Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

.Super poderes

Hoje adormeci. E por isso tive de apanhar um comboio diferente do meu. Fico contente quando isto acontece, porque assim posso ver pessoas novas, o meu passatempo preferido – podia fazê-lo dias inteiros. Hoje fiz uma amiga nova, a Mimi, que tem 9 anos. “Podes escrever Mimi”, disse-me ela, “não é o meu nome de verdade, ninguém vai perceber que sou eu”. Conhecemo-nos no Regional. Ela entrou logo em Tomar e vinha a ler o livro “O Falso Super-Herói”, ao lado da mãe, que dormia de boca aberta e óculos de sol tortos. Eu só entrei mais à frente. Não sei qual de nós meteu conversa primeiro. Explicou-me que o livro era “da Vila Moleza, já ouviste falar? Toda a gente que tem miúdos na família conhece isto”. Que poder gostavas de ter tu?, perguntei eu. “Queria ser invisível, mas que as pessoas pensassem que eu estava no lugar que eu queria – imagina que a minha mãe me manda fazer os trabalhos e eu quero ir brincar. Percebes o que te digo?”, explicou-me logo seguido de um: “Não te rias”, quase chateada. Eu? Respondi-lhe, gostava de olhar para as pessoas e conseguir perceber o que elas sentem. “Não percebi muito bem”. Então, imagina: não fazes as coisas de maneira diferente se percebes que a tua mãe está contente contigo ou se está chateada? Não escolhes coisas diferentes? E na escola, não é bom saberes quando alguém gosta ou não de ti para fazeres coisas sem magoar ninguém? Era bom perceber isso, para fazer as coisas sem dores de cabeça. “Tens mesmo razão, afinal acho que também queria esse”. Sabes Mimi, continuei eu, eu tenho um blog, uma espécie de diário no computador ( - Eu sei o que é isso, temos um na escola!), e ultimamente as pessoas preferem perceber o que se passa na minha cabeça pelo que escrevo lá, em vez de falarem comigo – dizem-me que precisam de o ler para me perceber a mim. “Não é justo, assim também devias ter um blog deles todos”. Vocês agora percebem tudo. Tens toda a razão Mimi, era isso que queria explicar-te - é injusto, mas ela interrompeu-me, “se eu sei o teu nome de verdade, também me podes chamar pelo meu, o Mimi é só para o teu diário”. E depois não falámos mais de coisas sérias.

Eu deixei-a experimentar os meus óculos de sol (- são ao contrário!), ela deixou-me ver um bocadinho do livro e arranjámos alguém para alargar a nossa conversa para um triângulo: um estudante de medicina. E a Mimi foi muito rápida de raciocínio, olhou para as imagens dos apontamentos dele, onde um coração a preto e branco ora estava aberto ora fechado, e disse: “acho que vou acordar a minha mãe, sabes que tenho uma coisa no coração e só estou no comboio para ir ao médico, parece-me que percebes disto (ele explicou-nos como funcionavam as veias e as coisas da imagem), podias ver já o que se passa”. A senhora-do-comboio avisou-nos que já estávamos a chegar ao Oriente e eu preparei-me para sair. “Olha, tenho outra consulta no dia 3, podes vir no comboio também?”, e eu não pude deixar de me rir e de lhe dar um abracinho. Saí a pensar como são estranhas estas coisas. Conhecemos pessoas, conhecemos outros mundos, outras coisas, entramos neles e depois percebemos que talvez não voltemos lá nunca, talvez nunca mais lhes toquemos, nunca mais tenhamos permissão para lá entrar, para fazer parte. Já não lhe consegui dizer isto: queria ter o poder de voltar a algumas coisas sempre que me apetecesse. Não tive muito tempo para ficar a ver a Mimi dizer-me adeus à janela enquanto a mãe a puxava para baixo, talvez a ralhar por ter os sapatos no banco. Corri escadas abaixo, porque a senhora-do-comboio já avisava que a composição procedente de Alverca com destino a Mira Sintra - Meleças estava a entrar na linha número não sei o quê e já chegava de perder tantos comboios num dia ainda tão pequenino.

 

Encontrei o Sr. J. ao almoço, no refeitório. Depois de dois beijinhos, lá lhe disse que a nota saiu. Tive 19 Sr. J., e ele abraçou-me com tanta força que os meus pés saíram do chão. “Ai m’nha m’nina, eu não lhe disse nada, mas já sabia que daí tinha de vir uma coisa assim”. E depois fui eu que o abracei, porque também estou contente. É só um teste de protocolo, que me roubou uns dias de férias e me deu umas três horas ininterruptas de escrita, mas sabe bem que o mundo nos lembre de vez em quando que ainda não estamos burros de todo e que ainda moramos por aqui.

 

Lá fora:

"I'm just a little girl lost in the moment
I'm so scared but I don't show it
I can't figure it out
It's bringing me down I know"

L. às 12:59
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2 comentários:
De .Entre o Aqui e o Ali a 27 de Maio de 2010 às 15:35
Outra coisa não seria de esperar.. :) Quero ver quando arranjas um bocadito para irmos beber um chá...

Bj.

V.
De L. a 8 de Junho de 2010 às 15:56
Vamos agora...? :)

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