Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

.Revista de Imprensa

http://www.tvi24.iol.pt/internacional/idosos-amor-maos-dadas-eua-morte-tvi24/1291031-4073.html

Lá fora: "Voltaste a mentir-me..."
Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

.Hoje (nestes dias)

L. não saias de casa com a cabeça molhada. L. sai do sol que faz tão mal. L. assim ficas doente. L. … E uma vez mais, entre tantas recomendações, a mãe tinha razão. Dei por mim doente logo no início da semana. A noite de segunda para terça foi passada de olhos abertos, com a febre a fazer-me alternar entre frio de bater os dentes e calor de ananases, e com o meu estômago a recusar tudo o que eu lhe oferecia. Foi assim que passei o dia de terça também, com umas olheiras de todo o tamanho, com o corpo a não deixar o sono levar a melhor, deitada sem me mexer muito. Queria dormir e as preocupações, e a doença, e o mau estar, a tomarem conta de mim. As cores, os materiais, o dinheiro, as contas, os planos por organizar não me saíam da cabeça. Gosto de ter tudo organizado. Tenho um documento desde 2007 com todos os meus movimentos bancários registados, com a descrição de todas as despesas, com todos os gastos anotados. As tarefas têm outro documento só para elas e todo o santo dia o meu telemóvel toca com lembretes do género “estender a roupa”. Gosto da minha vida organizada. Não gosto de surpresas.O simples facto de não saber para que data marcar uma mudança, que despesas vou ter no mês seguinte, se vou perder ou não todas as minhas poupanças com uma venda que já se atrasa há um ano, estão a tirar-me o sono e o sorriso. Ontem, para compensar todas estas preocupações e outras tantas que não são para aqui chamadas (L., não devias partilhar toda a tua vida naquela página), quis gelado de chocolate belga da Häagen-Dazs, o meu preferido. Tive uma vontade tão, mas tão grande que lá abdiquei dos 6€ a bem da minha satisfação momentânea (L. não sejas assim forreta – só a roupa é que te faz gastar dinheiro). E ainda bem, ou hoje não teria como afogar as mágoas ao ler as notícias sobre o que aí vem – já sei que esta coisa de não ser funcionária pública para umas coisas mas ser para outras, as más, me apanhou agora em força. A modos que ando assim. Com apertos e dores estranhas. Com insónias e preocupações. A tentar dar lugar às boas notícias, que também as houve. E à espera. De chegar ao meu sofá para devorar o que sobrou do meu gelado, do fim-de-semana inteirinho com os pais, que outros tomem finalmente decisões, que as obras comecem para começar também mais uma mudança, que tanta coisa aconteça para que me possa organizar então. À espera de outros dias, de outras coisas (melhores). O hoje, destes dias, não me chega. Porque estou assim, nesta indefinição. Fora de combate, como na música que me aquece por estes dias. Hoje (nestes dias) não me recomendo.*

 

“Não queiras saber de mim

Esta noite não estou cá

Quando a tristeza bate

Pior do que eu não há

Fico fora de combate

Como se chegasse ao fim

Fico abaixo do tapete

Afundado no serrim

 

Não queiras saber de mim

Porque eu estou que não me entendo

Dança tu que eu fico assim

Hoje não me recomendo

 

(…)

 

Amanhã eu sei já passa

Mas agora estou assim

Hoje perdi toda a graça

Não queiras saber de mim”

 

*Não fiques triste com este post. Sabes bem quais foram as partes boas destes dias. E estavas em todas. Nas más também.

