Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

.Pessoas

Se eu tivesse conseguido ser jornalista, era sobre isto que gostava de escrever.

 

"O outro lado do Campeonato do Mundo, o dos rostos que estão por trás do pano

Só há uma perspectiva aérea dos jogos por causa da Spidercam de Peters. Só não há caos nos bastidores por causa de Lucas. Só há um palco para a final porque Bring madrugou dias a fio

Luís Octávio Costa, Joanesburgo

 

Um austríaco que olha para os jogos a partir de cima, um brasileiro que, por momentos, foi o estafeta de Dunga, um sul-africano que ajudou a erguer o Soccer City. São apenas três dos rostos que se escondem nos bastidores da competição. Na África do Sul, o Mundial também são eles.

 

Jens Peters, o inventor

 

"O meu pesadelo é a bola bater na Dolly e entrar na baliza". A Dolly é uma das 30 câmaras que apontam para o relvado do Soccer City. É a mais espectacular, aquela que se encontra suspensa por quatro cabos e que se passeia sobre as cabeças dos jogadores como se de uma nave espacial se tratasse. Não é um OVNI, mas parece.

 

O PÚBLICO encontrou o austríaco Jens Peters, natural de Villach, agarrado aos comandos da sua Spidercam, entretido como se estivesse simplesmente a lançar um papagaio de papel. Há dez anos, este amante do cinema de 8mm viu uma curta-metragem académica com uma perspectiva aérea de um campo de basebol e achou que seria capaz de fazer melhor.

 

Desde 2004 que carrega a casa às costas. "Somos como um circo". A Dolly pesa 2,5 quilos e a carapaça (inspirada nos capacetes dos Storm-troopers, os soldados de Darth Vader espalhados pelo quarto dos filhos) pesa dez vezes mais, sendo parte integrante de um equipamento que atinge os 300 quilos. A estrutura demora um dia e meio a montar e Peters tem no Mundial da África do Sul quatro das suas criações (existem oito, mas a FIFA não quis pagar para ter mais aranhas), manipuladas por três técnicos: o piloto para os movimentos, um operador de câmara e Jens Peters. "Se houver problemas, a culpa é minha".

 

Cumpridos os mais exigentes testes de qualidade alemães, a Spidercam teve que passar no apertado crivo da FIFA, que obriga a que a câmara, que evolui a nove metros por segundo, se mantenha fora da atmosfera do jogo, ou seja, nunca a menos de 20 metros da cabeça dos jogadores (com ordens para não haver tiro à Dolly no aquecimento), e que nunca capte lesões.

 

"Ao todo, emitimos cerca de dois ou três minutos por jogo", conta Jens Peters, que estreou o seu projecto na inauguração do Arena de Munique (passou por Portugal, onde filmou uma final da Taça de Portugal), antes de se lançar em concertos (Kylie Minogue, Robbie Williams, The Police...), hipismo, natação e, a sua especialidade "com liberdade total no espaço", combates de boxe. O seu actor principal é Klitschko, campeão de pesos pesados. Jens Peters sente-se um Scorsese.

 

Lucas da Costa, o voluntário

 

Meteu-se num avião em São Paulo, no Brasil, e saiu em Joanesburgo, na África do Sul. Ficou por ali, junto ao aeroporto, num quarto arrendado. Lucas da Costa, de 23 anos, vai todos os dias para o Mundial "de carona". Tem um pólo verde alface e um kispo verde e amarelo (a farda reinventa o equipamento dos Bafana Bafana) e faz parte da maior equipa do Campeonato do Mundo. "Também são as cores do Brasil", sugere um dos 18 mil voluntários (concorreram cerca de 68 mil) provenientes de 170 países.

