Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

.Palavras

Gosto de palavras cheias. Com sentido, sem espaço para espaços dúbios. Gosto de palavras que não enganam. Que são sins, e não nãos nem nins. Gosto de palavras carregadas. Com o peso da certeza. Gosto de palavras escritas. Que não se apaguem, não se esqueçam, não desapareçam. Escrevo as minhas com cuidado. Para que sejam cheias, sins, carregadas, verdadeiras. Quando as escrevo, também eu me sinto cheia. Do peso do que significam. É por isso que me custa imaginá-las entre outras. Outras que são nins, que são nãos. Outras que são vazias, inverdades, ou que não se deixam perceber. Que magoam. Estas prendem. Prendem-me as minhas palavras em sítios fundos, de onde não as consigo tirar, por ter medo. Medo que se misturem com as outras. Ou que me mostrem mais do que devo.

 

Sempre que penso que o medo está a passar, lembro-me do momento em que as li. E as minhas ficam mais fundas. Dizes que vai passar. O tempo cura tudo. E eu tenho medo que cure as minhas também. As palavras, o que elas dizem, o que elas carregam.

 

Talvez um dia tenha de te pedir desculpa por não te escrever há tanto tempo. Por não acreditar nas palavras que gastas comigo. Por te dizer coisas más (como chamamos às boas que fazemos) e não conseguir fazer sair as boas. Não sei. Não sei se esse dia chegará. Mas queria escrever-te para te dizer que me é difícil. Escrever-te. Porque me conheces. E sabes que para mim as palavras são tudo. E que gosto delas cheias. Um dia talvez tas consiga voltar a escrever. Quero que o tempo traga esse dia e que só leve o medo. E isto é o mais bonito, mais cheio e mais verdadeiro que consigo escrever-te hoje. Mas são só palavras, pensas tu. Pois são. Mas são minhas. E são cheias.

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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

.Sítios (o fim-de-semana das amigas para mim)

Quando começaram a chegar os habituais emails de preparação do fim-de-semana das amigas, todos traziam uma mesma ideia. Desta vez ia ser no meu sítio novo, na ‘minha’ casinha nova. E eu tive medo, mas não o pude partilhar com elas. A A., que para além de ser amiga partilha a secretária do trabalho comigo, tem sido visita de muitos dias, e até baptizou o Marcos, mas faz-me sempre sentir um bocadinho mal de cada vez que lá vai. “Mas trouxeste isto? E isto também? Mas isto não te recorda não sei o quê?” Recebi as amigas lá em casa com estas coisas na cabeça. E com outras que me têm feito mossa na caixa dos afectos.

Depois das apresentações oficiais, dos petit-gateau, das uvas, e das mangas, começaram a ficar impacientes. Vamos? Não está na hora? Onde vamos? Fomos para Sintra, descobrir aqueles sítios especiais que nos esperam sempre em cada fim-de-semana das amigas - a casa de chá da Raposa. E queria dizer-vos que o meu ar pesado enquanto bebia o “Festa” em golos pequeninos com as duas mãos não era só sono. Estava mole, estava triste, que os últimos dias não tinham sido bons. E à noite, quando adormeci no sofá enquanto vos via a pintar as unhas e ouvia as vossas histórias, não foi só cansaço. Foi segurança, foi protecção. Tive a certeza que os pesadelos e os medos não me iam apanhar de surpresa mais uma noite. Porque vocês estavam ali. Quando acordei, só de manhã, e a minha única companhia era o vento que entrava pela lareira e empurrava a chuva contra a janela, levantei-me e fui devagarinho até ao quarto para vos ver. Achei que ficavam bem ali, na minha casa, entre as coisas do meu passado, do meu presente e meu do futuro. Depois foi só voltar para o sofá, esperar que fossem acordando, que a A. e a K. começassem a discutir por qualquer coisa, que a N. retocasse a pintura das unhas, e que nos sentássemos à mesa a devorar cappuccinos, croissants de massa doce e muitas torradas atulhadas com os doces que a avó A. me vai dando de cada vez que me apanha por lá. E perceber, uma vez mais, que o sítio mais importante dos fins-de-semana das amigas não está dentro das paredes que nos acolhem, é aquele que compomos quando estamos juntas.

