Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

.Feliz Natal e um 2019 cheio de coisas boas

(Tenho andado muito ausente do blog, mas sinto que isso vai mudar.)

Esta não é uma publicação de Natal, mas para todos os dias. Nem quer ser, de todo, uma publicação de autoelogio ou autorreconhecimento . São antes constatações de alguém que chegou aos 34 mãe de dois filhos e que gostava que eles crescessem num mundo melhor sendo pessoas boas. Pensamentos de alguém que, longe de sonhar com a perfeição – tantas são as falhas que em si encontra, ambiciona ser também melhor todos os dias. E que acredita, convictamente, que os pequenos gestos têm tanto valor quanto os maiores, que as ações que acontecem longe da vista de outros são muitas vezes as mais merecedores de reconhecimento e que todas as pessoas são iguais e podem contribuir para melhorar o dia de alguém e o mundo em que vivemos.

Nos últimos tempos vivi quatro situações que me fizeram refletir. Três que me deixaram feliz, outra que me levou ao limite no extremo oposto. Num dia que vai ficar marcado em mim por muita coisa, apanhei os dois na escola e fui para o carro com as mochilas, o bibe, os casacos, ele ao colo, ela pela mão. Já estava escuro e chovia. Depois de os meter nas cadeirinhas e arrumar tudo, percebi que tinha um carro estacionado na estrada e que me ia dificultar a manobra. O dono estava no carro e tentei fazer-lhe sinal. Ignorou todas as minhas tentativas e uma manobra que podia ter sido feita de uma vez, foi feita em vinte. Respirei fundo e pensei: “Hoje vou responder”. Baixei o vidro na direção dele e a primeira coisa que fez foi mandar-me embora. Respirei fundo outra vez e respondi-lhe: “Desculpe? Vou-me embora? Viu-me entrar no carro, com duas crianças, à chuva, viu o meu pedido, e foi incapaz de me facilitar a manobra?”. A resposta dele veio seca e dura: “Não tenho de facilitar a vida a ninguém quando não me facilitam a mim. Não consigo entrar em casa porque os paizinhos estacionam em frente à minha garagem!”. Na verdade, em parte, ele tinha razão. Mas como eu lhe disse, senti-me no direito de lhe responder porque eu não o faço: posso dar uma volta maior, posso estacionar mais longe, mas não vou buscar os meus filhos a tapar garagens ou a tapar outros carros. Ele ali estava, a barrar a saída de quem lhe barrava a entrada, para confrontar os infratores, e não podia mover o carro um milímetro para não perder a oportunidade. Disse-lhe, antes de partir: “Muito mal vai o mundo quando imitamos os comportamentos daqueles que criticamos. Não está a ser melhor do que eles”. E segui, triste e de coração na boca.

A segunda situação aconteceu num dia em que fui buscar a Aurora. O pai estava de serviço, o Jaime doente comigo, e saímos diretamente do médico para a escola. Nesse dia, o autocarro da natação atrasou-se e acabámos por ficar ali mais tempo. Carregava o Jaime na mochila, e numa mão tinha as fotos de Natal da escola. Vi vir, na nossa direção, um senhor carregado de caixas de fruta. Estava à conversa com mães de amigos dos dois e percebi que o senhor já se preparava para por as caixas em cima do joelho para conseguir abrir a porta. Então fui lá eu. E o senhor ficou tão agradecido, com um gesto tão pequenino, que não parava de insistir mesmo eu dizendo que não: “Escolha lá uma fruta para o seu menino”. Nesse dia regressámos a casa com um mamão debaixo do braço e o coração cheio.

A terceira história anda à volta de um senhor que trabalha na escola deles. Costuma estar na rua, todas as manhãs, a varrer o chão, a apanhar folhas ou a mudar os carros. E vejo, com tristeza, que passam muitas pessoas por ele sem que o vejam sequer. Lembro-me sempre da música do Mr. Cellophane. Quase parece transparente. É que ele, talvez habituado a não ser visto, ali está, num ritmo constante que nunca é quebrado pela passagem de ninguém. Pode ser uma coisa de alguém que cresceu numa aldeia – ou que aprendeu com os pais – mas para mim ninguém é transparente e merece sempre um bom dia. Se trabalha na escola dos meus filhos, se em algum momento contribui para o bem-estar deles, merece o meu reconhecimento e o meu bom dia. E, tanto eu como a Aurora, lho dizemos todos os dias. Ainda andamos a aprender algumas tradições desta escola a que ainda chamamos nova, mas de uma delas estamos fãs. Primeiro deixo o Jaime no berçário e depois entrego a Aurora na sala comum e, com ela lá dentro e eu cá fora, corremos ao longo das janelas enquanto mandamos beijinhos, fazemos corações e declaramos o nosso amor uma pela outra. Estávamos nós nesta figura num destes dias quando me apercebo que o senhor, que não estava na rua quando chegámos, saiu do sítio de onde estava agora, ao fundo, e veio ter comigo só para me dizer bom dia. Retribui, sorri-lhe, e segui para o trabalho de coração cheio.