L. às 12:45
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

.O meu voto

Sou apartidária. Nunca me identifiquei com nenhum partido político, vou-me encaixando em ideias soltas e tenho votado sempre depois de intensa pesquisa sobre os candidatos. Ainda assim, de vez em quando é bem possível verem-me em comícios, com símbolos de partidos ou em festas de apoio. Por dois motivos, sendo o primeiro deles a família. Tenho fotografias na praia, com uns 4 anos, enrolada numa toalha do partido da prima Bri., assim como com laranjas pequeninas a fazer de brincos ou bandeirinhas que eu nem sabia o que significavam, que ela me ia dando para brincar. O segundo é a música. Já fui ver Rui Veloso a apoiar o Moita Flores em Santarém, onde nem sequer voto, e fui ao concerto de apoio ao Manuel Alegre quando se candidatou a primeira vez a Presidente da República, em 2005. Do cartaz constavam nomes como UHF, Manuel Freire, Lena D'Água, Rádio Macau e Jorge Palma. Quanto a este último, foi mesmo o melhor concerto dele que alguma vez vi, e já vi alguns – no final da noite, depois dos autocarros dos apoiantes terem partido, ficou no palco, connosco à volta, talvez menos de 50 pessoas num Atlântico vazio, a cantar em modo ‘discos pedidos’. Mas, para mim, a surpresa da noite foi mesmo o senhor Pedro Barroso, que eu não conhecia de lado nenhum. Há alguns dias atrás dei por ele entre as 399 músicas do meu iPod – agora tenho a mania de passar todas as músicas das outras pessoas e fazer uma triagem só algum tempo depois. E é a mesma música que me fez sorrir naquela noite, entre gritos de apoio que eu ia ignorando, e desejar ser aquela menina para alguém - a menina dos olhos de água. Tem passado em modo repeat por estas bandas. Eu voto nele.

 

Domingo, 2 de Outubro de 2011

.Gestos (de amor)

Assim que começaram a aparecer melancias nos supermercados, mal tinha começado o Verão, fiquei cheia de vontade de comer uma bem fresquinha. Estávamos a fazer as compras perto de casa e partilhei a minha vontade com o Z., enquanto olhava para as metades vermelhinhas já expostas. E ele, forreta de primeira, sai-se com esta: “não vamos levar isso, já viste o preço?, nem pensar nisso, depois os meus pais têm lá na horta e comes à vontade”. Claro que não lhe dei ouvidos, tinha tanta, mas tanta vontade e saudades de uma boa melancia que lá consegui juntar uma metade ao cesto das compras. Chegámos a casa e, antes de fazer o jantar, resolvi parti-la toda aos bocadinhos numa tacinha e pô-la na sala. Quando voltei, já com o jantar pronto, não havia nem um bocadinho para amostra. Então, o que é aconteceu? Ainda me passou pela cabeça que ele ma tivesse escondido, mas não, sem se aperceber tinha comido mesmo tudo – nem cheguei a provar. Mas, a verdade, é que o rapaz tinha razão: não me faltaram melancias durante todo o Verão. Estamos a entrar em Outubro e a horta dos pais ainda a dar. Temos trazido quilos e quilos delas, que transformamos em sumo na Bimby. Na semana passada não trouxemos, porque ainda tínhamos duas em casa, mas, azar-azarinho, por estarem ali há algum tempo, já não estavam muito boas e tivemos de fazer aquilo que menos gostamos, deitar tudo fora. E lá fiquei eu com vontade de comer melancia outra vez. Ontem voltámos ao supermercado e quando tentávamos decidir que fruta levar para casa partilhei a minha vontade com ele, que deu uma gargalhada do tipo nem-penses-nisso-só-podes-estar-a-brincar. Achámos melhor dar uma voltinha para comprar os outros itens da lista enquanto decidíamos. Tínhamos voltado àquela secção quando o telefone tocou, era a mãe. Sei que quando me liga fora de horas nunca tem boas notícias e confirmou-se, a avó Mariana tinha falecido há poucas horas. Fiquei ali, no meio da fruta, a encaixar o golpe de realidade, a conter as lágrimas, e o Z. só me disse: “Se te faz feliz, levamos melancia”, e passou-me uma metade vermelhinha para as mãos. Naquele momento, foi mesmo o melhor que eu podia ouvir e foi a única coisa que me fez sorrir. Esqueceu os argumentos dele, engoliu as palavras tantas vezes ocas que se dizem nestas alturas, e só se preocupou em ver-me feliz. Percebi, mais uma vez, que o valor dos gestos (de amor) não está no tamanho, na forma, nem no sítio. É só preciso amor. E pode bem ter a forma de uma melancia. [Obrigada]

Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

.Bolas de sabão*

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXV"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

 

 

 

 

 

* Isla Mágica, Sevilha (24-09-2011)

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L. às 13:34
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

