Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

.Destino

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De vez em quando sinto vontade de voltar às minhas caixas de recordações. Para além das cartas, dos bilhetes, das fotos, dos momentos palpáveis, vou guardando cds e pens onde ‘encaixoto’ as recordações virtuais. Esta semana encontrei o meu primeiro trabalho jornalístico da faculdade, datado de 2002, num desses cds. É uma coisa um bocadinho triste – o prof. Nelson Traquina não hesitou em dar-me um mísero 15. Uma reportagem sobre nós próprios, contada na terceira pessoal do singular. E saiu isto. Só lhe consegui arrancar uma melhor nota com temas bastante macabros, como assassinatos e outras coisas que tais. Lembro-me do 18 que me deu por ter sido eu a única a colocar no lead a carta onde uma jovem mãe confessava porque tinha morto os filhos e o marido e se suicidava a seguir. Foi nesse dia que percebi que o meu destino passava pelo Correio da Manhã ou pelo 24 Horas. Não passou, pelo menos por enquanto. Já passou pelos bancos, pela televisão, pela escrita sobre barcos, agora pelos ‘cidadãos estrangeiros’.
Nos últimos tempos, senti-me um bocadinho parada. Sem um objectivo, sem nada diferente para fazer, sem nada para estudar. Todas as coisas sobre as quais fui organizando os meus dias terminaram – a catequese, o rancho, os mil e um empregos, as mil e uma actividades. Agora, limito-me a correr. A correr para o comboio, a correr para o autocarro, a correr para o trabalho, a correr para terminar a revista de imprensa a horas, a correr para o trajecto inverso, a correr para fazer o jantar, lavar, limpar, arrumar, namorar. Por isso decidi voltar a estudar. E no dia 18 lá estarei eu, de volta à faculdade, para uma pós-graduação. Deixei de lado aquilo que pensei ser o meu destino, o jornalismo. Pelo menos por enquanto – parece-me a mim, e vou arriscar “Imagem, Protocolo e Organização de Eventos”.
Confesso que me sinto um bocadinho perdida. Atrás de mim, nos últimos dias, andam uns apontamentos para um Concurso. Leis e mais leis. Em casa as impressões feitas há meses impedem o pó de cair na estante. Porque me inscrevi? Pergunto-me todos os dias. Os mesmo dias em que todos me dizem para estudar. Não me sinto motivada. Talvez por ter quase a certeza que não vou conseguir superar este objectivo e isso me custar um bocadinho. Nunca fui de negativas, nem de ficar pelo caminho, mas quase que adivinho um ponto final nesta história. E o medo de desiludir os que me rodeiam não me deixa. Quem sou eu, uma entre milhares, para conseguir uma das 30 vagas? E, caso o milagre aconteça, estarei eu à altura deste novo desafio? Continuo a arrastar as cópias já amachucadas de tantas viagens e de tão pouco uso. Talvez a publicação da data final das provas me traga um empenho a sério. Por hoje, fico por aqui. À espera que ele decida o melhor para fazer comigo. Ele, o destino.
 