Estou:
Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010

.O fim-de-semana das amigas para a A.

"Este talvez tenha sido uns dos fim-de-semana das amigas mais "frouxos". Talvez a chuva inesperada e o vento a soprar pela lareira da L. tenham tornado estes dois dias mais cinzentos. O local foi unânime, todas queríamos conhecer a nova Lua e aproveitaríamos para conhecer os cantos à casa e à nova vida. A data no calendário foi quase um achado. E mais uma vez a N. veio do Porto para estar connosco (e nós com ela e com os croissants de massa doce). O fim-de-semana teve pouca cor. As gargalhadas ficaram à porta e as histórias mirabolantes à espreita na janela. Os planos para Londres foram levados pela falta de paciência e os planos para a tarde de sábado cobertos pelo burburinho das ruas da vila de Sintra. Não comemos uma queijada nem fomos ao "Saudade". Sentadas a beber chá "Festa" na Raposa, o momento foi de calmaria. A L. tinha sono e eu pouca fome. Foi fácil desanimar quando chegámos a casa sem planos para a noite. Jantar no Bianconero. Consegui fazer o senhor do restaurante voltar cinco vezes à mesa tal não era o grau de imbirrância. Não gosto de Nestea, os Canelones estão frios e não quis sobremesa. A K. estava triste porque não ia ao aniversário do costume. Talvez, no meio disto tudo, a N. fosse a única sobrevivente. Terminámos o sábado, como de costume, com a N. agarrada à manicure. A L. adormeceu sobre o cansaço. E eu deixei-me cair na almofada, pronto para sofrer um ataque de hipotermia à pala dos calores da K.

Domingo chuvoso com roupas de verão penduradas no armário. Talvez tomar o pequeno almoço juntas seja sempre o momento alto destes encontros. Conseguimos guardar todas as coisas boas para partilhar entre um cappucino e uma torrada. Chegamos sempre à conclusão de que "fomos feitas umas para as outras". A L. há-de beber sempre com as duas mãos na caneca, a N. há-de ficar sempre cheia antes da última migalha, a K. há-de sempre fazer misturas de sabores e eu hei-de sempre ser a última a acabar, por comer demais.
O fim-de-semana terminou no meio da multidão de "domingo à tarde". Passeámos as nossas carteiras vazias e as mentes cheias de vontade de comprar tudo pelo Oeiras Parque até chegar a hora de ir embora.
Talvez o próximo fim-de-semana das amigas só aconteça em Dezembro, na cidade de Sua Majestade. Deixa-me triste pensar que ainda falta muito. Que apesar de frouxo, como o tempo, elas serão sempre o meu arco-iris.
Post da Estrelinha, em 04-10-2010"
 
Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

.O bem

No sábado a G. casou, e eu estive lá com os pais e a mana. Lá em casa temos todos um vício comum: o da gula. O pai sempre nos habituou a levar coisas novas para experimentarmos, a apreender a saborear coisas novas, a desfrutar da comida. A mãe sempre nos habituou a cozinhá-las da melhor maneira, mesmo quando não gosta e não prova. Estávamos os quatro em sítios diferentes, no pátio da Plaza Ribeiro Teles, quando me deram a provar tostas de queijo brie gratinado com compota de marmelo por cima. Depois de saborear, a primeira coisa que pensei foi em levar um ao pai. Ele estava entretido com os amigos, e nem me deu muita atenção. Mais à noite perguntei-lhe o que tinha achado, e ele soltou um “não me pareceu grande coisa”. Eu, só para não ficar com cara de Bambi, respondi “para a próxima não ganha”. E a mãe, que estava por perto, disse-me “nunca te arrependas do bem que fazes”. E é nesta frase dela que mais tenho pensado nos últimos dias.

