Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

.Pessoas

Fui jornalista durante pouco tempo – nem carteira cheguei a pedir, mas deu para perceber uma coisa: se pudesse, escrevia apenas sobre pessoas. Lembro-me de uma vez, enquanto estava a trabalhar nas revistas dos barcos, ter ido entrevistar um casal português que vivia num barco com os dois filhos menores, os únicos portugueses que já tinham dado a volta ao mundo de barco por duas vezes. Adorei conhecê-los, conhecer aquelas histórias que nunca me atreveria a viver. Escrevi um artigo que achei, modéstia à parte, realmente bom. Os colegas que leram gostaram bastante e o pai do meu chefe da altura, um senhor exigente que nos corrigia os artigos, chegou a ligar-me para elogiar a escrita, o encadear das histórias – disse-me que tinha sido um dos melhores artigos que já lera sobre o assunto. O pior foi quando o chefe me chamou à sala para falarmos sobre o artigo e rasgou as folhas à minha frente. Afinal, o que era aquela porcaria? Os leitores queriam saber que avarias enfrentaram, como tinha reagido o barco, como funcionaram as velas, e coisas assim. Saber como tinham aulas os miúdos? Quem eram os amigos? Como se encontravam? Como se passavam 24 horas num barco sem se cansar? Isso não interessava para ninguém. E lá voltei eu a Cascais, à conversa com eles, para poder então escrever o artigo que interessava ao meu chefe e aos leitores da revista, mas não a mim. Talvez tenha sido nesse dia que percebi que nunca ia chegar longe no jornalismo – moldei o artigo a mim, àquilo de que gostava – as pessoas, quando, afinal, não era isso que devia ter feito. Mas é possível ser-se jornalista sem deixar uma marca pessoal?

Na minha terra, há já algum tempo, formaram uma associação de jovens. Não faço parte, limito-me a participar em algumas das iniciativas e, ainda que não seja próxima de todas as pessoas que a compõem, tenho muito orgulho delas. Porque, continuando algumas pela terra ou só estando nela ao fim-de-semana, tiveram a coragem de se juntar para lutar por qualquer coisa. Organizam torneios de tudo e mais alguma coisa, fazem festas, passam filmes, reivindicam – e tudo isto me parece muito bem. Não há muito tempo passaram a ter também um jornal e convidaram-me agora para escrever qualquer coisita para lá. Não demorei muito a escolher o tema – pessoas. Cada uma desta aldeia deve ter uma história gira para contar, uma lição para ensinar, um gesto que faça rir. E o melhor é aproveitar agora, enquanto ainda estão cá, e registar e dar a conhecer este património da aldeia.

Para primeira edição escolhi uma pessoa que toda a gente conhece, o senhor M.C.., o jornalista da terra. Não se formou na área, mas poderia muito bem formar gente. É ele que todos os meses escreve as novidades da terra para o jornal do concelho, e nem a doença o impede de continuar a fazê-lo.

Tirei o dia de férias e estou pela minha aldeia. Ontem tive o melhor feriado possível – em casa, com os pais, a mana e os respectivos apêndices, à volta do lume, com comida, jogos e muita  conversa. Agora estou sozinha em casa, a mãe está a trabalhar na loja, o pai foi à lenha com o Z., a mana foi com o namorado a V.N. arranjar os pneus da carrinha do pão que já teve dois furos hoje. Estou a ganhar coragem para sair de casa e ir bater à porta do senhor M.C.. Falamos muito quando nos encontramos por acaso, ele até veio visitar o pai quando foi operado, mas desta vez é diferente. Primeiro porque não entrevisto ninguém há muito tempo, depois porque acho que é sempre melhor que nos contem coisas porque querem e não só porque perguntamos. Vou tomar um banho bem quente, ligar o rádio que tanto orgulho dá ao pai, e começar a pensar no que lhe vou perguntar daqui a instantes. O medo há-de passar quando lá chegar, ou não fosse eu a L. de sempre – quando a conversa começar o difícil vai ser parar. Ou não fosse este o meu tema preferido de todos – pessoas.

