Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

.Escrevo-me

 

 

 

elotopia.net

L.,

 
Olá. É assim que se começam as cartas? Já não sei. Não escrevo uma há muito tempo. Dantes, escrevia muitas cartas. Gostava mais quando era assim. Quando não havia este frenesim louco de consultar o email e o telemóvel a toda a hora à espera de notícias. Gostava mais do tempo em que esperava pelo carteiro sentada no degrau da loja. Guardo todas as respostas nas minhas caixas de recordações. Mania estranha, esta de escrever. Nas férias, chegava a mandar mais de 30 postais. Assim que chegávamos à Curia, o ritual estava estudado: passar nas barraquinhas do jardim para comprar postais, sentarmo-nos nos bancos para eu os escrever, passar pelos correios para os enviar a tempo de chegarem antes de mim. A estes nem sempre tinha resposta. Para esses amigos escrevia qualquer coisa assim: “Como vês é muito fácil responder a um postal. Pergunto-te como estás, como estão a ser as férias, digo-te que tenho saudades tuas, aumento a letra e o espaço entre linhas e já está! Beijos, L.”. Mas hoje quero escrever-te a ti mesma, L., porque nos temos encontrado pouco na correria do dia a dia e porque preciso mesmo de te dizer umas coisas. Importas-te?
L., olá. Vou ser chata se voltar a repetir que estou cansada? Mas estou. E já não é só o corpo. Estou cansada de mim. De estar assim neste estado indefinível. Estou cansada que se chateiem comigo por qualquer coisa. Porque não aviso que cheguei, porque não atendo o telemóvel, porque qualquer coisa. Temos de justificar todos os nossos passos? Parece que sim. Estou cansada que me digam: ‘escreve’ sem depois me escreverem de volta. Estou cansada que me digam ‘não atendes’ quando também não me atendem sempre que eu quero. Estou cansada que desconfiem de mim, quando os meus passos já estão dados. Estou cansada de não perceber as pessoas e o que sentem. Mas talvez esta seja uma mania minha e tua, a de conhecer as pessoas. Lá porque baixas as tuas defesas e te mostras como és, não significa que os outros o façam. Nunca devemos baixar as defesas. Já to tinham dito?
Estou cansada que estejam sempre à espera de qualquer coisa minha, nossa. Porque não chegaste mais cedo? Porque demoras tanto? Porque não me ajudaste no trabalho? Porque não vens este fim-de-semana? Porque não te sentas aqui ao pé de mim? Porque não atendeste? Porque não avisaste? Porque não me respondeste? Porque não viste o meu mail? Porque não tomas iniciativa? Porque deixaste de trazer almoço? Já está? De certeza que queres isso agora? Parece que os meus dias se limitam a perguntas e respostas. Conheces a sensação?
Queria dizer-te isto: que não ambiciono a perfeição. Que falho, que caio, que erro, que não consigo resolver tudo, nem estar em todo o lado para toda a gente. Desiludi-te?
Não sei viver sem raízes, sem cordões umbilicais, sem alguma coisa que me prenda a algum lado. Sem segurança. Nunca o fiz, talvez nunca o faça. Preciso disso. Talvez me perguntem, talvez esperem mais, talvez exijam mais porque sempre foi assim. E quando não o faço tudo tem de estar do lado oposto?
Passo o tempo a desdobrar-me, a dividir-me. Almoço com uns, janto com outros, corro para um beijo, apresso-me para um café, guardo um abraço, e depois oiço “no fim-de-semana passado não vieste ver-me”. - Mas eu nem vim cá. “Mas tu agora já nunca cá vens”. Falho assim tanto?
Gostava de hibernar. Conheces a sensação? Não encontro outro verbo para o definir. Por nenhum motivo em especial. Encostar a cabeça na minha cama de três degraus, com o sistema solar por cima de mim, as fotos de quem mais gosto à minha volta nas paredes, nas prateleiras, os barulhos que tão bem conheço lá fora, e dormir. Sem sonhos, sem pesadelos, sem sobressaltos, vazia, deixar o mundo girar um bocadinho sem mim. Consegues imaginar?
Ia ser o caos. “Mas porque é que não avisaste?”, “Já não gostas de mim, é isso?”, “Estamos muito magoados”. Oiço-os ao mesmo tempo. Ouves?
Queria dizer-te isto também: que não podes levar tudo o que te fazem e não fazem, o que te dizem e não dizem, tão a peito. Deixa de ser insegura, de precisar deste séquito de segurança preso a ti por cordões invisíveis. Se confiares em ti, talvez os outros também o façam. Que te parece? Conseguimos?
Queria dizer-te tantas coisas mais. Mas parece que já me alonguei. Encontramo-nos pouco. Quase ouso dizer que tenho saudades tuas. De estarmos juntas, um bocado que fosse, sem nos importarmos só por uns minutos com o mundo lá fora. Mas isso não me parece possível. Pois não?
 
*,
L.
 
P.S.: O meu telemóvel já tem som. Por falar em cartas, deixo-te aquela que eu mais gosto. Não é de mim nem para mim. É sobre o amor. Conheces..?
 
"Dear Goat,
 
How does one fall in love? Do you trip? Do you stumble, lose your balance and drop to the sidewalk, graze your knee, graze your heart? Do you crash to the stony ground? Is there a precipice, from which you float, over the edge, forever?
 
I know I'm in love when I see you, I know when I long to see you. Not a muscle has moved. Leaves hang unruffled by any breeze. The air is still. I have fallen in love without taking step. When did this happen? I haven't even blinked.
 
I'm on fire. Is that too banal for you? It's not, you know. You'll see. It's what happens. It's what matters. I'm on fire.
 
