Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

.Caracóis

Maldivas - Olhuveli, Junho 2009

 

Tenho boa memória. Disso, não me posso queixar. Tenho muitas falhas, uma data de defeitos, coisas menos boas, mas, no meio disto, safa-se a minha boa memória, a minha atenção aos detalhes. Não para tudo, é claro. Mas se me falarem do primeiro dia de cada nova escola, dum beijo arrebatador, de uma lágrima que me fizeram cair, consigo lembrar-me da roupa que tinha vestida, das roupas dos que me rodeavam, das palavras que foram ditas e dos sonhos que me acompanharam nessas noites. Quando era mais pequena, costumava dizer que eram os meus caracóis que não deixavam as memórias sair. Mas isso já lá vai. A memória e os caracóis. Da última vez que fui à cabeleireira, há duas semanas talvez, ela cortou até mais não e deixou-me com ar de mulher casada (- Já não era sem tempo, dizem-me muitas vozes). Que o meu cabelo estava uma porcaria, tão fininho, tão estragado, que estava a ficar sem cabelo, que se passava qualquer coisa de certeza, que era a minha anemia de estimação que estava de volta, que ela dizia sempre a toda a gente que o meu era o melhor cabelo que lá passava e não fazia ideia que ele estava assim. E eu saí de lá a chorar. Que, no toca ao meu cabelo, sou muito sensível. Costumo dizer que foi a única coisa em que os meus pais se esmeraram, a única que saiu bem e que eu gosto (vá, também gosto dos meus ombros quando não estão cheios de borbulhas, que é o caso – como toda eu, aliás). E vá de fazer análises, vá de tomar coisas para o cabelo, vá de ouvir ralhar de toda a gente – que estou igual, que o cabelo está igual, que são coisas da minha cabeça.
Tudo isto para provar uma coisa: os meus caracóis seguravam realmente as minhas memórias, parece-me. É que desde a altura em que os cortei, tudo mudou. Perdi o cartão do serviço (que já apareceu, mas sem fita), deixo o telemóvel em casa, deixo o cartão multibanco em todo o lado, esqueço-me do que vesti no dia anterior, não consigo processar recordações nem escrever na agenda se já passaram alguns dias. No domingo perdi mesmo o meu cartão. Não estava nos sacos, nem na bolsa da bolsinha. Ontem, depois de toda a gente me assustar com as clonagens e histórias parecidas, resolvi que era altura de ligar para as lojas onde estive nesse dia. Tinha a certeza que ele estava lá – ultimamente também tenho umas certezas estranhas. Atendeu-me o segurança do centro comercial. Que não existia lá nenhuma loja com aquele nome. “Formenina?”, não, Fornarina. “Desculpe menina, mas isso não existe aqui”. E eu, que não me apetecia muito teimar, desliguei depois de agradecer e de dizer que passava lá no fim-de-semana. Só quando a M. me chamou à atenção percebi como estou toda baralhada. Liguei para o Campera em vez do Freeport. E quando liguei para o sítio certo, claro que estava lá o meu cartão.
Esta fase-má-da-minha-memória não é toda má, também tem aspectos positivos. Está a dar-me oportunidade de reciclar algumas coisas. Há uma música, que agora está sempre a passar em todo o lado, que tanto me deixa nos píncaros como na cave. E isto já me andava a chatear. Ontem à tarde dei boleia ao An. e à Li., do trabalho até Sete Rios, para não perderem o comboio. Seguimos pela A5, a velocidades que não podem ser escritas, com a Li. ao meu lado a rir de todos os disparates que o An. dizia lá de trás, e ele a mudar o posto da rádio com o guarda-chuva. Só parou quando encontrou a tal música e começámos os três a cantar e a dançar. E sem que eu tivesse reparado nisso, substituí uma memória. Mais tarde, enquanto esperava pela aula no carro embalada pelo rádio e pela “Alice no País das Maravilhas”, ela voltou a dar. E à minha cabeça só vinha esta imagem. Da Li. ao meu lado, a rir e a dizer-me que eu estava a ir muito depressa, do An. lá atrás, a bater-nos com o chapéu de chuva, e a dizer para não me preocupar com a multa porque o Papa vem cá e vai haver amnistia para toda a gente, a perguntar-nos se gostamos “de beijos com cuspo ou sem cuspo”, e se quando dançamos abanamos “a cabeça ou só o corpo”. E eu prefiro esta imagem, porque me deixa sempre bem.
O problema é que não mando em nada disto, como percebi agora – nem nas minhas memórias, nem nos meus caracóis. Não sei se eles as seguram realmente. Não sei se são apenas coincidências. Se é só uma fase má, para os dois. Mas que eles têm alguma relação estranha, isso ninguém me tira da cabeça – com ou sem caracóis.
Estou:
Lá fora: "Faz d conta q está td bem,e andas às voltas qd estás a sós"
L. às 15:08
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7 comentários:
De david. a 25 de Fevereiro de 2010 às 18:24
Oh L. eu prometo que não vou passar a comentar sempre que escreveres algo, não acho piada nenhuma a isso. Mas diz lá qual é a música, também quero ouvir! ;)
De L. a 25 de Fevereiro de 2010 às 22:46
Oh, podes comentar, que eu gosto... :) (O que significava o teu "hum"? Os meus nunca querem dizer a mesma coisa) Não sei o nome da música nem quem canta, confesso... Até podia cantar um bocadinho, mas não era a mesma coisa. :) Assim que descobrir, informo. [O meu Sporting ganhou!!!!]
De david. a 26 de Fevereiro de 2010 às 00:00
Era um 'hum, mais um texto bué fixe e cativante dela!'. Como não me apeteceu elogiar-te, não disse... Mas como gostei tanto, e queria dizer qualquer coisa, fiquei-me pelo 'hum'. Já não precisas que te elogie. ;)
E espero que descubras, eu quando gosto de alguma não desisto. É o que faz um bom jornalista!
Parabéns pelo teu sporting, apesar de não ligar nada a futebol para variar. ;)

