Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

.Leve

Hoje estou mais leve. De vez em quando saio do meu trabalho e faço uns trabalhos como hospedeira em congressos. Foi o que aconteceu ontem. Estava lá numa das salas, a ouvir a apresentação sobre análises clínicas, com o microfone na mão a aguardar a sessão de perguntas, e a rever as mensagens do meu telemóvel. Tinha quase 400. Fiquei com 54. Percebi agora, nestes últimos dias, que as mensagens não merecem confiança. Ou que, ainda que pensemos que sim, nunca teremos essa certeza. O que escrevem é realmente o que pensam e sentem? Achava eu que sim. O que esperam da nossa resposta? Verdades ou ilusões? Certezas ou enaltecimentos? Não sei.

Guardei aquelas em que a mãe diz que me adora, me chama caranguejo eléctrico ou outro nome qualquer engraçado. Apaguei aquelas em que mandam os parabéns “à menina mais bonita que conheço”, “à grande escritora”, “à menina dos 19’s”. Guardei as do J., empenhado em encher os meus dias de filosofia; as da mana, com piadas que só nós percebemos; as da Su., recheadas de conselhos; as do Az., a matar saudades; as do primo F., cheias de piadas; as da minha M., a reclamar da minha ausência; as da madrinha, a querer saber de mim; e da minha V., a resistir. Apaguei as dos “estás sempre igual” e “vamos tomar café”. Guardei as das confissões, dos elogios sentidos. As das divisões e dos dias de nuvens cinzentas. As dos concertos, dos cinemas, dos momentos. As que mandei de mim para mim, nos dias em a agenda não estava à mão. Só essas me deixam saber coisas que me marcaram noutros dias. Como lembrar que no dia 14 de Junho as luzes da estação de Sete Rios se acenderam às 20 horas, 40 minutos e 38 segundos, no preciso momento em que me sentia escura por dentro. A outras dei o benefício da dúvida. Voltei atrás mesmo antes de carregar no “sim”. A outra, uma única, que chegou no meu dia de anos. Era simples, curta, perfeita. “O meu primeiro dia aqui está pacífico”, diziam-me. Esta ficou no telemóvel. Ficou na minha vida – com o benefício da dúvida. Apaguei todas as outras.

O meu telemóvel ficou mais leve. Eu também. Talvez devesse apagar mais. Esquecer outras coisas. Mas não é fácil, percebi em cada aperto ou alívio que sentia entre o “apagar mensagem?” e o “sim”. Foi quase como limpar uma caixa das recordações. Disto preciso, daquilo não, disto já não me lembrava, disto já não sinto falta, não preciso disto para me sentir bem comigo. E é só quando sabemos isso, o que precisamos, o que queremos, a resposta que devemos ou queremos dar às coisas que nos chegam (o que sentimos), que se pode limpar uma caixa destas. Um telemóvel. Nós próprios. E ficar mais leves. Como hoje. Hoje estou mais leve.

 

 

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L. às 12:44
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8 comentários:
De Margot a 15 de Outubro de 2010 às 16:35
Era bom que pudessemos apagar certas recordações como se apagam mensagens de telemovel. Outras, desejamos que fiquem para sempre, indeléveis...
De L. a 25 de Outubro de 2010 às 17:59
No que toca a recordações, tantas são as coisas que eu gostaria que fossem possíveis... :)
De .Entre o Aqui e o Ali a 15 de Outubro de 2010 às 17:34
Há mudanças que nos surpreendem a nós e aqueles que nos conhecem bem.. Era capaz de apostar o mundo em como recordações, sejam elas de que tipo fossem, eram coisas que nunca conseguirias "deitar" fora.. Pelos vistos estou errada, e uma nova L. está a emergir. Espero essencialmente que seja uma L. ainda mais Feliz, mais sorridente, mais energética do que a já era, pois aí significa que a mudança é em tudo positiva.

Um beijo grande cheio de saudades.
V.

