo de um sol que sufocava tanto quanto as lágrimas. Pensei em como estes dias têm sido de contrastes. Passei o domingo na praia, com o Z. e os pais, e não parámos de rir. Das piadas, da cesta da comida, do bronzeado manchado que apanharam os três. À noite, enquanto comíamos choco frito em Setúbal, fomos atacados por uma vaga de mosquitos que nos fez chorar a rir. Ficámos todos picados, mesmo depois de termos morto uns 20. Eu matei três só na testa do pai, o pai batia no Z., a mãe em mim e até derrubei um copo de coca-cola em cima de mim ao tentar acabar com um que me picava o braço. Mal conseguimos comer, entre picadas e gargalhadas, enquanto víamos as outras mesas também neste estranho ritual de agressão aos companheiros de refeição. E ali estava eu, depois de tanto riso, numa crise de choro pela segunda vez no mesmo dia.

Depois de sair do trabalho voltei a Lisboa de comboio. O Z., o Di. e a Ta. esperavam-me para um jantar no Lucca. E aí voltei a rir, muito. A celebrar a amizade, o amor, as coisas boas que a vida também me vai trazendo, regados a chá de jasmim com limão e canela. Liguei aos pais e aos avós, a tentar sossegar o temporal que me tinha apanhado durante o dia, e ainda ajudei a mana a fazer a carta de motivação para se candidatar ao mestrado antes de cair na cama. Adormeci a tentar equilibrar as emoções do dia, a tentar conciliar tantos contrastes. E, tenho a certeza – talvez por não ter mais lágrimas para gastar -, com um sorriso. Aquele que o meu dentista diz que é perfeito.

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

.A Cúria foi (é)…

Comida boa…

Estão relacionadas com a comida algumas das nossas muitas regras: comer sopa uma vez por dia, não esquecer o leite ou iogurte ao pequeno-almoço, comer pelo menos uma vez leitão e visitar a pizzaria da Mealhada. Ainda temos a noite do cachorro: passamos pelo supermercado de lista na mão e entramos cheios de sacos no hotel. Este ano reservaram-nos uma suite, com uma mesa gigante, perfeita para a noite do cachorro. Ou não fossemos nós já clientes habituais - destes sítios todos.

 

Praia…

Começámos a visitar Mira ainda no tempo em que os pais nos levavam para a Curia. Agora já vamos sozinhos, mas não esquecemos a visita à praia. A bandeira está sempre vermelha, não há banho para ninguém, mas é sinal de gaivotas, marisco e passeio. Encontrámos este milho pelo caminho e não resistimos a parar.

 

Cinema…

O ano passado, enquanto eu tentava dividir os nossos muitos planos pelos poucos dias, a Ma. saiu-se com um “para vocês é despachar, para mim é aproveitar”. Mas é aproveitar para todos. Os planos incluem sempre uma ida a Aveiro ao cinema. Este ano conseguimos pôr uns óculos de 3D na avó – vimos os Smurfs, que dava para todas as faixas etárias. Nesse dia, mais à noite, parámos os jogos do Uno e do Trivial e fomos ao bar do hotel, onde encontrámos o primo F. e o namorado da mAna assim, nesta figura, em frente à televisão a ver o futebol, com os óculos 3D.

 

Exercício…

Com tudo o que comemos, é preciso fazer algum exercício para que a balança continue amiga no final das férias. Gaivota, passeio pelo parque, piscina e nada de elevador (esta última parte é mesmo só para mim, para o Z. e para a Ma.). Até este ano, eu e o Francisco detínhamos o recorde de idas ao ginásio pela manhã – todos os dias. Este ano o cansaço não me permitiu, e ainda me obrigou a dormir a folga todos os dias. Já diz a minha avó que o senhor que inventou o descanso deve ser muito bem tratado no céu.

 

Radical…

A primeira e principal regra da Curia diz que “onde vai um vão todos”. O membro mais novo do grupo tem 13 anos, a avó já passou dos 70, e há que agradar a todos. Este ano, para fazer a vontade ao primo F., fomos até ao kartódromo de Oiã. No vídeo que a mAna e a Ma. fizeram só se ouve “a minha irmã é uma tartaruga – olha, já a estão a passá-la outra vez”. Era a minha primeira vez, e logo entre três matulões que disputavam o lugar no pódio. Resolvi aproveitar, à tartaruga.

 

 

Compras…

Dia de cinema é dia de compras em Aveiro. Os meninos fogem para a livraria ou para comer uma tripa com ovos moles (a mAna cola-se a eles), o resto corre todas as lojinhas do Fórum. Nos outros dias dedicamo-nos às lojinhas da Curia, e à terça é dia de feira de antiguidades, no Jardim, onde comprei estes brincos. A senhora da farmácia deve ser uma grande fã nossa – não há dia em que a gente não passe lá para comprar qualquer coisa: Cicalfate para a ferida da avó (que caiu na festa), comprimidos para o herpes no olho da mana, creme para os pés da Ma., e coisas várias para a constipação que só deixou o primo F. de fora. Passamos todos os dias pelas lojas das amigas da avó, que nos conhecem à distância, e até estranham quando vamos mais tarde para as férias. Também somos grandes clientes do senhor do Euromilhões / Raspadinhas e da senhora da papelaria – mas estes não são nossos fãs, podemos deixar lá este mundo e o outro, mas, em tantos anos, nunca recebemos um sorriso de volta. Não faz mal, continuamos a passar por lá todos os dias.