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

.A infância

No outro dia, no Alentejo do Z., a conversa foi parar à nossa infância. Aos pais, à educação, aos traumas que nos acompanharam pela vida fora. Fui ouvindo as reclamações do Z. e da prima, eles que tinham ali os pais presentes, e fui pensando em mim. Pensei, pensei, e percebi que sempre fui realmente feliz. E que a culpa disso é da minha família. Fiquei até orgulhosa quando ouvi o Z. dizer no outro dia aos meus avós que desde que está comigo passou a dar mais valor à família dele e ao tempo que passa com ela - ele que acompanha as minhas correrias de fim-de-semana para visitar todos nem que seja por cinco minutos antes de irmos para a semana de trabalho. Tivemos problemas, zangas, chatices, coisas menos boas, como em todas as famílias, mas traumas nem um. Fizemos aquilo que sabemos melhor, ser uma família, e resolvemos as coisas mais ou menos no momento. Sei que fui uma criança e uma adolescente feliz – que resultou naquilo que sou hoje. Os pais não disseram sim a tudo, não fizeram tudo o que eu queria, também deram algumas palmadas, e tudo isto foi preciso. Sei também que disseram sim e fizeram coisas que talvez não parecessem bem aos outros, e só a nós. Não houve padrões, houve análises caso a caso – “a tua liberdade depende de ti e só de ti, é o teu comportamento que pode ditar o que fazes, o que és e onde vais”, disse-me o pai tantas vezes. E esta frase, assim como tantas que me disseram e continuam a dizer, fizeram de mim o que sou hoje. Sei que deve haver muita gente por aí a dizer que tem os melhores pais do mundo, mas tenho a dizer-lhes que só podem estar enganados. É que os melhores, não tenho duvidas, são os meus.

 

Há muitos anos atrás, há mais de vinte, a Zi., uma amiga, fez um trabalho para a faculdade em que me usou como ‘modelo fotográfico’. O trabalho veio parar às minhas mãos no outro dia e quase todos lá em casa deixámos cair uma lagrimita ao vê-lo. Ao ver estas fotos não tive dúvidas – fui mesmo uma criança feliz (e na moda!).

 

(Tenho andando meio ausente daqui, um dia destes explico porquê)

 

 

 

 

 

 

 

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

.Considerações II

.Gosto do ritual das visitas aos doentes que ainda se mantém em terrinhas como a minha. O meu pai foi operado ao joelho há uns dias atrás, e lá vão chegando a casa pessoas para saber como está, para lhe fazer companhia um bocadinho ou só para dizer um olá. No domingo, depois de chegar da Curia, fui eu que abri a porta a uma dessas visitas. Era o senhor Ca., com nome e sorriso de galã, a quem ninguém dá 82 anos, e que chegou até ali no seu próprio carro. Enquanto bebiam uma qualquer bebida doce no sofá, lá foi intervalando as novidades do dia com as histórias de outros tempos, aqueles em que não havia cigana bonita que lhe escapasse, mesmo depois de comprometido. Gosto dele, do sorriso de dentes bonitos que às vezes esconde com a boina enquanto me diz “ai mana, naqueles tempos…”. Prometeu que nos levava pêssego ratinho com vinho branco, feito por ele, para provar um dia destes. Eu, como faço sempre que apanho assim alguém com tantas histórias, lá o ia espremendo, e perguntando coisas a que ele ía respondendo com o sorriso maroto que arrebatava as ciganas. Quase no final da conversa, numa pergunta minha mais matreira, a minha mãe avisou-o logo, “olhe que amanhã isso já está tudo no blog”. E teria sido assim, noutros tempos, que por estes ando 'desinspirada' para a escrita.

 

.O Jo. é meu amigo desde sempre. Das conversas, das saídas à noite, dos encontros da catequese, das festas, das mensagens, das danças, de tantas coisas. E sempre foi o meu amigo com maior sensibilidade para o mundo, para as artes, para as ideias, para as coisas. Da cabeça dele saíram coisas que ninguém imagina: festas, programas, roupas, prendas, eu sei lá. Até pode parecer que só está parado a olhar para qualquer lado, mas, nesse momento, está a magicar alguma – sempre em grande. Foi com alguma surpresa que me disseram que tinha, quase nos 40 anos de idade, levado um namorado à nossa terrinha. Surpresa só por isto: considero-me amiga à séria, e não percebi porque nunca se sentiu à vontade para nos (ao nosso grupo) contar. O Jo. encontrou uma barreira na família, em alguns amigos, na terra, e em tantos grupos que apoiou, e deixou tudo para trás – as festas, a Igreja, algumas pessoas. Eu, como fiz questão de lhe dizer assim que soube, fiquei feliz, tão feliz. Sei que quando gostamos de alguém queremos ter essa pessoa ao nosso lado em tudo, e deve ser difícil, tão difícil, não nos sentirmos com força para misturar o trinómio amor-família-amigos. O Jo. viveu quase sempre para os outros, e só vivia para ele aos bocadinhos. Fiquei tão contente por saber que o Au. o fez ganhar a coragem de contar ao mundo a verdade sobre quem lhe faz bater o coração. O amor torna-nos melhores ou piores pessoas, mais ou menos felizes, mas não define quem somos – somos sempre a mesma coisa. O Jo. não é diferente – de ninguém, nem do que foi até agora. E é por isso que tenho pena. Não pelo Jo., mas por todas as pessoas que lhe viraram as costas neste momento: não percebem que perderam o Jo., e pessoas como ele são especiais e raras. Eu tenho a sorte de ter o Jo. como amigo desde sempre. E só quero que assim continue. O que temos. E como ele está – feliz.

