Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

.Toma lá

Ontem a mana e o namorado vieram ter comigo para jantar. Já tínhamos tido umas aventuras durante a tarde: devolver uma máquina que nos ofereceram porque a descobri 70€ mais barata noutro sítio – foi carregada até à loja pelo meu cunhado, de olho negro por uma bolada que levou durante a tarde, que tentou tapar com uns Ray-Ban, mas que ainda assim despertou a atenção da polícia; e pôr o combustível que trouxe de Espanha, que fica logo ali ao lado do Alentejo do Zé, num jerrican no meu carro – os três não estávamos a conseguir terminar a tarefa, pelo menos sem mandar metade para o chão. Mas a grande aventura foi ao jantar. Dei-lhes a escolher, e fiz tagliatelle com bacalhau, espinafres e natas. Quando ia repetir pela segunda vez, o rapaz detectou um objecto estranho na comida – era uma joaninha. Uma joaninha verdadeira, bem vermelinha. Todas as ervas que usei foram de compra, e não têm buracos por onde o bicho pudesse passar, com excepção dos orégãos, que trouxe do Alentejo do Zé, mas há tanto tempo atrás que não me parece que a joaninha tivesse hipóteses de sobreviver tão vermelha. Restam os espinafres, congelados. Utilizei de dois sítios, de marca branca, porque um dos pacotes estava a acabar, e por isso não posso culpar nenhum. O pior de tudo é que há algum tempo atrás trouxe um saco enorme de espinafres do Alentejo do Zé, que demorei cerca de duas horas a arranjar, a lavar, a desinfectar, e a congelar, mas ainda não usei porque tenho medo de ter deixado passar qualquer coisita. E agora, toma lá, uma joaninha nos de compra. Acho que a única explicação para estar com tão bom aspecto é ter sido congelada. O rapaz meteu-a de lado e continuou a comer – que já tinha sido lavada, fervida, e que nós até comemos caracóis e bebemos leite, qual era afinal o problema? Eu não consegui abstrair-me o resto da noite, e até enquanto comia o gelado de frutos silvestres não conseguia deixar de imaginar uma joaninha a ir parar à minha boca – porque, como disse o meu rico cunhado, elas nunca andam sozinhas, ia aparecer outra, com certeza. E agora tenho o almoço aqui arranjadinho na tupperware e nem sei que lhe faça, talvez o melhor seja ficar pelo iogurte. Às vezes temos medo de comer em certos restaurantes, ai que a ASAE fechava aquilo se fosse lá, e afinal na minha casa é que aparece uma joaninha na comida. Quando era mais pequena e encontrava um qualquer bichinho na sopa a minha avó lá me convencia que aquilo não tinha mal nenhum, se encontrasse que o tirasse, mas que se o comesse aquilo até ajudava a limpar os olhos. Com o tamanho do bicho de ontem ainda ficávamos cegos. As joaninhas devem ser dos poucos insectos que não me provocam alergias nem estão na minha lista de coisas detestáveis, mas depois disto vou ter de repensar a nossa relação. Uma joaninha no prato. Toma lá.

Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

.Parabéns

Este ano, pela primeira vez, ia ser tão fácil oferecer-te uma prenda de anos. Com tantos concertos bons que por aí vêm, não ia ser nada difícil. Provavelmente, já terias comprado bilhete para todos aqueles que quererias ir ver, mas eu ia contornar isso facilmente, e oferecer-te um castigo bom. Ia obrigar-te a ires a um dos meus. Sei que o teu dia de Rock in Rio seria o de Offspring e amigos, mas lá terias tu de ir ver Bryan Adams comigo. Ou então escolhia um daqueles que quero mesmo ir ver, mas ainda não tive coragem de gastar dinheiro. Lana Del Rey no Meco, Florence and the Machine aqui tão pertinho. Estes iam ser castigos maus para ti. Mas sei que ias aguentar estoicamente. E sei também que quando eu me sentisse cansada voltavas a sentar-te na relva, como tantas vezes, para deixar-me descansar os olhos nos teus ombros. Ou podia apostar numa repetição, e íamos ver Keane, ou Sting. Ia ser tão fácil. Tenho tanta, mas tanta pena que não estejas aqui. Por tantas coisas, pelas pequenas, como estas, também. Parabéns Tuto.