 

 

Amor…

De avós, de netos, de primos, de irmãos, de namorados. Uma das senhoras do hotel dizia ao pequeno-almoço: “Que engraçado, são todos netos? E vêm com a avó? Há quanto tempo? Aproveite, minha senhora, olhe que depois crescem, arranjam alguém, e já não querem vir”. Pois, pois. Ao grupo já se juntaram dois apêndices, candidatos a netos emprestados. E a tendência é para aumentar.

 

 

Avó T. ...

É também por ela que estamos aqui, neste mundo. Com 16 meses de diferença, trouxe à luz do dia o pai, que me teve a mim e à mAna, e o padrinho, que tem o Fr. e a Ma.. É por ela também que todos os anos estamos aqui, na Curia. E, lá, tudo gira à volta dela, ainda que nos diga sempre: “é como vocês quiserem”. Levamo-la ao cabeleireiro, à missa, estamos no hotel a tempo das novelas, não nos esquecemos das gotas, exageramos no mimo e fazemos massagens aos pés. Este ano demos-lhe uma lembrança pequenina, e, ainda antes de agradecer, disse logo: “quanto é que isto foi para eu vos dar o dinheiro? Na Curia pago eu”. É a nossa avó T..

 

Nós…

Juntos. Podia ser assim em qualquer outro sítio, mas nós acolhemos este como a nossa segunda casa. A Curia.

 

(senhores da Curia: não lhe façam mal. Já nos tiraram um bocadinho do coração quando derrubaram a casa ao lado do Vila Rosa para construir uns prédios horríveis, agora ouvimos dizer que, com as obras, vão tirar as árvores da minha estrada preferida para construir uma ciclovia. Não dá para fazer e deixar os plátanos? Agradecemos muito. E limpem o lago, que já precisa.)

 

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

.Considerações

Estive de férias e não dormi mais do que cinco horas por noite. Regressei a precisar de férias – mas gostei tanto. Teve tudo o que importa: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

Apaixonei-me por Londres. Gostei das ruas, das pessoas, das coisas. Adorei o mercado de Camdem (vestidinhos giros – trouxe dois, pessoas diferentes, comidas de todas as cores, negócios inimagináveis, …), o Museu da Guerra (a exposição “Pessoas normais podem ser heróis improváveis” tocou-me) e o Museu Geffrye (mobiliário e material de casa desde 1600 até 2000, com salas montadas para as várias décadas).

 

À segunda viagem juntos, eu e o Z. percebemos uma coisa: aquilo de que gostamos realmente nos países que conhecemos, ou melhor, o sítio onde passamos mais tempo é nas lojas de comida. Em Paris estivemos uma hora numa loja de congelados, espantados com a diversidade, desta vez perdemos a conta ao tempo – tantas coisas diferentes a preços espectaculares.

 

A máquina fotográfica avariou de vez na nossa volta no London Eye. Valeu-nos o telemóvel e uma máquina descartável. Assim que aterrámos em Lisboa a primeira coisa que fizemos foi comprar uma. Já foi trocada três vezes por motivos vários (histórias inacreditáveis), mas, como todos dizem, temos “um maquinão”.

 

Tentaram roubar o meu carro. É velhinho, de 98, mas não deixou – parece que tem uma defesa qualquer ao nível da chave. Ficou sem bateria de tanto tentarem levá-lo, e só esta semana voltou a funcionar. É um resistente. E fiel.

 

Levámos um coxo, de muletas, para o Andanças – fez um sucesso. Quero mais disto, foi tão bom: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos. E o senhor de bigode a dizer que nos partia o carro todo por termos estacionado no terreno do cunhado e que acabou a beber do caneco do Em. e a mandar-nos estacionar no próprio terreno? Viva a gente do Norte.

 

A mana chegou aos 21 e está no primeiro emprego – no ATL, com regras e tudo. Teve uma grande surpresa ao chegar ao restaurante só com a família mais chegada e encontrar tios, padrinhos, afilhados e avós. Entrou a reclamar na sala por lhe taparem os olhos, ou não fosse ela a minha maAna Luísa.

 

A minha Ma. e a prima do Z., a Le., vieram passar a última semana connosco a Lisboa. Fomos à praia, às compras, comemos pastéis de Belém à noitinha, aproveitámos o Festival dos Oceanos para visitar o Museu dos Coches e da Electricidade até à meia-noite. Ficámos tristes com o Planetário, que não nos aceitou, apesar de termos chegado a horas. E terminámos a semana em grande: vimos a peça de teatro “O Principezinho” na Quinta da Regaleira, e depois subimos o poço.

 

Fiz um cruzeiro pelo Alqueva com os amigos e não resistimos a dar um mergulho, numa zona com 30 metros de profundidade. Fomos todos numa carrinha dos meninos da escola (a Su. e o mano foram lá ter), com a mala recheada de presunto caseiro e pão alentejano. Ainda fizemos Geocaching e terminámos o dia a jantar numa festa com bailarico. Quero mais disto: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

Mas agora preciso de descansar. Domingo rumo à Curia para o merecido descanso. Mas antes ainda são as festas da terrinha, porque isto também faz falta: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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