Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

."O que eu vos quero dizer é que vamos todos falecer"*

Se há coisa que mexe comigo é a morte. Não necessariamente a minha, muito mais a dos outros. Ontem, quando ia a caminho de um concerto de gala, a mãe ligou com uma má notícia. Tinha um morrido um senhor nosso conhecido, que trabalhava para um grande amigo nosso, e que era pai de um antigo colega de turma da mana. Ia num carro atrás desse amigo, que deixou de o ver, voltou para trás, e quando o encontrou contra um sobreiro já nada se podia fazer. Liguei para a mana na tentativa de afugentar os fantasmas. E depois tentei abstrair-me, mas não consegui. A música era boa, a companhia ainda melhor, as conversas dos bancos de trás davam para rir, as gargalhadas vinham de todos os lados. Mas não chegava. O meu pensamento andava por lá. Pelo acidente sem marcas de travão, pela cabeça de quem teve de dar a notícia à família, pela estrada onde passamos tantas vezes, pelos três filhos que perderam o pai sem que nada o fizesse prever. A morte custa sempre, ainda que seja esperada. O avô X. teve um cancro durante vinte anos, foi operado mais de dez vezes, teve um mamilo na bochecha, um tubo na garganta, despediu-se de mim numa conversa bem planeada, e, ainda assim, foi com surpresa que o vimos desistir do sofrimento enquanto esperava por mais um bocadinho de oxigénio. Apanha-nos sempre desprevenidos, surpreende-nos sempre, mesmo quando nos vai alertando. Achamos sempre que conseguimos adiá-la, vencê-la, nem que seja só por mais uns instantes. No que iria a pensar? No jantar à espera em casa? No beijo de boas-vindas? No programa que queria ver na televisão nessa noite? No trabalho que o esperava no próximo dia? E lá em casa, esperavam-no com a certeza de todos os dias? É nestas coisas que fico a pensar. São estes momentos por viver que ficam às voltas na minha cabeça, sem vidas aonde se possam agarrar lá fora, porque a morte os veio surpreender. É isto que me deixa em alerta, sempre atenta, sempre à espera. Sempre a correr para mais uma visita, mais um beijo, mais qualquer coisa para guardar que um dia me permita enfrentá-la mais forte. Se é que isso é possível. Acho que não. Mas é assim. Vai ser sempre assim. Vai vir sempre. Vai surpreender sempre. "O que eu vos quero dizer é que vamos todos falecer"*.

 

*Diário de Notícias online - Alunos de Medicina aprendem importância do humor

 

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