Quarta-feira, 6 de Maio de 2015

.I'm sixteen going on seventeen

Este último mês foi aquele em que te vi mudar mais. Tantas coisas novas nos 16 meses! De repente, já tens 4 dentes a caminho (e que grandes são os de cima!) e já andas. E se andas. Ainda ontem tive de correr a casa toda para tentar perceber onde te tinhas escondido. Ou fui dar com uma vela enorme na tua mochila, já na escola, que foste buscar a um dos quartos e escondeste ali. De repente, a minha bebé pequenina já não pára no sítio. E também já não é assim tão pequenina. Começaste a andar no meu Alentejo e eu estava lá para ver. Chorei por isso – tenho tanto medo de perder bocadinhos importantes da tua vida, mas este não perdi – eu estava lá. Tínhamos chegado da festa de ano de um amiguinho e estávamos na brincadeira, vai à mãe, vai ao pai, vai aos avós. E de repente lá estavas tu, ainda muito abanica, de braços esticados para manter o equilíbrio, a fazer aquele pequeno trajeto sem estares agarrada a lado nenhum. E tem sido tão bom ver a tua evolução – primeiro só te largavas de pessoas para pessoas, depois de pessoas para coisas (mas olhavas para tudo muito bem, porque podias ter de fazer uma paragem a meio do caminho), de onde descias de gatas ou chamavas para te irmos buscar, depois de coisas para coisas e agora de tudo para tudo, ou do nada, se te largarmos, para nada, porque andas por ali a passear. E ficas parada muito tempo a estudar o próximo destino. Continuas mimosa, a ir a todos os colos, a dar beijos a toda a gente, ou a mandá-los enquanto dizes adeus a todos os carros que passam. Mas também já te vimos levantar a mão a uma ou duas pessoas quando estás muito cansada ou com sono. Já sabes imitar o cão, o gato, a vaca, o pato, o burro, a ovelha, o porco, a abelha e é tão bom ver-te a fazê-lo. Quando te perguntamos como faz o cavalo começas aos pulos – a culpa é nossa (mais da avó), que pega no teu cavalo de pau e anda contigo pela casa enquanto faz “upa, cavalinho”. Abanas as mãozinhas para mostrar como faz a borboleta, e mandas um quase beijinho para imitar os peixes. Para além de os saberes imitar, adoras ver animais e mexer-lhes, sem medo nenhum. E és uma sortuda porque no Alentejo do papá tens muitos e diferentes, que te deixam tão feliz. Já dizes “mamã” (fico de coração apertadinho sempre que ouço), o papá é “tatá”, “ága” (água), a maminha é “nana” (é delicioso ver-te pedir: puxas-me a camisola, apontas e dizes “nana”. Pergunto-te se queres maminha e tu abanas a cabeça para dizer que sim). Depois vais dizendo outras coisas, mas só quando te apetece: o “ca” serve para tantas coisas, ‘cavalo’, ‘caiu’, ‘cão’; o pé é “da”, o pão é “ta”. O "já-tá" dá para quando o elevador pára, para quando estacionamos ou paramos o carro num semáforo (tiras a chupeta para o dizeres a toda a velocidade com um grande sorriso e voltas a metê-la na boca), para quando a comida acaba ou quando queres que acabe!  Sabes dizer onde estão os olhos, o nariz, a boca, as orelhas, os dentes, o cabelo, as maminhas e a barriga. Sabes mostrar a língua e piscar os olhos (esta até foi uma das tuas primeiras gracinhas). Ainda não percebes que é teu o rosto que aparece no espelho, mas adoras ficar em frente a um a dizer olá, a fazer adeus e a mandar beijinhos - a menina que aparece é muito simpática, porque te responde sempre. De repente, passaste a comer muito bem. A sopa vai toda, o inteirinho na escola também, em casa gostas de provar de tudo: no outro dia, antes do jantar, comeste fiambre, um maracujá, salmão, depois comeste a tua sopa e no final ainda provaste a nossa comida. Adoras comer pão de cereais comigo, de manhã e à tarde. Se tiver fiambre, é muito bom, se tiver manteiga de amendoim, fazes questão de a lamber toda e deixar o pão para mim. Mas o que é certo num dia no outro já não é: tanto adoras laranja ou morangos como detestas no dia a seguir. Provas tudo, já é um grande passo para quem mandava tudo fora. Depois de umas idas ao Alentejo e de um período em que andaste mais doente, começaste a dormir na nossa cama. O pai vai reclamando, eu confesso que adoro ter-te ali à mão de semear para um miminho e não ter de me levantar para te dar mama. Eu e o pai também dormimos na cama dos avós até tarde, e não temos problemas de independência ou desenvolvimento (ah, ah, ah, digo eu!), e não conheço ninguém que já anda na universidade e ainda durma na cama dos pais - temos tempo. Continuas a mamar (sim!) de manhã, à tarde e à noite. E vai ser assim até querermos as duas, sem fanatismos nem exageros. Já não gostas de trocar a fralda – levamos uma eternidade para conseguir meter-te uma lavada, porque passas o tempo a rodar para um lado e para o outro. Agora tenho feito por te dar banho logo quando chegas da escola, para depois estarmos mais livres à noite com o papá, e é tão bom ver-te brincar com os patinhos e os peixinhos sem horas contadas. Adoras cantar – e já damos por nós a reconhecer músicas que vais ‘cantando’; e dançar – basta ouvires uma música para começares a mexer-te. Continuas a adorar os teus livrinhos e é tão bom ver-te a lê-los – vais mexendo o dedinho por cima das letras e fazes a tua conversinha enquanto vais mudando a entoação – tenho de me rir sempre. Gostas de comandos (já sabes tirar a pecinha de trás para tirar as pilhas), telefones, computadores, fotografias, baldes e esfregonas. Mais importante que tudo isto, gostas de nós e fazes questão de o mostrar com um monte de mimos (ainda ontem me fizeste “ácá mamã” e depois deste-me um beijinho) e de o dizer. Eu e o pai ficamos deliciados quando, em qualquer lado, apontas para nós enquanto olhas para as pessoas e vais explicando, com orgulho, que ali estão a “mamã” e o “tatá”. O orgulho é nosso, pequena Aurora. E também fazemos questão de o gritar ao mundo: esta é a nossa filha.