No outro dia, enquanto procurava uma prenda para as trocas dos miúdos na escola (até 1,5€, a loucura!), fui a uma loja perto do trabalho que tem uma escadaria enorme lá dentro. Já ia a subir a escadas com as compras, rumo à caixa, quando percebi que para trás tinha deixado uma senhora já com alguma idade. Não podia fazer muito mais, mas ofereci-me para levar as compras dela. E ela olhou para mim e disse: “A menina ainda tem avós, de certeza. Já ninguém pensa muito nos velhos, mas quem tem algum que estime ainda se vai lembrando”. E eu partilhei com ela que, felizmente, ainda tenho três. E fiquei a saber o nome dos seus filhos, dos netos, onde mora, de onde é. Ganhei dois beijinhos e os maiores desejos de felicidades para os meus. Saí de lá e liguei aos meus avós de coração apertado – costumamos falar todas as noites, mas senti vontade de lhes dizer logo como são importantes para mim.

São histórias pequeninas, de coisas corriqueiras, mas que me fizeram pensar. Que se aproveite o Natal para repensar os gestos, as atitudes, quem somos, mas que se leve tudo isso para o ano inteiro. Deixar um carro meter-se à estrada mesmo que não nos tenham feito o mesmo. Dar prioridade a quem a tem. Oferecer ajuda. E voltar a oferecer, mesmo que a primeira oferta tenha sido recusada. Oferecer o lugar nos transportes a quem mais precisa. Cumprimentar as pessoas. Reconhecer que neste ciclo da vida todos fazemos falta. Que a profissão, o dinheiro na conta e a roupa que vestimos não nos definem. Tratar tão bem o Diretor, quanto o Secretariado, a Equipa da Limpeza, o Motorista ou o Porteiro, porque a falta de um compromete o trabalho de todos.  Agradecer o que temos. Agradecer o que fazem por nós, por mais insignificante que nos pareça à primeira vista. Respeitar o outro, o seu trabalho e o seu espaço. Gritar o amor que sentimos. Ser melhores do que aqueles que criticamos. Gastar tempo com os outros. Fazer por estar presentes no que realmente importa. Lutar pelo que nos faz feliz e não por fazer os outros infelizes. Não criticar, muito menos quando não sabemos a história toda. Contar até 10 quando alguém faz alguma coisa que não gostamos em vez de responder de imediato com 10 pedras na mão. Ser justos. Ser pacientes. … Talvez algumas coisas sejam mais fáceis do que outras. Talvez levemos mais tempo a por algumas em prática do que outras. Mas não custa tentar, não custa começar. Quando vivi algumas destas situações lembrei-me daqueles vídeos que tantas vezes circulam por aqui, em que alguém faz uma boa ação e aquilo se transforma como uma bola de neve e as boas ações sucedem-se. Vamos lá fazer uma coisa destas na vida real. Tentemos ser um exemplo. Vamos lá contagiar os outros e transformar isto numa coisa melhor. Vamos lá começar nesta época de reflexão. Vamos lá começar hoje. Feliz Natal e um 2019 cheio de coisas boas.

 

Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016

.Das mães

Não sou especialmente fã de ténis, nem de Nadal. Vi este vídeo por acaso. Acho que quem é mãe consegue perceber aquele desespero - pode durar segundos, horas, mas parece uma eternidade. Não saber de um filho é, provavelmente, das coisas mais horríveis e assustadoras do mundo. Ver aquele abraço entre as duas, mãe e filha, no final, a chorar, mexeu comigo, fez-me chorar também. Compreendi, tão bem, o que se passava ali, no coração das duas. A sorte, tanta sorte, daquelas duas. As promessas, os desejos, os medos ainda ali ao lado. Por acaso também, vi os comentários. E a culpa, para variar, é sempre da mãe. Raio de mundo este em que se culpam as mães por tudo. A mãe - tenho a certeza que não havia outra pessoa que aquela miúda assustada quisesse abraçar naquele momento. As mães não são perfeitas, não fazem tudo bem - mas tentam, todos os dias. Sei disso tão bem.<

