Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

.Bolas de sabão*

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXV"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

 

 

 

 

 

* Isla Mágica, Sevilha (24-09-2011)

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L. às 13:34
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

.Só

Há teorias que vou ouvindo por aí e que me fazem tanto sentido que resolvo agarrá-las para mim também - mas a referência à fonte nunca é esquecida. Esta pertence à Ve.-do-cabelo-curto – que agora já é comprido, ou do-piercing. Tinha de a tratar assim por existirem duas Ve. na minha vida, e nem sempre as pessoas percebiam de quem estava eu a falar. Esta Ve., a do-piercing (a outra já falei dela aqui), sempre teve umas teorias muito engraçadas. O tempo foi apagando muitas delas, já não falamos tanto quanto gostaria, e já vão longe os tempos em que partilhávamos as mesmas salas de aulas no secundário. Ficou-me esta: “Mais vale mal acompanhada do que sozinha. Não há nada pior do que solidão”. Eu estou habituada a pessoas. Desde que nasci que ia para a loja assim que acordava, que fazia sestas entre as voltas da farinha ou do pão, que aprendi a estudar no meio do barulho por não gostar do silêncio, que ligo a televisão ou o rádio assim que chego a uma casa vazia, que detesto estar sozinha, que faço tudo por uma companhia e chego a dormir de luz acesa quando não há mais ninguém em casa. Encaixei-me nas palavras dela, vi que estava certa. Mas a mãe sempre me disse “todos precisamos do nosso espaço e da nossa solidão”. E talvez tenha chegado a minha hora de o perceber. Esta semana estou a fazer um horário que me permite sair às 15:30. Assim que posso, entro no carro e sigo, sozinha, até à praia mais perto do trabalho, em Paço de Arcos. Já gostei muito de praia, já gostei pouco, e este ano dei por mim a sentir mesmo falta dela, talvez por não ter podido ir tantas vezes. Como companhia levo apenas a toalha, o iPod e o livro do Haruki, a quem abri a porta mais uma vez. O ritual tem sido o mesmo todos os dias: chego, estendo a toalha, corro para um banho capaz de refrescar até os pensamentos mais negros, e depois volto à areia, para alternar entre a leitura, a música, os pensamentos soltos e as pessoas que me rodeiam. Ali, perdida na areia, tenho descoberto o prazer de estar sozinha. E hoje, enquanto espero ansiosamente pela hora de saída para repetir todos estes passos, penso em como meter conversa com a Ve.-do-piercing. Quero dizer-lhe que me lembrei dela, que tenho saudades da boa disposição que trazia todos os dias, das férias sem pais no Algarve e dos tempos que partilhámos juntas. E que, às vezes - talvez mesmo só às vezes, a teoria dela está errada. Às vezes - talvez mesmo só às vezes, estar sozinha é muito melhor do que estar mal acompanhada.