L. às 15:24
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Terça-feira, 8 de Maio de 2012

.O B'lota

A minha terceira participação. Como sempre, entusiasmei-me a escrever e ultrapassei, em muito, o espaço que me é dado. Esta é a versão final, mais pequenina. Quando encontrei a Od. no fim-de-semana disse-me que chorou a ler, o tio Deusdado também mo disse na outra edição. E eu não posso deixar de me sentir um bocadinho orgulhosa com isto. Não se trata apenas de contar aos outros quem foram estas pessoas, do que são feitas, é muito mais do que isso.  Mais do que tudo, gosto quando se reconhecem nas minhas palavras, quando se encontram nelas. Fico feliz por me confiarem aquilo que de mais importante têm, a sua vida, e me deixarem escrever sobre isso. Haverá histórias melhores do que aquelas que realmente aconteceram? 

 

A Od. é da família, é mãe da minha madrinha, e mora mesmo em frente da minha casa do Alentejo.

  

"As noites são agora passadas no cadeirão, a televisão ligada, com as fotos de quem mais ama ali ao lado, e a ver nascer das suas mãos, em gestos decorados, rendas que prendem toda a sua atenção. Foi na casa ao lado da que a acolhe agora que nasceu Od. Filipa da Silva, a 21 de Junho de 1938. Foi ali, naquele mesmo sítio, que cresceu, a segunda rapariga dos oitos filhos que os pais trouxeram ao mundo. Foi a última a nascer, quando o irmão mais velho tinha já atingido a maioridade. O pai, M.da S. P., era um homem da terra, a mãe, F. M. da Silva, veio dos Montes Frades, onde o pai trabalhava. Fez a escola até completar a quarta classe e gostou. Gostava das rodas, de pular, dos amigos, de cantar. Foi com essas mesmas cantigas, desses tempos, que ensinou as primeiras palavras em português à neta que nasceu em França. Depois da escola ficou em casa, a ajudar a mãe e a aprender todas as tarefas para a vida. Ali, mesmo ao lado de casa, encontrou o amor de uma vida. O Prates tinha nascido na Chamusca, mas regressou à terra do pai quando completou 7 anos. Trabalhava na oficina do Ramalho, na casa onde agora mora a vizinha Q.. Um dia, vinha ela com a bilha cheia de água do sítio da Custódia Albina, porque a dali não prestava para beber, quando ele a fez parar, na vereda, perto de um sobreiro que ainda lá está, para a pedirem namoro. Tinha13 anos, mas esperaram até aos 18 para que o namoro começasse a sério. Até lá, olhavam um para o outro, e foram deixando crescer o amor que ainda hoje diz sentir dentro dela. Casaram corria o ano de 1962, em Lavre, e um ano depois chegou a primeira filha, a Ma.. Ficaram a viver na casa onde hoje vive a Maria J., e dedicavam-se à agricultura. Chegaram a ir a Campo Maior fazer searas de tomate, nas Herdades da Amoreirinha e da Barranca. Em 1966 chegou o segundo filho, o Jo.. Quando as receitas começaram a não ser as suficientes, em Novembro de 1973, o Prates rumou a França. Em Agosto de1974 a família reuniu-se em Paris. O Jo. tinha a mesma idade que o pai quando se viu forçado a mudar de casa. A princípio não gostaram da ideia, mas depois veio a escola, os amigos, o domínio da língua nova e foram-se acostumando. Ele continua por lá, onde casou e deu dois netos à Od.. O outro neto está em Portugal, para onde a filha regressou. O primeiro trabalho longe do país onde nascera foi na casa de uma professora