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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2016

.Hoje

Não estou a começar o ano da melhor maneira. Hoje, para ajudar, tive um acidente. Não me querendo alongar sobre o acidente em si, queria apenas dizer que nunca me tinham feito sentir tão burra, tão incompetente, tão miserável. Tudo isto feito por um senhor agente da autoridade. Senti-me triste, pequenina, com vergonha. Somos todos pessoas, todos erramos, eu errei, mas não se pode errar assim quando se veste uma farda daquelas. Ainda há uns dias, numa entrevista para um curso, me perguntavam se nestes anos de serviço nunca perdi a calma com ninguém. E não, nunca perdi. Tento sempre ajudar, manter a calma. Foi o que fiz hoje. Tentei manter sempre a calma, responder a tudo, ser simpática e prestável. Mas um dia tenho de deixar de ser assim, cada vez mais me convenço disso – não vou longe. Não se pode humilhar assim ninguém. Até a carta tapou para ver se eu dizia a morada fiscal igual. Tudo tão triste. No final, mesmo antes de me vir embora, tendo em conta que me tinha dito que eu tinha cometido uma infração com multa de 120€ e inibição de conduzir, e até já se tinha despedido, dirigi-me a ele e perguntei como fazia para pagar a multa. Resposta: “Vou pensar se lhe mando a multa para casa ou não”. E é isto. Agora vou ficar a aguardar. Para ver se lhe apetece multar-me ou não. E nem com o senhor do outro carro tive sorte. Eu que até estava com pena porque ele disse que era viúvo, e estava desempregado, e num carro emprestado. Apertei-lhe a mão, desejei-lhe um bom dia. Resposta: “Vá mas é almoçar que a falta de atenção deve ser da falta de comida no estômago”. Engoli em seco, uma vez mais, sorri e entrei no carro. Tenho tanto a aprender ainda com a vida.

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Terça-feira, 24 de Novembro de 2015

.2

Foi exatamente há dois anos. Eram 10:14 de um dia maravilhoso como o de hoje – frio, sol. E tu no meu peito. Naquele momento achei que não era possível amar mais, não era possível ser mais feliz. E aqui estás tu, dois anos depois, a mostrar-me que sim todos os dias. No outro dia, no Alentejo do pai, ao lado de um borreguito acabado de nascer e que já corria atrás da mãe e a percebia, comentávamos como a mãe natureza é inteligente. Mas somos diferente, nós e os animais – aquela mãe vê a cria sair pronta para a vida que vai encontrar. Nós levamos mais tempo. Um tempo que ainda assim parece curto para tanta coisa que já sabes fazer. Um tempo que ao mesmo tempo parece tão longo. Já? Como? Basta-me fechar os olhos para ainda te conseguir sentir na minha barriga. Como é que já andas aqui a correr a casa toda? A fazer riscos na parede. A saber as cores. A contar até 10. A dizer “xono” quando abrimos a boca. “Xixença” quando queres passar. A cantar e dançar como se o tivesses feito desde sempre (cantas os parabéns umas 20 vezes por dia!). A pedir “fáfavô” até para a maminha. A pedir “cáne” e “roz” todos os dias. A brincar às escondidas por todo o lado. A calçar os sapatos de toda a gente. A mexer nos animais todos. Dois anos, pequena Aurora. Não vou mentir: há dias maus. Dias de quedas, de febres, de hospitais, de perdas. Mas, juntos, vamos aprendendo a lidar com aquilo que a vida nos vai dando. Somos uma família, somos mesmo. E eu tenho um orgulho desmedido nela. Nem sempre, eu e o pai, fazemos a coisa certa. Nós sabemos – depois de o termos feito. Mas não há manual de instruções, e acredita que tentamos sempre dar-te o melhor: de nós. Todas as noites rezamos ao anjinho da guarda e pedimos para todos os meninos do mundo aquilo que, felizmente, hoje tens: um lar, uma casa, saúde, comida na mesa e amor. É isto que te tentamos dar todos os dias, é por isto que lutamos e acabamos por perder outra coisa que gostava de te poder dar ainda mais: tempo. Lembra-te sempre disto: fazemos o melhor possível com o que temos. Do pouco (tempo) fazemos momentos felizes que perdurem. É por isso que hoje, e porque a mãe se meteu numa aventura (que não terá bom fim por certo, mas há que tentar), foste para a escola. Saíste feliz, depois de passarmos juntos o minuto 14 das 10 horas, e eu fiquei a chorar. Queria ter-te aqui, perto de mim, no meu peito todo o dia, como há 2 anos. Mas daqui a pouco já vamos ter contigo: vamos levar-te o bolo que fizemos juntos ontem, com os livrinhos que tens para dar aos amigos, e depois vamos comemorar a 3, num momento só nosso. À noite, quando te for adormecer e fores só minha outra vez, provavelmente vou chorar de novo: de felicidade, de medo, de amor. Chama-se ser mãe. Parabéns, meu amor, minha pequena Aurora.

