Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

.Luz

 

Ontem tive um dia do avesso. Perdemos o comboio de ligação, o que já começa a ser normal às segundas-feiras, infiltrámo-nos no de outra entidade que connosco partilha o fim do mundo e cantámos ao som das músicas dos anos 80 enquanto comíamos bolachas com sabor a pipocas. Ao fim do dia, saí mais tarde e partilhei o autocarro de dois andares com colegas de trabalho mas nunca de viagem. E cheguei à faculdade quase sem dar conta, embrenhada que estava no livro de Murakami que finalmente tirei da prateleira. Entrei na sala entusiasmada, mas depois, embalada pelo som monocórdico do sr. embaixador enquanto discursava sobre ordens honoríficas e pelo escuro da sala, dei por mim a adormecer e a sonhar nos breves instantes em que as minhas pálpebras se fechavam.
 
Sempre tive medo do escuro. Ou melhor, do escuro quando estou sozinha. Desde muito pequena, era levada ainda a dormir para a loja. Habituei-me a dormir com luz, com barulho, com gente à minha volta. O contrário, para mim, sabia a tortura. Lembro-me de acordar da sesta no primeiro andar da nossa casa, quando ainda era da avó, no quarto de paredes pintadas a cor-de-rosa que ainda o tornavam mais escuro. Acordava, fechava os olhos com muita força não fosse aparecer-me alguma coisa, tapava-me bem para que nada ali entrasse, e chorava e gritava até que me fossem lá buscar.
 
Quando a mana nasceu, fomos assaltados. Foi quase como aquele livro “Crónica de uma morte anunciada”. Todos podíamos ter evitado, mas quando demos conta já tinha sido. A vizinha que os viu subir pela janela mas pensou que a minha mãe se tinha esquecido da chave, a mãe que foi só a casa da avó enquanto a minha mana dormia, as pessoas que os viram nas motos parados em frente à loja e pensaram que só queriam pão para a viagem. Entraram pela janela da sala, foram aos sítios certos e até as caixinhas que eu e a mana tínhamos recebido com um coração de chocolate eles abriram. A mana estava lá, deitada no nosso quarto, a dormir. Não se lembra de nada. Eu lembro-me de tudo. De toda a gente de roda de mim, da GNR a recolher as impressões digitais que nunca serviram para nada, dos gelados que me deram sem eu pedir, do lanche de caracóis a que me obrigaram a ir para não estar mais ali, de dizerem que só pessoas conhecidas podiam ter feito tudo aquilo tão rapidamente. Lembro-me de ter ficado com medo do escuro uma vez mais. De pensar que eles iam voltar à noite para me levar. Que se escondiam debaixo da minha cama e me tiravam dos meus pais. Por isso, quando passámos para a outra casa, a que era da avó, comprei uma cama com gavetas por baixo – ali nunca haviam de se esconder.
 
Na Travessa Henrique Cardoso partilhei o quarto com a prima I.. Disse-lhe vezes sem conta que não havia problema, que fizesse barulho e deixasse a luz ligada que eu ia adormecer de qualquer maneira. Tínhamos o metro por baixo, o comboio ao lado, o INEM por trás e o aeroporto tão perto. Ainda assim, ela não acreditava. E acabou por estragar o abat-jour com toalhas e toalhinhas para não deixar que a luz chegasse ao meu lado. Foi só no dia em que nos deitámos sem luz e que ela acordou a meio da noite com lâmpadas acesas, rádios e televisões ligados, alarmes a tocar, e eu não pestanejei sequer, que a I. acreditou no que lhe dizia.
 
Preciso de luz. Gosto da expressão “barulho das luzes”. Porque ela faz realmente barulho e (pre)enche o meu espaço. Quando estou sozinha, abanco na sala, de porta fechada, preparada para uma noite inteira. Preparo o tabuleiro com chá, fruta, água, a minha sandes de pão de cereais com ovos mexidos ou de peru com alface, e arranjo o sofá – mas deixo sempre uma luz para me fazer companhia. A noite toda.  
 
Ouço ralhar muitas vezes. “Foi a L., a L. é que deixa sempre as luzes acesas. Vê-se logo que a L. esteve aqui. Já pensaste na conta da luz?”. Não, não penso nessas coisas. E eles sabem disso. Como sabem que não subo ao quarto – o meu sítio mais sagrado, quando está alguma lâmpada fundida nas escadas, nem saio de casa de manhã enquanto a luz do corredor do prédio não acende. Preciso de luz.
 
Foi por isso que ontem deixei a aula no intervalo. Senti-me a sufocar, a ficar sem luz. Corri o tempo suficiente para apanhar o comboio que me deixou na Lezíria uma hora antes do habitual em dias de aulas. E, quando saí da estação, o ânimo não melhorou: as lâmpadas da rua estavam quase todas fundidas. Fui o mais depressa que pude até ao carro, a ouvir barulhos de todos os lados – passos, bichos, e a imaginar o momento em que me agarravam e me punham na mala escura de um carro. Porque a minha imaginação é muito fértil no que toca à escuridão.
 
