Terça-feira, 11 de Maio de 2010

.12

Este foi o número exacto de vezes que chorei desde sexta-feira. 12. Ando uma choramingas do pior que existe. Não me controlo, acontece qualquer coisa e lá vem um rio de lágrimas. Fiz-me à estrada para o Alentejo no sábado, esqueci a via verde e segui pela auto-estrada até VN, debaixo de uma chuva que não me deixava acelerar. Fui recebida por um meio sorriso da mãe. E esta foi a primeira vez.

A segunda foi quando entrei na casa de banho e não vi o espelho, antes embutido nos azulejos. No lugar dele estava um mais pequeno, redondo, de substituição, e por trás via-se só cimento. Olhei para o fundo e o nosso polibã também tinha sido substituído – no lugar dele estava agora um novo, grande, com hidromassagem, luzes e rádio. E foi quando o pai entrou por ali adentro todo entusiasmado, a ensinar-me a mexer com os botões e a ligar-me a rádio Amália para eu ouvir enquanto tomava banho, depois de um telefonema que me deixou triste, que começou. Mas isto não é bom?, dizia-me ele. E eu abracei-o com muita força, enquanto tentava encafuar as lágrimas que teimavam em sair bem no fundo de mim.

E lá fomos os cinco – a mãe, o pai, a mana e o moço dela, para o baile de finalistas do primo F.. Foi quando ele me apareceu à frente, de cabelo à betinho, fato e gravata, o sorriso que eu mais gosto e um beijinho na testa, que voltei a abrir a torneira. Dei por mim a pensar nas coisas que ouvi tanta gente dizer-me um dia: peguei-te ao colo, dei-te banho, troquei-te a fralda, e agora aqui estás tu, crescido, com uma miúda debaixo do braço, quase a caminho da faculdade.

Passei pela mesa das professoras e aí chorámos todos – eu pela quarta vez. Falámos dos amigos, da turma, das escolhas, dos momentos que não voltam atrás, de como aquele baile teve um dia tanto significado para nós. Sentei-me depois na mesa reservada à família, e começou a passar o vídeo composto de fotos de todos os finalistas, ao som do Forever Young, Fame e Não há estrelas no céu. Quinta vez. Estava a prometer a mim mesma que era a última, quando sou abraçada por trás em pleno salão de baile. E foi quando olhei para trás que esqueci as promessas. Sexta vez. Era o CS.. Fomos da mesma turma desde o 9º ano, amigos até mais não, passámos por situações más, mesmo más, juntos, boas e muito boas também. Enfrentámos juntos a entrada na faculdade, o assumir das opções que nunca deviam ser escondidas e de alguns erros. E de repente, de um dia para o outro, entra num cruzeiro para trabalhar e está anos sem nos visitar, deixando só uma foto de cada país por onde passa na nossa caixa de email. Depois veio a S., também da turma do secundário. Colega de casa da Travessa Henrique Cardoso. Amiga do peito. E começámos a falar e a partilhar segredos que desiludiriam talvez quem nos rodeia. E não uma à outra. Sétima vez.

Foi por esta altura que pensei que chegava de choro e subi ao palco para dançar ao som do Dj não sei das quantas, com a minha Su., que tão bem me fez nestes dias, e pela mão do primo F., que dançou comigo pela primeira vez. Estava tudo a correr muito bem: muita dança, muitas bifanas, caracóis às 03:00 da manhã e uma fatia de todos os bolos que estavam à venda. Mais ou menos por essa hora, decidimos passar para o Xárix, como dizia o tio Ma., o bar Asterix. Foi quando apanhei dois ex-namorados do tempo da escola, dos tempos em que um namoro se resumia a passar o intervalo juntos e a tentar tocar com a mão na mão do outro sem corar, que passaram o tempo a dizer-me “estás igual”, que começou a oitava vez. A nona só chegou já pela madrugada adentro, quando partilhei a cama com a mana – não dormíamos juntas há uma eternidade. Senti o braço dela por cima de mim, como nos velhos tempos, e veio-me tanta coisa à cabeça: as birras que apanhava porque não queria dormir sozinha, porque queria dormir comigo, como me abraçava com força, como era pequenina, como nem sequer ocupávamos metade da cama. Coisas que já passaram.

No domingo entraram por mim adentro sem pedir licença. A mim, que nunca deixei sequer que me fizessem o teste da agulha, mostraram-me um futuro que não planeei. E foi aí que chorei, pela décima vez. A décima primeira chegou à noite, quando partilhei a cama de 4m2 com a minha A.. Ela não reparou, porque o sono nos fez adormecer muito rapidamente. Mas enquanto transformávamos os dias em palavras, no escuro da noite, dei por mim com a cara molhada outra vez. A última só aconteceu ontem. Fui buscar o C. ao aeroporto, vindo de França. Os companheiros de viagem riam dele, porque me tinha comprado uma caixinha de bolinhos como os de Paris e passado o dia com ela na mão. De manhã até às sete da tarde, hora em que aterrou, andou com aquilo direitinho, certinho na mão e no colo. Foi quando saí do carro, já perto de casa, com o meu ar normal e desastrado, que atirei com a caixa ao chão e os bolos que não ficaram na estrada misturaram-se todos. Chorei, enquanto tentava limpá-los e provar pelo menos um bocadinho de todos. Um choro que se manteve até à noite, quando conversámos no sofá a ver “Sem Rasto”. O C. tem-me dito muitas vezes nos últimos tempos que só me vê feliz quando estou no Alentejo. Este fim-de-semana provei o contrário, nem lá consegui estar bem. Vejo os últimos tempos de forma diferente. Como se não houvesse espaço, como se não encaixasse, nem houvesse um sítio perfeito, como se não estivesse ninguém à minha espera num lugar qualquer, como se nem me reconhecesse a mim própria. E estou irritada. Comigo mais do com qualquer outra coisa. Porque o meu pai tem mesmo razão e sou uma choramingas que não luta por nada. Uma choramingas do pior que há. Elevada a 12.

 

Hoje é dia 11 de Maio. Dia do Tuto. Dos 26. Não consigo deixar de pensar que ele, que eu faço questão de trazer comigo todos os dias, é a pessoa que mais está desiludida com tudo o que faço. Imagino-o a subir as mangas da t-shirt, a endireitar o boné, e a dizer-me: “miúda, não foi nada disto que combinámos”, mesmo antes de me abraçar com um sorriso. Penso em ti todos os dias. Parabéns.

 

Lá fora: "não fazes parte da minha vida"
L. às 16:20
link | comentar | favorito
1 comentário:
De Margot a 11 de Maio de 2010 às 16:46
Nem sempre chorar é mau. Ás vezes chora-se de saudades de outros tempos, sinal de que fomos felizes e claro que voltaremos a sê-lo, outra vez, mais tarde ou mais cedo. Há que deixar o coração aberto e o espirito livre para receber a felicidade.
Momentos maus, todos temos, uns pior, outros menos pior. E chorar alivia tanto... Abre essa torneira quando te apetecer!

Comentar

.Eu

.pesquisar

 

.Dezembro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Agora

. .Feliz Natal e um 2019 ch...

. .Das mães

. .Hoje

. .2

. .Hoje morreu um homem bom

. .Ela

. .22

. .Dos fins de semana bons ...

. .Adeus, Inderal! [com ima...

. .O batizado da Aurora

. .A caminho dos 19

. .A queda

. .I'm sixteen going on sev...

. .O nosso ovo

. .Da culpa

.Ontem

.tags

. todas as tags

.Mundo

blogs SAPO

.subscrever feeds