.Só

Há teorias que vou ouvindo por aí e que me fazem tanto sentido que resolvo agarrá-las para mim também - mas a referência à fonte nunca é esquecida. Esta pertence à Ve.-do-cabelo-curto – que agora já é comprido, ou do-piercing. Tinha de a tratar assim por existirem duas Ve. na minha vida, e nem sempre as pessoas percebiam de quem estava eu a falar. Esta Ve., a do-piercing (a outra já falei dela aqui), sempre teve umas teorias muito engraçadas. O tempo foi apagando muitas delas, já não falamos tanto quanto gostaria, e já vão longe os tempos em que partilhávamos as mesmas salas de aulas no secundário. Ficou-me esta: “Mais vale mal acompanhada do que sozinha. Não há nada pior do que solidão”. Eu estou habituada a pessoas. Desde que nasci que ia para a loja assim que acordava, que fazia sestas entre as voltas da farinha ou do pão, que aprendi a estudar no meio do barulho por não gostar do silêncio, que ligo a televisão ou o rádio assim que chego a uma casa vazia, que detesto estar sozinha, que faço tudo por uma companhia e chego a dormir de luz acesa quando não há mais ninguém em casa. Encaixei-me nas palavras dela, vi que estava certa. Mas a mãe sempre me disse “todos precisamos do nosso espaço e da nossa solidão”. E talvez tenha chegado a minha hora de o perceber. Esta semana estou a fazer um horário que me permite sair às 15:30. Assim que posso, entro no carro e sigo, sozinha, até à praia mais perto do trabalho, em Paço de Arcos. Já gostei muito de praia, já gostei pouco, e este ano dei por mim a sentir mesmo falta dela, talvez por não ter podido ir tantas vezes. Como companhia levo apenas a toalha, o iPod e o livro do Haruki, a quem abri a porta mais uma vez. O ritual tem sido o mesmo todos os dias: chego, estendo a toalha, corro para um banho capaz de refrescar até os pensamentos mais negros, e depois volto à areia, para alternar entre a leitura, a música, os pensamentos soltos e as pessoas que me rodeiam. Ali, perdida na areia, tenho descoberto o prazer de estar sozinha. E hoje, enquanto espero ansiosamente pela hora de saída para repetir todos estes passos, penso em como meter conversa com a Ve.-do-piercing. Quero dizer-lhe que me lembrei dela, que tenho saudades da boa disposição que trazia todos os dias, das férias sem pais no Algarve e dos tempos que partilhámos juntas. E que, às vezes - talvez mesmo só às vezes, a teoria dela está errada. Às vezes - talvez mesmo só às vezes, estar sozinha é muito melhor do que estar mal acompanhada.