De Margot a 26 de Fevereiro de 2010 às 14:28
Venho aqui debater o assunto dos teus caracóis e da tua cabeleireira. mas o que é que os cabeleireiros têm que acham sempre que o nosso cabelo está péssimo e vá de cortar, como se isso fosse a solução? Já me aconteceu a mesma coisa e da ultima vez que fui ao cabeleireiro, ele disse tão mal do meu cabelo, que já me estava a apetecer bater-lhe. Ora estava com queda, ou estava sem brilho, ou fininho, ou espigado. Ele já não sabia o que mais havia de dizer do meu cabelo, só para ver se eu o deixava cortar-me e vender-me mil e uma coisa!
A verdade é que eu olho para os cabelos das cabeleireiras e normalmente elas tb não têm cabelos nenhuns de jeito. Com que autoridade dizem mal do nosso?
É uma coisa que me irrita imenso!
Quanto às memórias - não são dos caracóis, é mesmo do PDI! ;-)
De L. a 26 de Fevereiro de 2010 às 14:36
Abaixo os cabeleireiros! :) Não sei o que é PDI, mas desconfio que é uma coisa de pessoas crescidas relacionada com a velhice... E não gosto. :)
De Margot a 26 de Fevereiro de 2010 às 14:37
LOL!
São as iniciais para Puta Da Idade! E eu tb não gosto!
De Sophie a 28 de Fevereiro de 2010 às 23:46
Gostei de como intercalaste todos os assuntos, adoro mesmo a tua escrita :) Ja' nisso da memoria tens sorte, a minha e' de passarinho mesmo! E tambem sou muito sensivel no q toca ao meu cabelo, infelizmente quando for a cabeleireira devo 'receber' o mesmo recado que tu :x

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