Terça-feira, 15 de Junho de 2010

.Apanhada

Eu sou uma daquelas pessoas que nunca encontra ninguém conhecido em lado nenhum. Conhecido meu. Centros comerciais, festas, passeios na rua e nada. Raramente me aparece um amigo, um conhecido, um parente. Quando ando com a A. (amiga) ou com o An. passo o tempo a dizer que eles são o Zé dos plásticos em pessoa: não podemos dar um passo sem que esbarrem com alguém que conhecem dos sítios mais improváveis. Mas por estes dias fui apanhada. Não por alguém que eu conhecesse, mas que me conhecia a mim.

Tinha trazido o carro naquele dia. Quando saí, lembrei-me que os collants azuis que precisava para o outro dia já tinham um buraquito no dedo grande. Parei no Oeiras Parque para levar uns novos e já estava de saída quando um senhor agente da autoridade me disse “peço desculpa”. Parei, olhei para ele e as minhas pernas tremeram um bocadinho, pela minha cabeça só passavam ideias tontas: “o que é que eu fiz agora? Queres ver que saí da loja e não paguei as meias?”. “Desculpe interrompê-la, mas esteve nas Jornadas de Segurança, não esteve?”. Sim, tudo verdade. “Recordo-me de a ver lá com o Dr. P., a levar-lhe umas coisas. No outro dia vi-a passar aqui, e como a sede agora é aqui perto, pensei logo que não estava enganado”. Pois, não, sou eu. “Pronto, era só isso. Obrigada e desculpe lá”. Olhei para ele e tentei reconhecer um traço, um sinal, mas não. Ri-me na minha cabeça: fardados são todos iguais. E saí dali, depois de lhe deixar um meio sorriso, a achar um bocadinho estranha toda aquela cena: dois polícias a falar comigo e eu de saco de loja de lingerie na mão. Nunca encontro ninguém e quando encontro estou assim.

Ontem fui à reunião de crescidos de segunda-feira. Quando é a minha vez de falar tremo um bocadinho, mas depois passa. Gosto do sítio. Quando saio posso ir comer um gelado sentada só com o Tejo pela frente, ou posso fazer compras onde mais gosto, na Baixa. Ontem decidi-me pela segunda opção. Estava a ver a montra da Zara (tirei os óculos de sol para ver melhor) e na minha cabeça ia alternado a música que o meu iPod me dava com os comentários à roupa. Foi quando percebi que estavam a falar para mim. “Desculpa, tu não estudaste na FCSH?”. Sim, conhecemo-nos? Tu não, eu sim. Enquanto ele falava, fui olhando para ele, bom ar, giro (ai L., tu e os narizes esquisitos, diria a minha mana), t-shirt verde com a frase No rules e ténis all stars a condizer (reparei quando baixei a cabeça para parar a música). Não me lembrava de todo de alguma vez ter visto aquela cara. Mas ele conhecia-me, mesmo. Lembrava-se de me ver entrar na faculdade “sempre a olhar em frente, nunca para o chão”, das minhas meias aos buracos incluindo “umas vermelhas diferentes muitos giras”, das minhas saias “como a preta de ganga à chinesa”, da actuação da tuna nas escadas da entrada, das flores no cabelo, do meu grupo de amigos e “de uns miúdos que andavam sempre sozinhos e tinham ar de cromos com quem te davas”. A minha cara devia estar, por esta altura, já muito estranha. Como era possível aquilo. Mas não éramos da mesma turma, pois não? “Não, antropologia”, disse ele, e acrescentou “continuas com o rapaz louro da associação?”. E foi aqui que dei uma gargalhada. Perseguição? “Não, achava-te piada, ao teu ar, que continua igual”. E comecei a despedir-me, que tinha aula, que ainda tinha de comer qualquer coisa. “Posso ao menos ficar com o teu nome e o teu contacto?”, e eu não deixei. Agradeci e disse que podia continuar a ser só a rapariga da FCSH, das meias de rede de todas as cores, das saias de todos os tamanhos, das flores de todas as espécies e dos trabalhos de grupo com os meninos a quem chamavam “cromos”. Ainda lhe disse, sei lá porquê, que ainda uso aquela saia, mas só com meias muito escuras porque já é muito curta. Dei-lhe um aperto de mão de crescida e continuei em direcção ao metro, sem mais montras, enquanto ligava o meu iPod a condizer com os ténis e a t-shirt dele. Afinal não sou invisível, pensei eu. E já que não encontro gente conhecida, pelo menos vou encontrando alguém que me conheça. Por mais estranho e surreal que às vezes seja ser apanhada.

 

Lá fora: 

“And I wonder if I ever cross your mind / For me it happens all the time / (…) / Said I wouldn’t call / But I’ve lost all control / (…)” [Tiago: é verdade, a pimbalhice voltou a este blog]

"Afinal és autoritária." 

L. às 17:17
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1 comentário:
De Sophie a 16 de Junho de 2010 às 14:22
Tambem nao costumo encontrar muita gente conhecida na rua, às vezes ainda bem q assim o e'! Adoro a forma como escreves^^

Aproveito para dizer que actualizei o meu blog, finalmente. Depois quando puderes espero q passes por la' :)

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