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

.Contrastes

Ontem foi dia de voltar ao dentista. Contas feitas, tirei o aparelho há oito anos e há mais de dez que pisei aquele consultório pela primeira vez. Acordei cedo para poder ir de comboio, um dos meus pequenos prazeres. De iPod nos ouvidos até entrar na carruagem, e a alternar entre “A vida secreta das abelhas”, da biblioteca de Oeiras, e as vidas que iam ocupando os bancos à minha volta, segui até Entrecampos. Voltei a pôr o iPod e comecei a andar para o fundo – as torres cor-de-rosa eram já ali e a consulta era só às 10:30 – talvez me atendessem mais cedo, pensei. Foi quando vi um casal de velhotes a correr para o comboio, que já tinha fechado as portas e começava a andar nesse instante. Ele ia mais à frente, ela tentava apanhar os dois. Olhei para eles, para os ténis branquinhos nos pés dele – como aqueles que oferecemos nos anos ao avô há tanto tempo e que ele continua a usar como se fossem a coisa mais preciosa deste mundo, e não pude deixar de ver ali, neles, os meus avós. Deu-me tanta pena vê-los assim, a correr, a bater com a mão na porta sem que isso travasse o comboio, que comecei a chorar ali mesmo, enquanto andava. Não sei explicar bem porquê, só senti o coração apertado, e chorei. Chorei por eles. Chorei por mim. Pelos medos, inseguranças, dores, e pelo que o tempo faz. Chorei pelo pai, por vê-lo de muletas, por não lhe poder dar aquilo que merece. Chorei pela mãe, por não poder ajudar a transformar mesmo os sonhos mais pequeninos em realidade. Chorei pela mana, pelas doenças, doencinhas e doencitas que a incomodam sempre. Pelo trabalho que começa agora a procurar, pelo mestrado onde quer entrar. Chorei pela avó T., a ser operada ao olho naquele momento. Pela avó A., com medo que os maus entrem pela casa adentro sempre que está sozinha. Pelo avô Al., ao imaginá-lo orgulhoso no palco a acompanhar as cantadeiras com a gaita-de-beiços. Pelo avô X., que já não está connosco. Chorei pelo actor de Spartacus, que morreu esta semana com a doença do Tuto (chorei por ele também), a mesma que, com a quimioterapia, enfraquece a Ce. de dia para dia. Chorei pelo sr. J.P., a quem o coração quase trocou as voltas e pela Cr., que sofre por isso. Chorei pelo Z., enquanto o imaginava em outros braços a dançar a música que estava a ouvir no momento da mesma forma que o faz comigo. Chorei pela Lily, heroína do livro guardado na mala, que acabava de encontrar May sem vida. Dei por mim a chorar por este mundo e pelo outro, por mim e por todos os outros. Talvez fossem lágrimas acumuladas em tantos dias, que precisavam apenas da mínima faísca para saírem para fora. E o dique rebentou, ali na plataforma de Entrecampos, ao ver o desalento de dois velhotes que acabavam de perder o comboio. Continuei a andar, aumentei o som e esperei que as lágrimas secassem. Só vejo o meu dentista preferido uma vez por ano, não ia receber o “cara linda, cá estás tu outra vez” lavada em lágrimas. Esperei na sala por pouco tempo e entrei para uma repetição destes últimos anos. “Cara linda, cá estás tu outra vez. Sorri. Abre. Fecha. Trinca. Que curso tiraste tu? Jornalismo? Como é que foste para isso? E onde estás agora? Ah, pois é, já não me lembrava. Continuas perfeita, com um sorriso perfeito. Flúor de limão, mentol ou morango? Volta cá daqui a um ano. Gosto em ver-te, cara linda”. E eu saí com o meu melhor sorriso, sem pensar que o mesmo discurso estava já a ser repetido à menina que entrava. Olhei para as horas, 10:37. Corri até ao Campo Pequeno para comprar uma massinha para o almoço e cheguei à plataforma ao mesmo tempo que o comboio – 10:57. Corri, entrei sem saber bem como, percebi que não tinha validado o bilhete, voltei a sair e a entrar e foi quase por milagre que segui viagem. Ou não. Estava tão absorvida na leitura que nem dei conta das pessoas que iam entrando e saindo, nem dos meus companheiros de viagem. Foi só quando a minha paragem se aproximou, e me encaminhei para a porta, que os vi. Não eram os mesmos da manhã, era outro casal de velhotes. Tinham tantos, mas tantos sacos, que não consegui imaginar como tinham chegado até ali. Duas malas térmicas grandes, um saco daqueles enormes de supermercado cheio, e dois carrinhos de compras, um deles bem grande. Tirei os fones, arrumei tudo na mala e fui ter com eles, posso ajudar a levar os sacos? Que sim, que podia, muita obrigada, que talvez o elevador estivesse a funcionar e aí seria mais fácil. Levei-os até lá, e tentei certificar-me de que não precisavam mais de ajuda. Foram tão convincentes que acreditei que alguém estaria lá em baixo à espera deles. Foi só quando desci as escadas e me dirigia para a saída que os voltei a ver, sozinhos, a tentar equilibrar tudo aquilo. Fui a correr, deixe-me ajudá-la, para onde vão? “Deus lhe pague, para o táxi”, dizia-me. Agarrei em dois dos sacos e senti mais uma vez o peso de tudo aquilo – muito mais do que o que estava lá dentro. Isto é muito pesado para si. E ela agarrou-me o braço, que as dores mal a deixavam caminhar, que já tinha caído desamparada no Areeiro e o joelho, negro, aumentava de tamanho e impedia-a de continuar. Ajudei-os a entrar no táxi, com um condutor nada simpático. Ainda ousei pedir-lhe para os ajudar a descarregar tudo o que traziam de outras hortas quando chegassem ao destino, mas o ar dele de espanto não me deixou mais descansada. Acho que ainda nem me tinha despedido deles e já as lágrimas tinham voltado a cair. Pelo peso dos sacos, pelo joelho dorido, pela falta de alguém à espera deles. Por tudo e por nada, pelos males do meu mundo e do mundo dos outros. Segui para o carro, à espera para me levar até ao trabalho, debaixo de um sol que sufocava tanto quanto as lágrimas. Pensei em como estes dias têm sido de contrastes. Passei o domingo na praia, com o Z. e os pais, e não parámos de rir. Das piadas, da cesta da comida, do bronzeado manchado que apanharam os três. À noite, enquanto comíamos choco frito em Setúbal, fomos atacados por uma vaga de mosquitos que nos fez chorar a rir. Ficámos todos picados, mesmo depois de termos morto uns 20. Eu matei três só na testa do pai, o pai batia no Z., a mãe em mim e até derrubei um copo de coca-cola em cima de mim ao tentar acabar com um que me picava o braço. Mal conseguimos comer, entre picadas e gargalhadas, enquanto víamos as outras mesas também neste estranho ritual de agressão aos companheiros de refeição. E ali estava eu, depois de tanto riso, numa crise de choro pela segunda vez no mesmo dia.

