Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

.Uma bola aqui, outra acolá...

[elotopia.net]

São poucas as recordações fortes que guardo do Natal. A árvore marcou sempre presença. Na nossa segunda casinha, ficava lá no canto dos meus desenhos. Ía apanhá-la com os meus pais e escolhiamos sempre a maior possível. Com a estrela quase, quase a tocar o tecto. Qualquer que fosse a decoração escolhida, havia sempre lugar para os três Pais Natais (anões para a minha mãe, duendes para o meu pai) que o meu pai me comprou assim que eu nasci, na loja do sr. Adriano. Ainda hoje marcam presença. Ainda que o amarelo já tenho perdido o nariz, o vermelho já não tenho o pom-pom do gorro e o azul não saiba de um dos botões. O presépio ficava sempre por baixo da árvore (agora fica no parapeito da chaminé). Lembro-me de ser pequenina e deixar o sapato na chaminé. Lembro-me do ano que em acrescentei o da minha mana. E de o ver ir crescendo. Numa manhã de Natal, lembro-me de acordá-la e levá-la pela mão. E lá estavam elas. Não sei que prenda recebeu, mas da minha recordo-me bem. Ainda a tenho guardada. Um serviço de chá da Barbie. De louça verdadeira. A que falta apenas a tampa do bule, porque a Ana a derrubou num daqueles dias em que me obrigaram a partilhá-lo. Depois a tradição foi mudando. Passámos a abrir as prendas logo depois da missa do Galo. Parece que o menino Jesus se entretia a passar pelas nossas casas enquanto lhe rezávamos. Ainda naquela casa, lembro-me de ter ficado triste com ele. A minha irmã tinha recebido uma boneca do mesmo tamanho que ela. Que dançava e até falava. E, a mim, só me tinha deixado uma cassete de vídeo d'"A Noite de Natal Mágica". Sei que fiz muita força para não chorar. E que me obrigava a pensar: "L., há meninos que não têm nada, não podes chorar, não podes chorar...". E, nisto, o meu pai vem ter comigo e diz-me: "Então, o Pai Natal não trouxe mais nada para ti? Vamos lá procurar melhor". E lá começou, a vasculhar por toda a chaminé. E, por baixo da cortina do botija de gás, lá estava ela. Uma prenda enorme só para mim. Uma Sega MegaDrive. Com os jogos do Hulk e do Aladin. E lá se foram aqueles pensamentos. Na outra casinha, o tamanho da árvore de Natal manteve-se. Mas tivemos de comprar uma artificial. Só quando encontrámos uma que parece mesmo verdadeira. A decoração foi-se alterando. Gosto especialmente dos bonecos de neve. Mas este ano optámos por bolas grandes, vermelhas e douradas. Fica ali, ao lado da chaminé. Não há nada melhor do que deixar-me cair no sofá com todos eles, ligar a televisão e ficar a ver as chamas da lareira a disputar o brilho com as luzinhas da árvore. Nunca o celebrámos da mesma maneira. Normalmente jantávamos na noite de Natal com a avó Teresa, o padrinho, a tia e os primos. Íamos à missa do galo a Lavre (que agora já é na nossa terrinha) e depois trocávamos as prendas. Ou melhor, a minha mãe fazia a distribuição, sempre vestida de Pai Natal. No dia de Natal almoçávamos na outra avó e voltávamos a trocar prendas com os outros primitos. Nos últimos anos temos jantado só os quatro. Fazemos questão de decorar a mesa a rigor. E a mãe faz sempre aquele peru recheado. E apanha-me sempre, com a Ana, a comer recheio directamente do frigorífico durante a noite. Normalmente compramos sempre uma roupa nova. É uma das prendas dos papás. E no outro dia corremos todas as capelinhas para distribuir prendas e desejar um Feliz Natal àqueles de quem mais gostamos. E levamos flores àqueles que já partiram. Nunca vi o Natal como uma data muito feliz. Talvez porque nos faz pensar. Costumo terminar a noite no meu quarto, rodeada de prendas, a ver fotos de outros tempos, a mexer na caixa das recordações e a chorar. Talvez seja isto o Natal. Ou para isto. Uma pequena catarse. Que nos faz ir ao fundo, e depois perceber que continuamos a ter um motivo qualquer que faz valer a pena seguir em frente. Que o amor é mesmo o sentimento mais importante. E que podemos pegar nele e fazer um sem fim de coisas. Já é Natal outra vez. Já fiz a árvore. Uma bola aqui, outra acolá. O meu pai já encomendou o peru. A minha mãe já começou a fazer a nossa ementa. E já lavou o fato de Pai Natal. A Ana já vai a meio dos embrulhos. Eu já fiz o presépio no meu quarto. E já tirei da gaveta a árvore prateada pequenina que o meu pai comprou no mesmo dia dos duendes, e que meto sempre na minha mesa de cabeceira. E já tenho uns calções e um casaco para estrear. Está tudo pronto. Feliz Natal.

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