Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

.Dunas [ou soltas]

 

.Na quarta-feira vim para o meu Alentejo. Acordei cedo, fiz a mala seguindo a lista escrita no dia anterior da minha agenda, e deixei a casa ‘arrumadinha’. Liguei o rádio enquanto me vestia e fui dançando sozinha entre os dois quartos, a procurar as calças, o casaco, os sapatos… As notícias interromperam o meu solo: acidentes por todo o lado. Apesar da via verde já estar ligada à nossa conta, a auto-estrada pareceu-me a melhor opção. E entrei no carro. Ajustei o banco, os espelhos, o cinto, procurei os óculos de sol na mala, pus um daqueles cds que tem tunas, fados, músicas infantis, músicas da minha vida e músicas-só-para-a-Curia, liguei o meu iPod ao rádio também, e fiz-me à estrada. Avisas-me quando saíres de casa para estar descansada? Sim. Mas não, não avisei. E fui. Apanhei a ponte nova e saí a tempo de apanhar um dos meus caminhos preferidos. A estrada que o autocarro fazia nos meus tempos de estudante. Choveu o bocadinho suficiente para lavar o vidro do carro. E fui cantando, uma após uma, as músicas que me iam oferecendo. All I want for Christmas is you. E quando eu passei a placa das C., ele brilhou só para mim, o sol.

 
.Na quarta-feira estava entretida no meu quarto. A mana, a afilhada e a pequena L. faziam-me companhia no “quarto das luas”. Desce! O quê? Desce! E desci. À minha espera estava o M.. O M. é um amigo dos meus pais. Conheço-o há muito tempo, desde sempre talvez. Passámos férias juntos e lembro-me que sempre gostei dele – talvez porque me deixava pegar na máquina de filmar sem reclamar. O M. tem um filho da minha idade, e foram muitas as tardes que passei a brincar na tenda do Mickey que ele tinha no quarto. O M., não há muito tempo, levou um tiro. Muitos, até. Daqueles que deixam marcas na carne e na alma. É um sobrevivente, e luta por isso todos os dias. Numa das muitas estadas pelo hospital, fui visitá-lo. Debaixo do braço, levava apenas uma flor e um sorriso. Foi uma coisa muito simples. Fui visitá-lo. Porque achei que era bom ele ver uma cara conhecida no meio de toda aquela solidão. Eu e o M. nunca tínhamos falado nisso, foi apenas uma visita. Até quarta-feira. Ali estava ele com o meu pai, à minha espera, para um abraço. E começou a falar. O M. ficou sem parte da boca, que tem vindo a reconstruir com o tempo. Agora que a tristeza já o deixou um bocadinho mais, fala para nós sem problemas. Às vezes tenho medo de não o perceber, de ele levar a mal. Mas, desta vez, percebi tudo. Que eu era uma menina muito bonita e especial, e que tinha ficado no coração dele desde o dia em que fiz aquela visita de flor na mão – não mudes nunca, disse-me ele. E eu fui forte. E sorri entre o abraço molhado dele. Foi só uma visita, disse eu. E ele disse-me: as visitas mudam os dias e as vidas. E sorri mais uma vez, enquanto pensei que não ia chorar neste Natal.
 
.Cada vez mais penso que a vida [ou muitas coisas dela] funciona como os comboios da CP. Na maior parte dos dias, eu chego adiantada, a horas ou mesmo em cima da hora. E espero, ansiosamente, que eles respeitem este meu horário. Mas se, por algum acaso, eu me atraso, não há santinho a que eu não reze para que ele não se atrase também.  
 
.Cada vez menos percebo a vida. Prega rasteiras, empurrões, ultrapassa-me ou deixa-me chegar primeiro, e eu sem perceber como funciona. Há razões para isto ou para aquilo? Há realmente razões para se perder uma carteira? Há motivos para os apertos que se sentem no peito?
 
.Este ano o nosso Natal foi diferente. No final da noite, tive de dispensar o meu quarto e, por isso, não pude fazer o de sempre: estender-me na cama, rodeada das minhas prendas, ler as dedicatórias, chorar um bocadinho e adormecer. Este ano o nosso Natal foi diferente. Tivemos visitas novas, que aderiram ao peru recheado, à minha mãe vestida de Pai Natal e às prendas antes da meia-noite. Este ano o nosso Natal foi diferente. A nossa música oficial foi “Dunas”. E isto por uma razão muito simples: é a única que a minha mana já consegue tocar inteirinha na viola. Lamechices ou não, a verdade é que fico emocionada. Desde miúdas que respiramos música. No rancho, na aparelhagem onde aprendemos cedo a passar os discos dos pais, na concertina ou na gaita do avô, nos duches que tomávamos juntas, nos bailaricos da terra, nas saídas as duas. Mas tocar? Nada, zero, uma e outra. E, este ano, a miúda decidiu mudar isso. E já toca as “Dunas”, arranha “O Anzol” e ameaça com Metallica. Confesso, tenho orgulho na miúda, que já fala em notas e em escalas e em coisas que nunca hei-de perceber. Por isso, este Natal, cantámos as “Dunas”. A cada visita, lá íamos buscar a viola. Eu alternava entre a máquina fotográfica e o canto. Ela alternava entre as cordas. E acho que nos safámos.
 
.Este ano, em tantas coisas, o Natal foi igual ao de sempre. Ou normal. E normal é bom, digo eu com convicção [até que me provem o contrário]. Este ano o Natal foi igual ao de sempre. E até chorei. No momento em que vi a mana sair pela porta, rumo à vida de grande, em pleno dia de Natal.
 
.Talvez a vida não passe disto mesmo. De dunas. De biombos indiscretos. De areia que se deixar levar pelo vento. Que fica, que parte, consoante ele quer. De dias que passam a correr e de momentos em câmara lenta, como na TV. E de frases soltas.
Lá fora: "nas dunas (...)"
L. às 23:19
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2 comentários:
De david. a 25 de Dezembro de 2009 às 23:38
Ainda bem que gostaste. Fico especialmente contente por isso, acredita. Eu gosto sempre de te ler, basicamente tens o único blog que leio, não perco um post que seja...
Bom natal! =D
De L. a 25 de Dezembro de 2009 às 23:50
Gostei muito mesmo... Às vezes essas coisas também me passam pela cabeça, lol :)

Feliz Natal David! E obrigada!

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