Terça-feira, 20 de Julho de 2010

.Eu

 

Senti, desde sempre, a angústia de me desligar das pessoas, de não as ver nunca mais, de tudo o que fizemos um dia perder o sentido no depois dos dias que se seguem. E isto acontece-me com as pessoas de quem gosto muito, gosto menos ou que se limitam a passar por mim de alguma maneira. No oitavo ano, antes de mudar de escola, trazia sempre comigo uma agenda pequenina onde obrigava toda a gente a escrever-me qualquer coisa. Qualquer coisa que ficasse, que eu pudesse ler um dia, que me fizesse lembrar que nos tínhamos cruzado um dia e tudo o que fizemos juntos. Ainda a tenho comigo, como todas as outras que ocuparam o fundo da minha mala. Umas provocaram gargalhadas, outras lágrimas, mas todas aquelas dedicatórias me marcaram de alguma maneira. Sei algumas de cor, como a do professor de Educação Física, que parecia um actor de uma novela da altura. “L., na vida podemos ser três coisas: o que dizem que somos, o que pensam que somos, e o que somos realmente. Espero que sejas sempre, e só, o que és realmente”. Na altura achei que tinha percebido o que me tinha dito. Fazia sentido: ser eu, só eu, quem sei que sou, e nunca me deixar influenciar pelos outros – falem o que falarem, pensem o que pensarem. Achei que era fácil. Que ia conseguir. E nem por morar numa aldeia pensei que fosse mais difícil: as pessoas que namorei naquelas bocas, as asneiras que fiz – e namorei, e fiz, quando achei que devia, e não de todas as vezes que os outros o disseram ou pensaram. Mas agora, por estes dias, dou por mim sem saber quem sou realmente. As coisas cá de dentro são como as de fora: nem olhando no espelho todos os dias conseguimos perceber como estão a mudar. Mas mudam. Quer queiramos, quer não. Há coisas que arrastei comigo: o sorriso aberto, a conversa sempre na ponta da língua, a vontade de fazer muitas coisas. Continuo a ser uma comilona, faladora, sentimentalóide, viciada em roupa, sem saber se há-de olhar primeiro para o buraco ou para o donuts. Continuo a usar calções na praia, a comer as sementes que o pão deixa no saco, a adormecer vestida no sofá, a comer maçã antes de passar para a cama, a usar os meus vestidinhos de sempre sem que isso tenha segundas intenções. A usar o aparelho só na véspera de coisas importantes, a amuar sempre que me magoam, a sentir-me insegura sempre que não me dão notícias. Mudei em tantas outras. Eu, que sempre passei ao lado do café, viciei-me em cappuccinos. Deixei as bolachas de chocolate, as tostas de atum e os gelados do congelador. Sinto-me com mais força, mais independente em algumas coisas, aliviada por não esconder a verdade. Não me sinto bem. Sou insatisfeita por natureza, e sempre hei-de ser – como diz a sina que alguém adivinhou para mim. E tenho medo. Porque faço coisas que não pensei fazer nunca, e deixo de lutar por projectos que acreditei serem para sempre. Não sei a distância entre o estado ‘acomodada’ para ‘feliz’. Não sei se os arrependimentos me vão assombrar um dia. Se há realmente destinos que se cruzam ou que nunca se tocam por mais que se tente. Se as histórias já estão escritas. Se devemos ser parecidos ou se a chave está nas diferenças. Se hei-de continuar de porta aberta ou me proteja de tudo o que possa entrar – por portas ou janelas. Oiço-me na voz de outros – vozes que me ocupam a cabeça – és infantil, insegura, influenciável, irresponsável, imatura, louca, egoísta. Outros dizem-me o contrário, mas as palavras boas evaporam-se primeiro. Dizem-me que devo mudar por mim. Que me dou demais. Que devo esperar. Tantas coisas. Não sei. Na verdade não sei nada. Nem quem sou realmente. Talvez, por uns tempos, seja só o que os outros dizem, o que os outros pensam. Talvez me encontre nesta indefinição. Na guerra que vai começar, como me avisaram. E as guerras, disseram-me, também fazem triagens necessárias. Talvez despojada do que um dia tomei como essencial consiga encontrar-me. E perceber que é de mim que não me posso desligar, é o que faço comigo que não pode deixar de ter sentido no depois que os meus dias me trarão. E talvez ai, nesse momento, a angústia e o aperto no peito desapareçam. E fique só eu. Eu e o que sou realmente.

 

Lá fora:

“Clementine - You don't tell me things. I'm an open book. I tell you everything, every damn, embarrassing thing.

Joel - Constantly talking isn't necessarily communicating.”

(…)

“Joel - Are we like couples you see in restaurants? Are we the dining dead?”

[Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004]

 

"Não mandes"

"Acho que estás a apostar na pessoa certa"

"Tudo acontece por uma razão - não acreditas no destino?"

"Parabéns."

 

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mudas de hábitos, mas a tempestade vai atrás de ti, porque a tempestade és tu. Tu decides o teu destino."

[Kafka à Beira-Mar, de Haruki Murakami]

 

L. às 12:11
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3 comentários:
De an. a 20 de Julho de 2010 às 16:48
O que tomávamos por garantido , realmente não o é .
Somos mutantes , tudo á nossa volta influencia a nossa forma de estar e de ser . Mas o que realmente importa é a nossa essência e essa acredito que esteja sempre lá . Por vezes não damos por ela , porque estamos demasiado envolvidos no meio do conflito e das indecisões .
Realmente , nós somos mesmo a tempestade .
De T. a 22 de Julho de 2010 às 03:08
Gostei de te ler
De Henrique a 17 de Agosto de 2010 às 17:12
Com o passar do tempo a tua sinceridade e honestidade intelectual e pessoal serão compensadas, nem que seja por evitares as angustias e depressões comuns aqueles que querem ser (ou pensam) o que não são.

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