Saí do elevador só quando a luz do prédio acendeu, deixei o meu corredor escuro para trás, e quando entrei na cozinha vi que os meus ovos mexidos já estavam à minha espera. As únicas coisas que me acenderam um sorriso ontem foram a luz do meu telemóvel a dar conta de mensagem nova e aquela frigideira cheia de ovos – só com uma pitada de sal e pouca manteiga, por baixo da única luz acesa da cozinha.
 
Gosto de dar significados novos às palavras para utilizá-las em coisas normais sem que ninguém perceba o que quero dizer. De todas as que existem no meu dicionário, “iluminas-me” é a minha preferida. Talvez seja bastante óbvio este significado. Talvez não seja um segredo só meu. Mas para mim faz todo o sentido do mundo. Não há nada melhor que me possam fazer. Pode ser simples, pode ser difícil. Pode estar à distância de um interruptor ou de um beijo. Iluminem-me. Por uma razão muito simples. Porque preciso de luz.

 

Estou:
Lá fora: "A ordem Torre e Espada, do Valor, Lealdade e (...)"
tags: ,
L. às 13:25
link | comentar | favorito
5 comentários:
De Margot a 9 de Fevereiro de 2010 às 15:49
"Iluminas-me." ADOREI!
De Olga S. a 9 de Fevereiro de 2010 às 17:31
Olá L. ,

quando era miúda também tinha muito medo do escuro e ainda hoje tenho. É engraçado , pois tive uma experiência parecida ,que fez com que mais tarde não entrasse em casa sem que alguma luz estivesse acesa .Era muito pequena , estava a chegar a casa de fim de semana prolongado com os pais e subi as escadas a correr para o meu quarto , vi que a luz estava acesa ,e pensei "ainda bem que a mãe não chegou primeiro, senão ia ser castigo na certa ,deixei a luz acesa durante 3 dias!",mas não era nada disso, a nossa casa tinha sido assaltada , no meu quarto estava tudo virado do avesso .Só me lembro que o meu coração batia tão depressa que quase saía pela boca ,e desci as escadas tão depressa como as subi.
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Olá L. , <BR><BR>quando era miúda também tinha muito medo do escuro e ainda hoje tenho. É engraçado , pois tive uma experiência parecida ,que fez com que mais tarde não entrasse em casa sem que alguma luz estivesse acesa .Era muito pequena , estava a chegar a casa de fim de semana prolongado com os pais e subi as escadas a correr para o meu quarto , vi que a luz estava acesa ,e pensei "ainda bem que a mãe não chegou primeiro, senão ia ser castigo na certa ,deixei a luz acesa durante 3 dias!",mas não era nada disso, a nossa casa tinha sido assaltada , no meu quarto estava tudo virado do avesso .Só me lembro que o meu coração batia tão depressa que quase saía pela boca ,e desci as escadas tão depressa como as subi. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Apartir</A> daí nunca mais consegui ir de uma divisão para a outra sem ter a luz acesa. <BR>Hoje , que sou mãe ,digo ao meu filho que não há nada no escuro , mas ele não acredita em mim e acho que sei porquê. <BR>Também costumo dizer ao meu filho"iluminas-me":) <BR>Beijinhos, <BR><BR>Olga S. <BR><BR>
De T. a 10 de Fevereiro de 2010 às 11:11
A luz que me transmites quando leio as tuas palavras, isso sim, ilumina-me. :)

Um beijinho muito grande,

T.
De Sophie a 11 de Fevereiro de 2010 às 20:23
Adoro a foto e o texto tambem! Mas pronto, a minha paixao mesmo e' a fotografia :$
De pink poison a 25 de Fevereiro de 2010 às 14:50
Olá.
Reli a minha vida, em relação à escuridão, neste teu post. a minha imaginação não será tão fértil ao ponto de algo estar debaixo da cama mas durmo apenas com o nariz destapado. Quando era miuda, ansiava por adormecer antes da novela "Vereda Tropical" acabasse e uma noite a minha mãe acordou-me pois estava aos pés da cama na horizontal... nessa noiet a novela acabou mais cedo. Luzes fundidas? Odeio, fazem-me correr sabe Deus do quê. Moro sozinha e ao percorrer o corredor, vou acendendo e pagando luzes conforme a minha necessidade. Todos os dias adormeço com uma vela a queimar e o barulhos e as luzes também não me incomodam, eu adormecia em discotecas... Quando realmente estou no escuro e em pânico, acho que só adormeço por estar vencida pelo cansaço...
Um beijinho

Comentar

.Eu

.pesquisar

 

.Dezembro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Agora

. .Feliz Natal e um 2019 ch...

. .Das mães

. .Hoje

. .2

. .Hoje morreu um homem bom

. .Ela

. .22

. .Dos fins de semana bons ...

. .Adeus, Inderal! [com ima...

. .O batizado da Aurora

. .A caminho dos 19

. .A queda

. .I'm sixteen going on sev...

. .O nosso ovo

. .Da culpa

.Ontem

.tags

. todas as tags

.Mundo

blogs SAPO

.subscrever feeds