 

.Já falei sobre isto por aqui, mas a Bimby torna-me uma pessoa mais feliz – e quase pareço fútil ao dizê-lo. A nova descoberta lá de casa faz maravilhas à alma e não deixa peso na consciência: uma caixa de frutos vermelhos congelados, um iogurte natural açucarado acabado de sair do frigorífico e um minuto na velocidade 7. Se me dissessem que era um Santini nem desconfiava… Continuo sem receber qualquer comissão.

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

.Considerações

Estive de férias e não dormi mais do que cinco horas por noite. Regressei a precisar de férias – mas gostei tanto. Teve tudo o que importa: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

Apaixonei-me por Londres. Gostei das ruas, das pessoas, das coisas. Adorei o mercado de Camdem (vestidinhos giros – trouxe dois, pessoas diferentes, comidas de todas as cores, negócios inimagináveis, …), o Museu da Guerra (a exposição “Pessoas normais podem ser heróis improváveis” tocou-me) e o Museu Geffrye (mobiliário e material de casa desde 1600 até 2000, com salas montadas para as várias décadas).

 

À segunda viagem juntos, eu e o Z. percebemos uma coisa: aquilo de que gostamos realmente nos países que conhecemos, ou melhor, o sítio onde passamos mais tempo é nas lojas de comida. Em Paris estivemos uma hora numa loja de congelados, espantados com a diversidade, desta vez perdemos a conta ao tempo – tantas coisas diferentes a preços espectaculares.

 

A máquina fotográfica avariou de vez na nossa volta no London Eye. Valeu-nos o telemóvel e uma máquina descartável. Assim que aterrámos em Lisboa a primeira coisa que fizemos foi comprar uma. Já foi trocada três vezes por motivos vários (histórias inacreditáveis), mas, como todos dizem, temos “um maquinão”.

 

Tentaram roubar o meu carro. É velhinho, de 98, mas não deixou – parece que tem uma defesa qualquer ao nível da chave. Ficou sem bateria de tanto tentarem levá-lo, e só esta semana voltou a funcionar. É um resistente. E fiel.

 

Levámos um coxo, de muletas, para o Andanças – fez um sucesso. Quero mais disto, foi tão bom: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos. E o senhor de bigode a dizer que nos partia o carro todo por termos estacionado no terreno do cunhado e que acabou a beber do caneco do Em. e a mandar-nos estacionar no próprio terreno? Viva a gente do Norte.

 

A mana chegou aos 21 e está no primeiro emprego – no ATL, com regras e tudo. Teve uma grande surpresa ao chegar ao restaurante só com a família mais chegada e encontrar tios, padrinhos, afilhados e avós. Entrou a reclamar na sala por lhe taparem os olhos, ou não fosse ela a minha maAna Luísa.

 

A minha Ma. e a prima do Z., a Le., vieram passar a última semana connosco a Lisboa. Fomos à praia, às compras, comemos pastéis de Belém à noitinha, aproveitámos o Festival dos Oceanos para visitar o Museu dos Coches e da Electricidade até à meia-noite. Ficámos tristes com o Planetário, que não nos aceitou, apesar de termos chegado a horas. E terminámos a semana em grande: vimos a peça de teatro “O Principezinho” na Quinta da Regaleira, e depois subimos o poço.

 

Fiz um cruzeiro pelo Alqueva com os amigos e não resistimos a dar um mergulho, numa zona com 30 metros de profundidade. Fomos todos numa carrinha dos meninos da escola (a Su. e o mano foram lá ter), com a mala recheada de presunto caseiro e pão alentejano. Ainda fizemos Geocaching e terminámos o dia a jantar numa festa com bailarico. Quero mais disto: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

Mas agora preciso de descansar. Domingo rumo à Curia para o merecido descanso. Mas antes ainda são as festas da terrinha, porque isto também faz falta: amor, família, amigos, danças, água, sol, petiscos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Domingo, 5 de Junho de 2011

.Pára-quedista

Já está. Hoje voltei ao céu (e saltei bem):

Lá fora: "Foi um salto perfeito."
Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

