Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

.Anjo da guarda

elotopia.net

 

 

“Peço desculpa, onde é que comprou o seu casaco?”. Eram oito e meia da manhã. Tinha acabado de me sentar num 3 que me levaria até mais um dia de trabalho. Olhei para o que trazia vestido. Já tinham passado umas horas desde que tinha escolhido a roupa e não me lembrei logo. Era o vermelho. “Sabe, é que a minha filha quer um – nuns não gosto da cor, noutros do feitio, mas esse é muito giro”. Já a tinha visto algumas vezes. Uma senhora baixinha, olhos claros, com uma ruga logo ali ao lado do sobrancelha esquerda. Muitos sacos, sempre com flores, sempre a ignorar as filas e a entrar primeiro. O cabelo louro, curto, com caracóis – curto de mais nos lados sempre que teima em mudá-lo. Sim, já a tinha visto algumas vezes, mas acho que pensei que podiam ser pessoas diferentes. Parecidas. Foi naquele dia, naqueles lugares de quatro bancos, que me senti no direito de a observar. De a conhecer, decorar aqueles traços. Afinal, tinha acabado de lhe dizer onde podia comprar o casaco. Passei a vê-la muitas vezes mais. Vezes de mais até. Sempre na minha paragem de autocarro. A apanhar o 767 quando eu apanhava. O 3 também. O 726 agora que mudei de casa. O 768 quando ia para o francês. Na paragem em frente ao trabalho. Quer eu saia a correr para apanhar o autocarro à hora certa ou me perca nas horas com a SEFtv. Quer vá ao Colombo à hora de almoço, me fique por uma ida ao banco ou uma situação qualquer me obrigue a ir a sítios diferentes. Quer vá para casa depois do trabalho, tenha uma aula de francês ou mude de paragem para ir às compras. Lá está ela. Sentada. De sacos na mão. Cheios de flores. A passar à frente e a sentar-se nos lugares vermelhos reservados. Não falámos depois daquele dia do casaco. Mas tenho sempre o meu melhor sorriso guardado, caso ela olhe para mim. O que nunca mais aconteceu. Talvez seja apenas uma série de coincidências. Ou alguém com um plano de vida, se é que isso existe, igual ao meu. Na última das hipóteses, até pode ser o meu anjo da guarda. Com uma forte tendência para transportes públicos. Não muito simpático. E batoteiro. Talvez esteja apenas a testar-me. Ontem lá estava, eram 17:34. Sentada. Com muitos sacos. Com muitas flores. Com muitos caracóis em cima e o cabelo muito curto dos lados. Hoje, na hora da saída, cedo ou tarde, na paragem do 767/3 ou do 726/768, sei que a vou encontrar. Mais uma vez. Hoje, que já cheirou a chuva e agora cheira Verão. E que teve sabor a leite de chocolate suíço logo pela amanhã.

 

Lá fora: um carro trava, a sirene toca...
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L. às 14:48
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1 comentário:
De Afonso Loureiro a 22 de Abril de 2009 às 22:07
Quase juraria ter lido Alice Vieira...

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