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Quarta-feira, 1 de Abril de 2015

.O nosso ovo

Quando a Aurora estava na minha barriga, e porque ela me mandou ao tapete muito cedo, conversávamos muito. Sobre muitas coisas. Lembro-me de lhe falar sobre a escola e os trabalhos manuais. Para que se mentalizasse que a mãe que lhe tinha calhado em sorte não tinha jeito nenhum para essas coisas. Nem um bocadinho. Mas que não desanimasse, ia ter uma madrinha e avó talentosas, que nos ajudariam por certo. Ela nasceu, veio a escola e os pedidos de colaborações aos pais. E, ainda que continue a ter a certeza que o jeito é muito próximo de zero, nunca senti vontade de passar a tarefa a alguém. A mãe sou eu. É a mim que me estão a pedir. E eu quero muito estar à altura de tudo o que diz respeito à minha filha. E talvez assim ela comece a aprender que podemos não ser sempre os melhores (não digas isto ao avó João, que espera sempre o melhor de nós em tudo), mas que o importante é participar - tenho quase a certeza que também falámos sobre isto ainda antes de nos conhecermos.

[Este é o nosso ovo da Páscoa. Foi tão bom ver uma parede enorme cheia de ovos, todos tão diferentes, todos tão cheios de bocadinhos de quem os fez.]

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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015

.A pior do mundo

No sábado, quando íamos dormir, recebi uma mensagem da minha avó. Dizia qualquer coisa como “Falei com a mana e ela disse-me que a pequenita entalou a mão no elevador da escola e meteu a mão na sopa quente”. Olhei para ela, estava bem, tão serena, a dormir, mas não consegui deixar de me sentir a pior mãe do mundo. Aquela mensagem era digna de Segurança Social. E era tudo verdade. E aconteceu tudo comigo. Na quinta feira fui buscá-la ao colégio como faço todos os dias. Subi pelas escadas, soube as novidades do dia, e depois desci pelo elevador com ela e fiz o mesmo de todos os dias: li-lhe a ementa, deixei que ela mexesse nos botões, e no exato momento em que o elevador estava a abrir e eu já com um pé de fora, ela resolveu meter a mão entre as duas metades do elevador que encaixavam uma na outra. Só ouvi o barulho dela a tirar a mão e depois começou a chorar, muito, e a gritar. E passou-me tudo pela cabeça. Que tinha partido os dedos, a mão, eu sei lá. A Dona S. ajudou-me – percebemos que tinha sido um susto. Com a chupeta e o colinho acalmou, vimos que mexia a mão e só tinha a ponta de um dos dedos raspada. Chorei muito depois, agarrada a ela, enquanto a via num soninho descansado. Fazemos aquilo todos os dias. Como é que foi acontecer? Liguei para o Z. e para a minha mãe. Nenhum dos dois atendia. Quando a minha mãe me devolveu a chamada não me ajudou, “Tens de ter cuidado, a menina podia ter ficado sem mão”. Mesmo o que o meu coração de mãe precisava de ouvir. No sábado de manhã o pai levantou-se cedo e nós ficámos as duas a ‘namorar’ na cama. Levantámo-nos às 11:00 e fui logo fazer a sopa para ela. Ficou pronta a tempo do almoço e levei tudo o que precisava para lha dar na sala. Como estava muito quente, levei um pratinho para onde comecei a deitar a sopa, para arrefecer mais depressa. Estava a fazer isto na nossa mesa e ela sentada na cadeira dela, com o tabuleiro a separar-nos. Foi quando ela se esticou, ficou quase de pé na cadeira, e meteu as mãos na sopa acabada de fazer. Choro, muito choro. E água fria, e creme gordo, e depois lá percebemos que estava tudo bem. Nestes dias, não preciso de o dizer, senti-me a pior do mundo. Sempre tão preocupada, tão atenta (pensava eu), com tantos medos, e nem quando estou por perto, nem com ela bem presa no meu colo, a consigo salvar de todos os males. Coisa difícil, esta de ser mãe. A pior de todas, no meu caso.