.No céu

Desde que o meu Z. fez o curso de pára-quedismo militar que isto era assunto recorrente. “Um dia vamos fazer o civil”, “Aquilo é espectacular”, “Lá em cima é que é”. Seis saltos fizeram-no esquecer três semanas de cangurus e rezas árabes. E, no meio deste entusiasmo todo, dei por mim com um vale para fazer um curso de pára-quedismo civil. Depois de muita hesitação, marcámos para este fim-de-semana. Assim que nos cruzámos com o Instrutor, um pára-quedista militar já reformado, perguntou-me se eu ia só assistir. É difícil traduzir em palavras o ar desconfiado, desanimado que ele fez quando lhe disse que ia participar. Deixou-me um bocadinho desanimada também. Éramos um grupo de nove, e eu era a única rapariga. Ia ser a minha 'família', como explicou o instrutor. O primeiro dia foi de teoria. Procedimentos depois de sair do avião – contagem, verificar se a calote abriu, puxar os manobradores umas vezes para verificar se está tudo bem, ver se temos vizinhos, verificar onde estamos e começar a caminhada para a zona de aterragem, sempre à esquerda da pista, passar no ponto inicial (onde temos de estar aos 1000 pés), aos 500 pés virar 90º, aos 300 mais 90º e aterrar, sem olhar para o chão mas em frente. Estudámos incidentes simples e graves, como libertar a asa principal e puxar o de reserva, qual o trajecto a fazer desde que saltamos até aterrar e como sair do avião. Aprendemos até como aterrar na água, em telhados, em cima de árvores ou carros, contra cabos eléctricos e o que fazer caso ficássemos presos ao avião. Às vezes ficava assustada, outras mais calma, mas desistir é que nem pensar. A teoria terminou às 20:30, o que nos obrigou a jantar ali por perto, em São Mansos, no restaurante do sr. Xico, uma das coisas boas do fim-de-semana – quero lá voltar para provar aquela ementa toda. No domingo chegámos cedo, depois de um pequeno-almoço em família, a tempo de treinar as saídas da barreira ao lado do estacionamento. O caminho entre V. N. S. Bento e Évora foi feito a tirar notas, enquanto recordávamos as palavras da véspera e víamos dezenas de coelhinhos bebés a correr ao lado da estrada. Quando encontrei o senhor Mo., o instrutor, confessei-lhe que tinha passado a noite a saltar, “Oh amiga, eu não vos disse para descansarem?”. Só quando ele percebeu que tinha sido em sonhos é que deu para rir e aliviar um bocadinho. E foi assim que chegou a altura de saltar pela primeira vez. Resolvi não me preocupar, nem ficar ansiosa, logo se veria. O senhor Ma., ajudante do instrutor, andava sempre de roda de mim, a tentar apertar-me as protecções das pernas, grandes demais para alguém pequeno como eu. Era a quarta a saltar, e o Z. deu-me a mão o tempo todo. O pânico, ao nível do coração, chegou quando abriram a porta, ainda antes da minha vez. O vento, de todos os lados, a querer sugar-nos, deixou-me sem reacção. Depois veio o pânico maior: sair, lá em baixo, tinha sido fácil, não me tinha lembrado que lá em cima haveria o vento. Sair, com os meus 50 quilos mais os 15 às costas do pára-quedas, com todo aquele vento a empurrar-me, foi mais difícil do que imaginava. Pôr o pé esquerdo no patim, agarrar a barra com uma mão, depois colocar o outro pé e a outra mão foi a minha grande dificuldade. Não era a altura, não era o atirar-me, era o vento a querer levar-me. “Quando saltares, olha para mim”, dizia o largador, e eu tentei, mas não me lembro de nada. É por isso que se chama saltar e não largar, pensei eu depois em terra, enquanto pensava no que tinha feito mal – larguei as mãos e não saltei com os pés, e o vento levou-me logo, em muitas voltas acrobáticas pelo ar (que triste foi ver-me no vídeo), até sentir o pára-quedas a puxar-me nem sabia bem para onde. Quando dei por mim, a calote estava aberta, o instrutor dava ordens pelo rádio, tentei apanhar os manobradores, e senti o sangue na boca. Um cordão, o pára-quedas a abrir, o meu braço com sangue na camisola, não sei, qualquer coisa me tinha cortado o lábio por dentro. Mais descansada – não era o meu cérebro a esvair-se em sangue, tentei aproveitar, enquanto o meu coração se esforçava para caber no sítio que lhe foi reservado. Foi aí que percebi que não tinha feito nenhum dos procedimentos. Estava ali, a voar. Estava a 1200 metros do chão, via Évora, via o meu Alentejo, via o planeta, como dizia o senhor Ma.. Levei as mãos ao chão na aterragem, mas estava mais ou menos feliz. O meu primeiro salto estava feito, faltavam só três. Aterrei nas ervas, ao lado da pista dos aviões, enquanto me esforçava por ignorar os bichos que teimavam em passar à minha volta. Estava em terra, apesar daquela má partida. Fui recebida com palmas por algumas pessoas que estavam a assistir. Corajosa, diziam elas, e eu a tremer por dentro. No segundo salto o pânico instalou-se mais cedo – não queria