Depois de sair do trabalho voltei a Lisboa de comboio. O Z., o Di. e a Ta. esperavam-me para um jantar no Lucca. E aí voltei a rir, muito. A celebrar a amizade, o amor, as coisas boas que a vida também me vai trazendo, regados a chá de jasmim com limão e canela. Liguei aos pais e aos avós, a tentar sossegar o temporal que me tinha apanhado durante o dia, e ainda ajudei a mana a fazer a carta de motivação para se candidatar ao mestrado antes de cair na cama. Adormeci a tentar equilibrar as emoções do dia, a tentar conciliar tantos contrastes. E, tenho a certeza – talvez por não ter mais lágrimas para gastar -, com um sorriso. Aquele que o meu dentista diz que é perfeito.

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

.Considerações II

.Gosto do ritual das visitas aos doentes que ainda se mantém em terrinhas como a minha. O meu pai foi operado ao joelho há uns dias atrás, e lá vão chegando a casa pessoas para saber como está, para lhe fazer companhia um bocadinho ou só para dizer um olá. No domingo, depois de chegar da Curia, fui eu que abri a porta a uma dessas visitas. Era o senhor Ca., com nome e sorriso de galã, a quem ninguém dá 82 anos, e que chegou até ali no seu próprio carro. Enquanto bebiam uma qualquer bebida doce no sofá, lá foi intervalando as novidades do dia com as histórias de outros tempos, aqueles em que não havia cigana bonita que lhe escapasse, mesmo depois de comprometido. Gosto dele, do sorriso de dentes bonitos que às vezes esconde com a boina enquanto me diz “ai mana, naqueles tempos…”. Prometeu que nos levava pêssego ratinho com vinho branco, feito por ele, para provar um dia destes. Eu, como faço sempre que apanho assim alguém com tantas histórias, lá o ia espremendo, e perguntando coisas a que ele ía respondendo com o sorriso maroto que arrebatava as ciganas. Quase no final da conversa, numa pergunta minha mais matreira, a minha mãe avisou-o logo, “olhe que amanhã isso já está tudo no blog”. E teria sido assim, noutros tempos, que por estes ando 'desinspirada' para a escrita.

