Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

. “Tonteiras” da minha cabeça

.Desde que mudámos para o TagusPark as coisas mudaram. Tirando os dias em que temos um carro à mão, ficamos fechados nas torres dias inteiros, sem outro passatempo para as horas vagas que não seja dar voltas ao edifício ou ver a evolução dos peixinhos (para mim tubarões, alguns malhados como vacas) no ‘nosso’ lago. Enfrentar a estrada-quase-autoestrada para chegar à civilização, sem passadeira ou qualquer passagem aérea, é tarefa a que só se entregam os mais ousados. Os outros, que não ousam, dão voltas ao edifício de olhos presos no chão. Cá dentro o ar é estranho. A Ma. diz que é a causa de todas as alergias e maleitas que nos apoquentam nos últimos tempos. Nos corredores as hostes dividem-se em dois grupos, os que gostam de aqui estar só porque moram mais perto e os outros, os que não gostam, onde me encaixo.

Esta semana recebemos a visita de uma delegação de Macau. Uma inspectora entendida em cantonês ouviu-os falar dos nossos caniços – os bambus do nosso jardim de inverno que há muito deixaram este mundo e que continuam a enfeitar o nosso rés-do-chão. Parece que o facto de os termos deixado morrer não abona a nosso favor. Significa maus agouros, coisas negativas. E percebo, uma vez mais, que não devemos culpar o mundo pelos nossos erros, pecados e problemas. Não foi o TagusPark que mudou o ar, as nossas vidas, nos mudou. Fomos nós, só nós. Nós que não soubemos cuidar dos nossos caniços.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.Esta é a porta de emergência do nosso segundo andar. Costumo dizer, meio a brincar, que a minha vida é muito semelhante a ela. Quando vamos pelo corredor sabe bem encontrá-la. Dá luz, vê-se o verde das árvores, do relvado do campo de golfe. Só quando chegamos mais perto percebemos que é tudo ilusão. Se a abrirmos, dá para o ar, para o vazio, sem nada que nos segure.

 

.A minha madrinha sempre teve umas filosofias à frente do tempo dela. Na terrinha, viam-na com os ares de Paris a retribuir-me os meus estalos e puxões de cabelos em dose reforçada e mandavam-lhe olhares reprovadores. Não percebiam que aquelas eram as primeiras e últimas vezes que eu fazia as coisas – percebia que custava. Com ela aprendi uma série de lições – e continuo a aprender. Lembro-me de nós, de mão dada, numa rua a fazer compras. Pelos detalhes da minha memória, tenho quase a certeza que era na baixa de Setúbal. À nossa frente, um senhor de calças pretas, gesso velho na perna, boina preta e uma blusa branca quase tão escura quanto as calças, pedia dinheiro para dentro de uma caneca. E eu puxei-lhe o braço e pedi uma moeda para o senhor. A resposta dela, sempre olhos nos olhos, foi “se desses uma moeda a toda a gente que pede, não terias para ti”. E continuámos as compras. Interiorizei aquilo até hoje, e, por mais que tenha de fechar os olhos e chorar depois de passar por alguma situação mais infeliz, raramente deixo moeda. Às vezes, como a minha mãe me ensinou um dia, levo-os a comer a qualquer lado ou volto atrás para lhes deixar comida. Mas moedas são raras as excepções. Ontem percebi quais são elas. Percebi, finalmente, o que me comove e chega ao coração e à carteira. É com música. Basta entrarem no metro de concertina na mão, fazerem com o que o meu pé comece a mexer sozinho, provocarem-me um sorriso sincero, e lá vou eu, quase sem perceber, com a mão à carteira. Nos meus tempos de avenida de Roma, um senhor que a vida obrigou a dizer ‘obrigada’ numa língua diferente da sua, percorria a linha verde com uma concertina, uma coluna e um sorriso tão honesto que me desarmava. Cheguei a entrar no metro só para o ver, para o ouvir, tamanha era a dose de felicidade que me dava. Quando deixava a moeda no mealheiro improvisado numa velha garrafa de água, que ao tocar no fundo fazia sempre aparecer um ‘obr’gado’, não conseguia deixar de pensar “madrinha desculpa lá, mas este merecia mesmo”. Ontem outra vez.