mais cambalhotas daquelas, não queria sentir o vento a invadir-me o corpo e a alma. Não podem tirar o patim e saltamos de frente?, pensava eu. Não, não podiam, e os meus medos confirmaram-se. A mão que me encorajou no primeiro salto estava lá em baixo, a ver-me. O salto foi ainda pior que o primeiro, ou talvez fosse a minha desilusão a tomar conta de mim. Depois de já estarmos no ar, de porta aberta, tivemos de voltar para trás por falta de gasolina, o que só aumentou a ansiedade. Deixei-me ir outra vez, em acrobacias desnecessárias, a sentir o puxão vindo não sei de que sítio outra vez. Estava tão irritada comigo própria que me esqueci de aproveitar o salto, as orientações da C. pelo rádio deixavam-me baralhada, por ser a terceira a saltar tinha ficado longe de tudo, e, se não estivesse ali com tanta gente, teria chorado com toda a certeza. Foi assim que o Z. me encontrou, sentada nas ervas, ainda sem apanhar a asa, e a fazer força para as lágrimas não saírem. Senti que aquela não era mesmo a minha onda, que tinha medo, que queria ir para casa, que afinal a coragem não era o meu forte. E ainda faltavam dois saltos. Só de pensar no terceiro tremia, e o Z. ficou ali, a animar-me, e eu a responder mal. Só pensava que não era capaz. Quando chegou a vez de me equipar para o terceiro salto, fiz tudo sem pensar muito. Tinha de ser, não ia desistir a meio. A parte que mais me assustava não durava mais que um minuto, e tinha de pensar que o tempo passa rapidamente. A C., que percebeu o meu pânico calado, ensinou-me um truque, também por ser baixinha como eu: “sai com o tronco baixo, para enfrentares o vento, e não ponhas os pés todos no patim, põe só as pontas”. O largador, a quem eu tentei explicar que era muito lenta a chegar ao patim, disse-me apenas “comigo não há lentidão, sais e depressa, que és a segunda e há mais gente para saltar atrás de ti”. Talvez por isso, por pensar que tinha de ser e tinha, e depressa que ele não estava para ter paciência comigo, nem pensei muito. Saí como a C. me ensinou, e lá me lembrei de saltar em vez de largar as mãos. E foi aí que percebi que estava a cair a direito. Nada de cambalhotas, saltos acrobáticos, puxões vindos não sei de onde. Olhei em volta, sem pára-quedas ainda, com o mundo por baixo de mim. E disse asneiras, tantas quanto me lembrei, mais do que pensei saber, enquanto intervalava com “L.S., tu conseguiste saltar bem”. E gritava, gritava muito. O vento estava mais forte, a asa mais instável, mas consegui aproveitar. Vi a casa com piscina, lembrei o que fazer caso caísse lá, e segui a instruções do senhor Mo., que ainda teve tempo de brincar comigo e dar-me ‘música de discoteca’. Eles esqueciam-se que os meus colegas de grupo, a minha ‘família’, pesava quase o dobro de mim, e mandavam-me travar na mesma altura – como não tinha muita força para puxar os manobradores de uma só vez, acabava sempre por aterrar com alguma velocidade. Desenvolvi o meu método: amortecia com os pés direitos, e depois deixava-me cair com jeitinho. Foi assim que me deixei ficar, como se estivesse na praia, enquanto o Z. corria para mim, o senhor Mo. ralhava pelo rádio, “rapariga, mas porque é que caíste assim, estavas tão bem, ainda te magoas”, e a minha ‘família’ de fim-de-semana me imaginava lesionada. E eu sentada, a rir, e a responder-lhe sem que ele me ouvisse. Eu saltei bem, eu saltei bem, era só o que me saía, enquanto sentia o lábio a latejar, e uma das pernas a criar uma grande nódoa negra. O Z. fez a festa comigo e ajudou-me, uma vez mais, a apanhar a asa. "Onde é que arranjaste um namorado assim? Também queremos um", brincavam os rapazes comigo. Quando cheguei perto deles, quase saltei para cima do senhor Mo. – e ele, pára-quedista da velha guarda, lá desarmou e abraçou-me também “ai rapariga, eu não te disse que o segundo é que era o do cagaço?”. Achei que era melhor agradecer também ao largador, o último, menos simpático à primeira, mais directo, e ele disse-me que, dos cinco que seguiam nesse avião, o meu salto foi o melhor. E isso deixou-me feliz. Não sei como vai ser o quarto salto, que teve de ficar para outro dia. Não posso dizer que fiquei apaixonada, que quero muitos mais saltos na minha vida, que vai ser uma prioridade. Mas sei que valeu a pena. Que fiz parte de mais uma coisa do Z., enquanto as namoradas do resto da ‘família’ estavam lá em baixo, a tirar fotografias. Que me superei em tantos aspectos. Que fui capaz. Que enfrentei medos. Que saltei, sozinha. Que pude sentir-me orgulhosa de mim. Lá em cima, enquanto caía a direito, na posição certa, com tempo para os procedimentos certos pela primeira vez, e me lembrava de todas as asneiras que me saíam quase sem pensar, só pensava uma coisa. “Posso ir parar ao inferno, mas isto ninguém me tira, agora, neste momento, estou no céu”.