 

Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

.Copiona [recortes deste dia]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apaixonar-se é a ocasião perfeita para se conhecer profundamente

por Francesco Alberoni (Jornalista e sociólogo), Publicado em 28 de Setembro de 2010  | Jornal i

 

Sempre que nos apaixonamos vemos naquele que amamos o reflexo de nós mesmos. Isso é fundamental para o processo de autoconhecimento

 

A pessoa apaixonada sobrevaloriza aquele que ama. Os psicólogos dizem que projectamos os nossos desejos nele e os psicanalistas garantem que voltamos a ser crianças e encontramos no outro os nossos pais. Quando apaixonados, achamos tudo mais bonito, o mundo parece mais colorido e luminoso. Mas o estado de enamoramento não traz apenas ilusão; também traz conhecimento.

 

Só é possível que nos conheçamos a fundo, a nós próprios, através de outro ser humano. Fazemo-lo com os nossos pais, enquanto crianças, mais tarde com os amigos, mas sobretudo isso acontece quando nos apaixonamos. Nessa altura, queremos saber tudo sobre aquele que amamos, estar sempre a seu lado, amá-lo e sermos correspondidos para sempre. Vemo-lo não só como é no presente, mas como foi em criança, em jovem, recuperamos todas as suas experiências - incluindo os seus amores. E o mesmo faz ele consigo.

 

Através dele, portanto, não conhecemos apenas as nossas ambições mas as ânsias, as qualidades, as virtudes e as debilidades, os seus erros e o seu potencial escondido; como um realizador que sabe logo à partida a grande actriz que tem na sua frente, apesar de apenas ver uma menina inocente.

 

Mas este extraordinário processo de conhecimento apenas é possível com duas condições. A primeira é que cada um, ao contar a sua vida, diga a verdade. Só aquele que é sincero sobre o seu passado abre o seu coração e a sua alma ao outro e pode com ele fundir-se sem perder a própria identidade. A outra condição é a liberdade. Cada um deve ser livre para se exprimir, livre para dizer aquilo que lhe agrada no outro e aquilo de que não gosta.

 

O estado de paixão é uma grande oportunidade para nos conhecermos a nós próprios e aos nossos desejos em profundidade, sem sermos esmagados ou limitados por limites, vínculos, tabus e hábitos que nos refreiam. Apesar de tudo, muitas pessoas não têm coragem de deixar-se emergir no mais profundo do seu ser, inibem-se, calam-se ou mentem, ou mostram apenas os aspectos que julgam que vão agradar ao seu amado.

 

É porém a procura contínua do conhecimento recíproco que faz durar o amor. Porque o ser humano tem mil características, mil potenciais, e quando o libertamos dos travões, floresce de autoconfiança e cada novo encontro torna-se algo diferente e surpreendente. Compararia os apaixonados a dois artistas que tiram milhões de fotografias um ao outro, recuperando ora imagens diferentes do seu amado ora de si próprios. Imagens que são produto da sua imaginação mas, em simultâneo, são reais. É assim o conhecimento do amor, assim, tão parecido com a arte.

 

CRÓNICA DIA-A-DIA

Hugo Gonçalves, Publicado em 28 de Setembro de 2010  | Jornal i

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lá fora:

 

“Why don't you love me? / (…) when I make me so damn easy to love / Why don't you need me? / (…) when I make me so damn easy to need / (…) Maybe you're just not the one / Or maybe you're just playing dumb.”

"Não mereço uma oportunidade?"

Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

.Uma vez, uma vez boa

Conheci o D. em Maio, por altura da Ovibeja. Fizemos a viagem juntos e comecei por achá-lo muito sério. À noite, à medida que os copos se iam esvaziando, o sorriso dele foi abrindo e a conversa saindo sem muito esforço. Mesmo estando juntos mais algumas vezes depois disso, as coisas não mudaram. Quando estamos juntos é sempre assim: é preciso conquistar a confiança dele antes de nos deixar entrar no mundo que pisa. Este fim-de-semana estivemos à conversa sobre o exame de inglês que teve de fazer, e como, perante a perspectiva de ter de repetir um ano inteiro por causa de dois créditos, isso o fez repensar a maneira como estava a encarar a vida e a escola. “Sabes qual é a teoria do meu irmão mais velho? Uma vez, uma vez boa. Não sabemos se temos mais oportunidades. Em tudo. Temos de encarar tudo – sempre – como uma única vez, e por isso tem de ser boa – temos de fazer o melhor possível”. E a teoria do irmão do D. passou a ser a minha filosofia do momento. Ao ouvir o D. senti que tudo aquilo estava tão certo. Nada mais estava tão certo. Uma vez tem de ser mesmo uma vez boa. [e não consigo encaixar novas oportunidades aqui]