 

[Entretanto, já chegaste aos 14 meses. E com eles chegou o teu primeiro dente. Fomos hoje à pediatra que riu muito e disse que ia deixar de poder dar-te como exemplo quando chegam lá pais preocupados com bebés de 6 meses que ainda não têm dentes, “olhem que eu tenho aqui uma menina com mais de um ano que ainda não tem nem um”. Aumentaste de comprimento e aumentaste de peso, o que nem sempre é fácil. Continuas meiguinha, sempre a dar beijinhos (ontem na escola foram dar contigo debaixo da cadeira da papa a dar beijinhos ao Xavier, só porque o Henrique não estava, e no dia dos sentimentos foste a mais beijoqueira). Dás muitos aos bonecos, aos livros, e para o ar. Agora já sabes mandar também com as mãos (mandaste os primeiros aos avós, via Skype), e já gostas de dar nas nossas bochechas. Se dás um ao pai, tens de dar um à mãe também (dizem que nisto sais a mim…), e adoras ficar ao meio na cama a fazer festas nos dois ao mesmo tempo. Conversas e cantas muito, e agora tudo é ‘tátá’. O papá, a mamã, as fotografias. De vez em quando lá arriscas imitar-nos, e saem coisas como ‘añana’ (banana), ‘ela’ (estrela), ‘óa’ (Aurora). Continuas bem disposta e a gostar de passear – na nossa ida à Serra da Estrela só reclamaste na hora da comida, e nem te chateaste com as muitas horas no carro. Assim que ouves uma música começas a dançar e a bater palmas. A hora da comida continua difícil – começas logo a dizer que não com o dedito, mas o pai insiste e sabemos que chegou a hora de parar quando mandas para fora. Aí não vale a pena insistir. Até esse momento, o pai distrai-te com o Ruca e com os teus brinquedos preferidos de momento: tachos, panelas, tupperwares, louças (é por isto que as mulheres nunca vão dominar o mundo). Preferes a nossa comida, e ontem já não pegaste na tua sopa depois de veres o segundo prato. Gostas de noodles, ovo mexido, arroz, fiambre de peru e banana. E de tudo o que seja doce (menos xaropes, que continuas a vomitar). Continuas a gatinhar com uma perna debaixo do rabo e a andar só pela nossa mão ou agarrada às coisas. Há três semanas fizeste o teu primeiro galo na escola – testavas o equilibro quando caíste e bateste na quina de um móvel. Ainda se nota. Ainda me dói. Dizem que pode ter interferido com a tua confiança, mas a pediatra diz que é normal os bebés que gatinham de rabo demorarem mais a andar. Agora detestas vestir collants (quando te visto a segunda perna já despiste a primeira…) e mudar a fralda. É preciso dar-te uns 20 brinquedos diferentes para acabar de te vestir. Tens uns olhos lindos (com a cor dos do pai), sempre abertos e atentos. Continuas curiosa com tudo o que te rodeia, principalmente se tiver botões e luzes, como os comandos e telemóveis. Na falta de verdadeiros, tudo te serve de telemóvel, e encostas à tua orelha enquanto arriscas um ‘tá-lá?’. O ‘já-tá’ também é um clássido, e serve para quando o elevador pára ou quando terminas de mamar. Queres mais? Abanas a cabeça, ‘já-tá’. Na hora da sesta adormeces bem, abraçada a nós, a mexer nas nossas orelhas, a fazer-nos festas ou a dar-nos beijinhos. Às vezes despertas, olhas para nós, sorris, dás um beijinho e voltas a dormir. E eu fico tão feliz. À noite é mais difícil – as minhas costas confirmam. As do pai também. Damos-te banho, mama, deitamos-te na tua caminha dentro do saco cama, rezamos, contamos histórias, cantamos, brincas com os bonecos que estão à mão, mexes nas nossas orelhas, no nosso cabelo, dás beijinhos e quando pensamos que estás a adormecer, damos por ti sentada a dizer ‘olá’. Às vezes é preciso repetir os procedimentos muitas vezes. E depois, entre as 02:00 e as 03:00 encontramo-nos para um aconchego. Já cortaste o cabelo, porque a franja já chegava aos olhos, e temos de usar amaciador porque atrás fica tudo emaranhado. Recebemos a tua primeira avaliação da escola – ainda há muitas coisas que não sabes fazer, mas fiquei feliz com a parte dos relacionamentos, em que tiveste tudo ‘sim’: interages com pequeninos e com adultos, partilhas os brinquedos, és meiguinha, és feliz. E isso é tudo o que mais quero na vida, pequena Aurora, que sejas feliz.]