 

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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2015

.Hoje morreu um homem bom

Hoje morreu um homem bom. Um homem de quem gosto muito e que sei que também gostava de mim (e da minha pequenita). Obrigada: pelos passeios que demos com o avô Chico, pelos pés descalços na sua horta, pelo colo que me dava enquanto eu comia arroz doce. Tenho saudades de o ver chegar todos os dias do trabalho, de o ver parar a carrinha ao lado da minha casa, e abrir o portão. Esta é a imagem que vou guardar – o aceno de mão na boina, o sorriso meigo. Foi consigo que aprendi a registar tudo o que se passa para nunca esquecer. Quis o destino, ou sei lá o quê, que, quase no fim, acabasse por esquecer tudo. Por aqui fica a lembrança e a saudade. Hoje morreu um homem bom – o vizinho António Rita.

Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015

.Ela

O meu raio de sol. O meu coração fora do peito. A minha vida.

 

Porque tenho tantas coisas dela para contar. 

 

Porque não quero esquecer.

 

Porque me perguntam tantas vezes de onde é o que ela tem vestido.

 

Porque ela já merecia uma coisa só para ela.

 

Aqui:

http://pequenaaurora.blogs.sapo.pt/

https://www.facebook.com/apequenaaurora/

 

 

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2015

.22

A Aurora faz hoje 22 meses. Ou um ano e dez meses. Não sei até quando é que se mantém esta contagem, mas dizem-me que é aceitável até aos 24. Que assim seja. Estamos de volta aos nossos dias – ainda com um casamento, um batizado e duas outras cerimónias em falta para que o possamos fazer em pleno. Regressámos de duas semanas de férias que tinham tudo para ser perfeitas mas que foram interrompidas pelo pior motivo possível: a morte. Estávamos na Curia quando soubemos da morte de um amigo, de acidente de mota. Da mesma idade que nós, casado com uma amiga da minha idade, com um filho da idade da Aurora. Voltámos ao Alentejo para testemunhar um dos momentos mais tristes a que assisti e regressámos depois à Curia, onde a Aurora tinha ficado com o pai e a bisavó, com o coração triste, pesado, e com um sentimento de culpa que mal nos deixou ser felizes. Começámos as férias com um casamento no Porto, na praia, que fez as delícias da Aurora. Com a amiga Mi habituou-se a meter o pé na areia, delirou com as ‘kékétas’ (bicicletas) a passar na marginal e adorou ver o metro passar (dizia sempre adeus, e teve resposta!). A semana passou a voar. Nem demos por ela. Os planos foram os de sempre: noite do cachorro, ida à pizza da Mealhada e ao leitão, ida a Aveiro (desta vez com paragem no Lugar dos Afetos), almoço em Mira. A Curia estava igual, eu estava diferente. Já tinha ido como mãe o ano passado, mas este ano foi nada foi igual. A Aurora já anda, já come mais, já interage mais, já tem a sua personalidade mais vincada, já fala muito e tem os seus horários a cumprir. O pai fez desporto todas as manhãs, pelo que acordámos sempre sozinhas. Perguntava pelo pai, corria o quarto à procura dele, e o meu coração ficava pequenino por imaginar o que a R. irá responder ao seu pequeno JP quando ele perguntar pelo pai, que não há de regressar mais a casa. Depois de lhe dar banho, deixava-a no quarto da bisavó e meninas e ia arranjar-me. A seguir ao almoço, enquanto uns jogavam UNO e outros iam para o ténis, nós cumpríamos a nossa sesta. E o dia passava, devagar e depressa ao mesmo tempo. Adorou o ‘quá-quá’ do hotel (um cisne) e falava nele de manhã à noite. Queria ir “à-ruia” vê-lo ou só porque sim. Nisto sai mesmo ao pai – precisa de rua, mesmo sem nada à mistura, para estar feliz. Para ficar mais feliz ainda, só