Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

.Eu passei por aqui e ninguém contou a minha história (V)

O Sr. J. foi uma das primeiras pessoas que conheci quando cheguei a este trabalho, há quase três anos. Às vezes começamos a gostar das pessoas sem razão aparente, sem motivos palpáveis, sem nada que o justifique. Mas com o Sr. J. não foi assim. Eu soube, no primeiro instante em que o vi, o que me fez gostar dele para além do sorriso: é muito parecido ao avô X.. O mesmo tamanho, magro, já só com cabelo nos lados onde os óculos assentam, a mesma maneira desajeitada de colocar as mãos quando fala. O Sr. J. é muito tímido e raramente olha para nós quando fala. Trata-me por "m’nha m’nina" e nunca sei como me cumprimenta: tanto pode trazer um aperto de mão forte, como dois beijinhos rápidos ou um abraço apertado. Depende dos dias. E eu tenho sempre a mesma reacção, sempre que ele abre a porta da sala para um “bom dia m’nha m’nina’, como é que está hoje?” fico numa posição também desajeitada, que permita qualquer uma das três coisas. Na antiga sede este ritual era diário, agora há dias em que o substituímos por um “bom dia Sr. J.” da minha parte e um aceno de cabeça, quase vénia, da parte dele quando esperamos o autocarro ou quando entro com ele já sentado. O Sr. J. é o faz-tudo daqui. Apesar da idade (que não sei qual é), carrega com secretárias, cadeiras, móveis sem ajuda de ninguém e fá-los passar por sítios que julgaríamos impossíveis à partida. Não sei muitas coisas sobre ele. Sei que mora a dois minutos a pé da estação de Santa Apolónia, que quando faz frio veste sempre o mesmo casaco de fato-de-treino, que anda sempre por aí a fazer qualquer coisa, que bebe sempre uma garrafa de vinho pequenina ao almoço. Sei que tem um terreno com horta ali perto de Torres e dois sobrinhos de quem gosta muito – um é militar em Beja e não quer voltar porque arranjou lá uma “pesseguita”. Na sexta-feira à tarde saímos juntos do autocarro e ele já me ia desejar um “bom fim-de-semana m’nha m’nina” quando eu o apanhei antes, “hoje vou consigo de metro, não tenho de correr para o comboio mas para o apanhar a si, que anda muito depressa”. E ele esperou por mim e corremos os dois nas escadas, enquanto o senhor do metro esperava por nós para poder dar sinal às portas que estava na hora de sair de Sete Rios. Estavam muitos lugares livres, mas ele preferiu ficar de pé. E eu fiquei com ele. Contei-lhe que ia até à Baixa trocar os óculos de sol porque vieram com defeito e que ainda ia comprar os bilhetes para o concerto, para onde ia arrastar a minha mãe. E ele falou-me da horta, das batatas que já devem estar estragadas depois de duas semanas sem ir lá – a cunhada vai lá regar qualquer coisita, mas não é suficiente, do que as pesseguitas fazem aos rapazes, de que acha que sou "muito boa m’nina" pra ele onde quer que o veja, "como há poucas”. Chegámos à Baixa quase sem dar por isso. Deu-me dois beijinhos e um abraço tão apertado que me fez sair uma gargalhada alta de mais, e lá soltou o “bom fim-de-semana m’nha m’nina, não se esqueça de me dizer quando sair a nota lá da escola, ai estes professores já não são como antigamente!”. Saí da carruagem e estava a tentar olhar para o relógio da estação quando senti apertarem-me as mãos. Era um senhor que me fez lembrar o Pai Natal – uma farta cabeleira branca, barba aparada e olhos mais azuis que alguma vez tinha visto. “Estou feliz. Vim a ouvir a vossa conversa. Pensei que já ninguém tinha paciência para velhos.”, disse-me. E eu queria responder-lhe. Dizer que aquilo era uma coisa normal, que era o Sr. J., um amigo meu. Que gosto de conversar. Que gosto de saber coisas. Mas já não fui a tempo, porque ele já estava a chegar às escadas. Olhei para o lado e o metro já lá ia, com o Sr. J. junto ao vidro a dizer-me adeus, e o relógio a passar também para o minuto seguinte a lembrar-me que já não tinha muito tempo para fazer tudo e correr para o comboio, com destino ao fim-de-semana. Na segunda-feira tive de ir ao Algarve a uma reunião e almocei mais cedo. No refeitório ainda não estavam as colegas de outros dias e partilhei a mesa com uns senhores de quem gosto muito – o Sr. V. dos jornais, o Sr. G. da manutenção e o Sr. J..  Assim que me sentei retomámos a conversa do metro, “Então m’nina, a sua mãe aguentou-se? O meu sobrinho também foi lá a essa coisa do Rio. O mais novo, que ainda não tem pesseguita, mas levou o carro cheio. Às tantas tem e a gente não sabe. E olhe, consegui aproveitar umas batatitas. Quer que lhe traga algumas?”. Saí de lá a correr quando vi que só tinha cinco minutos para apanhar as minhas coisas e ir ter com o motorista. “Vá lá m’nina, não se atrase por nossa causa”, gritou-me enquanto eu já corria por entre as mesas. Hoje, assim que cheguei, do varandim do segundo andar ouvi-o chamar-me do primeiro: “m’nina, m’nina, a viagem correu bem?”. E, enquanto eu respondia, já não olhava para mim, brincava com as mãos sem saber onde as pôr, até que decidiu pôr uma no bolso e deixar a outra no corrimão, ao mesmo tempo que ia andando para fazer qualquer coisa, com o casaco de sempre, o do fato-de-treino.