 

 

 

Estou:
Lá fora: [o barulho das estrelas]
Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010

.Amor (ou "A Te. e o F.")*

Quando o Verão chegava à terrinha, ainda antes das notas estarem afixadas nas paredes da escola, eu e as minhas amigas tínhamos uma certeza: o torneio de futebol também estava a chegar. Depois do jantar, começávamos a juntar-nos umas em casa das outras e lá seguíamos para o campo, pela estrada de alcatrão ou pela vereda, as quatro – eu, a Te., a Su. e a Le.. Ou as seis, quando a minha mana e a da Te. se juntavam a nós. Todas tínhamos uma paixão de Verão. Alguém que nos fazia perder o rumo da conversa e dedicar um tempo a olhar para o campo e a seguir a bola. A Te. não era excepção. Ainda que não concordássemos com a escolha dela: o guarda-redes da terra vizinha era tão mais giro, e gostava tanto dela. Não demos pelo amor nascer. Entretidas que estávamos com o jogo, com as idas ao café à tarde para comer caracóis, ou com as conversas sobre os nossos próprios amores. Mas vimo-lo crescer. E vimos o primeiro beijo: a mana levou a mana dela a comprar gomas, eu e a Le. agachámo-nos junto às silvas para que ninguém passasse, e eles mais à frente. Foi um momento especial, que ainda todas lembramos: não que tenhamos ficado ali a observar a cena, mas a forma como se abraçaram e se embalaram no final, numa dança tão própria, tocou-nos.

A Te. sempre foi a mais sossegada do grupo, a mais séria, a mais preocupada. Viver um romance assim, às escondidas, por mas perfeito que fosse, atormentava-a. Foi giro ver desaparecer a ansiedade quando contou finalmente aos pais – mas só alguma, a de esperar e ver o F. manteve-se. Até hoje, desconfio. O casamento deles não nos surpreendeu. No momento da dança, quando o palco foi só deles, acho que chorámos todas por perceber que já tínhamos assistido àquele momento antes, numa noite escura, numa vereda com silvas. Estavam eles, só eles, e balançavam nos braços um do outro com o mesmo brilho nos olhos, com as mesmas palavras sussurradas ao ouvido.

Depois disso, eu e a Te. afastámo-nos. Não foi pensado ou decidido, a vida tem destas coisas. Fomo-nos vendo em alguns momentos especiais, como quando nasceu a Ma. deles, mas nunca em dias dedicado só a nós. Há já algum tempo telefonou-me para me pedir que passasse no colégio onde dá aulas para falar da minha experiência como jornalista. Eu lá lhe expliquei que era quase nula, mas ela quis-me lá, ainda assim. E foi muito bom. Porque me fez voltar a pegar nos apontamentos, nas coisas giras que aprendi, porque foi engraçado ver-me num palco a tentar prender a atenção de uma plateia tão exigente. Foi ainda melhor porque, no final, tivemos um café e um bolo só nossos.

Este ano chegou uma má notícia. Tinham detectado um tumor no peito da Te.. Fui ouvindo as novidades por outros amigos: que não faltou às aulas, que queria ter um horário extra para os alunos não saírem prejudicados, que se desdobrou em cuidados com os outros em primeiro lugar e só depois com ela própria. Pensei que continuava igual à Te. de sempre. Fui mandando sms e ela respondia sempre com uma força que não esperava dela – sempre foi também a mais pessimista do grupo.

No dia quatro estivemos juntas num casamento, as duas, as quatro, e confesso que tive medo dos primeiros instantes. Estávamos afastadas há tanto tempo, não queria que pensasse que eu estava ali por outra coisa que não ela própria. Ficámos na mesma mesa, tirámos um monte de fotos, falámos muito e ela disse-me coisas que me tocaram muito. Que a minha decisão não a tinha chocado, que tinha saudades de me ver assim: e assim não era a L. certinha que tinha visto nos últimos tempos, mas a L. que ri, que fala, que dança em todo o lado. Ao longo do dia foram várias vezes que a apanhei ao colo do F. com o mesmo olhar daquela dança, e fiz questão de o captar com a minha máquina: mais uma prova de que o amor existe mesmo.