se nos estiver a ver todos. No dia do funeral, quando fomos ter com eles já ao restaurante para jantar, olhava para todos, ria muito, dava gritinhos, pontapés na cadeirinha dela – precisa de gente à volta dela (nisto sai mesmo ao pai e à mãe). Na televisão do hotel não havia a paixão dela – o Panda (com os Caricas ainda melhor). E nós dizíamos: “ que chatice, não há Panda”, sempre que ela apontava para a televisão e pedia. Agora, sempre que houve “que chatice”, apressa-se logo a dizer “não há ‘Panha’”. Apesar de nem sempre ter gostado muito da sopa do restaurante, adorava o segundo prato – foi com gosto que a vimos comer uma pratada de massa à bolonhesa. Rimos muito quando fomos à pizza e lhe perguntei se queria, disse-me que não, perguntei o que queria então, resposta: “cá-ne”. Quer sempre carne (chama o mesmo ao peixe, que também come bem). E chega a comê-la toda sem acompanhamento. Quando regressávamos do casamento no Porto comeu o meu bife da francesinha todo. E mais houvesse. Começou a dizer muitas palavras novas nessa semana, até porque agora adora imitar tudo o que dizemos. E há palavras tão boas: ‘parma’ (calma, dito com a mãozinha levantada), “xim” (deixou de ser ‘hum’), ‘pompa’ (tonta), ‘poma’ (toma), ‘queca’ (boneca), 'pepeta' (chupeta, que já foi 'teteta' - já diz os 'p') entre outras que vou anotando para não esquecer. Ouviu o tio dizer porra uma vez e disse também quando tentou levantar-se e não conseguiu. Diz muitas vezes ‘oia’, para acompanharmos tudo o que ela está a fazer (gosta tanto de atenção). Mete as mãos na cabeça quando dizemos “meu Deus”. E o ‘tá bem’ é dito mesmo à lisboeta. Ela costumava gritar quando queria alguma coisa (ía subindo o tom se não respondêssemos logo), e ensinámo-la a pedir ajuda em vez de o fazer. Agora é delicioso vê-la ir subindo o tom enquanto grita por ‘aiuda’, sempre com uma grande carga dramática. A caminho do Algarve, depois de deixarmos a Curia para trás, parámos no Alentejo para dar beijinho aos bisavós. E que feliz a Aurora ficou quando eles meteram o ‘Cuca’ (Ruca) na televisão – ainda hoje lhe perguntei e tinha a resposta na ponta da língua. Ainda parámos no Alentejo do pai para mais beijinhos aos avós/bisavós, e chegámos a Monte Gordo, onde nos esperavam os meus pais, já perto da meia noite. Que dia comprido, mas bom. Foi uma semana boa, tão boa. Esta miúda, habituada que está a correr o país e a estar com pessoas diferentes, adapta-se a tudo facilmente. Ainda na véspera tinha acordado a chamar pela vó-Tesa, pela madrinha, pelo tio, pelos primos e pela Guida, nessa manhã já chamou o ‘vô-Ão’ e a ‘vó’. Todos os dias tínhamos de ir à rua com ela, mesmo quando chovia. Ia para a porta, pedia o ‘papéu’ (chapéu), o ‘asaco’ (casaco) e pedia ‘à-ruia’. E lá ia a avó até à praceta, ou todos até ao mar para alimentar as gaivotas. Primeiro começou por pisar a areia sem esforço, depois a brincar com ela, depois já ia para as piscinas que o pai fazia à beira-mar e que enchia de estrelas do mar vivas, e depois já andava dentro de água. Eu e o pai tínhamos ido dar um passeio pela areia, quando regressámos e a vimos lá dentro com os avós nem queríamos acreditar. E foi o ‘avô-Ão’, que nem liga a praia, que a levou até lá (e à madrinha, há mais de 20 anos). Entretida que estava atrás de três irmãos que por lá andavam, corria pelo mar adentro sem pensar nos medos e nas lágrimas que há uns meses ele lhe trazia. Nessa semana, para além de ter passado a gostar de água, deixou a avó fazer-lhe totós, deixou-a cortar-lhe o cabelo, comeu muito queijo fresco (mas tinha de ser em cima do pão, como nós, ainda que depois só comesse o queijo), provou cadelinhas (e