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“Quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto, mas quem conta uma vida, decididamente, fica com muito por dizer. Mais ainda quando essa vida está no inicio e tem ainda muitos caminhos por percorrer, muitas escolhas por fazer. A L. mora algures no Alentejo, tem dezanove anos e ajudou a perceber o dia e a mentalidade de um jovem no interior.
O facto de os bisavós terem uma padaria e mercearia, que começou por ser a única na aldeia, influenciou-a sem dúvida. Diz com orgulho, que foi naquela loja que a aldeia teve pela primeira vez acesso a uma televisão e pôde ver o homem chegar à lua. A “Casa Silva” deu-lhe assim a possibilidade de conhecer toda a gente e de se tornar uma neta daqueles velhos clientes habituais. O sol continua a tocar a planície alentejana que serviu de fundo a esta entrevista. Acrescenta, com um sorriso nos lábios, que talvez tenha sido este contacto de aldeia que lhe deu o bichinho das novidades, das vidas alheias, de estar em cima do acontecimento – do jornalismo, que quer seguir desde o terceiro ano.
A loja trouxe-lhe ainda a possibilidade de lidar com um grande homem, o avô paterno. Foi naquelas idas à praça, todas as manhãs durante alguns anos, que se estabeleceram conversas, trocaram-se conhecimentos, criou-se uma grande amizade, que nem mesmo a doença e a morte conseguiram destruir.
C. L.. Escrito desta maneira, parece nem vir no mapa, mas esta terrinha alentejana, já na fronteira com o Ribatejo, nunca se apresentou como uma limitação para a L.. O Rancho Folclórico da aldeia, o qual frequenta há catorze anos, mostrou-lhe o país de uma ponta à outra, possibilitou-lhe o contacto com outras pessoas, outras culturas e hoje diz-se uma pessoa de mente aberta.
Enquanto apanha os caracóis no elástico e conta que o cabelo é mesmo a única coisa que gosta, aproveita para contar os seus defeitos. Diz quem a conhece que o pior é mesmo a facilidade com que amua, consequência de uma teimosia e de um orgulho extremos. “Entre triste e contente, ela muda de humor com a mesma rapidez com que se lhe dá uma critica… ou um sorriso. Mas parece que ambos se convertem na motivação para o próximo passo. Curioso…!”, conta-nos um amigo, o C..
Sentada à porta de um dos moinhos centenários da aldeia, conta que a sua maior qualidade é a capacidade de iniciativa. Lembra com saudade que, nas duas escolas que frequentou nas C., organizava semanalmente teatros, festas e outras actividades que permitiram tornar os dias quentes do Alentejo mais divertidos. Viver num mundo à parte, não tem só vantagens. Para continuar os estudos, era necessário sair bem cedo de casa, não só na hora como também na idade. Mas não foi isso que a abalou e em M., participou no jornal da escola para não dar férias à criatividade.
A poesia, sempre fez parte da sua vida, gosto que adquiriu com um livro de sonetos de Florbela Espanca. Pode mesmo dizer-se que todas as mulheres que admira são alentejanas, a poetisa Florbela Espanca, a mãe e as avós. “Tinha 6 anos e já fazia versos para os meus amigos, nas festas de aniversário”, conta-nos enquanto passamos pela escola primária. Recorda que a sua professora do primeiro ano lhe ofereceu um livro do poeta António Aleixo, devido ao seu gosto pela leitura, e que o gosto pelas quadras acabou por pegar.
Depois de ter entrado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa, na licenciatura de Ciências da Comunicação, o tempo que passa na aldeia é cada vez mais diminuto. No entanto, isso não a impede de dar catequese ao 5º ano e de organizar algumas festas em conjunto com os amigos: “Tentamos que a vida na aldeia seja uma experiência agradável para todos. A maior parte das pessoas só conhece a parte dura da vida, o trabalho no campo, muitas vezes ainda de sol a sol. Os bailes e as festas, além de um excelente ponto de encontro, ajudam a esquecer ou a calar os sonhos e as vidas que não puderam viver”. A descoberta de que a L. costuma apresentar algumas destas festas, fez pensar que o seu objectivo com o curso de Jornalismo seria chegar a pivot, coisa que tratou de esclarecer: “Já pensei nisso algumas vezes. Mas confesso que há outras coisas que me fascinam muito mais na profissão. O jornalismo de investigação parece-me ser uma boa opção.” Com alguma tristeza por parte da mãe, segredou ainda que não hesitaria numa reportagem de risco, como a de guerra.
O curso há muito que estava escolhido, a escolha da faculdade foi aconselhada pela professora de português do secundário, antiga estudante da Universidade Nova de Lisboa. Conta que nem tudo foi mau na chegada à capital, o facto de ter ido morar com três antigas colegas de secundário, tornou mais fácil a adaptação à cidade, ajudou a controlar a falta da família e dos amigos e a enfrentar os problemas inerentes à vida longe de “casa”. A Tuna da faculdade, com todo o convívio e amizade que proporciona, apresentou-se-lhe como uma verdadeira terapia para suportar as saudades do Alentejo.
Vícios? “É o que não me falta”, acrescenta a sorrir. O telemóvel é um companheiro inseparável. Confidenciou ainda ser uma consumidora compulsiva, dificilmente resiste a roupa. A lua, talvez por ser regente do signo caranguejo, tem um papel fundamental na sua vida, as paredes do seu quarto são partilhadas, tanto por tudo o que diz respeito a este magnifico satélite do planeta Terra, como por fotografias: “Sou incapaz de não trazer fotografias das pessoas mais importantes comigo. Fotografo tudo, sou capaz de gastar rolos e rolos com pormenores que parecem insignificantes”.
O Sporting é outra das suas grandes paixões, talvez por influência do pai, que sempre a levou ao estádio: “Vou aos jogos sempre que posso, é viciante. Costumam dizer-me que não é normal uma rapariga tão entusiasta em relação ao futebol”.
Não podíamos deixar de falar no amor. Enquanto passa em frente à nova igreja, construída com a ajuda de toda a população, confessou, com uma enorme gargalhada, ser muito namoradeira. Disse ter como grande exemplo o amor dos pais, casados desde os 16 anos e com amor para durar. Deste casamento, resultou ainda uma pessoa muito especial, a sua irmã. Apesar dos 6 anos que as separam, L. não tem problemas em afirmar que é mesmo a sua melhor amiga. “Como acontece na maior parte das aldeias, as pessoas acabam por casar com conterrâneos, tornando a população numa grande família. Encontramos sempre algum grau de parentesco”, justifica assim a sua sorte em ter crescido perto dos familiares mais chegados, como os avós, sempre com tanto para ensinar.
Continua a caminhar pela aldeia. A L. pára e indica o sítio onde foi construída a primeira casa da aldeia, feita de cortiça, ainda hoje a base da economia desta pequena população. Diz que, se pudesse escolher, teria nascido exactamente ali. José Saramago, no seu livro “Levantado do Chão”, fala-nos do Monte das C. e diz que no cimo daquele pinhal, é possível ver Lisboa, “ (…) quem diria, nós que pensávamos morar no cabo do mundo”.”
Estou:
Lá fora: Vai partir da linha nº5 o comboio com destino a...
L. às 12:16
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1 comentário:
De .Entre o Aqui e o Ali a 5 de Novembro de 2009 às 14:06
Porque será que esse sentimento também me é familiar? De que se corre para isto e para aquilo, e que a vida acaba por nos passar um pouco ao lado! Levanta, banho, come, conduz, abre fábrica, liga fornos, abre portão, vê temperaturas, confere stocks.... etc etc..
Acho que fazes muito bem.. Há que agarrar o relógio da vida e cultivar a nossa profissão.. Seja ela jornalista, economista ou qualquer outra coisa acabada em "ista".

Beijo grande **

V.

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