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

.A avó Mariana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre a conheci como a avó velhinha, nunca por bisavó. Tem um nome bonito, escolhido há já 91 anos, Mariana, mas todos a tratamos assim. Ficou viúva muito cedo, com sete filhos, depois de ter casado aos 17 anos. O avô Al. foi o primeiro a chegar. Morou sempre naquela casa pequenina, depois de V.N., ao lado de uma das filhas. Lembro-me de ir lá com os avós e nunca ter passado da cozinha. Sentava-me nas cadeiras encostadas à parede, ao lado dos armários cheios de pratos antigos, e via a mesa no meio, sempre sem pó, sempre cheia de fotografias a preto e branco de pessoas que nunca cheguei a conhecer, e uma caixinha de bolachas que abria para nós. Só a idade a obrigou a sair de lá. A avó Mariana é muito pequenina e magrinha. Tanto que cheguei a ter medo de a partir sempre que lhe dava um abraço mais apertado. Sempre a comparei a uma folha no Outono, leve e transparente. Na primeira vez que a visitei no lar quase não a reconheci – não estava sentada à chaminé, não vestia preto, não trazia lenço na cabeça. Foi o sorriso que ma mostrou. Ontem voltei lá e já não consegui vê-lo. Foi na 6ª que os avós me disseram que a avó Mariana estava muito doente. Deitada numa cama, deixou de abrir os olhos, mal come, mal fala, só se vê uma mancha pequenina debaixo dos lençóis com o coração a bater devagarinho. Ontem voltei lá e foi tão estranho. Reclamamos da morte quando vem de surpresa e nos leva aqueles de quem gostamos sem tempo para mais um beijo, mais um abraço, mais qualquer coisa que seja. E ontem ali estava eu, com esse tempo que tanto reclamei em outras vezes, a ter a minha despedida da avó Mariana. A senhora R., que toma conta dela e não a larga um instante, diz que Deus não deve tardar a levá-la, e para já não esperarmos melhoras. E eu sentei-me ao pé dela, dei-lhe um beijo, dei-lhe a mão que ela tentou apertar, alisei-lhe a cara e o cabelo, sempre igual, contei-lhe que vai ser bisavó mais uma vez – o tio Ma. vai ser pai, e lá lhe consegui arrancar algumas palavras a esforço. Faltam-lhe as forças para falar, os olhos já não abrem, o corpo dói-lhe todo quando lhe tocamos e parece mais pequenina do que nunca. Ontem despedi-me da avó Mariana. Agradeci-lhe as histórias, as festas, as tardes de conversa na chaminé dos avós, as bolachas na cozinha pequenina dela, o lembrar-se de mim até à última conversa, o gostar de mim como uma neta-de-coração ainda que o sangue o negasse, enquanto lhe segurava a mão e procurava decorar todos os traços do rosto dela. Nunca hei-de aceitar a bem a morte, quer se faça anunciar ou apareça sem eu dar conta, quer leve novos ou velhos. E agora aqui estou, com uma angústia no peito, um peso no coração. Despedi-me dela, talvez não a veja nunca mais, e no entanto ela ainda está ali, viva, com o coração a desistir de bater a cada minuto que passa. Ontem, quando vinha para Lisboa, vi uma estrela cadente. E o meu desejo foi para a avó Mariana. Que ela, a que eu não gosto nem entendo, venha então. Que a leve de mansinho, sem dor nem sofrimento, num sono descansado. Que tenha a senhora R. lá ao lado, a dar-lhe a mão como tem dado todas as noites, para que ela não tenha medo e sinta todo o amor que há à volta dela. Nesse momento, ela vai poder descansar então de tantos anos cheios, de tantas dores, de tantas outras coisas. E nós vamos poder então maldizer a morte, que nos leva quem gostamos, e chorar, já sem ver um coração pequenino e descompassado a bater-lhe no peito,  debaixo de uns lençóis cobertos de rosas. Mas esta espera, este lugar em que me encontro, eu e todos aqueles que conhecemos a avó Mariana, dói muito. E a morte, aqui tão perto, há-de dizer que nunca nos há-de entender, que não nos decidimos se preferimos só mais um bocadinho ou que ela nos roube tudo de uma vez só. E eu hei-de dar-lhe sempre a mesma resposta: também eu nunca te hei-de entender.