 

Ninguém sabe muito bem o que é que eles não fazem. No limite, são os melhores amigos dos jornalistas. São poliglotas e simpáticos. Têm os bilhetes para os jogos organizados por país em pequenas caixas de cartão. Sabem onde está a entrada 545, fila N, lugar 11. Caminham pelas sombras nas conferências de imprensa com o microfone na mão. São os figurantes nos ensaios da entrada das equipas em campo. Descem até às catacumbas da zona mista, onde tentam controlar o caos (desde que Messi quase foi atingido por uma divisória que não resistiu à força bruta da imprensa).

 

"Vale ouro. Além de ver os jogadores de perto, participei na produção do Mundial", sublinha este paulista, em plena pós-graduação em Jornalismo pela FMU. Lucas estava à procura de emprego na Internet e encontrou o anúncio da FIFA. "Estar na Copa... Gostei da ideia". Preencheu o formulário em Julho de 2009 e em Janeiro de 2010 tinha sido aceite depois de uma entrevista. Em Joanesburgo, muda de funções todos os dias. O PÚBLICO recebeu das suas mãos o print com a constituição das equipas para o Brasil-Coreia do Norte. Nesse dia, no Ellis Park, Lucas da Costa era runner, "o primeiro a saber o alinhamento depois do treinador". "Primeiro é o Dunga, depois eu", rejubila.

 

A FIFA não se responsabiliza nem pela viagem nem pela estadia. Paga a cada voluntário 100 rands (cerca de 10 euros) por dia. Lucas, equipamento verde-alface, come pizza e sandes como os outros. E pede boleia numa das cidades mais perigosas do mundo. São Paulo ou Joanesburgo? "Os dois estão brigando".

 

Bring Ndlovo, o construtor

 

A casa de Bring fica na escura 17 Shaft, encostada às antigas minas de ouro do Sowetto. A sua rotina mudou em 2007. Acordava às 5h, meia hora depois apanhava o comboio, às 6h30 chegava ao local de trabalho para às 7h meter mãos à obra. Hoje, a obra está à vista de todo o mundo, chama-se Soccer City, palco da final do Campeonato do Mundo. "Um sítio que recebe diferentes nações, por isso foi especial, muito, muito especial. Tirei fotografias para dizer aos meus netos que fiz parte da história", disse ao PÚBLICO Bring Ndlovo, carpinteiro. "Portas, caixilharias, escadas..."

 

Pelo seu esforço, Bring Ndlovo recebeu 500 rands (cerca de 52 euros) por mês, "mais um bónus semanal se não falhasse nenhum dia". Recebia religiosamente um quarto do salário às 12h de cada sexta-feira. 125 rands. Trabalhava de segunda a sábado. Ao domingo, pensava no dia em que ia receber das mãos da FIFA os dois bilhetes para assistir a jogos do Mundial - estava no contrato dos 54 mil trabalhadores que ajudaram a erguer os estádios na África do Sul.

 

Teve a sorte de ver o África do Sul-México (levou a mulher) e o Gana-Alemanha (foi com a filha). "Ambiente fantástico, não sei explicar", recorda. "Prometi aos meus filhos [seis] levá-los depois". Talvez a um jogo do Kaiser Chiefs, o clube do coração.

 

Bring tem 48 anos e nasceu em Limpompo. Já trabalhava na companhia Grinaker há 10 anos, mas esta foi uma missão especial. "Foi diferente dos outros trabalhos porque tínhamos um prazo apertado, trabalhámos arduamente. A adaptação foi difícil", aponta, recordando os "níveis de segurança muito altos" num estaleiro que contava com uma clínica. "Não queriam que ninguém se magoasse". Bring, o carpinteiro, fez parte da equipa que trabalhou na zona oeste do estádio: "Fizemos tudo, do chão ao tecto"."

* Jornal Público, 10 de Julho 2010

 

Lá fora:

"Metes o teu num altar, e achas que o meu deve andar pelo chão aos pontapés"

"Sim, é verdade"

L. às 13:47
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2 comentários:
De anónimo a 16 de Julho de 2010 às 15:07
Nunca é tarde ... :)
De L. a 16 de Julho de 2010 às 17:03
Isso é o que dizem.. Às vezes, já é muito tarde. :)

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