Sempre que uma mulher passa pela situação da Te., e faz uma mastectomia, os homens da vida delas também entram no processo – uns mais do que outros. Não falei com ela sobre isto, mas, pelo que me contaram, na conversa que o F. teve com a médica antes da operação, foi a médica que ficou tocada com as palavras dele, com a maneira como ele lhe explicou que o amor que sente pela Te. vai muito além daquilo que lhe iam tirar, que a Te. é muito mais que tudo aquilo. É a pessoa preferida dele. De qualquer maneira. Não fiquei surpreendida, este é o F. que eu conheci e conheço.

Esta semana recebi uma mensagem da Te., que tinha descoberto o meu cantinho, e eu confessei-lhe que tinha um post escrito sobre ela, mas que tinha medo de o publicar, por já haver muita gente conhecida por aqui. E ela deu-me autorização para o fazer. Aproveitei para perguntar se os resultados já saíram, e ela, com aquela força que eu não conhecia, brincou com o assunto e disse-me que se ia mudar de malas e bagagens para o IPO. Quando lhe disse que sempre que puder lá estarei com ela, respondeu-me: “Finalmente sinto que recuperei uma grande amiga. (…) aproveita ao máximo os momentos da tua vida”.

Lamento tanto que tenhas, que tenham, de passar por tudo isto. Queria dizer-te que sinto que vai correr tudo bem. Para além dessa força que agora descobri em ti, tens outra muito importante. Sabes como sempre fui céptica em relação ao amor, às palavras que ele usa, à eternidade, sempre a tentar recolher provas de que ele existe, de que faz sentido, que não serve só para magoar ou preocupar. Quando olho para os dois percebo que sim, que existe. Vejo-vos apaixonados como naquele primeiro beijo, seguros mas sempre ansiosos pelo outro, com uma força própria que não se incomodam de ‘gastar’ com o outro, ainda que precisem muito dela. E para resumir tudo isso, mesmo para os mais descrentes, só existe uma palavra. E com ela dizem que tudo é possível. Uma palavra que eu sei que tens. E que é muito mais do que isso. Amor.

 

(Mas, desta vez, esta não é uma dança só vossa.)

 

*post escrito a 05-09-2010 e reformulado a 23-09-2010 

 

 

Lá fora:

"Como é que aconteceu, em que momento?"

"Não devia ter acontecido, não era suposto."

"Amo-te."

"Precisa de uma declaração sua, do BI e do cartão de contribuinte."

 

Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

.Oficial

Antes de irmos as três de férias, eu e as minhas duas colegas de sala, a Ma. e a An., por volta das 15h00 tínhamos sempre dois momentos sagrados: o Momento Maya e o Momento Waka Waka. No primeiro deles, uma de nós encarregava-se de entrar em astral.sapo.pt e desbobinar, em voz alta, as previsões diárias da senhora para cada uma. Nas segundas-feiras e inícios de mês dedicávamos tempo também à previsão semanal e mensal. Depois era tempo de descontrair e dançar na cadeira ao som da Shakira. Com o final das férias, regressámos aos poucos, ainda mal nos encontrámos as três, e os hábitos mudaram. Ontem a An. ainda quis começar a ler, mas eu impedi-a de chegar à minha parte. A Maya é assustadora, conseguimos sempre dar razão às palavras dela, encaixarmo-nos naquelas sentenças. E eu tinha decidido, nas férias, que ninguém para além de mim própria havia de tomar decisões na minha vida. Hoje o dia estava a correr tão mal, tão mal, tão mal (por coisas que não posso pôr aqui, que o meu estaminé virou coisa pública, e antes ainda tenho de me desculpar com algumas pessoas), que resolvi dar um salto lá na página. E isto não melhorou. As perturbações gástricas não me afectam, da falta de saldo já eu tinha dado conta,  o pior é mesmo o amor, “Instabilidade na vida sentimental; alguns comportamentos escapam à sua compreensão”. Com uma previsão destas, não resisti a ver a semanal, e piorou ainda mais, “Não entregue o seu amor a quem não o merece; corre o risco de decepções. Nem todas as promessas serão cumpridas esta semana”. É desta que eu e ela cortamos relações. Mas a nossa informática bloqueia tantas páginas e esta continua a dar porquê? E o que ainda falta para o final do dia? E da semana? E o que eu gasto a pensar nestas coisas sem jeito nenhum? Já me disseram que ando a fazer muitos filmes, mas a matéria-prima não pára de chegar. Não gosto da Maya. É oficial. Isto e outras coisas no dia de hoje.

