Sábado, 30 de Janeiro de 2010

.Porto seguro

 

 
Todos temos portos seguros. Coisas onde sabemos que podemos voltar sempre, onde estamos em segurança, que nunca nos vão desiludir. Eu tenho uns quantos. Pessoas, sítios, coisas.
 
Quando era mais nova, lia muitas coisas. Boas e menos boas. Quando me perguntavam porque lia isto ou aquilo, justificava com “gosto de ler antes de criticar”. Agora já não me dou a esse luxo. Gosto de ler aquilo que acho que vai realmente valer a pena, porque o meu tempo escorrega-me por todos os lados. Como em tudo, também tenho escritores que são portos seguros.
 
Desde o Natal, tenho dois livros de Haruki Murakami para ler na prateleira. Ele é um dos portos mais seguros que encontrei nos últimos tempos. Mas entra-me na alma de uma maneira tão rara, tão poderosa, que depois se torna muito difícil para mim sair e fazer o luto daquelas personagens sem saber o que lhes acontece a seguir. E só por isso ainda não os abri.
 
A questão da agenda não me deixou depois de ter encontrado uma. Irritava-me esta coisa de ter apenas uma tira por dia. E continuei à procura. Comprei outra, mas era tão grande e tão pouco pessoal que assim que a paguei percebi que a ia trocar.
 
Na livraria, sem tempo para me perder por entre as estantes, pensei nos meus portos seguros e percorri com os dedos a madeira até chegar lá, a Allende, Isabel. Não li muitas coisas dela. Fiquei-me por “A Casa dos Espíritos” e “De amor e de sombra”, há muitos anos, e “Retrato a Sépia”, recentemente. Gosto da maneira como ela escreve, como descreve as pessoas, como as traz até nós.
 
Quando era mais pequena, pensava que ia escrever livros. Sempre que pegava num caderno novo, agora velhos espalhados nos recantos do meu passado, começava uma história nova. Mas sempre tive um grande problema: um grande poder de resumo. A minha história ficava-se sempre só por algumas páginas, insuficientes para um livro. Imaginava-a, cheia de enredos e de personagens, mas não conseguia deixar de contar logo tudo e esgotar a ideia. Diziam-me que podia fazer um livro de contos, mas isso, a mim, não me interessava. Sempre que se encontra algum destes cadernos no Alentejo é uma festa. Contos, poemas, versos soltos. Porque, para mim, a escrita sempre foi um porto seguro.
 
Pensava nestas coisas quando o encontrei, “Contos de Eva Luna”. O senhor da caixa perguntava-me se tinha a certeza que queria trocar. Depois se já tinha lido “Eva Luna” porque deveria ler primeiro. Sim e não. Devorei-o. Nas minhas tardes de Campo Pequeno, nas minhas viagens de comboio. Um livro só sobre pessoas, sobre as suas histórias. E como eu gostei de as conhecer.
 
Percebi agora que um livro de contos é uma coisa poderosa. É preciso poder para continuar a prender o leitor da mesma maneira a cada conto que se começa. As pessoas que Eva Luna descreve não são perfeitas. Apaixonam-se pela pessoa errada, deixam o certo pelo incerto, matam por razões que nos convencem. Pareceram-me pessoas normais. Sem portos seguros a não ser elas próprias.
 
Eva Luna entra-lhes pela alma e pelo corpo adentro com palavras onde me encaixo, onde me revejo. Palavras que, muitas vezes, gostava que fossem minhas. Assim:
 
“Pensas em palavras, para ti a linguagem é um fio inesgotável que teces como se a vida se fizesse ao contá-la.”
 
“ - Conta-me um conto – digo-te.
- Como queres que ele seja?
- Conta-me um conto que nunca contasses a ninguém.”
 
“Recusou-se com uma determinação suicida a perceber o desfazer da realidade, empenhada em embelezar cada instante com palavras já que não podia fazê-lo de outro modo”.
 
“-Dá-lhe qualquer coisa que ela não tenha.
- O quê, por exemplo?
- Um bom motivo para rir, isso nunca falha com as mulheres.”
 
“Há histórias de toda a espécie. Algumas nascem ao ser contadas, a sua substância é a linguagem e antes que alguém as ponha em palavras são apenas uma emoção, um capricho da mente, uma imagem ou uma reminiscência intangível. Outras chegam completas, como maçãs, e podem repetir-se até ao infinito sem risco de alterar o seu sentido. Existem umas que são tomadas pela realidade e processadas pela inspiração, enquanto outras nascem de um instante de inspiração e se transformam em realidade ao ser contadas. E há histórias secretas que permanecem ocultas nas sombras da memória, são como organismos vivos, nascem-lhes raízes, tentáculos, enchem-se de aderências e parasitas e com o tempo transformam-se em matéria de pesadelos. Por vezes, para exorcizar os demónios de uma recordação, é necessário contá-la como um conto.”
 
“Julgo que a lente da máquina tinha um efeito estranho nele, como se o transportasse a outro tempo, do qual ele podia ver os acontecimentos sem participar realmente neles. Ao conhecê-lo melhor compreendi que essa distância fictícia mantinha-o a salvo das suas próprias emoções.”
 
- - - - - - - - - - - - - -
 
Estou pelo meu Alentejo. A dançar entre divisões com a minha mana, com metade do cabelo que tinha de manhã, em modo repeat, ao som disto:
Lá fora: oiço histórias com príncipes e princesas...
L. às 22:05
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7 comentários:
De Pedro Neves a 1 de Fevereiro de 2010 às 17:14
Boa tarde,

O se perguntarem por mim está em destaque nos Blogs do SAPO, em http://blogs.sapo.pt

Parabéns e boa continuação :)

Pedro
De L. a 2 de Fevereiro de 2010 às 10:46
Obrigada!

*,
L.
De empresa tratamiento de aguas madrid a 2 de Fevereiro de 2010 às 08:43
Era o que precisava, voar, voar... como de faz?
De L. a 4 de Fevereiro de 2010 às 15:14
É só tomar balanço e depois as asas fazem o resto... :)
De Sophie a 2 de Fevereiro de 2010 às 12:18
E' o melhor livro que li em toda a minha vida (e acredita que desde muito cedo sempre li muito) Agora ando a ver se consigo ler todos os restantes dele. Ja' li o After Dark, depois do Norwegian Wood, e neste momento estou a ler A sul da fronteira, A oeste do sol. O Haruki Murakami tem uma forma muito peculiar de misturar o ridiculo do quotidiano com um tipo de fantasia, mais para adultos. Eu adoro :)
Quanto a agenda tambem tive dificuldade em encontrar uma que se adequasse a minha necessidade de escrita mas lá encontrei, mais uma vez, a de Paulo Coelho, que este ano se chama Inspiraçao.

Bem desculpa a invasao, mas raramente vejo leitores do Haruki Murakami! Boas leituras^^
De L. a 2 de Fevereiro de 2010 às 16:11
Eu gosto de invasões :) "A sul da fronteira, a oeste do sol" é o meu preferido... :) http://fly2neverland.blogs.sapo.pt/37394.html
De Sophie a 2 de Fevereiro de 2010 às 19:28
Ainda estou a le.lo, mas duvido que alguma vez algum livro consiga ter o significado que o Norwegian Wood tem para mim :$

Bem, vou acompanhando o teu blog sempre que puder! Se quiseres passa pelo meu tambem^^

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