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Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

.10

Pequena Aurora, meu pequenino grande amor, já estás connosco há 10 meses. Os últimos têm sido atribulados, mas nem por isso menos bons. Estamos juntos, e só nós sabemos o quanto isso é bom. Foste para o colégio sem qualquer problema. Sofremos mais nós (sou sempre eu a levar-te e a ir buscar-te, mas num dia em que o pai foi, depois de uma consulta, ficou com lágrimas nos olhos e não conseguia sair dali - tive de lhe explicar que o truque é não olhar para trás, passar-te para outro colo, dizer adeus, e seguir em frente). Começaste a fazer a fita do costume para comer, mas já comes a sopa toda ao almoço. Nunca trazes a mesma roupa que levas de manhã, porque há sempre um cocó fugitivo ou sopa espalhada por todo o lado. Logo na primeira semana começaste a sentar-te bem, e ficas sempre a rir e bem disposta. Costumo brincar e dizer que devias chorar um bocadinho por mim, mas é bem melhor assim. Ver o teu sorriso dá-me forças para passar o dia longe de ti. Nos últimos tempos as doenças não te largam, mas não trouxeste nenhuma do colégio. Talvez só a primeira – uma virose (nome que parece que serve para tudo!) que te deixou com 40º de febre, a mim em pânico, e nos levou às urgências. Uns 15 dias depois, na casa dos avós, começaram a aparecer umas borbulhas que eu reconheci de qualquer lado. Foi assim que ficaste livre da varicela, aos oito meses e meio. Dez dias juntas em casa que, se não fossem por doença, teriam sido perfeitos. Tomaste Aciclovir para que não ficasses com mais lesões, mas depois ganhaste umas novas borbulhas no pescoço, na boca e nos braços. Eczema, disseram nas urgências; alergia, disse a dermatologista. Mais de três idas ao médico depois, ainda continuas com algumas. O teu angioma já está muito mais baixo e mais pequeno, nota-se que está a ser 'absorvido'. Mas a dermatologista diz que vais ficar com uma cicatriz e excesso de pele naquela zona. Não faz mal, o importante é que não sofras - ainda que falte muito tempo para terminares o tratamento. Aos 9 meses chegaram as férias na Curia, e como foste feliz! Aprendeste a dizer adeus, vibraste com os primos, a bisavó e a madrinha, comeste sopa nos restaurantes e provaste os teus primeiros boiões (horríveis!). Tocavas nas pessoas para chamar a atenção, dizias adeus quando passavam por ti, ias ao colo de toda a gente e até fazias turras com as senhoras das lojas. Dormias no meio dos pais e, em 5 minutos, tinhas os pés em cima de um e a cabeça em cima do outro. Não adiantava arranjar-te, voltavas a esta posição em segundos. Adoraste andar na piscina com o pai e fazias uma birra quando eles não te levavam para a água. Muito pequenina. Na verdade, mal te ouvimos chorar nessa semana. Mas as tuas gargalhadas, essas sim, fizeram-se ouvir bem todos os dias. Voltámos a casa e trouxemos mais uma doença connosco – outra virose. Esta com vómitos e diarreia. Primeiro apanhou-me a mim, depois a ti, depois ao pai. Olhavas para nós, um bocadinho desesperada, sem perceber o que se passava; e nós ainda mais doentes por te vermos assim. Ficaste um dia em casa com o pai, e dormiram sempre, porque não estavam nada bem os dois. No dia seguinte fiquei eu contigo e tivemos uma surpresa: começaste a bater palmas! E gostas tanto de o fazer. Bates palmas quando estás a mamar, quando ficas contentem, quando queres chamar a atenção. Chegou mais uma semana de férias e pensámos que íamos poder respirar de alívio finalmente, mas não. Cada um de nós foi vítima de uma doença diferente, a ti calhou-te uma conjuntivite. Todas estas coisas acabaram por te tirar o apetite, e acabaste a comer ainda menos do que o costume. Não gostaste nada da praia – o vento, as ondas, deixavam-te assustada. Mas gostaste de brincar na areia e beber a água salgada que te trazíamos num baldinho. Adoravas ir para a rua conversar com as vizinhas ao colo da avó, ir ao mercado com ela, e não foram poucas as vezes que as pessoas vinham ter contigo a saber o teu nome e eu sem saber como. Ias ao colo dos turistas, rias-te quando falavam para ti em inglês, e brincavas com eles como se os conhecesses desde sempre - até choraste quando uma senhora italiana saiu do restaurante depois de ter passado a refeição a meter-se contigo. Na semana passada fomos ao centro de saúde e vim de lá a chorar: não aumentaste nada. Olhando para este cenário de doenças, assim o diz a tua pediatra, é muito normal que assim tenha sido, mas ali fizeram-me sentir má mãe e duvidar de muitas coisas. Nos últimos dias já tens comido melhor, e começaste a fazer papa à tarde com o meu leite, o que me deixa mais animada. Mesmo sem aumentares, continuas com as pernas e os braços cheios de 'chouriços' bons onde eu dou um monte de beijinhos todos os dias.