 

(Joel: Este tem uma data de tesourinhos deprimentes, que podes guardar para a próxima vez que estiveres comigo. Por norma, funciono assim: escrever é como desabafar com um bom amigo. Depois de ler o que escrevi, aligeiro sempre os problemas, acredito que são só coisas da minha cabeça, e convenço-me que tudo vai correr bem. Espero que não te irrite. :) )

 

 

 

Lá fora: "Estás bem?" / "Sempre foste a diferente."
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Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

.Está tudo bem

O Marcos (lê-se com pronúncia brasileira) veio cá para casa quase ao mesmo tempo que eu. Foi uma prenda de quem me ajudou a pôr tudo no lugar. A amiga A. baptizou-o e justificou a escolha com as minhas novas rua e localidade. Acho que ele ainda não se habituou ao nome, e eu também não. Ainda assim, não deixo de o cumprimentar em voz alta assim que atravesso a porta e de dar uma gargalhada de seguida por me ouvir a dizer tal coisa. Ao início ficou um bocadinho amarelo e muitas das folhas caíram. E eu fiquei triste - a minha mania dos sinais a dar sinal. Era uma coisa com vida na nova casa, na nova vida, dada por alguém que quero muito na minha vida, e estava a morrer. Explicaram-me que eles também se ressentem com as mudanças. Mudei-o de sítio, cortei umas coisitas, conversei com ele, e hoje já vi ramos e folhas novas. Afinal estamos bem. Eu e o Marcos. Está tudo bem.

 

 

 

 

 

  

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lá fora: 

"As promessas ainda são uma ilusão, / As palavras eram nim agora são, / já voltei a construir o meu castelo, / E o vazio já deixou de sê-lo”

"E eu fui atrás delas."

Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

.J'y Suis Jamais Allez

 

.Ontem decidi ir a pé para o trabalho. O sol brilhava, o meu iPod tinha músicas novas, precisava de fazer exercício: ia correr tudo bem. O edifício vê-se da janela de casa, separa-nos apenas o campo de golfe. À falta de alternativas, decidi percorrer a quase-autoestrada que atravessa o Tagus Park. Vejo tanta gente a correr por ali a fora, não podia ser assim tão perigoso. Era seguro. E era de facto, excepção para os senhores automobilistas. De vez em quando ouve-se falar de pessoas aparentemente normais que se passam por alguma coisa que, aos olhos dos outros também aparentemente normais, parece insignificante. E saem as notícias sobre eles, que lemos em choque: “Parte para a violência porque a comida estava fria, porque não lhe lavaram a roupa, porque deixaram dedadas nos móveis limpos há instantes”. E eu, quando oiço um apito ou um comentário de um senhor automobilista penso sempre: “é isto que um dia me vai fazer saltar a mola”. Irrita-me de uma maneira que me transcende. E na minha cabeça sucedem-se os  títulos dos jornais: “Automobilista estrangulado em plena estrada  - Jovem de 26 anos justifica agressão com “mas ele apitou””. Ao longo das notícias lêem-se comentários de quem os conhece bem e nunca suspeitou que tal pudesse vir a acontecer. Comigo isso não vai acontecer. Porque eu aviso constantemente, só que ninguém me leva a sério. Agora terminou o que ainda não tinha começado: as idas a pé, o exercício matinal. Estou a pensar seriamente em vestir-me de verde todos os dias e tentar atravessar o campo de golfe sem ser vista. Pior do que ser apitada, é ser presa por invasão de propriedade privada. Mas por ali é que não volto a ir. Por ali não vou.