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

.Contrastes

Ontem foi dia de voltar ao dentista. Contas feitas, tirei o aparelho há oito anos e há mais de dez que pisei aquele consultório pela primeira vez. Acordei cedo para poder ir de comboio, um dos meus pequenos prazeres. De iPod nos ouvidos até entrar na carruagem, e a alternar entre “A vida secreta das abelhas”, da biblioteca de Oeiras, e as vidas que iam ocupando os bancos à minha volta, segui até Entrecampos. Voltei a pôr o iPod e comecei a andar para o fundo – as torres cor-de-rosa eram já ali e a consulta era só às 10:30 – talvez me atendessem mais cedo, pensei. Foi quando vi um casal de velhotes a correr para o comboio, que já tinha fechado as portas e começava a andar nesse instante. Ele ia mais à frente, ela tentava apanhar os dois. Olhei para eles, para os ténis branquinhos nos pés dele – como aqueles que oferecemos nos anos ao avô há tanto tempo e que ele continua a usar como se fossem a coisa mais preciosa deste mundo, e não pude deixar de ver ali, neles, os meus avós. Deu-me tanta pena vê-los assim, a correr, a bater com a mão na porta sem que isso travasse o comboio, que comecei a chorar ali mesmo, enquanto andava. Não sei explicar bem porquê, só senti o coração apertado, e chorei. Chorei por eles. Chorei por mim. Pelos medos, inseguranças, dores, e pelo que o tempo faz. Chorei pelo pai, por vê-lo de muletas, por não lhe poder dar aquilo que merece. Chorei pela mãe, por não poder ajudar a transformar mesmo os sonhos mais pequeninos em realidade. Chorei pela mana, pelas doenças, doencinhas e doencitas que a incomodam sempre. Pelo trabalho que começa agora a procurar, pelo mestrado onde quer entrar. Chorei pela avó T., a ser operada ao olho naquele momento. Pela avó A., com medo que os maus entrem pela casa adentro sempre que está sozinha. Pelo avô Al., ao imaginá-lo orgulhoso no palco a acompanhar as cantadeiras com a gaita-de-beiços. Pelo avô X., que já não está connosco. Chorei pelo actor de Spartacus, que morreu esta semana com a doença do Tuto (chorei por ele também), a mesma que, com a quimioterapia, enfraquece a Ce. de dia para dia. Chorei pelo sr. J.P., a quem o coração quase trocou as voltas e pela Cr., que sofre por isso. Chorei pelo Z., enquanto o imaginava em outros braços a dançar a música que estava a ouvir no momento da mesma forma que o faz comigo. Chorei pela Lily, heroína do livro guardado na mala, que acabava de encontrar May sem vida. Dei por mim a chorar por este mundo e pelo outro, por mim e por todos os outros. Talvez fossem lágrimas acumuladas em tantos dias, que precisavam apenas da mínima faísca para saírem para fora. E o dique rebentou, ali na plataforma de Entrecampos, ao ver o desalento de dois velhotes que acabavam de perder o comboio. Continuei a andar, aumentei o som e esperei que as lágrimas secassem. Só vejo o meu dentista preferido uma vez por ano, não ia receber o “cara linda, cá estás tu outra vez” lavada em lágrimas. Esperei na sala por pouco tempo e entrei para uma repetição destes últimos anos. “Cara linda, cá estás tu outra vez. Sorri. Abre. Fecha. Trinca. Que curso tiraste tu? Jornalismo? Como é que foste para isso? E onde estás agora? Ah, pois é, já não me lembrava. Continuas perfeita, com um sorriso perfeito. Flúor de limão, mentol ou morango? Volta cá daqui a um ano. Gosto em ver-te, cara linda”. E eu saí com o meu melhor sorriso, sem pensar que o mesmo discurso estava já a ser repetido à menina que entrava. Olhei para as horas, 10:37. Corri até ao Campo Pequeno para comprar uma massinha para o almoço e cheguei à plataforma ao mesmo tempo que o comboio – 10:57. Corri, entrei sem saber bem como, percebi que não tinha validado o bilhete, voltei a sair e a entrar e foi quase por milagre que segui viagem. Ou não. Estava tão absorvida na leitura que nem dei conta das pessoas que iam entrando e saindo, nem dos meus companheiros de viagem. Foi só quando a minha paragem se aproximou, e me encaminhei para a porta, que os vi. Não eram os mesmos da manhã, era outro casal de velhotes. Tinham tantos, mas tantos sacos, que não consegui imaginar como tinham chegado até ali. Duas malas térmicas grandes, um saco daqueles enormes de supermercado cheio, e dois carrinhos de compras, um deles bem grande. Tirei os fones, arrumei tudo na mala e fui ter com eles, posso ajudar a levar os sacos? Que sim, que podia, muita obrigada, que talvez o elevador estivesse a funcionar e aí seria mais fácil. Levei-os até lá, e tentei certificar-me de que não precisavam mais de ajuda. Foram tão convincentes que acreditei que alguém estaria lá em baixo à espera deles. Foi só quando desci as escadas e me dirigia para a saída que os voltei a ver, sozinhos, a tentar equilibrar tudo aquilo. Fui a correr, deixe-me ajudá-la, para onde vão? “Deus lhe pague, para o táxi”, dizia-me. Agarrei em dois dos sacos e senti mais uma vez o peso de tudo aquilo – muito mais do que o que estava lá dentro. Isto é muito pesado para si. E ela agarrou-me o braço, que as dores mal a deixavam caminhar, que já tinha caído desamparada no Areeiro e o joelho, negro, aumentava de tamanho e impedia-a de continuar. Ajudei-os a entrar no táxi, com um condutor nada simpático. Ainda ousei pedir-lhe para os ajudar a descarregar tudo o que traziam de outras hortas quando chegassem ao destino, mas o ar dele de espanto não me deixou mais descansada. Acho que ainda nem me tinha despedido deles e já as lágrimas tinham voltado a cair. Pelo peso dos sacos, pelo joelho dorido, pela falta de alguém à espera deles. Por tudo e por nada, pelos males do meu mundo e do mundo dos outros. Segui para o carro, à espera para me levar até ao trabalho, debaixo de um sol que sufocava tanto quanto as lágrimas. Pensei em como estes dias têm sido de contrastes. Passei o domingo na praia, com o Z. e os pais, e não parámos de rir. Das piadas, da cesta da comida, do bronzeado manchado que apanharam os três. À noite, enquanto comíamos choco frito em Setúbal, fomos atacados por uma vaga de mosquitos que nos fez chorar a rir. Ficámos todos picados, mesmo depois de termos morto uns 20. Eu matei três só na testa do pai, o pai batia no Z., a mãe em mim e até derrubei um copo de coca-cola em cima de mim ao tentar acabar com um que me picava o braço. Mal conseguimos comer, entre picadas e gargalhadas, enquanto víamos as outras mesas também neste estranho ritual de agressão aos companheiros de refeição. E ali estava eu, depois de tanto riso, numa crise de choro pela segunda vez no mesmo dia.

