Terça-feira, 8 de Junho de 2010

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Tenho boa memória. Às vezes deixo a mãe de boca aberta com a quantidade de detalhes que fixei na memória de dias que de tão velhos quase esquecemos que existiram. Talvez os recorde assim porque são muitos – os meus dias sempre tiveram muitos detalhes.

A nossa casa tem muitas casas. Quem chega ali, vê um L. que começa na dispensa da avó, à esquerda, e termina no primeiro andar da nossa casa. Vêem seis janelas, cinco portas, uma rede que em tempos disse Casa Silva. Eu vejo a casa da avó, depois a loja, depois a padaria, a arrecadação da loja e a nossa casa. Todas juntas, num L. como eu. Em tempos o nosso L. albergou mais alguém. O Cerca e a sua barbearia. A porta sempre aberta, lá na outra ponta, era um dos meus poisos mais certos. Quando os pais não sabiam de mim, das duas uma (ou três, como diz o meu Az.), ou estava nas vizinhas, ou na barbearia. A meter conversa com os clientes, a falar da vida com o Cerca, a experimentar todos os seus instrumentos onde conseguia deitar a mão ou à roda – quando estávamos só eu e ele, sentava-me na cadeira, gigante para mim, e rodava até mais não. Era uma barbearia muito simples, muito pequenina. As paredes que não deixavam perceber se eram verdes ou azuis, a cadeira de costas para a entrada, o espelho ao fundo, com o balcão para a navalha, as espumas, os pentes; os bancos encostados às paredes, os calendários nem sempre recomendáveis e que me suscitavam muitas perguntas. Ali sabia as novidades, aprendia os truques para as patilhas ficarem direitas e como segurar a navalha para não cortar ninguém. Ali aprendi as minhas primeiras asneiras e soube que o meu avô não era o pai da minha mãe.

Um dia, a nossa casa ficou pequena para todas as nossas tralhas e foi preciso acrescentá-la. E nasceu a nossa dispensa, agora da avó, onde a mãe podia passar a ferro e guardar tudo no armário de parede a parede. Nasceu onde antes era a barbearia. O Cerca saiu e levou com ele todas aquelas tralhas, todos os pentes que eu prendia nos meus caracóis, os cremes que tentava por meus nos braços que achava peludos de mais, os clientes com as suas notícias, o banco com o jornal onde eu tentava ler, e ele, a minha companhia de tantos dias. Mudou-se para outra casa e prometemos muitas visitas, que não cumprimos muito.

O Cerca chamava-me L.-ita, como os meus avós. E eu deixava, porque gostava dele. Assim que via o meu pai ou a minha mãe parava a carrinha e perguntava por mim. Às vezes mais do que uma vez por dia. E quando me apanhava, parava em qualquer lado, agarrava-me pelos ombros, e soltava a ladainha: “Ai, L.-ita, L.-ita, lembras-te de não sei do quê? O que a gente fez naquele dia? E quando tu dizias aquilo? Lembras-te? E quando o teu avô te apanhou a ler tão pequenina? Ai, L.-ita, L-ita, sempre o mesmo sorriso malandro e o mesmo brilho nos olhos”. 

No fim-de-semana a mãe ligou-me fora de horas. E eu tremo, porque sei que raramente é bom sinal. O Cerca tinha falecido. “Sentiu-se mal, foi às urgências, mandaram-no para casa e morreu”, e continuou, “estes médicos agora querem lá saber, querem é que a gente morra, nem prestam atenção aos detalhes”.

Apareci no Alentejo de surpresa. Para uma ida à piscina da minha M., um mergulho em Tróia, uns miminhos dos papás que já me faltavam. No sábado à tarde, o pai chegou moreno e carregado do terceiro dia da cortiça. Sentou-se no sofá de verga, por baixo da janela da cozinha e prendeu a cabeça entre as mãos, de cotovelos nos joelhos. “Onde é que eu agora vou cortar o cabelo? Ainda no fim-de-semana passado lá estive! Levava-me só 6€ e eu até deixava mais”, dizia. E eu não pude deixar de sorrir. Tendemos a ver os nossos pais a roçar a perfeição e ali estava eu a ver que o meu pai também é homem. Também tem aquela dificuldade em conjugar as palavras com os sentimentos, em dizer o que lhe vai na alma sem medos. Tenho a certeza que queria dizer que gostava muito do Cerca, que vai sentir saudades, que é mais um amigo que perdeu, que é mais um momento do mês que vai ter de cortar da agenda. Mas achei que não devia contrariá-lo. Abracei-o com força, dei-lhe um beijinho por cima do boné quente do sol e disse-lhe ao ouvido: “Aqui nesta casa, todas preferimos vê-lo com o cabelo grande e os caracóis no ar”. E fiquei a olhar para os detalhes, para o xadrez das almofadas, os buracos ainda com luz da persiana, o correio amontoado na mesa ao lado da cesta da fruta, as patilhas do pai tão direitinhas. “É tão fácil L.-ita, não tenho truque nenhum! Mas é pelos detalhes que eles cá voltam”, ouvia dizer o Cerca na minha cabeça, enquanto o tentava tirar da lista das pessoas que espero sempre encontrar ao fim-de-semana e passá-lo para o canto do coração onde vou alojando aqueles que já só posso ver nas minhas recordações, nas minhas saudades, nos detalhes dos meus dias passados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lá fora: "És só alguém sem o depois, mentaliza-te disso"

L. às 12:02
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