Sábado, 2 de Janeiro de 2010

.D. Violinda

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A D. Violinda morava numas Casas Novas só de nome. Ali, entre a avó da Cátia e a avó da Milene, ficava a casinha dela, a avó do Rui. A volta do pão começa todos os dias às 08:00. Primeiro pelo Alto da Mata, depois por ali, numa estrada onde um só carro não consegue equilibrar-se em cima do alcatrão. A D. Violinda raramente esperava pelo apito da carrinha. De talego na mão, abria o portão quando ainda estávamos no inicio da rua, e ficava à conversa com as vizinhas enquanto o pão não chegava. A D. Violinda pintava o muro de branco todos os anos, no Verão. E eu, quando acordava cedo e me encaixava no banco da frente da carrinha ao lado da caixa dos trocos e das embalagens de leite, bem vestida ou de pijama, fazia questão de a ajudar. Se me der uma fatia de pão com manteiga, eu ajudo-a a pintar o muro. E ela tinha os dois trabalhos sem reclamar de qualquer um. A D. Violinda foi-me vendo crescer enquanto diminuía, com uma certeza: que não havia de morrer enquanto não me visse na televisão. Isto porque, enquanto a via barrar o meu pão ou molhar o pincel para me passar para as mãos, eu contava-lhe as novidades e os meus sonhos. E ela sabia que o meu era ser jornalista. Foi por isso que no dia em que saí para a rua de microfone na mão para perguntar às pessoas o que achavam das taxas bancárias – no dia em que, de acordo com o jornalista da peça, as minhas perguntas tinham sido tão boas que se ia ouvir a minha voz e até ia aparecer assim de lado no jornal da hora de almoço da SIC -, eu liguei para a minha mãe. E, naquele dia, foram muitas as minhas colegas de pequeno-almoço que se reuniram em frente à televisão para me ver. A D. Violinda também. Na sexta-feira, chegou 2010. E a D. Violinda partiu. Comemorou com os vizinhos a chegada de mais um ano novo, e depois, quando chegou a casa, sentou-se na cadeira, de cacheira na mão, na mesma posição em que a encontraram de manhã, depois de tirarem algumas telhas para entrar. Há quem diga que foi uma “morte santa”. Que não sofreu. Disso não sei, nem percebo. Sei que estou triste. Que na próxima vez que abrir espaço entre as encomendas na carrinha, com a caixa dos trocos na mão, não vamos parar na casa dela nem ouvi-la dizer como estou crescida e perguntar-me quando volto à televisão, porque me saí tão bem daquela vez que se percebeu logo que eu nasci para aquilo. Mas, quando penso nela, fico com um sorriso. Gosto desta sensação de dever cumprido. De saber que não (lhe) falhei. Num beijinho, num dedo de conversa, numa fatia de pão ou numa simples pincelada, eu estive lá. Com a D. Violinda.
[Quando contaram a notícia, a pequena L. de 4 anos estava lá, e disse: "tenho de contar ao meu pai". Mas o teu pai nem a conhece. "Conhece sim, que tem o cd dela* no carro. Agora já não canta".]
 
*Deolinda
Estou:
L. às 21:33
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