 

 

Hoje vim a pé para o trabalho, porque a bateria do meu popó resolveu ir à vida. Vim por trás, uma vez mais, a corta-mato. Quando o senhor dos autocarros me viu sair de lá fez um ar de espanto, e só depois de um bocadinho me conseguiu dizer: “a menina mora aqui perto?”. Lá lhe expliquei. “Mas isto é tão abandonado, e uma menina assim sozinha aqui, não tem medo?”. Disse-lhe que me basta meter os phones nos ouvidos para me esquecer do mundo, enquanto canto e danço. “E sou corajosa”, queria acrescentar, “ontem até saltei de pára-quedas”! Mas guardei tudo para mim e fiquei-me pelo sorriso.

Quinta-feira, 10 de Março de 2011

.A minha Su.

A Su. é a minha melhor amiga. Tenho algumas melhores amigas, mas a Su. é aquela que tenho há mais tempo. Provavelmente conhecemo-nos desde o dia em que nasci. Gosto dela mesmo quando estamos chateadas. E sei que sou retribuída, mesmo sabendo ela tudo sobre mim. A Su., quando era pequenina, era mesmo, mesmo má. Não há ninguém que se tenha cruzado com ela que não tenha uma história para contar que envolva puxões de cabelo, dentadas, beliscões, entre outras aventuras de tortura. Eu tenho várias. Lembro-me do dia em que nos tiravam uma foto juntas – na impressão parece que está a abraçar-me, na verdade estava a tentar tirar-me um bocado. E há também aquela em que eu resolvi chegar ao pé dela e dizer-lhe: “já telefonei à minha mãe a dizer que me bateste”, e ela se sai com “então toma lá outra para não seres queixinhas”. Depois, quando cresceu, ficou boazinha de mais – tanto que dava vontade de agitar, mas acho que, finalmente, começamos a chegar a um meio-termo. Lembro-me da Su. desde sempre. Nas brincadeiras, na escola, nas primeiras saídas à noite, nos jogos de futebol, nas tardes de conversa, nas saídas do rancho, nos segredos. Temos tantas e tantas histórias juntas. Quando não havia Jardim-de-infância na terrinha, os nossos pais levavam-nos às duas – e ao termo da comida, ao da terra ao lado. Um dia a Su. engoliu a tampa de um marcador, e sempre que era altura de ir ao penico parava tudo na esperança de que ela saísse – foi um acontecimento. No ano passado partilhámos as nossas primeiras semi-férias – ela convidou-me para ir ao Andanças, e que bom que foi. Há coisas entre nós que não sei explicar muito bem – como o facto de, sempre que sonho com ela, acordar com uma mensagem dela no telemóvel. Desde que somos mais crescidas – desde que eu estou na capital e ela se fez ao Alentejo profundo, estamos menos vezes juntas. Mas isso não significa nada, porque sempre que estou com ela tenha a sensação que estivemos à conversa na véspera. Somos vizinhas no nosso Alentejo, e não é difícil encontrarem-nos em casa uma da outra – quase sempre a segredar à volta de uma mesa com comida. A Su. tem estado doente, e eu nem tempo tive para ir visitá-la. Ontem chegou uma mensagem a dizer que tem cobro, e eu, que pensava que isto era um mito ao nível das bruxarias, fiquei muito preocupada – porque foi diagnosticado por um médico. Hoje telefonei-lhe dez minutos para esclarecer tudo – parece que é uma espécie de herpes que pode aparecer a quem já teve varicela, e não é bom, e valeu-lhe a primeira baixa de uma vida. E eu senti-me mal – por estar sempre longe, sem tempo, sem mais bocadinhos para nos encaixarmos. E por isso já decidi que no fim-de-semana lá estarei, de bolo e flores na mão, para lhe fazer companhia e meter a conversa em dia. Porque há sempre tempo para os amigos. E a Su. é a melhor que eu tenho.

  

 

 

 

L. às 16:20
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

.Não há coincidências ou nada acontece por acaso

A minha teoria dos sinais nem sempre é boa. Com os sinais vêm as lições. Se isto aconteceu, se vi, se ouvi, se apareceu, tem de ter um significado. E ali fico eu às voltas e voltas, a tentar encontrá-lo. E nem sempre é bom.