Depois de sair do trabalho voltei a Lisboa de comboio. O Z., o Di. e a Ta. esperavam-me para um jantar no Lucca. E aí voltei a rir, muito. A celebrar a amizade, o amor, as coisas boas que a vida também me vai trazendo, regados a chá de jasmim com limão e canela. Liguei aos pais e aos avós, a tentar sossegar o temporal que me tinha apanhado durante o dia, e ainda ajudei a mana a fazer a carta de motivação para se candidatar ao mestrado antes de cair na cama. Adormeci a tentar equilibrar as emoções do dia, a tentar conciliar tantos contrastes. E, tenho a certeza – talvez por não ter mais lágrimas para gastar -, com um sorriso. Aquele que o meu dentista diz que é perfeito.

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

.Considerações finais

Já trabalho há alguns anos e o começo foi duro – entre outras coisas más, os recibos verdes só permitiam uma semana de férias por especial favor. Agora, com cerca de um mês para tirar, trato sempre estes dias com muita estima, e faço por dividi-los da melhor forma pelo ano inteiro. Nada de três semanas seguidas (esta modalidade em que nos inseriram só tem mesmo isto de bom), que intervalado é muito melhor. Estive uns dias de férias, por Londres e no Andanças, voltei ao trabalho, depois fui para a Curia, voltei a trabalhar esta semana, e na próxima volto a estar de férias. Já tive passeio, descanso, agora quero Alentejo e praia. Vou aproveitá-los bem, porque as próximas férias são só depois do Natal – vamos conhecer Barcelona. O .se perguntarem por mim digam que voei também vai de férias, para se despedir desta espécie de Verão. Voltamos dentro de uma semana.

 

L. às 14:59
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.A Cúria foi (é)…

Comida boa…

Estão relacionadas com a comida algumas das nossas muitas regras: comer sopa uma vez por dia, não esquecer o leite ou iogurte ao pequeno-almoço, comer pelo menos uma vez leitão e visitar a pizzaria da Mealhada. Ainda temos a noite do cachorro: passamos pelo supermercado de lista na mão e entramos cheios de sacos no hotel. Este ano reservaram-nos uma suite, com uma mesa gigante, perfeita para a noite do cachorro. Ou não fossemos nós já clientes habituais - destes sítios todos.

 

Praia…

Começámos a visitar Mira ainda no tempo em que os pais nos levavam para a Curia. Agora já vamos sozinhos, mas não esquecemos a visita à praia. A bandeira está sempre vermelha, não há banho para ninguém, mas é sinal de gaivotas, marisco e passeio. Encontrámos este milho pelo caminho e não resistimos a parar.

 

Cinema…

O ano passado, enquanto eu tentava dividir os nossos muitos planos pelos poucos dias, a Ma. saiu-se com um “para vocês é despachar, para mim é aproveitar”. Mas é aproveitar para todos. Os planos incluem sempre uma ida a Aveiro ao cinema. Este ano conseguimos pôr uns óculos de 3D na avó – vimos os Smurfs, que dava para todas as faixas etárias. Nesse dia, mais à noite, parámos os jogos do Uno e do Trivial e fomos ao bar do hotel, onde encontrámos o primo F. e o namorado da mAna assim, nesta figura, em frente à televisão a ver o futebol, com os óculos 3D.