És uma bebé tão, mas tão feliz. Ris-te para toda a gente, metes-te com as pessoas todas na rua, tens de tocar nos meninos nos carrinhos de bebés, dás gritinhos de alegria só por brincar ao esconde-esconde. Acho que és meiguinha - claro que não faço ideia do que te passa pela cabeça, mas fiquei emocionada quando a educadora me disse que num dia em que o Ca., um dos bebés da tua sala, estava mais chorão, tu, que brincavas ao lado dele no chão, tiveste o cuidado de lhe dar a mão sempre que ele chorava. Mas as tuas festas não são nada meigas, tenho uns quantos arranhões que o provam - principalmente no peito, porque agora paras de mamar e ficas a tentar apanhar o mamilo com dois dedinhos armados em pinça. Se o pai estiver sem camisola, os dele também servem. Adoras animais – queres mexer em todos os cavalos, todos os cães e até num gafanhoto que o pai apanhou adoraste fazer festas. Começas a chamá-los assim que os vês, numa linguagem só tua que vamos começando a entender. Apesar de teres as tuas rotinas, e de as quebrarmos às vezes, voltas aos teus dias sem qualquer problema. Depois das férias tão agitadas e com tanta brincadeira, ficaste na escola sem reclamar e cumpriste os teus horários de lá sem chorar. Não gostas de comer, preferias viver só de mama. Não há uma única fruta ou sopa que eu possa dizer que gostas, porque fazes sempre o teu ar de nojo a provar tudo, mas não deixas de provar. Adoras comer côdeas de pão e bolacha Maria. Assim que te damos uma destas coisas largas a chupeta de imediato e levas logo à boca. Se começam a partir-se aos bocados, ficas com as duas mãozinhas a tentar colar, até perceberes que aquilo não volta a ligar e começares a comer de novo. Agora ris com os olhos fechados, e só de te ver assim fico com lágrimas de alegria nos meus. Percebes que nós achamos piada a isto, e, quando falamos com os avós pelo Skype, ris-te assim tantas vezes que, como diz uma amiga, mais pareces uma estrelinha cintilante. Estás tão habituada a falar com eles assim, a vê-los no ecrã do telemóvel, que quando to metemos no ouvido para ouvires alguém começas logo a puxá-lo para veres quem está a falar. Para ti, o telemóvel só serve para ouvir e ver ao mesmo tempo. Gostas de mexer em tudo, principalmente se não for um brinquedo teu, e levas tudo para a boca. Não gostas de estar na manta parada, preferes andar ao nosso colo para todo o lado. E se estás no carrinho com muita gente de pé à tua volta, começas a dar pulinhos e a fazer caretas para te tirarem de lá (mesmo nos elevadores com gente que não conheces). Às vezes afastamos um dos brinquedos para ver se chegas até lá, mas ou perdes o interesse e agarras outro, ou rebolas até chegar lá - viras-te de barriga para baixo, vês onde está o que queres com o pescoço muito esticadinho, levantas o rabinho, ganhas balanço e voltas a virar-te. E assim vais fazendo até chegares lá. Adoras mexer em orelhas, nas nossas e nas tuas, e acabas mesmo por adormecer agarrada às nossas. Adormeces comigo a cantar-te ‘O Balão do João’ ou a minha versão: “O soninho da Aurora / Sobe, sobe sem parar / Vai dormir, a bebé / Sempre a Sonhar. / Mas o soninho a subir / Deixa a Aurora sem querer dormir / Fica então, a bebé, muito rabugenta”. Ainda dormes no nosso quarto, mas a médica já me disse que temos de mudar isto. Vou sofrer de muitas maneiras: ainda és a minha bebé, queria ter-te ali assim para sempre; vou trabalhar no dia seguinte e tu ainda mamas durante a noite (mais nos dias de colégio do que nas férias e fim de semana – queres miminhos!). Há noites em que chegas a mamar 4 vezes. Não, não é o meu leite que não presta, queres só ter a certeza que nós estamos ali e apanhar um miminho extra. Sim, tens 10 meses e ainda mamas. E as pessoas conseguem ser cruéis com isso. "Ainda mama com essa idade?", "Como é que tens paciência para ainda tirar leite?", "O teu leite já nem deve prestar". Ignorar é a palavra certa. Mamas sim, e vais mamar até querermos as duas. Eu sou feliz a fazê-lo, tu gostas e faz-te bem. Mamas de manhã, ao almoço tiro no trabalho, mamas quando chegas da escola para adormecer, antes de dormires e durante a noite. Sempre que queres que a gente te levante, atiras-te para trás – que perigosa! E se te meto na manta de manhã para arranjar as coisas, começas a fazer estalinhos com a língua porque sabes que quando fazes gracinhas vamos logo a correr ter contigo. Meto-te na tua cadeirinha, ao meu lado, enquanto tomo banho e ainda te aguentas uns 5 minutos lá, mas depois ficas rabugenta e começas a atirar os brinquedos todos para o chão, e a olhar para eles lá em baixo. Fazes isso quando estás cansada de estar na cadeira, quando queres apenas um colinho ou quando não te damos aquilo que queres. Conversas muito, tanto, e tentas imitar aquilo que dizemos. Consegues fazer uns sons muito parecidos, e a madrinha até diz que vais falar antes de começares a andar! Já dizes uns "mamamamama", uns "papapapapa", uns "têtêtêtê". Rimos muito as duas, de manhã, quando acordas e eu te digo que faço magia, abro a janela, e é de dia! Como é bom começar o dia com a tua gargalhada só por veres a luz entrar no quarto! Custa-me muito estar tão pouco tempo contigo. Partilhamos a caminha depois do pai ir embora, porque adormeces depois de mamares, e ali ficamos até o despertador tocar. Arranjo-te, enquanto te vou explicando o processo todo - a troca da fralda, a muda da roupa, os cremes, o medicamento para o angioma. Depois arranjamos o meu almoço, o teu leitinho para levares para a escola, as coisas da bomba do leite e lá vamos nós. Gostas de me imitar a carregar nos botões do elevador, de rir para o espelho e de ver os andares a passar. Falo contigo no caminho, que é muito curto. Explico-te que preferia ficar o dia todo contigo, mas que a vida dos crescidos é mesmo assim. E depois é só esperar que o dia passe. As mães vivem cheias de culpas - ouvi isto tantas vezes, e é mesmo verdade. Fico tão, mas tão feliz quando te vou buscar à escola – assim que me vês pelo vidro da porta começas aos gritinhos, aos saltinhos, e ai das educadoras que não te peguem logo no segundo seguinte para vires ao meu colo, que começas numa choradeira sem fim. Assim que estás no meu colo, tudo está bem, e já nem me ligas, preferes ver tudo à tua volta. Chegamos a casa e dormimos juntas uma sesta que pode bem chegar às 3 horas! Se me levanto, tu acordas, então fico ali ao teu lado nem que seja a contemplar-te. Depois, é hora do pai chegar a casa, e basta ouvires a chave na porta para começares a rir e a procurá-lo na direção da porta. Continuas cheia de curiosidade por tudo o que te rodeia, pelo mundo, e a tua cabeça não pára um bocainho (o tio J. diz que um dia partes a mola!). Ainda não gatinhas, não andas e não fazes um sem fim de coisas que estão sempre a perguntar-me. Não faz mal. Temos tempo. Todo o tempo do mundo, espero com muita força. Contigo, é o que eu mais desejo.

Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

.Dores de mãe

Duas crianças morreram na sequência de um acidente numa Moto4. Uma criança morreu num incêndio na Damaia. O filho de uma conhecida jornalista morreu depois de um acidente numa piscina. A televisão no fim de semana a acabar com o meu coração de mãe. Esta noite a Aurora mamou 4 vezes – às 00:00, às 02:30, às 04:30 e às 07:30. Talvez também esteja ansiosa com a ida para o colégio, amanhã, não sei. Eu agradeci. Foi tão bom ter uma desculpa para agarrá-la mais tempo, sentir o seu corpinho quente, o cheirinho bom do cabelo dela, as festinhas que me vai dando com a mão de um lado para o outro. Depois dar-lhe um beijinho na bochecha ainda com leite e voltar a deitá-la, enquanto agradeço, tantas vezes, por tê-la na minha vida e peço que nunca nada de mal lhe aconteça. Sempre fui pessimista e sofri por antecipação, mas agora, desde que fui mãe, tudo me parece muito mais negro (e mais feliz, ao mesmo tempo). Digo aos meus pais que não sei como me deram tanta liberdade, que penso seriamente em fechar a Aurora no quarto para que nada de mal lhe aconteça, mas sei que tenho de aprender a gerir os meus medos, inseguranças, e que ela também terá de ter espaço para viver (e sim, nos quartos também acontecem coisas más, eu sei). Mas este lugar onde agora me encontro, mãe, eu-mãe, faz-me sofrer até pelas dores dos outros. Nos últimos tempos uma série de pessoas à minha volta sofreu mais do que devia num momento da vida que devia ser de extrema felicidade – o parto. Sofreram as mães, os pais, os bebés. Uns já recuperaram, outro não se sabe se ficará com algum problema, outro acabou por falecer. Nesse dia, em que soube desta última história, chorei e agarrei tanto a minha filha. E o Z. ralhou muito comigo, que não posso ser assim. Mas não consigo deixar de questionar o mundo, a vida, tudo o que acontece. Quem sou eu para ter tido a sorte de ter um parto bom, num bom hospital, sem sofrimento para nós nem para ela? O que tenho eu a mais? Porque tenho eu a sorte de ter a minha filha bem nos braços e outros pais não? Que mal fizeram todos os outros pais para que lhes tirem assim os seus filhos? Ainda vou ser penalizada por esta sorte? Ser mãe é viver com o coração fora do corpo, digo eu e todas as mães (menos aquelas que os tentam vender – mais uma notícia que me faz questionar o mundo). E quando esse coração pára de bater, como é que se continua a viver? Espero nunca ter de o saber. Dói tanto, tanto, só de o ver acontecer aos outros. E nunca me esqueço que nós somos os outros dos outros.