 

.O Jo. é meu amigo desde sempre. Das conversas, das saídas à noite, dos encontros da catequese, das festas, das mensagens, das danças, de tantas coisas. E sempre foi o meu amigo com maior sensibilidade para o mundo, para as artes, para as ideias, para as coisas. Da cabeça dele saíram coisas que ninguém imagina: festas, programas, roupas, prendas, eu sei lá. Até pode parecer que só está parado a olhar para qualquer lado, mas, nesse momento, está a magicar alguma – sempre em grande. Foi com alguma surpresa que me disseram que tinha, quase nos 40 anos de idade, levado um namorado à nossa terrinha. Surpresa só por isto: considero-me amiga à séria, e não percebi porque nunca se sentiu à vontade para nos (ao nosso grupo) contar. O Jo. encontrou uma barreira na família, em alguns amigos, na terra, e em tantos grupos que apoiou, e deixou tudo para trás – as festas, a Igreja, algumas pessoas. Eu, como fiz questão de lhe dizer assim que soube, fiquei feliz, tão feliz. Sei que quando gostamos de alguém queremos ter essa pessoa ao nosso lado em tudo, e deve ser difícil, tão difícil, não nos sentirmos com força para misturar o trinómio amor-família-amigos. O Jo. viveu quase sempre para os outros, e só vivia para ele aos bocadinhos. Fiquei tão contente por saber que o Au. o fez ganhar a coragem de contar ao mundo a verdade sobre quem lhe faz bater o coração. O amor torna-nos melhores ou piores pessoas, mais ou menos felizes, mas não define quem somos – somos sempre a mesma coisa. O Jo. não é diferente – de ninguém, nem do que foi até agora. E é por isso que tenho pena. Não pelo Jo., mas por todas as pessoas que lhe viraram as costas neste momento: não percebem que perderam o Jo., e pessoas como ele são especiais e raras. Eu tenho a sorte de ter o Jo. como amigo desde sempre. E só quero que assim continue. O que temos. E como ele está – feliz.

 

.Já falei sobre isto por aqui, mas a Bimby torna-me uma pessoa mais feliz – e quase pareço fútil ao dizê-lo. A nova descoberta lá de casa faz maravilhas à alma e não deixa peso na consciência: uma caixa de frutos vermelhos congelados, um iogurte natural açucarado acabado de sair do frigorífico e um minuto na velocidade 7. Se me dissessem que era um Santini nem desconfiava… Continuo sem receber qualquer comissão.

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

.Considerações

Estive de férias e não dormi mais do que cinco horas por noite. Regressei a precisar de férias – mas gostei tanto. Teve tudo o que importa: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

Apaixonei-me por Londres. Gostei das ruas, das pessoas, das coisas. Adorei o mercado de Camdem (vestidinhos giros – trouxe dois, pessoas diferentes, comidas de todas as cores, negócios inimagináveis, …), o Museu da Guerra (a exposição “Pessoas normais podem ser heróis improváveis” tocou-me) e o Museu Geffrye (mobiliário e material de casa desde 1600 até 2000, com salas montadas para as várias décadas).

 

À segunda viagem juntos, eu e o Z. percebemos uma coisa: aquilo de que gostamos realmente nos países que conhecemos, ou melhor, o sítio onde passamos mais tempo é nas lojas de comida. Em Paris estivemos uma hora numa loja de congelados, espantados com a diversidade, desta vez perdemos a conta ao tempo – tantas coisas diferentes a preços espectaculares.

 

A máquina fotográfica avariou de vez na nossa volta no London Eye. Valeu-nos o telemóvel e uma máquina descartável. Assim que aterrámos em Lisboa a primeira coisa que fizemos foi comprar uma. Já foi trocada três vezes por motivos vários (histórias inacreditáveis), mas, como todos dizem, temos “um maquinão”.

 

Tentaram roubar o meu carro. É velhinho, de 98, mas não deixou – parece que tem uma defesa qualquer ao nível da chave. Ficou sem bateria de tanto tentarem levá-lo, e só esta semana voltou a funcionar. É um resistente. E fiel.

 

Levámos um coxo, de muletas, para o Andanças – fez um sucesso. Quero mais disto, foi tão bom: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos. E o senhor de bigode a dizer que nos partia o carro todo por termos estacionado no terreno do cunhado e que acabou a beber do caneco do Em. e a mandar-nos estacionar no próprio terreno? Viva a gente do Norte.

