Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

.Salto e bico, 1, 2, 3

 

 

A notícia passou de boca em boca rapidamente. Os cartazes afixados nas portas dos cafés e das lojas da terra ganharam forma e fizeram-se saber de uma ponta à outra. Estavam abertas as inscrições para o novo rancho infantil. E eu estive lá, naquele primeiro dia. Ia deixar de estar em frente ao palco a imitar os passos. A desejar vestir aquelas roupas, saber aquelas danças. Ia deixar de voar só pelas mãos do tio M. quando ele me ia buscar para a dança da amizade. Ia aprender a dançar o passo largo e a dar aquele grito, como eles, quando se encontravam a meio do palco. Estive lá. No palco de madeira acabado de estrear. Com o sr. J.L. e o S. a ensinarem-nos os primeiros passos ao som da música que o sr. L.E. ia fazendo sair do acordeão. Salto e bico, 1,2,3, salto e bico, 1,2,3. Ficámos ordenados por tamanhos. O C. era o meu par. Vieram as primeiras músicas. Oliveirinha da Serra, Fado e Picadinho. O medo que eu tinha de deixá-lo agarrar-me. As fardas. A minha de dama antiga, com um toucado que teimavam em chamar rolha. As primeiras saídas. Não muito longe. As primeiras actuações. Depois veio o outro C., depois o P. e depois o primeiro C.. Não há amor como o primeiro, dizem. Crescemos. Assim, juntos. Uns com os outros. Naquelas viagens a sítios remotos. Naquelas danças em palcos que muitas vezes tínhamos de encher só com quatro pares. Naqueles momentos antes de entrar em palco. E lá em cima. Onde éramos grandes como ninguém. Cresci, deixei de gostar de ver o outro rancho, mas a gostar de dançar cada vez mais. Amparada pelos braços do C. depois de tanto rodar na Trigueirinha e pelas nossas gargalhadas na Polca das Mudanças. Passámos a ser nós o rancho adulto. A carregar nos pés a responsabilidade de levar a nossa terra mais além. Corremos e conhecemos o país de lés a lés, gentes de toda a parte, palcos de todas as espécies, comidas de todos os aspectos. Com a vinda para Lisboa as coisas ficaram mais difíceis, mas nunca houve coragem para abandonar. A farda cresceu comigo, e passei a mulher do fazendeiro. Umas vezes dançava, outras apresentava. Explicava que de alentejanos, só tínhamos a alma e o orgulho. Que os apenas quatro quilómetros que nos separam do Ribatejo nos davam a garra e a velocidade para dançarmos a Fúria, e outras que tais. E não resistia a dançar o Passo Largo, voar, desta vez nos braços do C., e gritar lá no meio, em jeito de cumplicidade. Organizámos festivais, quermesses e bailes. Festas e outros arraiais. No palco, no autocarro e noutras terras esquecíamos as coisas que nos separavam e éramos um só. Um grupo, que trocava de roupa ali mesmo em andamento, dançava o "conga, conga" nas ruas por onde passava e funcionava como um  só. Conhecemos ensaiadores de todos os tamanhos e feitios. Os simpáticos, os generais. Ríamos com o discurso do Presidente. Dançámos com gente diferente nas Festas do Avante e com as tias das Feiras de Artesanato do Estoril. Apadrinhámos os mais pequeninos cheios de um entusiasmo que também nós já tínhamos conhecido.

No sábado recebi uma mensagem: "Ensaio às 20horas com o ensaiador. Não faltes". A palavra "faltar", ao ensaio ou à saída, há muito que fazia parte do meu vocabulário. Neste Verão, tirei férias para ir a uma actuação de dois dias ao Norte e percebi como o rancho sempre foi importante para mim. As horas de autocarro não demoraram a passar, as roupas não custaram a vestir, as coreografias não estavam esquecidas. Dormimos juntos, rimos juntos, brincámos juntos e dançámos juntos naquele bailarico ao fim da noite.

"M. não vou poder estar presente. No sábado e nos outros dias. Até ao final do mês mudarei de casa, e, se agora já era complicado, depois passará a ser praticamente impossível. Não tenho coragem de dizer "saí" ou "acabou", vejo agora, mais do que nunca, como tudo isto é importante para mim. Se não se importarem, vou aí dar um pezinho de dança sempre que possa. Obrigada por tudo, L.".

E, apesar da minha fraca coragem para o dizer ou admitir, acabou. Chorei, uma vez mais, nesta minha fase sentimentalóide que já se arrasta há algum tempo. É como se, aos poucos, as coisas de que mais gosto ou que, de alguma maneira, me mantêm ligada a essas mesmas coisas, estivessem condenadas a um fim. E dou pelos meus pés a mexerem-se debaixo da mesa. A ganhar vida própria. Salto e bico, 1,2,3, salto e bico, 1, 2, 3. Fecho os olhos e vejo. O meu carrapito onde não cabiam todos os caracóis. Os ganchos com que os tentava prender. As meias pelo joelho, o saiote comprido e os culotes com a fita rosa. A saia de peitilho, a casaquinha com renda branca e a bolsa onde guardava o lenço da despedida e os relógios dos rapazes. "- Qual é esta? Não me lembro. - Agarra-te a mim e deixa andar, vais ver que já te lembras". E voo, uma vez mais, num qualquer palco de madeira, de saia e caracóis pelo ar, sorriso nos lábios e um piscar de olhos para o par de trás.

Estou: sentimentalóide
Lá fora: "Nos caracóis tu atas uma fita,ficas tão bonita qd a dançar"
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L. às 13:32
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1 comentário:
De Ana Rita a 22 de Fevereiro de 2008 às 21:32
Não desistas daquilo que mais gostas de fazer. Apesar da vida ser complicada, por vezes temos de pensar um bocadinho em nós e naquilo que nos faz feliz, que nos põe um sorriso nos lábios, que nos toca ao coração, que nos põe um brilho nos olhos, que nos faz acreditar de que tudo é possível. Acredita em ti e nos teus sonhos. "Vai onde te leva o coração".

Mtos bjinhos (e boas danças)

Ana Rita

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