Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

.J'y Suis Jamais Allez

 

.Ontem decidi ir a pé para o trabalho. O sol brilhava, o meu iPod tinha músicas novas, precisava de fazer exercício: ia correr tudo bem. O edifício vê-se da janela de casa, separa-nos apenas o campo de golfe. À falta de alternativas, decidi percorrer a quase-autoestrada que atravessa o Tagus Park. Vejo tanta gente a correr por ali a fora, não podia ser assim tão perigoso. Era seguro. E era de facto, excepção para os senhores automobilistas. De vez em quando ouve-se falar de pessoas aparentemente normais que se passam por alguma coisa que, aos olhos dos outros também aparentemente normais, parece insignificante. E saem as notícias sobre eles, que lemos em choque: “Parte para a violência porque a comida estava fria, porque não lhe lavaram a roupa, porque deixaram dedadas nos móveis limpos há instantes”. E eu, quando oiço um apito ou um comentário de um senhor automobilista penso sempre: “é isto que um dia me vai fazer saltar a mola”. Irrita-me de uma maneira que me transcende. E na minha cabeça sucedem-se os  títulos dos jornais: “Automobilista estrangulado em plena estrada  - Jovem de 26 anos justifica agressão com “mas ele apitou””. Ao longo das notícias lêem-se comentários de quem os conhece bem e nunca suspeitou que tal pudesse vir a acontecer. Comigo isso não vai acontecer. Porque eu aviso constantemente, só que ninguém me leva a sério. Agora terminou o que ainda não tinha começado: as idas a pé, o exercício matinal. Estou a pensar seriamente em vestir-me de verde todos os dias e tentar atravessar o campo de golfe sem ser vista. Pior do que ser apitada, é ser presa por invasão de propriedade privada. Mas por ali é que não volto a ir. Por ali não vou.

 

.Desde que me mudei do T2 com vista para a Lezíria para um T1 com uma vista que vai da Ponte 25 de Abril ao Cabo-não-sei-das-quantos com paragem pelo local de trabalho, a minha relação com os meus pais mudou. E eu compreendo. Não podem andar sempre atrás das decisões e caprichos dos filhos com um sorriso na cara. É preciso o momento do choque, da adaptação, das tréguas. Na entrada dos 26 anos continuava presa aos meus pais como se o cordão umbilical nunca tivesse sido cortado: avisava das chegadas ao trabalho, a casa, das saídas, tinha receio de lhes dizer que não ia lá no fim-de-semana, de os desiludir, de não estar à altura. A minha decisão fê-los provavelmente ver isso: afinal eu não estava à altura. E é normal que isso os tenha desiludido. À minha mãe mais ainda, que resolveu procurar atalhos em vez de dar tempo ao tempo. Houve uma espécie de corte abrupto entre nós. Numa coisa ela está certa: lá em casa, nunca estamos todos chateados ao mesmo tempo, há sempre um que defende o oprimido. E coube ao meu pai esta tarefa, a de fazer todas as coisas que ela costumava fazer. E à mana outra ainda mais difícil: sofrer os danos colaterais.

Sempre fui agarrada, mimada, insegura, com uma necessidade de pais que a mim me parecia normal, a ver a casa do Alentejo como a minha casa, o meu quarto do Alentejo como o sítio mais seguro do mundo. E a minha mãe dizia-me sempre: um dia vais perceber que tens outras pessoas por quem viver – vais continuar a gostar de nós, a querer estar connosco, a saber que aqui estás em casa, mas os fins-de-semana longe daqui não vão custar tanto, vais perceber que a tua casa está noutro lado. E eu olhava e sorria com um pensamento: “as coisas não vão mudar”.

Este corte que agora chegou talvez tenha sido necessário, talvez nos fizesse falta, talvez tenha sido o passo que faltava. Passei estes últimos anos a dizer que era crescida, e afinal estava só a tentar ser uma pessoa diferente. Crescida deve ser isto que sou agora. A L. menos dependente.

Preciso deles, claro. E não vou dizer que não custou. No fim-de-semana passado não fui lá, no próximo também não, resolvi ir lá ontem jantar. A mãe já me voltou a ligar, a chamar filhota nas mensagens, a abraçar-me ao de leve, a ficar orgulhosa com a nota final da pós-graduação. E ontem, do nada, quando me ligou a perguntar o que queria eu jantar não pude deixar de ficar feliz e de sentir que um aperto estranho saía de dentro de mim. O jantar foi estranho: como se quisessem que eu notasse que as coisas estão diferentes, mas depois se esquecessem disso e se entregassem ao momento. Dei por nós os quatro a rir como antes algumas vezes. Um antes que não foi assim há tanto tempo. Um antes que decidi que não queria mais. Por onde não vou.

 

.As coisas, as pessoas, os sentimentos, as vontades mudam. Mesmo que não se encontre lógica nisso. Eu mudo. A minha T. diz que eu não mudei, que regressei à L.. E eu sinto um bocadinho das duas coisas. Queria (poder) dizê-lo aos meus pais, ao meu mundo. Mas segura-me a rede do erro: eu sou a que falhou uma vez e pode não ter, aos olhos deles, do mundo, mais vidas para jogar. À noite (esta), no quarto com vista para o trabalho, na cama com só uma almofada, de olhos no tecto que outra menina de 5 de Julho cobriu de estrelas, agarro-me às minhas certezas. A mãe tinha razão: um dia, tudo mudou. E os fins-de-semana longe deixam de custar. E descubro onde fica a minha casa. E vivo por alguém: por mim acima de tudo. Pode parecer que dou passos apressados, inconscientes, inconsequentes, impensados. E posso vir a vê-los um dia assim - ainda que as minhas certezas de hoje me digam que não. Posso não saber para onde caminho, mas uma coisa sei. Uma que me parece importante. Por onde não vou.

 

Lá fora: "(...) anda um bocadinho saído da casca."
L. às 23:59
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3 comentários:
De Henrique a 16 de Setembro de 2010 às 09:35
Parabéns pela tua pós-graduação e respectiva nota mas principalmente pelo teu crescimento interior. É na adversidade que se descobre a verdadeira essência das pessoas e tu, seguindo um caminho de coerência, mostraste que estás uma verdadeira MULHER. Parabéns.
De Edgar Ferreira a 17 de Setembro de 2010 às 19:23
Olá... Antes de mais peço desculpa pela invasão.
De facto, aquela não deve ser a melhor estrada para se andar a pé. Acho que de automóvel, vais mais segura.
Já agora parabéns pela pós graduação. Em relação á tua mudança, se te sentes melhor, parabéns também pela coragem.
Bjx
De L. a 7 de Janeiro de 2011 às 17:41
Desculpa a demora na resposta... Já me deixei de vir a pé, para grande infelicidade minha. Tenho de falar com o dono do campo de golfe, para me deixar atravessá-lo!

Obrigada pelo resto... :)

*,
L.

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