adorou!), fartou-se de comer ‘cá-ne’ (não podia ver linguiça, nem pernil, nem presunto, queria tudo), experimentou todos os carrosséis da rua (sem moeda, porque não gostou) e correu muito na praia, na praceta e na nossa casa. A despedida das férias ainda nos levou aos avós paternos outra vez e a uma piscina boa posta na rua só para ela, onde até a bisavó I. meteu o pé. Na primeira manhã em que acordou na nossa casa ainda perguntou pela ‘paia’, mas ficou na escola super animada. Chegou grande: em tudo. Mais alta, mais pesada, mais faladora, com mais dentes, mais desenrascada. Está menos metediça e já não vai com tanta facilidade para outros colos. Mas continua a mandar muitos beijinhos e a dizer adeus a tudo: diz xau à água da banheira, à ‘paia’, ao ‘quá-quá’. Continua a adorar dançar e a pedir ‘áquica’ (música) em todo o lado – e abana os ombros quando ouve kizomba. Adora andar de um lado para o outro a limpar o chão com a vassoura e esfregona dela (no outro dia meteu a dela no nosso balde e fez um pequeno lago no chão), e com um pano a limpar os armários. Gosta de fazer pinturas com os lápis de cera: não só nas folhas mas também na mesa, no chão, na parede. Já sabe quando se portas mal e sabe o que deve fazer a seguir: no outro dia mordeu-me a mama de propósito, de lado, ralhei quando já estava a mamar, parou, olhou para mim e disse ‘cupa’ (desculpa). E pede desculpa até quando são os outros a magoá-la (como quando lhe mordi o dedo sem querer). Adora sapatos, todos. Os dela, os dos outros. Passa o tempo a levá-los até aos donos, a tentar calçá-los, a arrumá-los. Pede mais mãe – ‘couo’, queres muito colo da mamã. Gosta de experimentar tudo. Quando saímos do elevador, ou vê que anoitece, diz sempre que está ‘escuio’ (escuro) e pede luz. Adora tudo o que tenha botões: elevadores, telemóveis, comandos (e já sabe tirar e meter a tampa das pilhas). E tudo serve de telemóvel: depressa agarra até numa barra de legos e liga para um dos avós. Adora trepar para cima de tudo. E na loja da bisavó adora tirar os preços todos e trocá-los. É teimosa, muito. Às vezes está com uma grande birra, a chorar muito, e se lhe ofereço a chupeta é capaz de mandá-la ao chão. Mas se eu a mostrar só e não a oferecer, quase um “a ideia foi tua e não minha”, pega nela, mete-a na boca e acalma. É uma apaixonada por animais, principalmente por cães. Temos de parar sempre para lhe fazer festas – começa a chamá-los com a mão, ‘a-cá’, e com beijinhos. Sabe que quando abrimos o frigorifico está ‘fio’ e que a água do banho ou a porta do carro, à tarde, está ‘quenti’. Continua a mamar, onde é preciso, sempre que quere. Pede ‘mama’, e depois vai alternando entre uma e outra sentada no mesmo lado - 'douta', diz ela para mudar. E tem dormido connosco – até ontem à noite. Chegámos de um jantar de amigos, o pai tinha arranjado uma tábua para a caminha de grades nessa tarde, e experimentámos. Primeiro agarrou a minha mão com uma das dela. Quando percebeu que eu começava a tirá-la, agarrou-a bem entre as dela. Depois prendeu-a debaixo da cara. Ainda chorou, mas acabou por ficar. Acordou às 3h, às 5h e às 07h, e levantou-se às 7h30 – já não queria ‘escuio’. Costumava dormir agarrada à nossa orelha, e ainda a pede (‘oeia’), mas nos últimos tempos exigia sempre a minha mama – depois de mamar, ficava a fazer festinhas ou a simplesmente a agarrá-la. E mal eu me virava ou vestia, reclamava. Por muito que goste de dormir com ela bem coladinha a mim, confesso que tivemos noites dificeis. Por muito que me custe ‘separar-me’ dela, percebo que talvez esta seja a melhor altura, para ela, para nós. Hoje, esta noite. A noite em que chegaste aos 22 meses.

