Sexta-feira, 7 de Maio de 2010

.A Casa Silva

 

 

Cresci na loja. Claro que não me lembro do primeiro dia em que lá entrei – nem da roupa que tinhas vestida? – ouço dizerem-me. Devo ter lá entrado no primeiro dia em que existi, no primeiro diz em que saí do hospital em braços. Lembro-me, vagamente, das versões mais antigas. De quando era forrada de grandes armários de madeira, de alto a baixo, com balcões de um lado ao outro, cheios de gavetas, como aquela onde me esconderam a chupeta para a abandonasse de vez. Mudou a máquina das contas, a máquina do fiambre, as prateleiras, a vitrina, o escadote. A padaria ficou igual. O balcão de mármore cheio de mazelas onde a M. partiu a cabeça, o quadro com o papel velho com o nome da loja, a porta para a arrecadação e para a casinha do telefone, forrada a madeira, cheia de desenhos, recados, números e jogos do galo desenhados a caneta. Depois a outra porta, com o forno antigo, já só para enfeitar, a casinha dos padeiros, os tabuleiros onde cheguei a caber, o sítio onde as senhoras fazem os bolos sempre que há casamentos. Lembro-me de quando chegou o forno novo. Do senhor do Norte, que veio montá-lo, e me queria levar para casar com o filho dele.

Foi atrás do forno que a minha gata teve bebés. Só eu cabia no espacinho que sobrava até à parede, e coube-me a difícil tarefa de salvá-los. Acabaram por falecer, mesmo a Pocahontas, a mais destemida, ainda que eu e o pai tenhamos passado noites a alimentá-la e a aquecê-la com o secador. Fizemos-lhe um funeral bonito, numa caixinha de bolos, com um pano de renda da avó, junto à casota do Scoty, com uma roseira plantada em cima, e as rezas do primo Z. padeiro, que obrigámos a fazer de padre.

Cresci na loja. A conhecer toda a gente, a meter-me onde devia e não devia. A querer fazer contas na máquina, atender o telefone e fazer os avios quando aprendi a ler. A querer ir buscar o peixe com o avô, a fruta com o pai, a carne com a mãe, a dar o pão com a avó. A subir para a carrinha, a dar trocos e a ouvir ralhar sempre que me perdia na conversa.

Tenho recordações bem gravadas na memória. De ir buscar o pão, acabado de sair do forno, com o meu pijama vermelho à chinês, e depois escorregar na tábua de madeira feita para os padeiros levarem a lenha para o forno no carrinho de mão. Ou do banco de madeira na padaria, onde esperava o T., que vinha a pé de longe para me fazer companhia até à escola. Ou do avô, sentado no chão, encostado ao forno, de boina nos olhos, a passar pelas brasas. Ou do primo Z. padeiro, a fazer a massa do pão à noite, na máquina que gira muito, e a dar-me bolinhas de massa que eu devorava em segundos para que ninguém visse. Cresci na loja. A tirar o miolo dos papo-secos com o dedo mindinho e a tentar pô-los outra vez na canastra, e a ser apanhada pela mãe e pela avó. Foi lá também que, aos seis anos, conheci o homem com quem queria casar. Tinha o cabelo cor de cenoura, sardas na cara e trazia uma carrinha da Matutano. Dizia-me que eu era a menina mais bonita de toda a volta e deixa-me entrar na carrinha e escolher um pacote de pastilhas, um de batatas, um brinde, um chupa-chupa. Foi um desgosto quando me disse que afinal já tinha namorada.

Sabia de cor os dias em que os viajantes lá passavam. O da Grula, depois os da Ellos, os da fruta, dos gelados, dos queijos, dos bolos. Sempre que não apanhavam o horário da escola, lá estava eu, sentada na arca perto da porta ou no banco da máquina das contas, para dois dedos de conversa e qualquer coisita que me davam sempre. Adorava a parte de ir às compras. Foi por isso que pedi como prenda de aniversário nos meus 12 anos uma ida à Makro – porque ia sempre e ficava à porta, com os filhos de toda a gente, à espera. E naquele bocadinho tudo me passava pela cabeça: as maravilhas que existiriam lá dentro, que alguém ia roubar os meus pais, que prendas me trariam. Depois encafuávamos tudo na carrinha grande, que ficava cheia até alguém ter tempo de a descarregar, onde os pais me iam buscar à escola, a mim e aos amigos. Era uma festa, divertíamo-nos a andar de um lado para o outro com as compras, em vãs tentativas de equilíbrio, com grandes trambolhões e nódoas negras à mistura. Adorava arrumar as coisas nas prateleiras, meter os preços na máquina e tentar marcar tudo no mínimo tempo possível. Foi à conta destes trabalhinhos no Verão que comprei as minhas botas da Levi’s, em ganga, e umas roupitas engraçadas.

Confesso que não sei toda a história da loja. Vou ter de saber. Este fim-de-semana, no almoço dos netos, vou espremer a avó e obrigá-la a contar-me tudo. Sei que era dos pais do avô X, que depois ficou para ele. Sei que foi o primeiro sítio da aldeia onde chegou a televisão, que foi lá que viram o homem chegar à lua. Sei que muita gente vai lá só quando o dinheiro já não chega para o mês. Que às sextas-feiras não cabia nem mais uma pessoa lá dentro, mas depois chegou o Intermarché e levou-as todas. Sei que o forno tem sempre um cheiro bom, do pão, dos assados das vizinhas, das batatas-doces quando chega a altura. Sei que tive muita sorte, porque cresci na loja.

Ontem a ASAE esteve lá. E deixou folhas e folhas de coisas para se fazer com prazos ridículos. O pai diz que não tem força, coragem ou dinheiro. São muitas paredes, azulejos, portas, cursos e coisas parecidas. E eu, que ando sentimentalóide ao máximo, virei as costas e chorei um bocadinho. Porque cresci na loja. Porque a loja é uma continuação de mim, dos avós, dos pais, da mana, dos primos, de todos os amigos que um dia pularam comigo por cima das sacas de farinha e vibraram com a sorte que eu tinha de poder ir buscar tudo ali ao lado de casa a qualquer hora. Porque não consigo deixar de sentir que quando aquela porta fechar é um bocadinho meu que acaba também.

 

Lá fora: "duvidoso"
L. às 16:09
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3 comentários:
De Sophie a 11 de Maio de 2010 às 02:22
Que giro, gostei de ver as fotos e saber um pouco mais sobre ti^^ Desculpa o comentario peqenino, mas o sono ja' nao da' para muito!

Ja' agora, o Endlessly esta' finalmente actualizado! Fico a espera do teu comentario^^
De reinodosporques a 11 de Maio de 2010 às 14:13
Se o universo da tua loja te diz muito... diz a toda a gente que cresceu naquela terra, como eu e tu...
Sempre achei o grande local de partilha, e o primeiro lugar de trocas e sorrisos entre os habitantes!
Duas das coisas que me lembro é o sótão com as panelas e alguidares de barro... e da minha mãe a fazer bolos para os casamentos...
Como gosto de ir "roubar" uma broinha quente às segundas de manhã... talvez uma cumplicidade que continua a existir entre a tua mãe, tia e avó e a minha pessoa... tal como o meu pai e o teu avô X!
Há coisas transcendentes ... por isso a amizade a tudo resiste e tudo ultrapassa!
Jorge
De L. a 27 de Maio de 2010 às 20:17
Os amigos que passam lá por casa para dois dedos de conversa depois de comprarem o pão... :)

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