Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

.Pecados

  @VladStudio

Nunca tive uma ideia muito dura de “pecado”. Dizer uma asneira, mentir, faltar à missa, brigar com a mana, não me esforçar o suficiente na escola. Uma lengalenga rápida e com sentido. Assim me tinha explicado a L., minha catequista por altura da primeira comunhão. Ao longo do tempo, fui adaptando os meus pecados aos dias de confissões, sempre na terrinha, por altura do Natal, da Páscoa ou em alturas de Primeiras Comunhões. Não percebia muito bem estes momentos. Deus não estava em todo o lado? Não via tudo? Não bastava pedir-lhe desculpa todas as noites nas minhas orações? Pois que não. E eu lá ia. Sempre um bocadinho antes da hora marcada, sempre com os amigos, sempre a dizer baixinho o acto de contrição para não o esquecer. Sentada em bancos de madeira que foram mudando com o tempo, assistia às pequenas brigas das senhoras que reclamavam porque alguém lhes tinha passado à frente, mesmo em dia de perdão. Esperava, pacientemente, sempre com a esperança de que não me saísse em sorte o padre da terra, que sempre me fez sentir pequenina. Quando não lhe conseguia fugir, lá vinha o interrogatório. E não respondeste mal aos pais? Não lhes tiraste dinheiro da carteira? Não tiraste nada da loja quando a avó não estava atenta? Nunca lhe contei tudo. Nem era por mal, mas tinha medo. Dele. E com Deus eu logo havia de ajustar contas. Quando chegasse altura. Afinal, ele que tudo via, ia perceber que os meus pecados nem eram assim tão graves comparados com todo o mal que andava no mundo. E ia perceber, de certezinha absoluta, que me tinha custado mesmo muito levá-los a cabo.
Foi por tudo isto que não percebi a justificação que ele (padre) deu aos pais dos meus meninos da catequese para o meu afastamento. “A L. não vai continuar com este grupo porque é uma grande pecadora”. Assim, sem mais nem menos. Com todas as letrinhas. Contado por oito pessoas, em alturas diferentes, para que não restassem dúvidas. Assim, dito em frente a amigos que não ousaram defender-me. Justificação: a L. vive com uma pessoa sem estar casada pela Igreja. E lá tive eu que reorganizar toda a ideia de pecado na minha cabeça.
Quando me mudei para a Lezíria, e o C. contou ao primito que a minha casa tinha rádios nas paredes e estores eléctricos, tive de prometer aos meus meninos que os levaria lá. Devia ter sido um fim-de-semana alegre-porque-sim e não alegre-de-despedida. Mas assim foi. Levamos os dois carros para a terrinha. Enchemo-los de meninos, de sacos-cama, de almofadas e de comidas. E regressámos apertadinhos, apertadinhos (o coração também). E foi bom. Muito bom. Os filmes, as conversas, os miminhos, os jogos, os passeios, o acampamento. Aprendi, como sempre. E espero ter-lhes ensinado alguma coisa também. Obrigada M., porque achares que a minha casa parece de novela e por teres comido a sopa toda. Obrigada T., pelas técnicas de engate e por achares que o meu arroz é melhor que o da tua mãe. Obrigada M., por quereres ser tão crescida e me arrancares tantos sorrisos. Obrigada J., porque finalmente percebeste que é bom ser pequenina e voltaste a sorrir. Obrigada S., por seres assim caladinha e teres gostado "até da fila para o banho". Obrigada N., pelas tuas gargalhadas e por nos dares música. Obrigada D., por achares que foi o “melhor” fim-de-semana da tua vida e pelo “L., serás sempre a minha catequista”. Obrigada M., por teres embarcado nesta aventura connosco. E obrigada C. e Pais por terem tornado esta aventura possível.
Chorei um bocadinho na viagem de regresso, enquanto cantávamos com a Rádio Cidade num dos carros e no outro se ouvia fado. Deixámo-los em casa, um a um. Não vou mentir e dizer que não custou. Nem dizer que é bom já não ter os fins-de-semana ocupados. Vou ter saudades. Sei que a amizade vai ficar. Mas sinto um bocadinho de inveja-da-boa por já não os acompanhar nesta fase tão importante. Por já não ter uma desculpa para estar com eles todas as semanas.
Na verdade, não me sinto uma “grande pecadora”. Peco assim um bocadinho. Digo uma asneira ou mentirinhas boas, falto à missa, brigo com a mana, não me esforço o suficiente na vida. Olho para dentro de mim e tenho a certeza. Não posso sê-lo. Sim, digo uma asneira ou mentirinhas boas, falto à missa, brigo com a mana, não me esforço o suficiente na vida. E percebo, agora sim. Nunca a lengalenga fez tanto sentido.
Estou:
Lá fora: [consigo ouvir as borboletas na minha barriga]
L. às 12:20
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2 comentários:
De . a 20 de Novembro de 2008 às 03:54
o pecado, o pecado....
De L. a 4 de Dezembro de 2008 às 17:50
Quem não os tem...? :)

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