Sexta-feira, 7 de Março de 2008

.Dois palmos

 

 

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Foi uma semana agitada. Já é sexta-feira, diz-me alguém. Vou para o Alentejo. Mas nem isso me descansa. Estou farta de viagens. De partidas, idas e chegadas. Farta de carros, autocarros e outras coisas que andam. Cansada, mas com mais dois palmos.

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São 20h23. De quinta-feira. Só agora vou para casa. Entro, num autocarro quase vazio, e demoro a encontrar lugar. Se estivesse cheio seria bem mais fácil. Encosto a cabeça ao vidro e nem os conselhos da prima I., que preferia cair a tocar em qualquer sítio de um transporte público, me fazem mossa. Fecho os olhos e adormeço. Acho que pela primeira vez. Acordo. Passaram-se poucos minutos. Na paragem do Colombo saem os adeptos do Benfica. E alguns espanhóis. Gosto de os ouvir falar, não há nada a fazer. Há tendas de cachecóis e roulotes de bifanas. Penso em como gosto de comê-las em dias de jogos, mesmo quando vejo onde e como são feitas. Volto a fechar os olhos, mas um buraco acorda-me. Já estamos em Benfica. Descubro uma estrada ao lado da escola (que ainda não decorei o nome) e finalmente percebo onde estacionam os professores. Uma das minhas dúvidas existenciais da manhã, quando faço o percurso inverso. Mais à frente, uma loja da Hello Kitty que a Matilde ia adorar. E a loja dos sofás que eu tanto gosto. Qualquer coisa lilás. Hoje não tem a menina à porta. Os restaurantes que anunciam o melhor marisco da zona, ali, no meio da cidade, estão cheios. E eu que pensava que ninguém lá entraria. Descubro uma Pull Outlet na rua por onde continuamos. Naquela em que sai um monte de miúdos que eu não percebo como vão sozinhos para a escola. Olho para os outros. Não vão os namorados surdos-mudos que normalmente partilham o banco de quatro lugares comigo. Nem o senhor engraçado, mas não muito simpático, que lê "Fecha os Olhos e Abraça-me". A senhora da mala Prada que carrega o mesmo livro há meses também não está lá. Estou desenquadrada. Este não é o meu grupo. E percebo que estou assim pela segunda ou terceira neste dia tão longo.

 

Eram 16h40. Estava no meu lugar, naquela cadeira que a A. diz que não presta. L. pode subir ao gabinete do sr. Engenheiro? Subo. Tratam-me pelo diminutivo. Sorrio, de leve, estou cansada. Pode ir tirar fotos com a Inspectora. Sim? Vamos de carro. Eu e a "ah, ah, ah". Encontramos o director à porta. Sorrio novamente e ele olha para mim. Fica naquela posição em que não consigo perceber se espera um beijo ou um aperto de mão. E eu fico-me pelo sorriso. Sabia o meu nome. Surpreendeu-me. Foi simpático. A "ah, ah, ah" também. Entrámos pelo Colégio Militar adentro. Eram muitos. Pequenos e grandes, de igual. Sempre a correr. Em sentido, sempre, antes de falarem para nós. Começa a palestra. Tráfico de Seres Humanos. Alguns adormecem. São levantados com puxões de orelhas e ficam de pé, em sentido, até ao final. Poucos. Muitos mais seriam se o comandante (ou sei lá o quê) tivesse visto as minhas fotos. Poucas também, que as pilhas não duraram muito. Mesmo depois de toda aquela conversa "qualquer coisa" (triste, de chacha, ..., não sei o que lhe chame), numa sala cheia de gente, do sr. R., que insistia que eu precisava de "pilas" para poder levar a máquina. As "pilas" ou eram velhas ou de má qualidade. Tenho de lhe dizer que as "pilas"  dele não prestam. Rio-me. E volto à minha cadeira do auditório. O Inspector também ri. De outras coisas. Também ele já foi aluno ali. A minha boleia fica a cargo dele. L.? Não me é estranho esse nome. Fui eu que o chateei ontem com uns e-mails. Ri. Falamos do Sporting, dos traumas do Colégio Militar, ali, naquele bocadinho que separa a 'escola' da sede. Os carros dos adeptos já chegam ali. E os arrumadores também. Olho para o QueijinHo, continua estacionado. E é ali que vai passar a noite.