de línguas que falava espanhol, ajudava nas tarefas diárias. Passou depois para a casa daquela a quem ainda hoje trata por “a minha velhinha”. Chegou quando esta tinha 83 anos, e só saiu depois da sua morte, aos 101. Este foi o seu último trabalho, como lhe pediu o marido antes de falecer. Ali, naquela casa, encontrou uma família. Era responsável pelas tarefas da casa. Quando se juntava a família toda, a Od. também ocupava o seu lugar à mesa, como membro. Quando o Prates adoeceu, convidaram-nos a ficar ali, num quarto daquela casa, que tinha elevador e não o obrigava a subir até ao 4º andar pelas escadas. Enquanto ocupava as suas funções, o Prates fazia companhia à velhota no sofá que se vê no álbum de fotos do 100º aniversário, que o neto ofereceu à Od. Nas três vezes em que o Prates foi operado tinham uma senhora que a substituía para que lhe pudesse fazer companhia na clinica, no outro lado da cidade. Ia de manhã e só regressava à noite, para fazer companhia à velhota, e sempre lhe pagaram o ordenado da mesma forma. O Prates não teve tanta sorte, nem sempre o ordenado era pago a horas na empresa de alumínios, e nem sempre as pessoas o tratavam da melhor forma. Viria a falecer em 1996, em Portugal, vítima da doença. A Od. regressou para fazer companhia à sua velhinha, que faleceu em casa só com ela. Reformou-se aos 65 anos, num sistema de pontos que não olha ao trabalho de uma vida e a todos os impostos que tanto custaram a pagar. Como a reforma não lhe permitia manter a casa de Paris e não queria sobrecarregar os filhos, regressou à sua casa, nas C..  Há dias em que se arrepende, de se ter mudado, de não ter tirado a carta. Tinha tudo ao pé da porta, conseguia resolver tudo sozinha. Agora, com a explosão do multibanco, acabou-se o resto. Guarda boas recordações dos tempos de França, e tem saudades. Acha que teve sorte, sempre em casas boas, de pessoas educadas, que a estimaram. Ainda hoje, quando lá regressa, se encontra com a filha da sua velhinha. “Esta foi a minha vida, mas ainda não acabou”, diz em jeito de remate. E começa a falar dos netos, da Mar., já com a idade que tinha quando foi pedida em namoro pela primeira vez, do Ri., a quem já imagina um namorico agora que chegou à faculdade, do To., que arranjou uma namorada num país diferente. Quando o Prates chegou a Paris não tinham telemóveis nem internet e amor não diminuiu. Agora têm todas as facilidades, e do longe se faz perto. Para eles, que lhe distraem o pensamento entre um e outro ponto de renda, um desejo entre tantos outros. Os avós nunca namoraram mais ninguém e sempre se amaram um ao outro. Que os netos tenham essa sorte também."

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

.Simples

Sempre tive pena de não conseguir escrever com palavras complicadas. Mais no trabalho do que na vida. Tenho tendência a simplificar, a deixar tudo num plano em que toda a gente possa perceber. Quando leio um discurso realmente bem escrito, uma nota com palavras que não me ocorreriam facilmente, lamento isso. Quem me dera poder saber escrever de tantas maneiras, de forma elaborada também. Mas depois oiço músicas destas, com poemas assim, feitos de palavras simples, que conseguem chegar tão depressa cá dentro, e fico sem pena nenhuma. Gosto assim delas, das palavras. Simples.