Conheci a T. por ser irmã de uma espécie de amigo meu. Lembro-me de a ver nas festas das terrinhas em volta, nos jogos de futebol, nos casamentos dos amigos. Nunca tínhamos trocado mais que um sorriso. Um dia encontrámo-nos no metro de Lisboa. Eu devia estar de iPod nos ouvidos e a observar todas as pessoas onde o meu olhar conseguia chegar. Reparei nela também e tive quase a certeza que a conhecia. Estava mesmo no banco à minha frente, de apontamentos de enfermagem no colo, e à conversa com as amigas que a acompanhavam. Não lhe falei, não me lembro se sorri sequer – quantas vezes me acontece sorrir ou falar e virarem-me a cara? E daqui veio uma lição: não falar sem ter a certeza que vou ter resposta. A confirmação, de que era a T., chegou mais tarde. Não sei como é que ela chegou aqui, ao meu estaminé, mas aproveitou os comentários para me dizer que nos tínhamos cruzado aqui, tão longe das nossas terrinhas, na mesma carruagem de metro. Desde aí temos falado muito. Nos comentários, por email, por sms, até que finalmente passámos à prática. Não foi para comer um pastel de massa tenra, nem para visitar o Lucca – ela morar na Travessa Henrique Cardoso aqui em Lisboa será uma coincidência ou nada acontece por acaso? Foi para me entregar uma fita de fim de curso. Confesso que isto me deixou contente, a fita, a história. Não estou habituada a que gostem de mim sem me conhecerem primeiro. O meu quarto recebeu a nossa conversa durante horas, a mãe fez fatias douradas, e a fita ficou esquecida - já nos tínhamos despedido quando nos lembrámos, e ela teve de voltar para trás.

E dou por mim a pensar: se o irmão dela não lhe tivesse falado de mim teríamos chegado aqui? Se não nos tivéssemos cruzado no metro teríamos chegado aqui? Se não tivéssemos partilhado a Travessa Henrique Cardoso teríamos chegado aqui? Se as nossas mães não se encontrassem de vez em quando nas bombas e o meu pai não vendesse pão por lá teríamos chegado aqui? Mas isto sou só eu, a ver sinais. A tirar lições. A querer significados. Ainda não sei qual é o desta história, mas sei que estou a gostar de ter a T. na minha vida. E que não há coincidências, nem nada acontece por acaso.

 

(E como fiquei surpreendida por ler isto)

Lá fora: "Vai magoar-te, e não vais ter ninguém à tua volta."
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

.O meu cabelo e a Dona Al.

 

