Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

.Miúda

 

 

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Conheço, já de cor, o cheiro daquele hospital. As paredes também. Sei onde estão os riscos, as falhas, as pequena faltas de tinta. Conheço cada bocadinho de chão. As pastilhas que os anos foram deixando coladas por ali. Os buracos que uma queda maior não conseguiu evitar. Os desgastes que o tempo vai deixando. A porta do bloco operatório. As duas folhas, quase sem cor, que dizem "Passagem proibida a pessoal estranho ao serviço" e "Bloco Central". Os dois elevadores. O modo como as pessoas se sentam e nos olham, mas não nos vêem (isso não), enquanto os esperam. E como quase deixam escapar o da direita por se ver tão mal. Sentei-me mais uma vez naqueles bancos, verdes à direita, azuis à esquerda e esperei. A mãe, encostada no meu ombro, chorava. Pronto, era apenas uma operação à garganta, diziam alguns. Mas como evitar pensar que aquele instante em que tudo pode acontecer não está longe...? Como podemos desligar-nos dele quando é a quinta vez que nos sentamos naqueles bancos (noutros iguais), passamos aqueles corredores, olhamos aquelas paredes e desgastamos, nós próprios, aquele chão?

 

Cheguei lá às seis e vinte e sete. Entrei num autocarro cheio, saí na estação errada, perdi o metro que acabava de passar. Voltei à superfície e li as gordas das revistas que forravam o quiosque do Martim Moniz. Senti que me olhavam e lá estava a mãe. Abraçou-me, assim, com força, e disse-me: "Estás bonita". Ri e corremos para o quarto. Riu-se quando me viu tirar uma merenda e um leitinho do saco. Momentos antes tinha dito que não queria nada. Às oito em ponto disse-me "obrigada", assim, a seco, "a vitela do jantar não prestava, comida de hospital". Dei-lhe um beijinho, ao de leve, na testa. Nada de muitas manifestações. À noite, depois da correria com a mãe para não perder o comboio, chegou uma mensagem, "Durmam bem, gmdv"*. Olhei, o meu telemóvel não tinha nada. Esperei e não chegou.

 

Acordámos cedo. Na verdade, queríamos chegar lá e estar já tudo terminado, mas não. As mensagens iam chegando ao meu telemóvel a todos os minutos. "Estou farta". "Estou cansada". Chegámos a tempo de um último beijinho, de uma última conversa. Estás diferente. Saiu-me, baixinho, sem medo do que dizia mas sim da resposta. E consegui situar tudo aquilo no tempo. Viagem de finalistas? "Foste chata". Respondeu-me, assim, rápido e sem medos. "Falaste de mais". "Ralhaste mais do que a mãe". "A menina Ana P., quem é?". Olhei para a porta, a maca já a esperava. Saltou da cama de um pulo e disse "Vamos, nunca mais chegava, nunca quis tanto ser operada". Disse-nos que a podíamos levar. Atravessámos, uma vez mais, aqueles corredores frios e vazios. Abraçou-me e, antes de entrar, mais uma vez, por aquela porta, olhou-me, sorriu e ainda teve tempo para dizer "Não quero falar de coisas sérias agora".

 

Olhámos durante duas horas para aquela porta. Vimos sair e entrar tanta gente. Até que ela saiu também. Abriu os olhos, agarrou-nos as mãos, e, como se lhe custasse muito ser sincera, lá lhe saiu "ainda bem que estão aqui". Deu-me a mão durante toda a tarde, aquela que lhe doía de tão picada que estava. Liguei-lhe o pc e deixei-a ver o Gato Fedorento, como tanto queria. Falámos por gestos, rimo-nos e zangámo-nos. E, à noite, quando olhei para o meu telemóvel, depois de correr por Massamá com a mãe e de comer as nêsperas que comprámos naquelas ruelas de Lisboa, a mensagem estava lá. Sem abreviaturas. Sem meias palavras. Gosto muito de ti mana. Eu também miúda.

 

 

 

*Gosto muito de vocês.

Estou:
Lá fora: as enfermeiras acalmam alguém...
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L. às 10:04
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1 comentário:
De R. a 16 de Abril de 2008 às 20:07
ainda bem que a miuda (como tu lhe chamas) já está bem melhor!
=)

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