 

 

 

Lá fora: "Cada um é como um murro no estômago"
L. às 11:41
link | comentar | favorito
5 comentários:
De T. a 26 de Maio de 2010 às 12:54
Esse jeito tão teu de comunicar é algo espantoso. Sabe-me bem ler as tuas palavrinhas. Parece que o meu dia se torna tão mais rico... Obrigada! Espero ainda pelo nosso café :)

Um beijinho muito grande L.
De L. a 8 de Junho de 2010 às 15:58
O nosso café está só à espera que marquemos data... :) *
De Margot a 26 de Maio de 2010 às 14:36
Que lindo! E um viva aos nossos velhotes, aqueles de que gostamos! :-)
De Afonso Loureiro a 28 de Maio de 2010 às 09:02
L.,

Um dos grandes pecados da civilização actual é desprezar os velhos. A experiência acumulada ao longo de uma vida é algo de precioso.

Também aqui, em Angola, as histórias que mais gosto de ouvir são as dos mais-velhos, que também se começam a sentir preteridos à televisão.

Ouvir um bocadinho do que têm para contar enriquece-nos, mas também os faz sentir mais amados.

Nas últimas semanas, em jeito de despedida de África, tenho conversado com muitos angolanos de cabelos brancos (velhíssimos, portanto). O difícil tem sido a despedida, porque há sempre mais alguma coisa a contar.

Porque sei que gostas dessas conversas, deixo-te aqui as ligações às histórias:

O Soba do Mercado (http://afonsoloureiro.net/blog/?p=4427)
Macanga do marufo (http://afonsoloureiro.net/blog/?p=4499)
De L. a 8 de Junho de 2010 às 15:51
Obrigada pela partilha. Gostei muito. *

Comentar

.Eu

.pesquisar

 

.Dezembro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Agora

. .Feliz Natal e um 2019 ch...

. .Das mães

. .Hoje

. .2

. .Hoje morreu um homem bom

. .Ela

. .22

. .Dos fins de semana bons ...

. .Adeus, Inderal! [com ima...

. .O batizado da Aurora

. .A caminho dos 19

. .A queda

. .I'm sixteen going on sev...

. .O nosso ovo

. .Da culpa

.Ontem

.tags

. todas as tags

.Mundo

blogs SAPO

.subscrever feeds