 

A mana chegou aos 21 e está no primeiro emprego – no ATL, com regras e tudo. Teve uma grande surpresa ao chegar ao restaurante só com a família mais chegada e encontrar tios, padrinhos, afilhados e avós. Entrou a reclamar na sala por lhe taparem os olhos, ou não fosse ela a minha maAna Luísa.

 

A minha Ma. e a prima do Z., a Le., vieram passar a última semana connosco a Lisboa. Fomos à praia, às compras, comemos pastéis de Belém à noitinha, aproveitámos o Festival dos Oceanos para visitar o Museu dos Coches e da Electricidade até à meia-noite. Ficámos tristes com o Planetário, que não nos aceitou, apesar de termos chegado a horas. E terminámos a semana em grande: vimos a peça de teatro “O Principezinho” na Quinta da Regaleira, e depois subimos o poço.

 

Fiz um cruzeiro pelo Alqueva com os amigos e não resistimos a dar um mergulho, numa zona com 30 metros de profundidade. Fomos todos numa carrinha dos meninos da escola (a Su. e o mano foram lá ter), com a mala recheada de presunto caseiro e pão alentejano. Ainda fizemos Geocaching e terminámos o dia a jantar numa festa com bailarico. Quero mais disto: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

Mas agora preciso de descansar. Domingo rumo à Curia para o merecido descanso. Mas antes ainda são as festas da terrinha, porque isto também faz falta: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

.Penso em ti todos os dias

Li por aí, em qualquer lado, que só morre quem é esquecido. É por isso que sei que vais viver para sempre. Penso em ti todos os dias. Hoje muito mais. [Parabéns]

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Segunda-feira, 18 de Abril de 2011

.Falámos

Na noite de sábado sonhei contigo. Estava num hospital, perto de Belém, com vista para o monumento aos combatentes do Ultramar – não me perguntes porquê. Sei-o porque era a vista da janela do corredor por onde passei muitas vezes, sempre à tua procura. Corri todos os cantos do hospital, e nada de ti. Perguntava a toda a gente, corria, entrava em todas as portas. Até te encontrar. Estavas de pé, encostado à cama, à minha espera, com uma t-shirt verde que sei não ser tua – nos sonhos baralho tudo, misturo tudo, vou buscar tudo. Era a t-shirt que o Z. levava no dia da viagem. Disseste-me: “Precisas mesmo de falar comigo, não é? Procuraste-me tanto”. Abriste-me os braços e eu encaixei-me neles, enquanto as lágrimas caíam antes mesmo de eu pestanejar – mesmo como nos últimos dias, como hoje. E falámos.

Hoje, a caminho de Lisboa, decidi parar no cemitério. Não me lembro nunca de ter entrado num sozinha. Não senti medo, só que precisava mesmo de ir ali. Estive lá uns dez minutos. Vi a placa nova, onde colocaram “Tuto” – mas alguém te tratava por Augusto?, pensei. Nem os professores o faziam. Vi as datas marcadas a dourado – quatro anos, já passaram quatro anos desde que saíste daqui. Fiquei ali, de pé, a intervalar as lágrimas com as rezas até acalmar. E falámos.

Já estava de saída quando ouvi “Menina, menina”. Confesso que me assustei, ia jurar que mais ninguém estava ali. Já devia ter mais de 70 anos, e estava de pé, em cima de uma das campas altas, a lavar o mármore, que o tempo escureceu, com um pincel e lixívia. Pensei que quisesse ajuda para descer – nem percebi como é que ela tinha conseguido subir. “Pode trazer-me este baldinho com água? É que se eu for buscar depois já não consigo subir”. Explicou-me onde era e fui lá. Quando lho entreguei, agarrou-me as mãos com força e, enquanto dizia “Deus lhe pague menina”, começou a chorar. E eu chorei com ela, já sem saber bem porquê. Uma vez mais. Depois entrei no carro e segui para o trabalho. E falámos.

Lá fora: [nada]
Quinta-feira, 10 de Março de 2011

.A minha Su.