Quarta-feira, 25 de Junho de 2014

.7

Ontem chegámos aos 7 meses, tu e nós. 7 meses juntos, 7 meses a ser bebé, filha, 7 meses a ser pais, a ser felizes como não imaginámos antes. 7 meses que passaram a correr. Por outro lado, penso que ainda só passaram 7 meses. E tu já mudaste tanto, e já fizemos tantas coisas boas. Pelo meio, houve coisas más também. Como quando o teu hemangioma ulcerou, choraste toda a noite, acabámos nas urgências para onde voámos contigo ao colo. Nesse dia fui forte, como dizem que as mães têm de ser, e só chorei quando vi outro bebé entrar com falta de ar. Passem os males dos pequenos para nós, por favor! Nenhum bebé/criança do mundo devia sofrer. Foste vista por não sei quantos médicos, e uma coisita que era apenas uma mancha quando nasceste, e que cresceu de mais, continuava a sangrar e, pior, a doer-te. E eu percebi, pela primeira vez, que não te consigo salvar de todos os males. Não deviam as mães poder fazê-lo? Ainda assim, foi um dia cheio de sorte. Porque te trataram bem, se preocuparam contigo, fizeram mais do que deviam para te ver bem. Terminámos o dia num outro hospital, no cardiologista, que deu autorização para que começasses a fazer um tratamento com beta bloqueantes. Uma coisa ainda experimental, que toda a gente nos diz para não termos medo, apesar de te reduzir o ritmo cardíaco, diminuir o açúcar no sangue e teres de o fazer 3 vezes ao dia até, provavelmente, aos 2 anos. Mas ver-te melhorar tão depressa deixa-nos cheios de esperança. Não te ver a sofrer deixa-nos de coração cheio. Sofremos também, os 3, porque não querias pegar no biberão – nem comigo noutra divisão, nem fora de casa, nem em posições ou sítios diferentes, nem com outras pessoas, nem com tetinas de diversas marcas, nem com leite aquecido, descongelado, à temperatura ambiente ou acabado de tirar. Querias, só, mama. Mas a vida não pára e eu tive de regressar ao trabalho. O pai, apesar de ter dito que não ia montar uma tenda à porta do meu estaminé (mamavas de duas em duas horas!), lá cedeu depois de tanto sofrimento – veio contigo todos os dias até mim, à hora de almoço, para mamar. E que bem que me soube, confesso. Só nos últimos dias de licença do pai voltámos a experimentar o biberão, primeiro com água, depois leite, e agora parece que o fizeste desde sempre. Entretanto, e à conta do propanolol, não podias estar 4 horas sem comer, e começámos as papas um bocadinho antes dos 6 meses. No biberão até bebes bem a papa, no prato, à colher, fazes uma birra enorme, assim como fazes com a sopa e com a fruta. Por ti, vivias bem só com leite. Na próxima semana já vais para o colégio e, se o meu coração fica pequenino só por pensar nisso, espero que esta seja uma das coisas em que elas te façam mudar. Não estamos lá nós, terás de comer de qualquer maneira, espero. Agora, também já pegas na chupeta. O pai experimentou numa das tuas birras, e ficaram grandes amigas. Até já consegues adormecer sozinha na tua caminha, desde que a tenhas (ainda no nosso quarto, que ainda não tive coragem de te mudar). Não é uma paixão avassaladora, porque passados uns minutos acabas por deitá-la fora, mas adoras ficar a ‘mordê-la’, como fazes com tudo o que apanhas. Agora, desde que começaste as sopas, temos um novo amigo lá em casa, o Bebegel. Tu, que sujavas quase todas as fraldas e mesmo as roupas, deixaste, pura e simplesmente, de conseguir fazer cocó sozinha. E sofres mesmo com isso. Mesmo com estes pequenos problemas (pequeninos mesmo, quando comparados com outros), é tão bom. Sou tão feliz por ser tua mãe. E sei que também és feliz, consigo vê-lo. E há quem o note e o diga. Penso que não é dos meus olhos, mas és linda. E não consigo deixar de sorrir quando as pessoas mo dizem – como a senhora no Campo Pequeno que me dizia: “você já viu bem os olhos da sua filha?”, e eu preocupada se tinhas alguma coisa, mas não, queria só dizer que “tinhas os olhos mais bonitos que eu já vi”. As rotinas vão mudando, e nós vamo-nos adaptando. Depois da licença do pai estive eu de férias. Comigo detestas comer, fechas a boca com toda a força e ali não entra nada. Se despachas a mama em 5 minutos, e ela até está à tua frente, porque hei-de estar uma hora a dar-te sopa? Depois terminaram as minhas férias e voltou o pai. E como és feliz com ele. Só de ouvires a voz ficas em êxtase, dás pulinhos e ris muito. Para mim só há sorrisos grandes quando chego a casa, depois passa. Continuas a mamar de noite, por volta das 4, e eu adoro. Ouvir-te a resmungar, pegar-te ao colo, meter-te na nossa cama, aninhar-te a mim e ficar ali a dar-te beijinhos enquanto mamas. Depois, antes de sair às 08:00, volto a fazer o mesmo – já passámos por várias fases: primeiro dava-te o medicamento, trocava a fralda e voltava a adormecer-te com a maminha; agora dou-te mama a dormir e o medicamento logo de seguida, muitas vezes sem que acordes. E ali ficas, deitadinha com o pai, até quase às 11:00, para comeres a sopa logo de seguida. Exiges muita atenção, ris-te muito para toda a gente, e continuas a preferir os homens. Conversas muito, tanto! Usas o 'dá' e o 'cá' quando estás feliz, e o 'tátátá' para reclamar. Ainda não tens dentes, nem gatinhas, mas quando estás de costas consegues percorrer tudo só a fazer força nos pés e a levantar o rabo, e viras-te para todo o lado. Já consegues ligar a luz do fraldário, tens só de te esticar muito. Como gostas de a ver! No centro de saúde acham que aumentas mais de peso do que de comprimento, mas a pediatra diz que estás bem e a roupa vai deixando de servir - nas tuas perninhas gordinhas e rabo de família já só servem calças para 9 meses. Continuas a gostar de banho e a fazer birra no momento dos cremes e do vestir. E adoras fazer um xixi na toalha logo que sais da banheira. Já foste à praia e detestaste tudo: a areia, a água, o sol. Tenho esperança que isso mude. Só isso. Apesar de saber que tudo muda, e que para a semana temos uma nova etapa, e tudo mudará muito mais do que até aqui. Queria dizer “não faz mal”, mas não consigo. Faz mal, faz pois. Gosto disto que temos. Custa-me não ver tantas primeiras coisas que irás fazer. Custa-me deixar-te ali e não passar mais tempo contigo. Mas posso prometer-te que vou estar a contar todos os minutos para chegar ao pé de ti, abraçar-te com toda a força, dar-te um beijinho no teu arrepio, outro na bochecha, e esperar pelo teu sorriso de volta, enquanto sinto os teus braços à minha volta e me arrancas mais um cabelo. Como já faço todos os dias desde que sou tua mãe. Já te disse que sou feliz contigo todos os dias? Sou, pois.

