Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

.Tatuagem

 

Gosto que as coisas me marquem. Pela negativa ou pela positiva, mas que deixem marca em mim. Que me façam recordar.  Recordações doces, agridoces, ou amargas. Há uns tempos fui ver uma exposição que me marcou a ferro quente. "Amor-te". Fotos de doentes em estado terminal, em vida e logo após a sua morte. No mesmo sítio, a mesma posição, apenas um olhar diferente. Com e sem alma. Ao lado, as suas histórias, pensamentos, que dois jornalistas foram anotando enquanto acompanhavam os seus últimos dias. Os seus sonhos, os seus medos, as suas esperanças. Algumas marcaram-me de uma forma especial, na alma. Uma menina, de alguns meses apenas, que nasceu com um tumor no cérebro. A sua foto já sem vida foi o que vi até hoje mais semelhante a um anjo. As lágrimas que estavam ainda nos olhos davam-lhe um brilho angelical e fez-me acreditar que ela estaria, sim, naquele momento, num sítio bem melhor. No lado oposto, na Mãe d'Água das Amoreiras, uma mãe e um filho que partilharam a dor de um tumor e partiram com poucas semanas de diferença. Ele tinha medo de partir sozinho e eu, com a minha mania para arranjar ligações e conclusões para tudo, logo ali concluí que essa era a única razão para a mãe ter voado atrás dele logo depois. Talvez fosse uma exposição mórbida, sim, mas penso que a associação das palavras Morte e Amor encontrava naquelas pequenas histórias a sua razão de ser. Ontem voltei a olhar a morte de frente. Na exposição "Bodies - o corpo humano como nunca o viu", com corpos reais de onde foi extraída a água e substituída por silicone, com algumas técnicas de preservação à mistura. As quase duas horas de fila  não me desmotivaram. Nem à Ana. Fomos reconfortadas pelo chocolate Dove comprado na mercearia em frente, pelas conversas dos nossos vizinhos de sofrimento e pelas conversas sobre os fantasmas que teimam em perseguir-nos. Lá dentro, cheguei a arrepiar-me. Os corpos. O ambiente. O cheiro. Os corpos. Quais foram as suas vidas? Terão sido filhos, estudantes, pais, terão também imaginado que viveriam para sempre, eles e as pessoas que amaram. Tal como nós. Deram alguma autorização para estar ali? Não me parece. E ali estão. Uns aos bocados, outros às fatias, olhados como peças de museu ou de estudo, sem poderem contar as suas histórias. Na secção dos fetos, fui olhando a sua evolução como se de um só se tratasse, um documentário daqueles chatos que passam entre os desenhos animados e o jornal da hora de almoço de domingo, umas simples fotografias do livro de Ciências de 9º ano. Não. Só depois percebi, eram vários. Com uma semana, duas, quatro, dez, doze. Sentados, deitados, dentro de frascos. Embriões, fetos, que não passaram disso mesmo. Ali estavam. Em nome da ciência, da evolução, de nós. Mais tarde, ao telefone, alguém me dizia que voltámos ao tempo em que pagamos para ver aberrações. Damos 20 euros para ver corpos inteiros, aos bocados, seres iguais a nós, mas somos incapazes de dar 3 para ir ver um qualquer museu de história. À noite, nos meus sonhos, perseguiram-me. Lá estava eu, num qualquer cenário, e eles apareciam. De gabardine e chapéu. Chegavam perto de mim, mostravam a cara e queriam contar as suas histórias. E eu fugia. É sempre assim. Nunca consigo encarar os meus medos de frente. Mas eles encontram-me. E deixam sempre marca. Sempre.

 

Imagem: elotopia.net

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Lá fora: o burburinho da fila...
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L. às 13:46
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1 comentário:
De areiinha a 25 de Outubro de 2007 às 15:20
continuas fantástica naquilo que escreves. pura, simples, sincera, profunda...mais uma vez, tive de mandar parar a lagrimita que queria saltar para fora...

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