 

 

"Olha lá

Já se passaram alguns anos

Nem sequer vinhas nos meus planos

Saíste-me a sorte grande

 

E eu cá vou

Usando os louros deste achado

Contigo de braço dado

Para todo o lado

 

Eu vou até morrer

Ser teu se me quiseres

Agarrado a ti

Vou sem hesitar

 

E se o chão desabar 

Que nos leve aos dois

Vou agarrado a ti

 

Meu amor

Na roda da lotaria

Que é coisa escorregadia

Saíste-me a sorte grande

 

E eu cá vou

À minha sorte abandonado

Contigo de braço dado

Para todo o lado

 

Eu vou até morrer

Ser teu se me quiseres

Agarrado a ti

 

Vou sem hesitar

E se o chão desabar 

Que nos leve aos dois

Vou agarrado a ti

 

Vou sem hesitar

E se o chão desabar

Que nos leve aos dois

Vou agarrado a ti

Vou agarrado a ti

Vou agarrado a ti"

 

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

.Desabafo

Depois de todas as coisas más dos últimos tempos, notícias e acontecimentos, era capaz de jurar que estava pronta para enfrentar tudo o que me aparecesse pela frente. Depois, ontem, senti as lágrimas a caírem pela cara abaixo, antes mesmo de conseguir pestanejar, e percebi que não.

 

 

Lá fora: “Foi nesse dia que percebi / Nada mais por nós havia a fazer / A minha paixão por ti era um lume / Que não tinha mais lenha por onde arder”

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L. às 13:58
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Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

.Coisas doces (ou nem tanto)

Tenho a terrível tendência de ver apenas o buraco no mesmo sítio onde todos os outros conseguem ver um donut. Esta é a melhor expressão que encontro para definir aquilo a que costumam chamar pessimismo, eu que só provei um donuts na casa dos 20 anos e nem sequer gostei. Procuro esperar sempre o pior das coisas, o que acho bem melhor do que ser apanhada desprevenida (como tantas vezes).  Pergunto-me se sempre fui assim, e quase tenho a certeza que não. Pensando melhor, consigo ver na minha cabeça os dias, os momentos em que acontecimentos que poderiam ser insignificantes me foram tornando assim. As chamadas lições. Deixo de lado, como quando estou doente e deixo de gostar do que comi naquele dia, as roupas que usei nesses instantes, não sejam elas as culpadas de tudo o que acontece. O importante é encontrar um culpado para todos os males, saber quem deixou afinal um buraco no bolo que poderia ser perfeito. E para não deixar de lado aqueles de quem gosto e me magoam, vou atirando com as roupas para o fundo do armário. Bem mais fácil. Não poderiam ensinar-nos a viver apenas em livros e em filmes? Há mesmo necessidade de passar pelas coisas para aprender? Eu, contra todos os argumentos que me vão apresentando, acho que não. E não quero mais. Há que brigar por uns trocos, ofender por coisa nenhuma, magoar sem sentido, trair sem desculpa, estragar o que existe por um qualquer capricho? Há coisas pelas quais ninguém devia passar, nunca. Por isso, hoje, cheguei a uma conclusão. Chega de culpar o que não tem culpa, de fingir que não aconteceu, de tentar passar por cima depois do mal estar feito. Que pensem nele antes de o praticarem, porque já não tenho vontade de ignorar. Os cortes, como tudo o que é definitivo, assustam-me. Mas recuso-me a permanecer numa órbita sem sentido, em que aquilo que nos une, a mim e aos que me rodeiam, afinal não existe, ou só um dos lados consegue vê-lo. Se não existe, eu vou passar a conseguir vê-lo. Ou não tivesse eu esta tendência para ver apenas os buracos, o que falta. Será assim em tudo. Olho por cima do ombro para os últimos dias e não gosto de nada. E oiço quem me diga “então e isto? e aquilo? e o outro? Não sejas injusta!”. Mas eu sou assim, se uma coisa está mal, então eu estou mal. Se muitas estão mal, então o meu mundo também está. Que raio de teoria, dirão alguns. Mas tenho desculpa, digo de mim para mim. É que eu sou apenas a rapariga que vê o buraco onde todos os outros vêem um donut. E nem sequer gosta de comer aquilo que afinal existe.

