Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

.Medos, sustos, amor e bicicletas

 

Tenho medo de matar alguém. Escrito assim pode parecer assustador. E é. É um dos meus maiores medos. Por mais que pense, acho que nunca vou encontrar motivo suficiente para o fazer de livre e espontânea vontade. O meu medo é matar alguém sem querer. Fico mal só de pensar nele.

A morte afecta-me de uma maneira muito estranha. Mesmo quando não conheço, mesmo quando não passam de uma foto num jornal, de um fragmento de conversa que apanho. Leio, oiço aquelas histórias mais que uma vez, tentando apanhar tudo: aquela vida tem de valer a pena e tem de ser contada, não pode passar pelo mundo sem marcar alguém. É por isso que tirar a vida de alguém sem querer é o meu maior medo. Custa-me pensar que posso acabar com uma história, com tantas outras ligadas a ela. E é um sentimento de culpa tão grande, que ainda que seja hipotético, chega a fazer doer.
Hoje vim de carro. Por vontade da minha mãe, vinha sempre que tenho aulas – chegas mais cedo, não é tão perigoso. Mas assim ia perder a magia dos transportes públicos e dos dias especiais, por serem raros, em que trago o carro. Nesses dias, partilho um estranho ritual com o ABel: esqueço que os outros carros têm pessoas lá dentro e canto, com dança à mistura, como se o mundo se resumisse a nós os dois e ao som das colunas. Normalmente desperto deste estado quando reparo que alguém está a olhar para mim ou a rir. Volto à realidade mas só por instantes, até que uma boa música me faça esquecer outra vez o mundo lá fora. Hoje estava num desses meus momentos, a 50 à hora por estar numa localidade (e por ter uns cinco camiões à minha frente), quando apanhei um grande susto. O puto que ia na berma de bicicleta, aos ziguezagues, estampou-se mesmo ali ao meu lado. E eu fiz logo o filme todo nos instantes em que ele ainda não tinha chegado ao chão: ia matá-lo, ia bloquear, ia ser presa, ia viver para sempre com um sentimento de culpa horrível, ia parar para ajudar qualquer que fosse o estado do moço. Encostei um bocadinho à frente e saí do carro com muita vontade de gritar com ele. Dizer-lhe muitas coisas: que a estrada era um sítio muito sério para brincar, que podia ter morrido, que me ia matando a mim de susto, que uma data de coisas. Mas ele não parava de rir e de pedir desculpa, apesar dos joelhos e dos braços cheios de sangue. Perguntei se queria que o levasse ao hospital. E ele responde-me: “de Vila Franca? Só pode estar a brincar”. E foi aí que eu comecei a rir também.
O Rui, que é assim o nome dele, disse-me que estava apaixonado. Que era nisso que estava a pensar quando perdeu o rumo da bicicleta. E que estava a rir porque tinha sobrevivido para mais um beijo logo à noite. E que nos instantes em que estava no ar só pensava na sorte que tinha por ter tido coragem de roubar um beijo à Marta ontem à noite. Que precisava dela. E eu esqueci-me por instantes do medo que me fazia um aperto no peito, das análises por levantar, da Li. que me esperava no caminho e do trabalho. Sentei-me no chão ao lado da bicicleta caída, com o ABel ao meu lado de piscas ligados, sem pensar que estava a sujar o meu casaco preto, e a agradecer à minha cabeça por me ter lembrado de comprar toalhetes ontem. Não devo ter estado ali mais de cinco minutos. O tempo suficiente para que ele se limpasse, o sangue parasse de correr, e eu me apaixonasse pela história do Rui e da Marta.  
Ainda ontem dizia isto a alguém, que o mais importante é que precisem de nós. Sentir que fazemos falta, que somos aceites, que precisam de nós para qualquer coisa, pequenina que seja. O Rui precisa da Marta. E eu precisei do Rui para iluminar a minha manhã. Ainda que me tenha feito pensar nos meus medos e dizer muitas asneiras-pequenas-e-grandes.
Ofereci-lhe boleia para qualquer lado, enquanto na minha cabeça ouvia a minha mãe dizer-me “tu és um perigo porque não tens medo das pessoas, foste sempre assim, não pões mal em nada”, e a minha irmã com a sua teoria dos cromos “só tu para quase atropelares alguém e a pessoa começar a falar da vida amorosa”. Mas ele não quis a minha boleia. Fiz-me à estrada depois de o ver partir na bicicleta, quase tão arranhada quanto ele. A sorrir, aos ziguezagues. Da pancada na cabeça ou do amor. A pensar na Marta, pensei eu. E não pude deixar de sorrir também. 
Estou:
Lá fora: "So your face was a light that kept me saved from the dark"
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L. às 12:20
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5 comentários:
De Nomada a 24 de Fevereiro de 2010 às 13:29
Acho que ja aqui comentei, provavelmente a dizer o mesmo.
Adoro a tua escrita! sim, tens jeito para posts, mas nunca pensaste escrever um romance? E' que a intriga que poes nas palavras prendem (-me) desde a primeira frase 'a ultima. Nao sei que profissao tens, mas se tiveres algum tempinho e como e' claro que gostas de escrever, pensa nisso! ;)
De L. a 24 de Fevereiro de 2010 às 15:09
Em tempos fui jornalista, agora só escrevo mesmo para aqui e para a minha agenda... ;) Até tenho algum tempo, mas não paciência para construir uma história grande. Nem sou boa a inventar... :) Como dizia o senhor Luiz Pacheco, "Não tenho imaginação, o que escrevo é a minha vida". :) Obrigada! :)
De Sophie a 24 de Fevereiro de 2010 às 21:22
Adorei :$
Ja' agora, finalmente, actualizei o meu blog! Espero que passes por la' :)
De david. a 24 de Fevereiro de 2010 às 21:42
Hum. ;)
De L. a 25 de Fevereiro de 2010 às 12:06
Dois. :p

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