Domingo, 11 de Maio de 2008

.Parabéns

 

Parabéns. 24?
Pela primeira vez, não soube o que te dizer.
Fiquei ali, parada, em frente àquele mármore frio, mesmo com todo aquele sol, a olhar a tua foto já sem cor. Alguém abriu a janela e deixou lá um urso. A tua afilhada, penso eu. Fico ali, parada, e sem saber o que fazer. Começo a rezar e as frases vão-se atropelando umas às outras sem qualquer sentido. Recomeço. Páro. Olho para a tua camisa. Penso em como eras novinho ali. Quero chorar. O nó na garganta está lá e não desata. As flores cobrem o espaço todo . Eu não levei. Rio-me, quase sem querer, tu nem gostavas de flores.
Parabéns. Digo-te eu, baixinho, à espera que me oiças, onde quer que estejas. E depois, páro, uma vez mais, e penso. Parabéns? Que tola.
Olho para a foto, uma vez mais. Para o teu (quase) sorriso. O mesmo que tens em todas as fotos. Como a da minha secretária. Ali estamos. Os dois. Abraças-me e, lembro-me eu, não tinha medo de mais nada. Estamos no bairro alto. Nos meus anos. Tinha acabado de tirar o aparelho e estou com o meu melhor sorriso. Ria-me. Para a minha máquina panorâmica. Para o teu novo telemóvel. Para a S., que já tinha descalçado os sapatos de saltos altos e passeava pela calçada com o segundo par de meias do G.. Está lá, na secretária (e aqui). Olham-na e dizem-me, "é o namorado?". Não, "um amigo especial" (o melhor, como dizíamos no nosso tom Peter Pan). "E o namorado não tem ciúmes?". "O Tuto já faleceu, mas penso que não tinha". E é quando estas palavras saem, que percebo realmente que já não estás aqui.
Transformei-te no meu companheiro de viagem, no eco da minha cabeça sempre que não sei o que fazer ou falo sozinha, naquele a quem rezo todas as noites, no meu amigo invisível. Moldei-te. Moldei a tua imagem, a tua forma, as tuas palavras e transformei-as numa coisa só minha. O meu Tuto.
Queria perguntar-te tanta coisa. Estás bem? Tiveste medo? Custou? Há mesmo um outro lado? Estás bem?
Parabéns. Faz hoje um ano que te vi pela última vez. Te cheirei, te toquei, te abracei. Era mais um jantar surpresa. Sentei-me e nem reparei que estavas ao meu lado. Mais magro. Mais negro. Mais triste. Menos tu. Percebi pelo teu cheiro, sempre tão igual. Falámos, aos bocadinhos, para recuperar a força. Contaste-me tantas coisas. As tuas dores, pela primeira vez. Mas nem por uma vez percebi que aquela seria a última. Sabia-lo? Sentiste-o? Eu não. Nem quando percebi que não tinhas força sequer para abrir as prendas. Nem o meu "Principezinho" (chegaste a ler a dedicatória?).
Parabéns, Tuto. Digo-o. Baixinho. Leve. Só eu sinto os lábios que se mexem devagar. Para que ninguém o oiça. Assim como o beijo que teimo em mandar-te sempre que passo por aqui. Ninguém o ouve. Nem mesmo o C., nem a Ana, que estão logo atrás de mim. E volto. Às flores. À pedra fria. À tua foto de sorriso leve, logo abaixo da do teu avô.
Parabéns, Tuto.
E o que celebramos? A vida? A tua vida? As recordações? As nossas recordações? Dizem que recordar é viver. Se assim for, e acredito que sim, hás-de viver. Comigo. Em mim. Nas minhas recordações. Já fiz a minha escolha. Fico contigo. Debaixo do teu braço, do teu abraço. Como aquele que me dás na foto do painel vermelho da minha secretária. Enquanto me olhas, dali, todos os dias. Ou de um sítio bem mais alto.

[Parabéns] 

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L. às 17:34
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2 comentários:
De Ana Rita a 15 de Maio de 2008 às 23:43
Já há um tempo que venho aqui, à Terra do Nunca, já tenho comentado até, não sei qual foi o primeiro post que li mas com este as lágrimas vieram-me aos olhos e o coração chorou com saudade. Queria encontrar as palavras certas... mas penso que não existem ou eu as não consigo encontrar. Qdo se perde... não nunca se perde... mas qdo alguém que costumava caminhar ao nosso lado, caminha agora de outra maneira, é difícil encontrar as palavras que se unem ao sentimento. Mas tu fazes isso muito bem, às vezes a escrever as coisas saem, qse sem darmos por isso.
EU ACREDITO que os amigos estão sempre presentes, mesmo de outra maneira, que mtas vezes não é a que nós gostaríamos. EU ACREDITO que nem tudo acaba qdo a vida terrena termina. EU ACREDITO que numa estrela, daquelas bem brilhantes que se vêm no céu está alguém, alguém que gosta mto de nós, alguém que nos quer ver feliz, alguém que nos guia (como no Principezinho, de Saint Exupéry). EU ACREDITO que os amigos são anjos que nos ajudam a voar qdo as nossas asas se esquecem de o fazer. EU ACREDITO que há mais qlqr coisa, pq simplesmente não pode acabar assim.
Encontraste as palavras certas, palavras que são só tuas e mesmo assim as senti como minhas...
Do fundo do coração, OBRIGADA pela partilha!

Ana Rita
De david. a 18 de Maio de 2008 às 12:00
Também continuo a passar por aqui =P

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