Lá fora: "ninguém é prisioneiro de ninguém"
Sexta-feira, 23 de Março de 2012

.O B'lota

A minha segunda participação. (Tenho a sorte deste senhor ser meu tio)

 

Esta é uma história que não começa na aldeia, mas um bocadinho mais ao lado. Corria o ano de 1923 quando nasceu um dos 14 filhos de A. S. P. e M. F. P., um dos 10 que sobreviveu, o único que ainda existe, no monte das Casas Novas. Baptizou-se M. Deusdado, como o marido da madrinha, filha do feitor geral do Vale da Lama, para quem a mãe trabalhou. Ficou órfão de pai muito cedo, aos 9 anos – a doença não se deixou vencer nem pela água que veio de Fátima, pelo caminho de ferro, até São Torcato, depois de a beber faleceu. Começou a trabalhar cedo, num café de Montemor, logo depois de fazer o exame da quarta classe nessa mesma cidade, onde chegou de carroça. Não ficou muito tempo, o dono era “uma excelente pessoa”, mas o irmão acabou por ir buscá-lo, por causa da falta de respeito que havia na casa. Regresso à terra para se dedicar às suas terras, à agricultura, não quis seguir os estudos que o podiam ter levado a ser aquilo que gostava, professor. Por essa altura, a concertina era uma companhia para ele e para os outros, nos bailes e festas onde tocava. Teve de comprar outra depois de ver a GNR apreender-lhe a que tinha. Afinal, o senhor que lha vendera tinha-a comprado com o produto de um roubo de uns suínos, só detectado quando os animais já estavam na salsicharia. Tratava dos animais, fazia searas com os irmãos, numa altura em que se semeava muito, até que, aos 20 anos, a tropa o levou de novo embora, para Lisboa. Foi nessa altura também que se deixou de cantorias e se desfez da concertina. Assentou praça a 17 de Dezembro e por lá ficou cinco meses, depois mudou-se para o Quartel General da 4ª Região Militar, em Évora, e em Julho de 1946 passou à disponibilidade. Houve um General que o quis convencer a ficar, tinha uma letra tão bonita e tanta vontade, mas o apego ao campo e à terra era mais forte. Quando voltou atrás, a vida já não lhe permitiu ingressar novamente no exército – o General havia liderado uma revolta contra Salazar, e passara também ele à reserva, forçada. Regressou, uma vez mais, às terras que lhe pertenciam. A mulher, Cl., lembra que era um jovem bonito e de conversas bonitas. Aos 18 anos começou a fazer os versos que lhe valem a alcunha de poeta da terra, nos ajuntamentos com os rapazes, em resposta às desgarradas dos mais velhos. Talvez tenha sido isso, a cara, o dom da palavra, que roubou o coração de uma moça de boas famílias em Évora. Mas o coração já estava dado à Cl., apesar de o pai dela não aceitar muito bem. Foi só em 1952 que ganhou o direito de namorar como os outros rapazes, à janela, de 15 em 15 dias, até antes do sol-posto. Um direito conseguido com dificuldade: numa das festas da terra, numa corrida de cavalos, acabou por cair e ser levado ao hospital, em Lavre, quase dado como morto. A Cl. saiu de casa, sem ordem dos pais, subiu à carroça do futuro cunhado, e correu para o hospital, onde o encontrou em coma, do qual viria a acordar. A reprimenda nunca chegou, e uns anos depois veio o casamento. Casa não tinha, “mas nunca ninguém deixou de casar por causa disso”. O sogro construiu uma para a filha, de onde saíram só 25 anos depois, depois de dividida a herança da família. A primeira pessoa a bater-lhe à porta foi um mendigo, logo no dia a seguir ao casamento. “Foi uma bênção, era o pobre da Cl.”, que já o conhecia de casa dos pais, onde costumavam ajudar quem lá passava a pedir. Deram-lhe uma moeda, comida ainda não havia ali, e nunca mais o viram. Foi naquela casa que viu nascer a filha e o filho. Era ela pequena, apenas com dois anos, quando seguiu a vida da agricultura noutra terra, em Elvas, onde foi administrar searas de trigo e arroz que chegaram a dar 22500 sacas. Voltou à aldeia, e logo depois nasceu o filho, que veio de surpresa. Começou uma vida nova, dedicou-se ao gado, e, pouco a pouco, nas pastagens do Vale da Lama que arrendou ao sogro, foi juntando rebanhos e uma vacaria. Eram 42 vacas, todas com nome, que lhe reconheciam a voz, e o fizeram chorar quando foi obrigado a desfazer-se delas. O filho, ao ver-lhe as lágrimas, ainda se ofereceu para dar o dinheiro do mealheiro – gesto inocente de criança que ainda hoje comove os pais. A ligação aos animais sempre foi muito forte, e nem as feridas, o braço e o pulso partido que lhe causaram, o fizeram gostar menos deles. Mudou para a casa onde ainda hoje vive já a filha tinha completado o curso de professora. Começou a trabalhar por essa altura com um senhor do Norte, também no mesmo ramo, uma ligação com cerca de 20 anos que terminou agora, quando se retirou para descansar. Ainda dá uns passeios de carro, um hábito que demorou a adquirir – só depois de 32 anos de carta juntou à bicicleta a pedal e a motor, na garagem, um carro. Ajuda na ida às compras ou na visita aos netos e bisnetos, quando vêm ao continente. O primeiro custou-lhe 220 contos, “uma pechincha”, diria o cunhado Marcelino. “Vão rir-se da história da tua vida, marido, mas foi honesta”, diz a Cl., que tem nos olhos o mesmo amor de há quase 60 anos. Uma vida que pode se resumida assim: “Não me importa ser quem sou, / Não me sinto envergonhado, / Pois sendo aquilo que sou, / Sou sempre o M. Deusdado.”