 

Exercício…

Com tudo o que comemos, é preciso fazer algum exercício para que a balança continue amiga no final das férias. Gaivota, passeio pelo parque, piscina e nada de elevador (esta última parte é mesmo só para mim, para o Z. e para a Ma.). Até este ano, eu e o Francisco detínhamos o recorde de idas ao ginásio pela manhã – todos os dias. Este ano o cansaço não me permitiu, e ainda me obrigou a dormir a folga todos os dias. Já diz a minha avó que o senhor que inventou o descanso deve ser muito bem tratado no céu.

 

Radical…

A primeira e principal regra da Curia diz que “onde vai um vão todos”. O membro mais novo do grupo tem 13 anos, a avó já passou dos 70, e há que agradar a todos. Este ano, para fazer a vontade ao primo F., fomos até ao kartódromo de Oiã. No vídeo que a mAna e a Ma. fizeram só se ouve “a minha irmã é uma tartaruga – olha, já a estão a passá-la outra vez”. Era a minha primeira vez, e logo entre três matulões que disputavam o lugar no pódio. Resolvi aproveitar, à tartaruga.

 

 

Compras…

Dia de cinema é dia de compras em Aveiro. Os meninos fogem para a livraria ou para comer uma tripa com ovos moles (a mAna cola-se a eles), o resto corre todas as lojinhas do Fórum. Nos outros dias dedicamo-nos às lojinhas da Curia, e à terça é dia de feira de antiguidades, no Jardim, onde comprei estes brincos. A senhora da farmácia deve ser uma grande fã nossa – não há dia em que a gente não passe lá para comprar qualquer coisa: Cicalfate para a ferida da avó (que caiu na festa), comprimidos para o herpes no olho da mana, creme para os pés da Ma., e coisas várias para a constipação que só deixou o primo F. de fora. Passamos todos os dias pelas lojas das amigas da avó, que nos conhecem à distância, e até estranham quando vamos mais tarde para as férias. Também somos grandes clientes do senhor do Euromilhões / Raspadinhas e da senhora da papelaria – mas estes não são nossos fãs, podemos deixar lá este mundo e o outro, mas, em tantos anos, nunca recebemos um sorriso de volta. Não faz mal, continuamos a passar por lá todos os dias.

 

 

Amor…

De avós, de netos, de primos, de irmãos, de namorados. Uma das senhoras do hotel dizia ao pequeno-almoço: “Que engraçado, são todos netos? E vêm com a avó? Há quanto tempo? Aproveite, minha senhora, olhe que depois crescem, arranjam alguém, e já não querem vir”. Pois, pois. Ao grupo já se juntaram dois apêndices, candidatos a netos emprestados. E a tendência é para aumentar.

 

 

Avó T. ...

É também por ela que estamos aqui, neste mundo. Com 16 meses de diferença, trouxe à luz do dia o pai, que me teve a mim e à mAna, e o padrinho, que tem o Fr. e a Ma.. É por ela também que todos os anos estamos aqui, na Curia. E, lá, tudo gira à volta dela, ainda que nos diga sempre: “é como vocês quiserem”. Levamo-la ao cabeleireiro, à missa, estamos no hotel a tempo das novelas, não nos esquecemos das gotas, exageramos no mimo e fazemos massagens aos pés. Este ano demos-lhe uma lembrança pequenina, e, ainda antes de agradecer, disse logo: “quanto é que isto foi para eu vos dar o dinheiro? Na Curia pago eu”. É a nossa avó T..

 

Nós…

Juntos. Podia ser assim em qualquer outro sítio, mas nós acolhemos este como a nossa segunda casa. A Curia.

 

(senhores da Curia: não lhe façam mal. Já nos tiraram um bocadinho do coração quando derrubaram a casa ao lado do Vila Rosa para construir uns prédios horríveis, agora ouvimos dizer que, com as obras, vão tirar as árvores da minha estrada preferida para construir uma ciclovia. Não dá para fazer e deixar os plátanos? Agradecemos muito. E limpem o lago, que já precisa.)

 

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