Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

.Dias

 

 

Há dias em que me pergunto: “L., onde estavas com a cabeça quando voltaste a estudar?”. Ando cansada, já o confessei a mim mesma. Há dias em que não sei como faço o trajecto da minha cama até ao chuveiro. Às 05:45, quando o meu corpo pede só mais 5 minutos, o meu cérebro obriga-se a pensar em todas as razões que tenho para acordar, feliz de preferência. É desses pensamentos que a água que vai caindo me desperta e me lembra o que a noite lá fora teima em esconder: é um novo dia.
 
Quando chego a casa à meia noite, quando perco os comboios e fico à espera tanto tempo sozinha, quando não tenho forças para nada, quando a única coisa que penso é em dormir e não faço mais do que bocejar, amaldiçoo o dia em que me inscrevi nas aulas.
 
Ontem obriguei-me a fazer um exercício: pensar em tudo o que já ganhei desde que voltei a estudar e de que forma isso influenciou a minha vida. E percebi que há mais coisas positivas do que desmotivadoras. Voltar a estudar é, por si só, uma vitória. Penso nas pessoas que gostavam de voltar a fazê-lo e não podem. Conhecer pessoas. Se há coisa que eu gosto, é de pessoas. E tenho conhecido muitas, de várias idades, com histórias de vida e experiências fascinantes. Os professores. É giro não ter de andar com calhamaços atrás, estar ali mais para aprender a experiência profissional e pessoal de cada um do que decorar teorias sem qualquer aplicação prática.
 
Na segunda-feira recebemos um módulo novo, um professor novo. Entrámos na área do protocolo. “Introdução ao Protocolo”. Confesso que, ao início, fiquei irritada com o atraso dele, com a falta de fotocópias. Como é que alguém assim podia dar aulas de protocolo? Talvez estivesse irritada por estar a faltar a uma coisa importante, ao aniversário da avó do C. que completou 85 anos. Mas fiquei na aula e resisti mesmo depois de um intervalo de 30 minutos.
 
Ontem voltou a ter aula connosco. E voltou a chegar atrasado. Foi um dia mau no trabalho: más notícias nos jornais, acidentes, tudo aconteceu. E senti que precisava mesmo daquela aula, daqueles colegas, de uma coisa diferente. Por isso resolvi não me irritar e absorver o máximo daquela aula. E consegui. Ou tentei. Porque me irritei a sério com o burburinho de algumas colegas. Ver algumas delas a folhear livros, a estudar para o exame da próxima semana, a não ouvir o professor nem a responder quando ele lhes falava, deixou-me um bocadinho irritada. Soou-me a desrespeito. Por ele e por nós. Depois do intervalo, tal como na aula de segunda-feira, o número de pessoas ficou reduzido a metade. Perderam o documentário sobre a organização da visita da rainha, os convites verdadeiros enviados pelos Gabinetes do Presidente da República, do Primeiro-ministro, dos vários Ministérios. Perderam as histórias engraçadas, o que se faz quando tudo se altera à última da hora, os desvios ao protocolo. Eu ganhei tudo isto.
 
Quando o relógio bateu as dez, fiz o de sempre: peguei nos saquinhos, iPod nos ouvidos, e corri para o metro. Perdi-o por segundos, mas talvez tudo tenha mesmo uma razão de ser. Pouco depois, chegou ali o professor com uma colega minha de turma. Ela saiu mais cedo, mas ele continuou comigo até quase ao final da linha. Parecia-me desiludido, inseguro, com a cabeça escondida entre o cachecol. Perguntou-me o que tinha achado da aula, que nunca tinha tido tão pouco feedback de uma turma, que sentiu que metade das pessoas não o tinha ouvido e a outra metade tinha desistido. E eu, peguei num bocadinho das últimas forças que me restavam (não todas, porque ainda faltava correr para o comboio), e disse-lhe que sim. Que tinha gostado. Que achava muito interessante. Que me seria muito útil no trabalho. Que na primeira aula tinha faltado a uma coisa muito importante para estar ali. Que acordar cedo e chegar tão tarde a casa não me tinham impedido de marcar presença mais uma vez. Que ele não se preocupasse que provavelmente aquelas reacções eram justificadas pelo cansaço e pela proximidade do exame. Nunca me tinha imaginado assim. A animar um professor. Mas valeu a pena, porque, antes de ele sair, consegui ver um sorriso.
 
Entretanto a paragem dele chegou. “Tem cartão?”. Cartão? Peço desculpa, não estou a perceber. “Cartão pessoal, com contactos”. Percebi então que não estou assim tão crescida quanto pensava: não tenho um cartão pessoal. Não, não tenho. “E como é que se chama?”. L. P.. “Não me vou esquecer de si”. Eu também não.
 
E depois foi tudo igual. Saí em Santa Apolónia, corri para o comboio e não consegui adormecer em toda a viagem. Fui passando as músicas do iPod, sempre em modo aleatório, até encontrar as que mais gosto. Hoje voltei a desligar o despertador às 05:45. A desejar só mais 5 minutos. A encontrar-me debaixo do chuveiro perdida em mil pensamentos com um só objectivo: convencer-me que este dia vai valer a pena.

 

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L. às 12:57
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2 comentários:
De descalça a 30 de Janeiro de 2010 às 13:59
Voltar a estudar vale sempre a pena. Sobretudo, quando o fazemos com vontade de aprender, de absorver o que os outros (professores ou colegas) têm para partilhar connosco. Sempre gostei de estudar; até fazer a licenciatura e depois dela. Fiquei feliz por saber que não sou a única que se irrita com o burburinho ou desinteresse descarado de alguns colegas que, apesar de adultos, ainda não sabem gostar de aprender.
Parabéns pela força de vontade e pela forma positiva como olhas para a vida.
De L. a 4 de Fevereiro de 2010 às 15:15
Obrigada :) E por passar por aqui também... *

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