 

.Desde que me mudei do T2 com vista para a Lezíria para um T1 com uma vista que vai da Ponte 25 de Abril ao Cabo-não-sei-das-quantos com paragem pelo local de trabalho, a minha relação com os meus pais mudou. E eu compreendo. Não podem andar sempre atrás das decisões e caprichos dos filhos com um sorriso na cara. É preciso o momento do choque, da adaptação, das tréguas. Na entrada dos 26 anos continuava presa aos meus pais como se o cordão umbilical nunca tivesse sido cortado: avisava das chegadas ao trabalho, a casa, das saídas, tinha receio de lhes dizer que não ia lá no fim-de-semana, de os desiludir, de não estar à altura. A minha decisão fê-los provavelmente ver isso: afinal eu não estava à altura. E é normal que isso os tenha desiludido. À minha mãe mais ainda, que resolveu procurar atalhos em vez de dar tempo ao tempo. Houve uma espécie de corte abrupto entre nós. Numa coisa ela está certa: lá em casa, nunca estamos todos chateados ao mesmo tempo, há sempre um que defende o oprimido. E coube ao meu pai esta tarefa, a de fazer todas as coisas que ela costumava fazer. E à mana outra ainda mais difícil: sofrer os danos colaterais.

Sempre fui agarrada, mimada, insegura, com uma necessidade de pais que a mim me parecia normal, a ver a casa do Alentejo como a minha casa, o meu quarto do Alentejo como o sítio mais seguro do mundo. E a minha mãe dizia-me sempre: um dia vais perceber que tens outras pessoas por quem viver – vais continuar a gostar de nós, a querer estar connosco, a saber que aqui estás em casa, mas os fins-de-semana longe daqui não vão custar tanto, vais perceber que a tua casa está noutro lado. E eu olhava e sorria com um pensamento: “as coisas não vão mudar”.

Este corte que agora chegou talvez tenha sido necessário, talvez nos fizesse falta, talvez tenha sido o passo que faltava. Passei estes últimos anos a dizer que era crescida, e afinal estava só a tentar ser uma pessoa diferente. Crescida deve ser isto que sou agora. A L. menos dependente.

Preciso deles, claro. E não vou dizer que não custou. No fim-de-semana passado não fui lá, no próximo também não, resolvi ir lá ontem jantar. A mãe já me voltou a ligar, a chamar filhota nas mensagens, a abraçar-me ao de leve, a ficar orgulhosa com a nota final da pós-graduação. E ontem, do nada, quando me ligou a perguntar o que queria eu jantar não pude deixar de ficar feliz e de sentir que um aperto estranho saía de dentro de mim. O jantar foi estranho: como se quisessem que eu notasse que as coisas estão diferentes, mas depois se esquecessem disso e se entregassem ao momento. Dei por nós os quatro a rir como antes algumas vezes. Um antes que não foi assim há tanto tempo. Um antes que decidi que não queria mais. Por onde não vou.

 

.As coisas, as pessoas, os sentimentos, as vontades mudam. Mesmo que não se encontre lógica nisso. Eu mudo. A minha T. diz que eu não mudei, que regressei à L.. E eu sinto um bocadinho das duas coisas. Queria (poder) dizê-lo aos meus pais, ao meu mundo. Mas segura-me a rede do erro: eu sou a que falhou uma vez e pode não ter, aos olhos deles, do mundo, mais vidas para jogar. À noite (esta), no quarto com vista para o trabalho, na cama com só uma almofada, de olhos no tecto que outra menina de 5 de Julho cobriu de estrelas, agarro-me às minhas certezas. A mãe tinha razão: um dia, tudo mudou. E os fins-de-semana longe deixam de custar. E descubro onde fica a minha casa. E vivo por alguém: por mim acima de tudo. Pode parecer que dou passos apressados, inconscientes, inconsequentes, impensados. E posso vir a vê-los um dia assim - ainda que as minhas certezas de hoje me digam que não. Posso não saber para onde caminho, mas uma coisa sei. Uma que me parece importante. Por onde não vou.

 

Lá fora: "(...) anda um bocadinho saído da casca."

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