[Estás só do outro lado da parede e no meu coração/pensamento sempre]

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Segunda-feira, 29 de Junho de 2015

.Dos fins de semana bons [em família]

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Quarta-feira, 17 de Junho de 2015

.Adeus, Inderal! [com imagens que podem impressionar]

Quando nasceu, a Aurora tinha uma macha muito pequenina debaixo do braço esquerdo, ao nível da pele. Logo, logo, parecia só mais uma, como as tantas que tinha no pós-parto. Mas esta mostrou ser diferente. Em pouco tempo cresceu muito – em volume, em largura, e ficou muito vermelha. Foi sempre acompanhada – pela pediatra, pela dermatologista que ela recomendou, pela minha de sempre. Todos tinham a mesma opinião. Era um hemangioma, ainda em fase expansiva, que não lhe doía e que precisava apenas de vigilância. Por norma, desaparecem sem intervenção até aos 6 anos de idade dos pacientes. Fez uma ecografia, uma vez que tinha uma componente interior muito profunda e podia estar a interferir com alguma coisa, mas estava tudo bem. Se ulcerasse, e íamos fazer de tudo para que não acontecesse, teríamos de partir para o laser, para medicação ou cirurgia. Na mesma semana em que regressei ao trabalho, reparámos que o sinal estava a ganhar uma crosta, que foi aumentando rapidamente de tamanho. Mandaram-nos hidratar. Cicalfate, vaselina, e mais uns quantos cremes. Mesmo com tantos cremes, talvez por ser uma zona onde lhe tocávamos sempre que a pegávamos ao colo, a crosta não parou de aumentar e começou a perder algum liquido. Disseram-nos que metêssemos uma compressa. Nesse dia, a compressa agarrou à ferida e seguimos as indicações – tentar tirar com muita calma no banho, porque já se percebia que lhe doía. Saiu a compressa, mas saiu também a crosta que entretanto já ganhara – e sentimo-nos tão culpados por isso. Essa noite foi horrível. Ela chorou muito, nós também. Decidimos ir para a urgência – parámos primeiro na clinica onde tem pediatra, mas lá não têm urgência pediátrica. Seguimos para a CUF Descobertas, em plena hora de ponta, com ela nos meus braços porque não conseguia ir no ovo. E nesse dia tivemos uma estrelinha da sorte a brilhar para nós. Fomos atendidos na urgência, onde só desabei quando vi entrar um menino com falta de ar. O Zé dizia-me para me concentrar só nela, mas eu não me consigo abstrair do mundo à minha volta. Medicaram-na para a dor e fomos encaminhados para uma dermatologista que se não é a pessoa mais querida que conheço deve andar lá perto. Nunca nos tinha visto. Chamou vários colegas, todos tinham a mesma opinião. A Aurora tinha de começar um tratamento, ainda em fase experimental, com beta-bloqueantes. Ainda não se sabia, nem sabe, porque atuam, mas sabe-se que estes medicamentos, que os adultos tomam para a hipertensão, reduzem estes tumores benignos dos vasos sanguíneos. De acordo com o que nos contaram os médicos, descobriu-se que o fazem por acaso - ao tratarem um bebé com problemas cardíacos que tinha também hemangiomas. Mas este medicamento também reduz o ritmo cardíaco, reduz o açúcar no sangue, e só pode ser iniciado depois de um eletrocardiograma e de se ser visto pelo respetivo médico. Nesse dia não havia cardiologia pediátrica em nenhuma CUF, e ela ligou para todas à nossa frente. Tentou então ligar para o cardiologista que lidera estes tratamentos a nível nacional – não estava no consultório, mas a secretária deu-lhe o telemóvel, apesar dela lhe ter dito que não o conhecia pessoalmente. “Vamos ligar ao Papa”, disse-me ela. “Este Papa é tão simpático”, disse-lhe eu. Eram 11h da manhã, não nos conhecia de lado nenhum, mandou-nos ir ter com ele às 14h - a um hospital público. Fez o exame, foi vista por ele e por toda a equipa, alterou um bocadinho as doses recomendadas pela dermatologista, para começar de forma mais lenta, e deu-nos força. Ia correr tudo bem. Falaram de outros casos, em que as melhorias se notaram a curto prazo, que os inspiravam a continuar esta luta - como o de um bebé que nasceu com centenas de hemangiomas, incluindo internos, e que em poucas semanas de tratamento começaram a reduzir significativamente de tamanho. Logo pela manhã tinha tentado ligar para a minha dermatologista de sempre, porque era uma urgência (só se consegue consulta com muita antecedência). Ela não estava, mas iam ligar-lhe. E ela devolveu-me a chamada quando estávamos no cardiologista. Concordava com tudo, o tratamento era o melhor a fazer. E disse-nos para confiar nele. Uma caixa deste medicamento, com receita, custa cerca de 0.50 cêntimos. Mas era difícil partir um comprimido para obter a dose que ela teria de tomar nos primeiros dias, por isso começámos com um manipulado – 30€ o frasco. “Onde mora?”, “Massamá”, “Terra do primeiro-ministro, deve haver uma farmácia grande que faça isto na hora”. Não havia, a maior mandava fazer em Lisboa. Ligámos, precisávamos que fosse feito nesse dia para começar às 08:00 da manhã seguinte. “Hoje já não conseguimos”, disseram-nos. Explicámos a situação. “É paciente do Dr. X?”, “Sim.”, “Temos o medicamento pronto às 20:00”, “OBRIGADA”. E começámos. Três vezes por dia durante um ano inteiro. Vimo-lo fechar a ferida, com tanto sacrifício – sempre com ela ao colo com o cuidado de não tocar ali, sempre a parecer arrogantes quando pedíamos que não tocassem ali, sempre a tentar protegê-la enquanto percebíamos que lhe doía e que a tendência das pessoas (sem mal) era tocar sempre naquele sítio. Passou este ano, sempre de kit atrás: a caixinha que corta o comprimido, a chávena para misturar, as duas colheres para esmagar, o copo com água para juntar e a seringa para dar. Um ano de coração nas mãos, porque é um tratamento experimental, porque não sabemos se tem efeitos a longo prazo, porque justificámos todas as maleitas ou atrasos, como nos dentes, com o medicamento (mesmo que não houvesse razão nenhuma para isso). Felizmente, nunca detetámos nenhum efeito secundário. Aquilo sabe mesmo mal, é apenas um medicamento de adulto desfeito em água. Mas não há medicamento no mundo que ela goste mais de tomar, e até vomita quando são doces – o hábito faz destas coisas. No início de junho começámos o desmame. “Está perfeito”, disse a médica que nos acompanha desde aquele dia da urgência. Não desapareceu de vez, mas foi uma grande viagem e nota-se uma grande, grande diferença. A cicatriz vai ficar para sempre, a não ser que ela queira tirar um dia, como propõs a médica (ela logo decidirá, para nós é indiferente, só queremos que ela esteja bem). À volta percebe-se que a pele está a adquirir a cor normal, mas onde ulcerou ficará sempre marca. “Você nem se lembra de como isto estava, do que mudou”, dizia-me ela na última consulta. Lembro sim – de tudo. E fiz questão de registar para nunca esquecer. Hoje foi a última vez que lhe preparei o medicamento. Foi a última vez que ela própria levou a seringa à boca, que disse “já-tá” e que batemos muitas palmas logo de seguida. Durou um ano. Três vezes por dia. Todos os dias. Em todos os lugares imagináveis. Era uma coisa séria, não podíamos falhar. Tão séria que não pudemos parar de um dia para o outro e tivemos de fazer este processo de desmame. Nada nos garante que não volte a aumentar, mas é o que se espera – normalmente, a fase expansiva dura apenas até ao primeiro ano de idade. Mesmo que isso aconteça, não pensam voltar a introduzir o Inderal. E vai continuar a ser a vigiada. Não consigo deixar de sentir que o pior já passou. Estamos livres desta obrigatoriedade, desta preocupação, deste peso no peito. De ver se não está cansada de mais, mole de mais, transpirada de mais, com as extremidades frias de mais.  De ter um cuidado redobrado com medicamentos - um simpes Brufen podia causar problemas. Acabou. Hoje, o dia em que “vô Ão” faz anos, temos mais um motivo para comemorar. Obrigada, Inderal*. E adeus, de vez!

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*Senhores da AstraZeneca: ainda que possa parecer pouco lucrativo, não deixem de produzir o Inderal. Não sei se têm conhecimento disto, ou da dimensão disto, mas estão a ajudar muitos bebés e muitos pais. Obrigada!

.O batizado da Aurora

Foi tudo feito por duas meninas lindas (tenho a sorte de serem minhas primas) e ficou tudo tão, mas tão bonito. Se precisarem de coisas para qualquer tipo de festa, lembrem-se delas - Dear Leo (https://pt-br.facebook.com/leodearleo).

 

Está tudo aqui:

http://leodearleo.blogspot.pt/2015/06/o-baptizado-da-aurora.html

 

 

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