Lá fora: [pip]

.Shake it out

 

 

“(…)

And every demon wants his pound of flesh

But I like to keep some things to myself

I like to keep my issues drawn

It's always darkest before the dawn

And I've been a fool and I've been blind

I can never leave the past behind

I can see no way, I can see no way

I'm always dragging that horse around

(…)

Tonight I'm gonna bury that horse in the ground

So I like to keep my issues strong

But it's always darkest before the dawn

Shake it out, shake it out, shake it out, shake it out, ooh woaaah

Shake it out, shake it out, shake it out, shake it out, ooh woaaaah

And it's hard to dance with a devil on your back

So shake him off, oh woah

I am done with my graceless heart

So tonight I'm gonna cut it out and then restart

(…)”

 

[Música para mim. Porque mesmo quando não podemos falar (nem escrever) é fácil encontrar nela as palavras que escondemos cá dentro – Shake it out]

 

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Quarta-feira, 7 de Março de 2012

.Parabéns!

Não tenho passado por aqui muitas vezes nos últimos tempos. Não é por esquecimento, nem por ter deixado de sentir falta. Umas vezes justifico com falta de tempo, outras reconheço que é por não poder escrever tudo o que vai cá dentro. Mas hoje é dia de aniversário. Foi a 7 de Março de 2007 que escrevi o primeiro post, e isso merece ser lembrado. Uma empresa publicou hoje uma infografia para explicar como é um dia na vida da Internet. Todos os dias são escritos, em média, dois milhões de posts em blogs - o suficiente, explicam, para encher a revista Time durante 770 anos. Esta é a minha pequena contribuição neste dia. (Esta é também a semana dos anos das avós, parabéns às duas.)