A Su. é a minha melhor amiga. Tenho algumas melhores amigas, mas a Su. é aquela que tenho há mais tempo. Provavelmente conhecemo-nos desde o dia em que nasci. Gosto dela mesmo quando estamos chateadas. E sei que sou retribuída, mesmo sabendo ela tudo sobre mim. A Su., quando era pequenina, era mesmo, mesmo má. Não há ninguém que se tenha cruzado com ela que não tenha uma história para contar que envolva puxões de cabelo, dentadas, beliscões, entre outras aventuras de tortura. Eu tenho várias. Lembro-me do dia em que nos tiravam uma foto juntas – na impressão parece que está a abraçar-me, na verdade estava a tentar tirar-me um bocado. E há também aquela em que eu resolvi chegar ao pé dela e dizer-lhe: “já telefonei à minha mãe a dizer que me bateste”, e ela se sai com “então toma lá outra para não seres queixinhas”. Depois, quando cresceu, ficou boazinha de mais – tanto que dava vontade de agitar, mas acho que, finalmente, começamos a chegar a um meio-termo. Lembro-me da Su. desde sempre. Nas brincadeiras, na escola, nas primeiras saídas à noite, nos jogos de futebol, nas tardes de conversa, nas saídas do rancho, nos segredos. Temos tantas e tantas histórias juntas. Quando não havia Jardim-de-infância na terrinha, os nossos pais levavam-nos às duas – e ao termo da comida, ao da terra ao lado. Um dia a Su. engoliu a tampa de um marcador, e sempre que era altura de ir ao penico parava tudo na esperança de que ela saísse – foi um acontecimento. No ano passado partilhámos as nossas primeiras semi-férias – ela convidou-me para ir ao Andanças, e que bom que foi. Há coisas entre nós que não sei explicar muito bem – como o facto de, sempre que sonho com ela, acordar com uma mensagem dela no telemóvel. Desde que somos mais crescidas – desde que eu estou na capital e ela se fez ao Alentejo profundo, estamos menos vezes juntas. Mas isso não significa nada, porque sempre que estou com ela tenha a sensação que estivemos à conversa na véspera. Somos vizinhas no nosso Alentejo, e não é difícil encontrarem-nos em casa uma da outra – quase sempre a segredar à volta de uma mesa com comida. A Su. tem estado doente, e eu nem tempo tive para ir visitá-la. Ontem chegou uma mensagem a dizer que tem cobro, e eu, que pensava que isto era um mito ao nível das bruxarias, fiquei muito preocupada – porque foi diagnosticado por um médico. Hoje telefonei-lhe dez minutos para esclarecer tudo – parece que é uma espécie de herpes que pode aparecer a quem já teve varicela, e não é bom, e valeu-lhe a primeira baixa de uma vida. E eu senti-me mal – por estar sempre longe, sem tempo, sem mais bocadinhos para nos encaixarmos. E por isso já decidi que no fim-de-semana lá estarei, de bolo e flores na mão, para lhe fazer companhia e meter a conversa em dia. Porque há sempre tempo para os amigos. E a Su. é a melhor que eu tenho.

  

 

 

 

L. às 16:20
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

.Não há coincidências ou nada acontece por acaso

A minha teoria dos sinais nem sempre é boa. Com os sinais vêm as lições. Se isto aconteceu, se vi, se ouvi, se apareceu, tem de ter um significado. E ali fico eu às voltas e voltas, a tentar encontrá-lo. E nem sempre é bom.

