Terça-feira, 29 de Abril de 2008

.Acidentes

 

Já terminei de ler "Sapatos de Rebuçado". E escrevo-o de sorriso na cara. Quando o comecei a ler (Dezembro...?), quase pensei que Joanne Harris tinha perdido o dom de me enfeitiçar e prender como ninguém. Acabei por o ir abandonando... Nas mesas-de-cabeceira por onde passei, nas malas que usei, em gavetas que não abria... Até que pensei "não, não pode ser". E trouxe-o novamente para os meus dias com um sentimento de obrigação e quase vergonha. E não sei a partir de que momento me apaixonei. A partir de que momento me transformei em Anouk e nas suas esperanças. Em Zozie e nas suas artimanhas. Em Vianne e nos seus medos. Viciei-me, uma vez mais, nas canecas de chocolate com vagem de baunilha e uma pitada de noz-moscada. Em mendiants du roi. Nas ruas de Paris. E em magia. Cheguei a casa, atirei-me para cima da cama, ainda com botas e sem lanche, e ali fiquei até terminar de beber de todas aquelas páginas... de todas aquelas vidas que, como sempre, quase vou vivendo como minhas e imagino paradas, a reclamar a minha atenção, enquanto ouso fechar o livro por instantes.

Já terminei. E, por uma vez mais, acabo por perceber que não deixo de transportar sempre qualquer coisa para a minha vida. Tantas coisas, desta vez. Vidas, viagens, ventos, sonhos, receios, bem e mal, chocolate, cheiros, magia. E Acidentes. Nada de bom acontece sem que o mal logo apareça para equilibrar esta estranha balança. O vento não deixa ninguém ficar sem levar alguém no seu lugar. Acidentes. Trata-se de equilíbrio, apenas isso.

Na quinta consegui, finalmente, encontrar o Carlitos na net. Matar saudades. Contar novidades. Voltar ao chinês. E ao cinema. E esperá-lo, enquanto comia duas bolas de gelado de chocolate belga.

Na sexta almocei à beira mar. Comprei e recebi vestidos da minha vida. Vi o pôr do sol a bordo de um catamarã no Tejo, rodeada das pessoas de quem mais gosto. E dormi na minha (nossa) casinha, depois de ter levado todas as minhas tralhas para lá .

 

No sábado acordei cedinho. Fiz a mala e fui levada. A Coimbra, à Curia... Não consigo deixar de ficar feliz só de pensar em ir lá. Vi a senhora antipática e de nariz de porco da papelaria, a senhora brasileira simpática do restaurante onde vamos sempre (que me deu uma bola gigante de gelado de banana), os amigos da avó que penduram a roupa até não deixar nem um bocadinho da montra à mostra, o porteiro do jardim, a senhora da farmácia que tem o problema na fala mas não se inibe de falar até mais não, e a estrada que eu tanto gosto. A primeira coisa que vemos quando lá entramos e última recordação que trazemos à saída. Que me lembra a avó, os primos, a mana, verão, férias, amizade, amor, grande hotel, grandes pequenos-almoços, tardes no jacuzzi, dias inteiros de piscina, passeios de gaivota... Magia. E, quando os meus pensamentos se iam passeando pela rua dos plátanos, aquela onde eu sempre disse que queria passar vestida de noiva (sonhos de menina, diziam-me), o carro parou. E numa voz segura, que em nada tinha a ver com as mãos trémulas, saiu-lhe "sei que este é um lugar especial para ti e, como não posso trazer-te a casar aqui, quero que pelo menos o possas recordar como o sítio onde te pedi em casamento". Fez sair do bolso, como por magia, uma caixinha com um laço já desfeito. E, lá de dentro, um anel de diamantes (para mim, que só uso bugigangas e flores no cabelo). Foi ali, dentro do carro que parava o trânsito (quase tão surpreso quanto eu), que ouvi um "casas comigo?". Foi ali, em frente ao 32º plátano daquela rua, que disse "sim". Foi ali, exactamente na árvore que fica em frente ao velho pombal, que me deixei surpreender, sem reclamar, por uma única vez. Ou pelo menos, era o que eu pensava. Porque foi ali mesmo, em frente àquela árvore que imortalizei na minha máquina, que soube que ia passar a noite (a vida...?) como uma princesa no Hotel do Buçaco.

No domingo acordámos no Palácio e tomámos um pequeno-almoço digno de reis, "roubámos" toalhas como recordação e subimos à torre mais alta para nos podermos despedir de tudo. Regressámos mesmo a tempo de comer a caldeirada que os pais prepararam. Fui às tubras com a avó e a mãe. Encontrei a S.. Comi caracóis com a mana e a M.. Partilhei o jogo do Porto com o primo F.. Perdi-me na conversa com a avó T.. E vi bocadinhos do jogo do Sporting com o pai.  E foi aí, no preciso instante em que o Marítimo marcou o golo, que me lembrei: Acidentes. Acontecem. É mesmo só uma questão de equilíbrio. Não podia ter um fim-de-semana tão cheio sem que nada de mau aparecesse. Mas foi então que, contrariando todas as expectativas, o Sporting conseguiu dar a volta.

E agora aqui estou eu, assim, contente como só eu sei, e a pensar em Acidentes, em Inefáveis. À espera que apareça um em qualquer lado… O anel continua largo e o teste de francês é já na quarta. Nada que um toque de magia não resolva. Hum, se bem me lembro, cruzo os dedos e digo “tsk, tsk, desaparece”. E o vento muda de direcção, levando outra pessoa no meu lugar. Passa mesmo, mesmo ao meu lado. Sinto-o na pele e no cabelo. Mas, hoje, não quero ir. Hoje, como nunca, percebi que é aqui o meu lugar.

*Adenda 1

E, no preciso instante em que ia publicar o post, lembrei-me de pôr um bonequito e puf, desapareceu tudo! Sim, acidentes acontecem. Mas o teste de francês foi adiado, o anel já está a apertar e jantei com T., para matar saudades. Lá está. Magia.

 

*Adenda 2

http://babaerasmus.blogspot.com/2008/04/sim.html

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L. às 12:24
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1 comentário:
De M. a 7 de Maio de 2008 às 23:21
PARABÉNS!!!! Estou......... tristíssimo!! Mas pronto, algum dia teria que acontecer.. :P

Boa sorte nessa aventura chamada vida (a dois) ;)

Beijinhos*********

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