Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

.Caminho

Quando era mais pequena, metia conversa com toda a gente. Ia ter com as pessoas e dizia o que me vinha à cabeça sem pensar muito nisso. O meu avô X. costumava dizer-me que, por dia, eu formava uma equipa de futebol diferente, tamanha era a quantidade de gente que eu conhecia. Para os meus pais isto era um problema. Na praia, raramente parava na barraca deles, e era normal encontrarem-me numas mais à frente, a pedir uvas ou a contar coisas sem jeito nenhum. Se me chamavam a atenção por estar a falar com estranhos, a minha resposta era sempre a mesma: “acham que, com aquela cara, me iam fazer mal?”. Em casa, na terrinha, não me portava melhor. Corria as casas todas dos vizinhos, oferecia-me para almoçar, jantar, jardinar ou qualquer outro estrago, fazia questão de ajudar a levar as compras da loja aos sítios mais estranhos, e tinha uma grande tendência para me agarrar aos beijos a pessoas que faziam outras fugir a sete pés. Advogada dos pobres e oprimidos, dizia-me a minha mãe. Mas depois cresci, e deixei-me de algumas destas coisas. Deixo passar oportunidades de outro mundo apenas porque a minha língua deixou de dizer o que lhe apetece e passou a dar uns segundos de atenção ao cérebro, que a trava muitas vezes. O meu pai é quem mais me dá na cabeça, “L.S., tu não eras assim, mas o que é que te aconteceu?, O teu estágio só correu mal porque tu agora ficas calada e esperas que os outros reparem que existes!, E não disseste nada?, Mas tu estás doida?, Reage!, Responde!”. Há muito tempo que percebi uma coisa que me irrita, os pais têm sempre razão e o que dizem acontece sempre, mais cedo ou mais tarde. É por isso que eu ou a mana chegamos a pedir para se calarem quando percebemos que vão dizer alguma coisa que não queremos que aconteça, tamanho é o poder das profecias que eles deitam ao mundo. E o meu pai foi bastante claro comigo, “se continuas assim, não chegas longe”.

Na semana passada, o trabalho obrigou-me a sair do meu posto de trabalho. Tive de representar o serviço noutras bandas, com outra equipa de trabalho, e, decidi eu, com outra postura. Nada de vergonha, nada de timidez, nada de deixar passar oportunidades ao lado e não as agarrar. Agarrei em muita lata, no meu melhor sorriso e raciocínio, e fui para as Jornadas. Foram dois dias muito engraçados. Os contactos são o nosso maior trunfo, dizem-me lá na pós-graduação. E eu, imbuída desse espírito e dos conselhos do meu pai, encarreguei-me de acrescentar bastantes ao meu telemóvel e à minha vida. “Não somos colegas do TagusPark”, “É não sei quem? Foi comigo que falou no outro dia”, “Então se acontecer não sei o quê, posso ligar-lhe?”, “Da bancada parlamentar de onde? Claro, anote o meu”, “Com esse ar, vê-se logo que é um dos voluntários forçados da Academia”, “Computador? Claro, use o meu”.  Mas, o melhor dos dois dias, foi ter dois companheiros que me fizeram companhia o tempo todo. “Ajudante de quê? Ah, não sabia que isso existia”. “Major quê? Ah, não sabia que ele era Major”. Rimos muito, principalmente quando descobriram que tinham a idade do meu pai e se ficaram a sentir mal por isso.

Um dia depois estava no Alentejo, pronta a contar ao meu pai os meus progressos e mostrar-lhe a minha longa lista de contactos. Mas não foi preciso, porque ele estava ao meu lado no momento em que recebi um mail que dizia: “Esse sorriso é uma grande arma. O serviço tem muita sorte em te ter. Serás bem recebida em qualquer equipa”. Ele sorriu, deu-me um beijinho no cabelo, e disse-me: “parece que, afinal, estás no bom caminho”. E eu, que tenho andado um bocadinho desorientada, procurei agarrar-me àquela profecia, aninhar-me nos braços dele, e sorrir, enquanto na minha cabeça me imaginava a andar numa estrada cheia de papoilas e espigas. Um bom caminho.

 

Estou:
Lá fora: "Morrer, mas de que paixão?"
L. às 12:32
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5 comentários:
De Sophie a 4 de Abril de 2010 às 14:38
Comentario rapido, antes que o meu namorado me venha buscar para irmos passar a Pascoa a casa dos avos dele, so' para avisar que actualizei o blog^^

Adorei o texto e gosto muito da foto!

Espero q passes la' no meu blog depois :)
De Arzebiu a 5 de Abril de 2010 às 11:40
Como eu gostava de ter essa tua facilidade em socializar. :)
De L. a 7 de Abril de 2010 às 11:18
Do que eu me lembro, também eras dado a socializar... :)
De Arzebiu a 7 de Abril de 2010 às 11:48
Um pouco, mas nem se compara, não sou nada extrovertido. E quando as velhotas começam a falar comigo nos consultórios eu penso sempre: "ai que melga, só me faltava esta agora".

Sad, but true. :)
De L. a 8 de Abril de 2010 às 16:23
Que mauzinho... Essas são as melhores: ajudam a passar o tempo e têm sempre assunto! :)

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