Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

.A mAna Luísa

 

Eu e a minha mana somos muito diferentes. Por dentro e por fora. Às vezes, passam por nós na rua e dizem “ah, são gémeas?”. E nós rimos muito. Porque se há duas pessoas diferentes, por dentro e por fora, essas pessoas somos nós. E dizemo-lo com toda a certeza. Porque se há pessoas que se conhecem uma à outra, essas pessoas somos nós.
A minha mAna Luísa veio ao mundo sem eu pedir. Entrou-me pelo quarto e pelo coração adentro sem quaisquer tipo de cerimónias. E se consegui que ela saísse do meu quarto, tenho outros sítios de onde não quero que ela parta nunca.
A minha mana não é muito dada a demonstrações de carinho. Por norma, acha as coisas que lhe digo “pirosas”, “sentimentalóides” ou “muito lamechas”. Não é por isso que deixo de lhas dizer, apesar de dizer menos. Nas mensagens ou nos telefonemas, arrisco quase sempre um “gosto de ti” muito rápido no final, para não lhe dar tempo de responder. Lá em casa, apesar de a conhecermos tão bem, ainda nos consegue surpreender com uma má resposta. E ela pode vir a qualquer momento. E sair em qualquer direcção. Porque ela não mede as coisas que diz. Nós, habituados que estamos, fazemos por rir. Mas que às vezes magoa, isso não podemos negar.
A minha mAna Luísa também tem momentos ‘sim’. Acontecem, principalmente, quando não estamos à espera, sem defesas. Assim do nada, muito raramente, agarra-se a nós, dá-nos beijinhos, telefona e até diz que gosta de nós. E nós esquecemos todos os outros momentos. No outro dia, discutiu com a mãe só porque me queria abrir a porta e até confessou que as semanas lhe correm mal quando não me vê ao fim-de-semana.
Sei que há irmãos que não se dão bem. E não sei bem como e quando chegámos a esta nossa relação. Acho que desde sempre. Lembro-me de partilharmos segredos desde sempre. De começarmos a cantar a mesma música do nada. De pressentirmos, mesmo à distância, que a outra não está bem. De ela ficar com febre quando eu ia de férias para longe. De dizermos que somos gémeas com seis anos de diferença.
Sei que detesta o nome que eu lhe escolhi – “ou uma coisa ou outra, agora os dois juntos é que não”. Sei que, por norma, não gosta da roupa que eu compro. Sei, também, que passadas duas semanas, no máximo, usa essa mesma roupa. Sei que não gosta dos caracóis no cabelo. Nem de andar às compras. Sei tantas coisas sem jeito nenhum. Sei todas as outras também.
Tenho muito orgulho na minha mAna Luísa. De tudo o que ela faz, de tudo o que ela é. Sei que ela detesta que a comparem a mim. E compreendo. Cada uma de nós é única e gostamos de assim o ser. E ser mana mais nova é difícil: ter de ouvir os pais e os professores a lembrarem-nos que a mana mais velha fez assim e assado e ela também devia fazer não deve ser fácil. Quando passou para a escola longe da terra e lhe perguntavam quem era, tentava explicar de todas as maneiras possíveis sem passar por mim. O meu primo F. era mais directo, “sou primo da L., aquela rapariga que teve um 20 no exame nacional de não sei o quê”. E eu não lhe levo a mal. A nenhum dos dois. Não duvido que ela goste de mim e que se orgulhe de alguma maneira. Mesmo que não o diga ou mostre muitas vezes. Apenas gosta de ser ela sem comparações.
Quando os meus pais souberam que eu tenho um blog, ela, que estava com a gente, foi muito directa: “não tenho paciência para essas coisas”. Que não tem culpa de não ser “beijoqueira” e “dada a sensibilidades” como eu – já lhe chega ter de dar beijinhos a toda a gente quando anda comigo e ter de parar em todo lado para falar com toda a gente só porque eu o faço. Agora ler-me? Há mais para fazer.
Ontem liguei-lhe. Estava com saudades dela e queria contar-lhe, uma vez mais, como o mundo é tão pequeno. E ela sai-se com esta: “hoje li uma coisa tua na aula”. Uma coisa minha? Na aula? “Sim, tinha de ler um texto de alguém e escolhi um teu do blog”. Mas tu vais ao meu blog? “Sim, eles gostaram muito”. E disseste que era meu? “Claro, disse que era da minha irmã”. E se eu não estivesse no meio de uma loja cheia de gente, talvez tivesse saído uma lagrimita. Assim, só sorri. E nem lhe agradeci.
A mAna Luísa diz-nos sempre uma coisa muito certa. Que não precisa de ser lamechas como eu para provar que gosta, bastam as acções. E eu, às vezes, esqueço-me desta faceta dela. E quando vem de lá uma, sou sempre surpreendida. Não que eu precise que ela me diga o que quer que seja. Muito menos que gosta de mim. Sei-o. Adivinho-o muito antes de ela o dizer. Como ela me adivinha a mim.
Se há duas pessoas diferentes, por dentro e por fora, essas pessoas somos nós. Se há duas pessoas que se conhecem uma à outra, não duvido que sejamos nós. Se há pessoas que gostam uma da outra, sem dúvida, que essas pessoas somos nós. Eu e a minha mAna Luísa.

 

L. às 15:02
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6 comentários:
De R. a 17 de Janeiro de 2010 às 19:11
não percebi logo o "mAna Luisa", mas quando percebi achei genial!

(tmb gosto de te ler, e ainda bem que continuas a escrever por aqui..)
De L. a 20 de Janeiro de 2010 às 11:23
O mérito é todo do meu papá :) Foi ele que chegou ao mAna Luísa. O meu nem conto... :)
De T. a 18 de Janeiro de 2010 às 21:29
Querida L.,

O tempo tem passado e a minha vida não tem permitido comentar o que tão bem vais escrevendo. No entanto, quero que saibas que continuo a ler-te, com todo o gosto.
Em muitas vezes me identifiquei contigo e com o que li. Comprei a minha agenda no mesmo dia que tu :) E a verdade é que tambem ja andava em panico por nao ter onde apontar todas aquelas coisas as quais quase ninguem liga, mas que para mim tem tanta importancia. E mais uma coincidencia: estive muito indecisa entre uma igual à tua e uma outra. Decidi-me pela outra porque ajudava uma fundação. Enfim... Continuo a ler-te! Quero que saibas isso! Fico à espera do dia do pastel de massa tenra ;)

Um beijinho*

T.
De L. a 19 de Janeiro de 2010 às 15:51
O melhor é usarmos a nossa agenda para marcar já o dia do pastel de massa tenra... :) [Parabéns pelo teu blog, vou passando por lá]
De Olga S. a 19 de Janeiro de 2010 às 17:22
Fazes com que eu lembre tudo aquilo que não quero esquecer...tudo o que é essencial na vida.
Obrigada.



De L. a 28 de Janeiro de 2010 às 11:50
Eu é que agradeço por continuares a passar por aqui... :) *

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