Ps: confesso que estou na expectativa de "e da minha V., a resistir" ser para mim. Mesmo que não seja, os meus ombros, ouvidos e regaço estão por aqui. Sempre que for preciso. Adoro-te, acho que sabes disso!!
De L. a 25 de Outubro de 2010 às 18:01
Tive o bom senso de te responder a este comentário no dia em que o li, ainda não tive o de te ligar... Mas vais desculpar-me assim que souberes como foram os últimos dias. Como desculpas sempre. A minha V. a resistir. A resistir-me. *
De Carlos Manuel Lopes da Silva a 4 de Novembro de 2010 às 11:12
Li este post quando o escreveu e, desde essa altura tenho-me lembrado várias vezes dele.
Ando a tentar ganhar coragem para fazer uma limpeza ao historial de mensagens do meu telemóvel... Infelizmente são tantas que, quando penso na tarefa, adio-a logo e fico logo desmotivado.
A forma mais eficaz de me livrar delas, é quando tenho um telemóvel novinho em folha, a estrear, sem "lixo" gravado.
Mas como isso não está nos meus planos a curto ou até médio prazo, vou mesmo ter de começar, nem que seja aos poucos, a eliminar a tralha que ocupa o meu telemóvel inutilmente.
Quem sabe leio novamente o post da cara L. e me inspiro.
De Carlos Manuel Lopes da Silva a 5 de Novembro de 2010 às 12:03
Ontem e hoje dediquei bastante tempo a apagar mensagens antigas... O meu telemóvel até está mais rápido!
Apaguei mais de 2000 mensagens (sim, 3 zeros, não me enganei...) e actualmente restam-me pouco menos de 1000.
Tal como a cara L., sinto-me mais leve. Muito mais leve!

Obrigado pelo precioso conselho.
De L. a 5 de Novembro de 2010 às 18:57
Caramba... Que trabalheira! Nunca tive assim tantas... :)

Tenho a comunicar-lhe que ontem terminei, finalmente, de ler o livro! Alterei as minhas preferências... Acho eu! Entre o início e o final da leitura passou tanto tempo que posso ter-me esquecido de alguns. Adorei o conto em que o Haruki é a personagem principal - das coincidências da vida; e o da pedra em forma de rim. ;)

E agora tenho de ir à livraria comprar outro... :)

*,
L.
De Carlos Manuel Lopes da Silva a 10 de Novembro de 2010 às 11:11
Uma trabalheira, mesmo :-(
Mas cumpri quase toda a minha missão: hoje tenho "apenas" 618 mensagens... Muitas, bem sei mas só 1/3 da totalidade que tinha há 1 semana atrás.
O telemóvel até está mais rápido

Quanto às leituras, já acabei esse livro de contos do Murakami há várias semanas e, entretanto já li outros 2, daí que já não me lembre de tantos pormenores... Ficaram os que mais me marcaram. Curiosamente, foram:

- O conto "O Espelho" (lembro-me da maior parte dos pormenores deste conto, é curioso...);
- O conto "Toni Takitani" que, como lhe disse atrás, gostei particularmente, pelo "extenso" relato da vida das personagens e pelas reviravoltas que deu. Talvez tenha sido mesmo o meu conto favorito.
- O conto "Caranguejos", pelos piores motivos possíveis, uma vez que me enojou um pouco... Mas gostei da mensagem, é forte e assertiva.
- O conto dos bolinhos (já não me lembro do nome) o alimento dos corvos dessa história. Marcou-me a cena horrenda do amontoado dos corvos a cegarem-se uns aos outros... Argh!

Lembro-me também de alguns pormenores soltos, tais como:

- A história dos surfistas em Hawai e de uma mãe que perdeu o filho, também surfista.

- A história (que a cara L. disse ter gostado particularmente) em que 3 amigos: 2 rapazes e 1 cão vagueavam pela praia, no meio dos destroços de um violento terramoto que tinha acontecido há pouco tempo e 1 rapaz e o seu cão foram resgatados por uma enorme onda... E, a seguir, numa nova enorme onda o rapaz sobrevivente vê o amigo a sorrir para ele, nessa onda.

- Finalmente, claro, lembro-me do conto que foi a transcrição parcial do livro que tanto gostei e recordo "Norwegian Wood".

Resumindo: como em qualquer livro do genial Murakami, há cenas que marcam e que nunca esquecemos. Posso dizer isso em relação aos 9 livros que já li deste autor nestes últimos anos e, apesar de ter intermeado muitas outras leituras de tão diferentes autores e de, alguns deles já nem me lembrar que li, o certo é que Haruki Murakami é inesquecível e marcante. Deliciosamente marcante.

E hoje escrevo estas palavras e, tornei-me amigo cibernauta aqui do blog da cara L. graças a quem?
H.M.......

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