 

Pode ser vista aqui: http://mashable.com/2012/03/06/one-day-internet-data-traffic/

Lá fora: "praticamente"
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

.Beja

Os meus pais nunca me deixaram trabalhar em tempo de estudo. “Dedica-te à escola, é o teu trabalho”, diziam-me. Durante as férias a conversa era outra, e já estava mentalizada com um Verão a apanhar tomate para conseguir uns trocos quando a minha tia me falou de uma bolsa de Verão para familiares e amigos dos funcionários do Santander. Inscrevi-me sem grande esperança, e acabei com a réstia que tinha no dia das provas: era a mais nova, a única de calças de ganga, a estudar jornalismo e foi um dia com muitas peripécias. Avisaram-nos logo que não escolhêssemos Lisboa, o melhor seria ponderarmos opções no interior, e eu escolhi todos os balcões nas redondezas da minha terrinha. Ligaram-me quando eu regressava a Lisboa, vinda do Porto, num alfa que não me deixava ouvir grande coisa. Beja era opção? Soltei uma gargalhada, as minhas provas tinham sido assim tão más? Pelo contrário, explicaram-me, tinha até tido a melhor nota, mas nenhum dos balcões que eu mencionei tinha aberto vagas. Liguei para os pais, como faço quase sempre na hora de tomar decisões, mesmo as simples, como comprar um móvel vermelho. E, claro, foi a mãe que se lembrou da casa da G., que estudava em Beja e não estaria lá no Verão. Mudei-me para Beja durante três meses. Para uma casa desconhecida, para um trabalho do qual não sabia nada, sem conhecer uma única pessoa. Os exames ainda não tinham terminado, e teria de fazer muitas caminhadas até Lisboa. As minhas roupas não se adequavam ao tipo de trabalho, teria de renovar o guarda-roupa. Ainda não tinha carro, e tinha de me sujeitar às boleias e aos transportes. Sem problema, eu havia de conseguir. E aqueles três meses em Beja foram realmente bons. Aprendi tanto, conheci gente tão boa, cresci mais do que esperava. As colegas de casa fizeram-me sentir realmente em casa, os colegas do trabalho fizeram-me sentir em família, a família e os amigos de sempre esforçaram-se para que eu não sentisse a distância, e a cidade passou a ser minha também. Nem os 40º, nem os dias sozinha em casa, nem os kms percorridos, nem os clientes mal-educados me fizeram ir abaixo. Tinha os dois meninos da caixa sempre a animarem-me, a D. M. que vinha para fazer a limpeza e nos comprava sempre gelados, o menino das tintas para me dizer como estava bonita, o sr. L. para me levar aos melhores restaurantes, e sei lá. Foi tão bom. Na segunda, quando anunciaram no jornal, à noite, o triplo homicídio em Beja, não pude deixar de ficar angustiada e de tentar saber tudo sobre o que se tinha passado. Conhecia o senhor, pois conhecia. O desfalque tão falado foi no banco onde trabalhei, e tantas vezes ouvi aquela história. Passei tantas vezes na loja da família naqueles dias em que não tinha mais nada para fazer para além do trabalho. E foi em Beja, na minha cidade, com as minhas pessoas.

Raramente comento coisas da actualidade aqui neste cantinho. Tenho opinião, pois tenho, mas gosto de guardá-la para mim. Prefiro contar as minhas coisas, e não expressar alegria ou tristeza, aprovação ou desprezo perante as coisas dos outros. Prefiro não julgar ninguém, porque nunca sei aquilo que a vida me pode trazer. Mas hoje preciso de dizer que estou triste, que custa, que não percebo, que a maldade humana não tem limites. Que por mais séries que veja onde tenha de tapar os olhos nenhuma chega aos calcanhares da realidade. Que leio todas as notícias que saem nos jornais e penso: “mas aquela família não teve nada de bom”? Que tenho vontade de voltar lá, ver as minhas pessoas, e partilhar um bocadinho da dor que os atingiu a todos. Sei que não posso fazer nada. Às vezes não tenho sequer poder para mudar o meu mundo, quanto mais o dos outros. A maldade faz-nos perceber a nossa pequenez, insignificância. Hoje vou ligar às minhas pessoas, de Beja, a dizer isto mesmo. Somos nada, feitos de pequenos nadas. E eu gostei que eles fizessem parte dos meus. E continuo por aqui.

L. às 14:51
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