Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

.Mentiras, probabilidades e borboletas

 [elotopia.net]
 
Se pudesse, queria dizer-te que estava um dia lindo. Que estava o sol de Inverno mais quente que já vi. Que não corria uma aragem. E sabes como aquela zona é ventosa. Queria dizer-te que estava um dia lindo. E que não podiam ser dadas más notícias em dias assim. [L., não uses borboletas no cabelo, dão azar] Mas não pude. Em vez disso, disse-te que tinha acordado cedo para passar a ferro. E tu acreditaste. Tu, que apanhas todas as minhas mentiras, acreditaste. Apanhei o mesmo comboio, mas não saí a meio. Deixei-me ir até ao final e pude acompanhar mais um bocadinho do trajecto daqueles que me acompanham todos os dias. Fui à descoberta, e, depois de uma corrida por Alcântara, encontrei a paragem do 15. [L., não compres essa blusa com borboletas, dão azar] À porta do Hospital liguei-te mais uma vez. Que sim, já tinha passado muita coisa, fizeram boa viagem? E foi quando bati à janela do carro onde estavas com o pai, que percebi que tinhas acreditado mesmo em mim. Voltei ao hospital, contigo, numa estranha correria para apanhar as passadas do pai. E aguardámos naquele corredor com um cheiro gasto a doença e a desinfectante, numa dança de cadeiras que parecia não mais ter fim. Ficaste numa ponta, eu e o pai na outra. Depois vieste para perto de mim para partilharmos a revista, enquanto alguém se sentava no lugar do pai numa ida à casa de banho. Levantaste-te para ir ao guichet e só quando alguém saiu de vez consegui regressar ao teu ombro. [L., lá estás tu com as borboletas, dão azar] Entraste e o pai correu atrás de ti. Deve ser isto o amor, concluo eu uma vez mais. E quando os meus olhos encontraram os teus, chorámos num abraço apertadinho. Parece que há 20 por cento de hipóteses de que essa coisa em forma de borboleta que nasceu dentro de ti possa ser maligna. 20. O que é isso, digo eu a querer animar-te (me). Penso que há 80 por cento de hipóteses de não ser nada. E penso em como odeio probabilidades - quantas vezes uma equipa da terceira divisão já goleou o Sporting, contra todas as probabilidades?
Mãe. Parece que sim, que as borboletas dão azar. Parece que sim, que tens razão, uma vez mais. E agora vamos esperar, nada de lágrimas, já chega, como diz o pai repetidas vezes. Vamos esperar. A operação, o resultado e tudo mais. Juntos. Que é o que resta, quando tudo o mais se vai. E como nada disto pode ser mentira, só peço – a quem não sei, mas com muita força e muitas vozes juntas à minha – que as probabilidades acertem por uma vez e que só as asas da tua borboleta (e não as tuas) sejam cortadas. Mãe.
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L. às 12:30
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