Nos dias em que vou cortar o cabelo entro numa espécie de depressão. Costumo dizer aos meus pais que foi a única coisa que fizeram bem, e é a única de que gosto realmente em mim. Quando tirei as extensões, em Novembro de 2009, ele estava tão fraquinho que a minha cabeleireira não hesitou em reduzi-lo a metade. Esse foi um dia de choro, e, desde ai, não voltei a pôr lá os pés. Na semana passada achei que estava na altura de lhe dar um corte e combinei com a mãe para sábado. Já tinha o meu cortado – sem choros, e estava lá sentada, a esperar pela mãe. Foi quando ela chegou, a Dona Al.. Ficou parada, perto da porta, até que lhe dessem a certeza que podiam atendê-la mesmo sem marcação. “Amanhã é dia de votos, e queria levar o cabelo e as unhas arranjaditos”, justificava-se. Ficou ali, parada, naquela posição uma data de tempo. “Então posso mesmo avisar o meu marido que vou ficar aqui?”, só quando lhe repetiram o sim se sentou. Eu estava perto da Be., que arranjava as unhas à senhora que trabalha no Tóquinho, e da Sa., que cortava o cabelo da mãe, e ela lá atrás, no sofá. Não dei por ela se levantar. “Esses caracóis são mesmo seus ou fez mise? Ai que cabelo bonito, ai que palminho de cara. Posso sentar-me aqui?”, e sentou. Falámos. Do meu cabelo, do dela. Das unhas bonitas que tinha. “Que idade tem?”, 26, dizia-lhe eu. “É que era uma boa menina para o meu neto. Coitadito, já vai na quarta e aquilo não lhe corre bem. A terceira era uma Barbie lá de fora, de outro país. Sabe o que são Barbies, menina? Só querem arranjar-se e passear, não fazem nada em casa. Depois deixou essa e andou com outra Barbie. Mas essa deixou o marido e o filho. É aqui que está a diferença entre as prostitutas, que ganham a vida assim, e as p****, que magoam os outros sem pensar, percebe menina?”. E eu lá ia acenando que sim, com uns sorrisos e uns nãos pelo meio – que até podia conhecer o neto, pelo nome não ia lá, já saí dali, onde andei à escola, há mais de oito anos. De vez em quando o silêncio metia-se pelo meio, mas ela não deixava. “Sabe, houve uma vez que lhe liguei para ir jantar lá a casa – a casa onde criei os meus netos, e disse-lhe que podia levar a Barbie. Vi logo que aquilo não dava, e não deu. Agora ficou com a casa toda mobilada, sozinho, trocou o carro e diz que não quer saber mais de mulheres. E eu que queria tanto vê-lo casado”. E eu tranquilizava-a, que a mulher da vida dele há-de aparecer, é só ter calma. “Deus a ouça menina, Deus a ouça. Mas Deus não quer nada comigo. No outro dia fui confessar-me e sabe o que me disse o padre? Deus gosta muito de si, é por isso que a põe à prova. E eu respondi-lhe logo, ele que vá procurar outra que eu já estou farta”. A sinceridade dela fez-me dar uma grande gargalhada, a que ela se juntou. Não sabia ainda que a vida tinha mesmo sido má com ela, e que até já lhe tinha levado um filho. Já íamos adiantadas na conversa quando chegou o marido dela. “Veja lá como ainda é bonito e charmoso, já com 91 anos”, e era. Como se conheceram?, quis eu saber. “Ele esperou por mim. É mais velho dez anos, já estava neste mundo à minha espera. Esperou que eu viesse do Algarve até aqui. Dantes andava por aí sem se preocupar muito, agora não me larga, deve ter medo que eu morra. Mas eu ainda quero estar cá muitos anos. Amanhã até vou votar”. O tempo passou a correr. E eu ali, sentada no puff laranja, com a Dona Al. à minha frente, na cadeira, sem chegar com os pés ao chão, e o marido lá atrás, no sofá, sempre atento ao olhar dela. “Vamos embora filhota?”, ouvi dizer a minha mãe. E a Dona Al. também se levantou, deu-me dois beijinhos e um abraço. “Foi um gosto conhecê-la, que cabelo bonito, que palminho de cara”. Cheguei perto da mãe a tempo de ouvir a Sa. dizer “pobrezita da sua filha, que seca apanhou”, ao que a mãe respondeu “ela gosta é destas coisas”. E gosto mesmo. Mesmo em dias de cortar o cabelo.

 

 

Estou:
Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

.A ti-Clarinda

A ti-Clarinda já conta 84 anos e mora num monte um bocadinho mais acima, emoldurado pelos figos de palma, quando chega a época deles. Pelo monte os anos vão passando sem deixar marca nem mudar o ritmo de outros dias. As paredes são sempre brancas, as flores sempre vivas. O frigorífico não chega ali. E a máquina de lavar não trabalha muito bem – depois de terminar, é preciso voltar a enxaguar a roupa toda no tanque, logo ali ao lado. Gosta de comer linguiças: corta a tripa de um lado ao outro e vai tirando o que quer com um garfo, depois volta a fechar para conservar melhor. Porque o frigorifico não chega ali. Gosta das linguiças que faz, com a carne picada grossa. E gosta de ajudar a picar também nas matanças de porcos dos vizinhos. Não percebe que lhe tirem o que pica, às escondidas, para voltarem a picar em bocadinhos mais pequenos. – Estou a fazer mal? Não gostam assim? E desconfia quando lhe dizem que ainda não começaram a picar, quando já são horas. As tripas já tinham sido lavadas sem que tivesse dado conta, não ia deixar passar mais uma coisa. É por isso que sai da cozinha, deixando para trás a tarefa que lhe deram para a ocupar, com a ligeireza no pé que a idade lhe deu, e escondida atrás do preto que a carrega. Chega ali, à casa das matanças, agarrada à porta, e não consegue esconder o ar de tristeza de quem se descobre enganada quando só queria ajudar. Não disse uma palavra, olhou só, com um olhar cansado, triste, capaz de entrar por nós adentro e magoar mais que palavras. Só a chegada do neto lhe trouxe um sorriso à cara. Um sorriso que escondeu só para ela quando se despediu de nós, para o levar pela mão até ao monte, onde os figos de palma já se esconderam do frio. A ti-Clarinda tinha acabado de descobrir que ainda serve a alguém, a ele, que veio de longe só para a ver. É uma descoberta importante, quando se tem 84 anos e uma mentira que os outros julgam piedosa nos faz duvidar de nós. E levou-o pela mão, até ao monte mais acima, talvez a pensar no que havia por lá que lhe pudesse dar ao lanche. É que, ali, ainda não chegou o frigorífico.

 

 

Estou: na ressaca de um fim-de-semana perfeito.

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