 

São 20h10. Entro. O segurança ri-se ao dizer-me boa noite. Normalmente, trocamos apenas um bom dia. Subo. A senhora da limpeza ainda não levou a chave da nossa porta. Vejo luz no gabinete da Dra. A. e vou até lá. Começo a falar antes de lá chegar. Antes de tempo, para variar. Está lá o Dr. M. P.. Desculpe, pensei que Dra. ainda estava. Não, ela reparou que a L. ainda não tinha chegado, correu bem? Fico sem reacção, ele também sabe o meu nome. E eu que pensava que só o sr. V., que nos traz os jornais, leva os cartões dos dvd's e é da minha terra, sabia. Olho o telemóvel. Chamadas, mensagens. Agarro na mala, no casaco, na pasta dos pendentes, no saco com piza que a mãe mandou e desço. Não me apetece esperar pelo elevador. Corro pelas escadas e, mais uma vez, quase caio. É no que dá usar botas bicudas com calças à boca de sino. Dou toque para casa e ligam-me poucos segundos depois. Perdi o autocarro, resmungo. E fico ali, à espera.

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São 07h30. Ainda estou cheia do jantar de aniversário da avó. Devia acordar mais tarde, mas os remorsos não deixam e acabo por me levantar. Sim, vou deixar a mana e as amigas na escola. Vejo a Mariazinha e mato saudades. Faço batido de morango e como queijo fresco com muita pimenta e pão da nossa padaria, como eu tanto gosto. A mãe prepara-me a comida para levar nesta segunda ida para Lisboa desta semana. O pai vai buscar-me mais uma bolinha de pão para eu levar. A mana apita-me, estamos atrasadas. Paro na Conservatória para alterar a morada do b.i.. Estou grande, tenho uma casa. Ninguém me disse que as fotos eram tiradas na hora. Fico com cara de sono, e de cabelo apanhado. Nem sequer me reconheço, pareço uma monstra. Assim que o receber, digo que o perdi e vou renová-lo. Acelero com o Quejinho. O pensamento passeia-se pelos próximos dias. Na sexta há mais. Quem mandou as avós fazerem anos com dois dias de diferença? No sábado há concerto dos Cure. E, no domingo, é dia de levar os avós a conhecer a casa nova. Quero férias. Cheguei a horas.

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São 14h21. É sexta. O dia começou cedinho. O sono passou no instante em que vejo o engenheiro e ele me dá dois beijinhos. Acordou cedo, L.. Tem de ser. Sorrimos e até partilhamos um café. Eu, que nem sequer gosto e que fico doida quando bebo um. Ali, na dona C. que não simpatiza comigo. Subo. Os jornais já me esperam. Nada de grave. Faço a revista de imprensa. Digo à jornalista da TV Record, pela milésima vez, que ainda não tenho resposta. Repito a lengalenga ao do Diário Económico. Escolho fotos, actualizo o site, subo e desço escadas, corro. Quero cama, colo. E tiro a grande conclusão da semana. Não vale a pena ficar chateada, magoada, triste, com as atitudes de quem gosto e me rodeia. Nem pensar que me estão a dar um valente pontapé. É mentira. São apenas empurrões. Daqueles que nos obrigam a crescer. E eu cresci. Exactamente dois palmos. E quase podia jurar que a piza da minha mãe também contribuiu para isso. Vá, dois palmos e meio.

  

adenda1

[São 17h25. Pensei que estava quase, quase a ir para casa. Enganei-me. No ecrã surge a indicação de novo e-mail. É do Dr. C. I.. Houve operações durante a noite, não sei quantos ilegais detectados, há que fazer nota. Toca o telefone. Não puderam ligar o gás, detectaram uma fuga. E, nisto, entra o sr. V.. Venho buscar o cartãozinho para o dvd de amanhã do Expresso. Então até amanhã, Cláudia. E é neste preciso momento que quase, quase choro. Inspiro e expiro fundo, bem devagarinho, como no médico, ganho força, e digo "L., senhor V., L.", no instante em que ele desaparece pela porta. E, bem perto de mim, um barulho tão familiar, o do burburinho da fila para os elevadores. É hora da saída. Mas eu fico por aqui. Assim, mais um bocadinho. Armada em crescida. Do alto dos meus mais dois palmos e meio.] 

 

adenda2

[São 19h52. É agora. Ser grande é difícil.]

Estou: crescida
Lá fora: "Não me venham buzinar,'tou tão bem na minha mão..."S. Felix
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L. às 13:49
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2 comentários:
De T.C. a 15 de Março de 2008 às 18:22
queremos mais blog!!! :)
De L. a 17 de Março de 2008 às 13:15
Explica-te... :)

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