Conheci a T. por ser irmã de uma espécie de amigo meu. Lembro-me de a ver nas festas das terrinhas em volta, nos jogos de futebol, nos casamentos dos amigos. Nunca tínhamos trocado mais que um sorriso. Um dia encontrámo-nos no metro de Lisboa. Eu devia estar de iPod nos ouvidos e a observar todas as pessoas onde o meu olhar conseguia chegar. Reparei nela também e tive quase a certeza que a conhecia. Estava mesmo no banco à minha frente, de apontamentos de enfermagem no colo, e à conversa com as amigas que a acompanhavam. Não lhe falei, não me lembro se sorri sequer – quantas vezes me acontece sorrir ou falar e virarem-me a cara? E daqui veio uma lição: não falar sem ter a certeza que vou ter resposta. A confirmação, de que era a T., chegou mais tarde. Não sei como é que ela chegou aqui, ao meu estaminé, mas aproveitou os comentários para me dizer que nos tínhamos cruzado aqui, tão longe das nossas terrinhas, na mesma carruagem de metro. Desde aí temos falado muito. Nos comentários, por email, por sms, até que finalmente passámos à prática. Não foi para comer um pastel de massa tenra, nem para visitar o Lucca – ela morar na Travessa Henrique Cardoso aqui em Lisboa será uma coincidência ou nada acontece por acaso? Foi para me entregar uma fita de fim de curso. Confesso que isto me deixou contente, a fita, a história. Não estou habituada a que gostem de mim sem me conhecerem primeiro. O meu quarto recebeu a nossa conversa durante horas, a mãe fez fatias douradas, e a fita ficou esquecida - já nos tínhamos despedido quando nos lembrámos, e ela teve de voltar para trás.

E dou por mim a pensar: se o irmão dela não lhe tivesse falado de mim teríamos chegado aqui? Se não nos tivéssemos cruzado no metro teríamos chegado aqui? Se não tivéssemos partilhado a Travessa Henrique Cardoso teríamos chegado aqui? Se as nossas mães não se encontrassem de vez em quando nas bombas e o meu pai não vendesse pão por lá teríamos chegado aqui? Mas isto sou só eu, a ver sinais. A tirar lições. A querer significados. Ainda não sei qual é o desta história, mas sei que estou a gostar de ter a T. na minha vida. E que não há coincidências, nem nada acontece por acaso.

 

(E como fiquei surpreendida por ler isto)

Lá fora: "Vai magoar-te, e não vais ter ninguém à tua volta."
Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

."Não há nada mais raro no mundo do que uma pessoa que possamos suportar sempre"*

Ontem, no jantar das amigas, as novidades estranhas iam chegando. A In. e o Si. terminaram, depois de 10 anos de namoro. A Jo. e o Di. deram um tempo, depois de 8 anos juntos. Pelo email as notícias não eram diferentes: a Fi. e o Jo., que namoravam desde sempre, também aderiram ao ‘tempo’. Até nos jornais o modo era o mesmo: a Shakira deixou de ter namorado, depois de 11 anos.

 

Na segunda, quando fui jantar ao Alentejo, encontrei os pais mais ou menos chateados um com o outro. A mãe dizia que o pai tinha tido uma crise de ciúmes. O pai contrariava. Que não eram ciúmes, que ele não tem dessas coisas. Não gostou da situação, que a minha mãe também não ia gostar se fosse ao contrário. Respondia-me ele, depois da mãe me contar a história. E ela levantou-se, agarrou-se a ele aos beijinhos e lá confessou que era verdade. “Pois é, não gostava nada, gosto tanto de ti, tens toda a razão”. E ali ficaram, aos beijinhos. “A mãe, em tempos, disse-me que os computadores é que estragam as relações – como não tinha um, agarrava-se ao marido. Agora que estão os dois a tirar o 12º ano, e cada um tem um computador, estou para ver o que acontece!”, dizia eu. Mas ela tranquilizou-me logo: “não te preocupes filhota, continuamos a deitar-nos todos os dias às 22:00. Juntos.”.

 

Os meus pais casaram aos 16 anos. Vivem juntos. Trabalham juntos. Passam férias sozinhos. Encontramo-los a dar beijinhos pelos cantos. A fazerem declarações de amor. Surpresas. E fazem cenas de ciúmes, quase a entrar nos 50. E eu olho para eles com orgulho. Com inveja da boa. Com a certeza de que tudo isto é raro. De que “não há nada mais raro no mundo do que uma pessoa que possamos suportar sempre”*. E amar, acrescento eu.

 

*Giacomo Leopardi, poeta italiano (1978-1837)

  

 

http://denizyazicioglu.tumblr.com/

 

Lá fora: "Mas a Maya escreveu só para nós."

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