 

.Falta menos de um mês para o meu aniversário. Eu sou sempre a rapariga das grandes festas, das grandes listas, dos grandes planos. Talvez por isso, e porque me conhecem, no fim-de-semana foram várias as pessoas que me perguntaram, “então, e planos para o 5 de Julho?”. E eu tive dificuldade em explicar-lhes que este ano não quero nada. Nem existe uma prenda que eu queira receber. São 26 anos, a uma segunda-feira. A última vez que os fiz neste dia da semana estava em Beja, com o C., a mana e o meu Az., que nunca me falta nestes dias, e a única coisa que encontrámos aberta foi um açude. Desta vez não tenho nada. Nem lista de sítios, das pessoas que quero comigo ou das comidas para dividir entre mim e a mãe. Sei que vou estar de férias nesse dia e no seguinte, porque sempre tive a mania de aproveitar o meu dia das 00:00 às 23:59, e que vou faltar à primeira aula do trabalho final da pós-graduação. Estes são os meus planos. Tenho um meio secreto, que passa por estar no Alentejo, preparar uma cesta de pic-nic com a mãe e aparecer na cortiça para almoçar com o pai e os colegas de trabalho dele.

Desde pequenina que costumo estrear uma roupa nova nos anos. Nos tempos em que não comprávamos tantas coisas esta era uma das coisas que eu mais gostava em fazer anos. Ter uma roupa nova. Por norma era sempre comprada de véspera, porque as coisas não ficam muito tempo novas no meu armário: comprava e vestia logo (nem que fosse para dançar ao espelho) ou dormia com elas bem agarradas a mim. Este ano também mudei isso: o vestido (à L. normal e não crescida) e os sapatos que namorava há uma eternidade já estão ali, no armário, à espera que o 5 de Julho chegue. E o 5 de Julho este ano vai ser diferente. Não quero nuvens, não quero sombras. É o meu limite, a minha marca, o tempo que dei a mim mesma. E, pela primeira vez, não quero que chegue rápido. Este ano, não quero fazer anos.

 

.Penso nisto tudo, em tantas outras coisas que entram na minha cabeça sem que me peçam licença ou tenham ordem definida, e a única coisa que oiço é a minha mãe, dentro de mim, com a frase que me diz sempre que me sai um grande disparate ou um plano megalómano, “Ai filhota, filhota, essas tonteiras da tua cabeça”.

 

Lá fora: “E até parece que estou a mentir, / As palavras custam a sair, / Não digo o que estou a sentir”

 

L. às 11:56
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6 comentários:
De Tiago a 10 de Junho de 2010 às 19:55
Já ouves música decente, tipo Clã?
Finalmente! :D
De L. a 10 de Junho de 2010 às 22:18
Ainda no outro dia comentava com alguém que foi contigo que aprendi a gostar de Clã... Para tua informação, amanhã vou passar o dia a Aveiro! :) ***
De Tiago a 11 de Junho de 2010 às 06:30
Escolhes os dias a dedo, agora que estou pelo Sul é que decides ir a Aveiro :)
De L. a 13 de Junho de 2010 às 11:45
Eu sei... Foi por isso que escolhi esse dia! :) [E não tens razão, a Curia é linda, mesmo vista àquela velocidade!]
De M. a 12 de Junho de 2010 às 19:22
Piolha, estás perdoada!
Vou revelar-te um segredo, hoje em dia, talvez por já não viver em Paris..., também me deixo levar por algumas situações!
Nós mudamos, a vida modifica-nos...
Mas já agora fico triste por ter sido assim tão má!
Beijocas
De L. a 13 de Junho de 2010 às 11:06
Não tem motivos nenhuns para ficar triste... O que eu aprendo consigo (contigo...)!

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