I no longer eat, I forget to eat. Food looks silly to me, irrelevant. If I even notice it. But I notice nothing. My thoughts are full and raging, a house full of brothers, related by blood, feuding blood feuds:
 
"I'm in love."
"Typically stupid choice."
"I am, though, I'm racked by love as if love were pain."
"Go ahead. Fuck up your life. It's all wrong and you know it. Wake up. Face it."
"There's only one face, it's all I see, awake or asleep."
 
I threw the book out the window last night. I tried to forget. You are all wrong for me, I know it, but I no longer care for my thoughts unless they're thoughts of you. When I'm close to you, in your presence, I feel your hair brush my cheek when it does not. I look away from you, sometimes. Then I look back.
 
When I tie my shoes, when I peel an orange, when I drive my car, when I lie down each night without you, I remain,
 
As ever,
Ram"
[Cathleen Schine (The Love Letter)]
Lá fora: "Não estás a ligar p/ falar do Sporting, pois não?" [Cidade]
Estou:
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L. às 14:11
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13 comentários:
De .Entre o Aqui e o Ali a 4 de Fevereiro de 2010 às 14:50
O nosso relógio só costuma ter 24H. Mas nós precisávamos que ele tivesse 36. A semana só tem 7 dias. Mas nós precisávamos que ela tivesse 12. Tentamos chegar a todo o lado, desdobramo-nos em 10 ou em 20, mas nunca chega!! Não te consigo dizer porquê.. Mas também sinto que está sempre a acontecer.. Mas acredito que aconteça por gostarem realmente muito de nós :) E eu também gosto muito muito de ti!!

V.
De L. a 4 de Fevereiro de 2010 às 14:56
E o nosso bocadinho, quando é...? :)
De .Entre o Aqui e o Ali a 4 de Fevereiro de 2010 às 15:02
Pode ser jantar amanhã? :) A aldeia da chaminé está de portas abertas :)
De L. a 4 de Fevereiro de 2010 às 15:20
Isso era perfeito! Sozinha ou acompanhada? :)
De .Entre o Aqui e o Ali a 4 de Fevereiro de 2010 às 15:27
LLindo :)

Acompanhada princesa! Traz o marido para o jantar conjunto :)
Vou já pensar na super ementa para a minha linda dos caracóis perfeitos :D
De L. a 4 de Fevereiro de 2010 às 16:09
Pronto, eu aceito... Mas ficas já a saber - com apontamento a caneta na agenda, que também te vou querer um bocadinho só para mim. Tenho escrito. :)
De .Entre o Aqui e o Ali a 4 de Fevereiro de 2010 às 16:14
Claro miga :)

Deixamos os homens a jogar Wii e vamos nós passear no quarteirão :)
Estou tão feliz :)
De L. a 4 de Fevereiro de 2010 às 16:17
Perfeito :)
De Sophie a 6 de Fevereiro de 2010 às 12:32
Tambem tenho saudades de enviar cartas, nao para mim mesma pois isso faço.o constantemente, mas quando recebia uma carta de uma amiga quando estava mais em baixo ou doente e depois enviava a resposta, em vez de um simples sms ou mensagem de msn.
Ja agora, eu acho optimo teres imensa coisa para fazer, pode ser cansativo mas depois o esforço compensa :)
E sim deves ser o mais segura em ti propria possivel, cada um e' especial e se nao gostarmos de nos, quem gostara? (quem sou eu para dizer isto :x mas pronto e' totalmente verdade)
Quanto a mim, quem me dera nao ter momentos sequer para estar sozinha, apenas comigo mesma.

Gostei do texto. Beijinho*
De Sophie a 6 de Fevereiro de 2010 às 12:33
Esqueci.me de dizer que nao consigo abrir o site das imagem, porque o meu anti virus bloqueia.me a entrada devido a um cavalo de troia :x
De L. a 8 de Fevereiro de 2010 às 11:37
Experimenta: http://elotopia.net/blog/, vale a pena :)
De Veri a 6 de Fevereiro de 2010 às 19:37
Olá L! Quero desde já felicitar-te pelo teu blogue.. Sem dúvida um dos melhores que já encontrei (não digo isto da boca para fora porque adoro blogs e estou constantemente a lê-los). Posso agradecer ao destaque do sapinho por te ter encontrado.
Tenho várias coisas para te dizer... seriously, devias ter uma parte do teu dia dedicada à escrita no blogue.. Todos os dias passo por cá para ver se tem alguma actualização. ´
A tua forma de escrever? Perfeita, esquece.... isso é um dom!!!
Acho que devias pensar seriamente em escrever um livro (li algures que não consegues escrever mais do que "mini histórias" e que não querias escrever um livro de contos...) Mas acho que devias reflectir bem sobre isso, porque eu ia de certeza ler-te.
Desculpa estar a alongar-me com este palavreado todo, quero apenas felicitar-te pela tua escrita!
Quem sabe um dia nos cruzemos, eu queria ser jornalista e neste momentos estou em Relações Públicas e Comunicação Empresarial, pelo que percebi encontras-te ligada à área, por isso quem sabe.. Teria certamente muito gosto em conhecer-te.
Mais uma vez muitos parabéns e muitas felicidades.
V.F
De L. a 8 de Fevereiro de 2010 às 11:46
Tantos elogios, obrigada :)

A tua sugestão é muito boa, mas simplesmente não tenho tempo nem inspiração suficientes para vir aqui todos os dias... Às vezes até me apetece muito debitar para aqui coisas, muitas coisas, mas é a parte má de algumas pessoas saberem quem eu sou: não o posso fazer! :) Mas eu vou passando, prometo... :)

Sim, é possível que nos encontremos por aí, é um meio tão pequenino... O gosto seria todo meu!

Obrigada uma vez mais!

*,
L.

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