 

(Aqui, ao colo de uma das pessoas preferidas, o tio J.)

Segunda-feira, 24 de Março de 2014

.4 meses

Continuas a não querer chupeta. Mas já te aguentas na espreguiçadeira mais uns minutos, e até já ligas a alguns brinquedos. Esfregas os olhos quando tens sono, odeias soluços e ficas a rir quando espirras. Já sorris muito, com vontade, e conversas ainda mais. Já conseguiste dar a volta uma vez, na cama, e aguentas tão bem a tua cabecita no ar. Apanhas muitas birras, principalmente de sono ou porque não andamos a passear contigo ao colo, mas já vamos sabendo como acalmar-te. Levas tudo o que consegues para a boca, principalmente as mãos, mas só para lamber. O teu botão de fala fica no queixo, basta tocarmos lá para ficares na conversa. Já dormes na cama de grades, que era da madrinha, porque agora dormes à Cristo Rei, de braços abertos, e magoavas-te na alcofa. Não consegues mamar em sítios novos porque és muito curiosa e tens de observar tudo primeiro. A tua falta de cabelo atrás não se limita a um bocadinho, mas a uma faixa, por quereres ver tudo e não paráres quieta com a cabeça. O teu arrepio é cada vez mais difícil de pentear. E eu já começo a sofrer. Daqui a um mês regresso ao trabalho, onde ainda nem sei como vão ser as coisas, mas nem é por isso. Assusta-me tanto ficar longe de ti. Vais ficar com o pai durante esse primeiro mês, e depois fico eu de férias, depois fica o pai. Só vais para o colégio aos 7 meses, mas percebo que é nessa altura que começo a perder-te para o mundo. Para além de todos os desafios - da amamentação, da gestão de tempo, das saudades, ..., percebo que nunca mais vamos ter um tempo assim, só nosso, sem horas nem limites. A partir de agora, só os fins-de-semana, que passam a correr, e as férias, sempre tão bem contadas. Dizem-me que o melhor está para vir, quando andares, quando falares. Mas eu gosto tanto disto assim, não podemos parar o tempo um bocadinho aqui? Sempre disse que, ainda que me saísse dinheiro, gostava de continuar a trabalhar, porque gosto de fazê-lo. Esse risco não corro, porque não jogo, mas chegaste tu, e mostraste-me que é tão melhor estar contigo. Assusta-me perder uma das tuas descobertas, um dos teus momentos importantes, não estar aqui para ti. Mas dizem que a vida é mesmo assim. E, afinal, o que sei eu de tudo isto? Ainda 'só' passaram 4 meses.

Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

.Hoje

Hoje, numa das mamadas da noite, adormeceste na nossa cama. Deixei passar aquele bocadinho de sono leve, em que acordas assustada algumas vezes e nos procuras com a cabecita sempre às voltas, e peguei-te ao colo com cuidado para te deitar na tua alcofa. Arranjei-te, tapei-te, e no fim tive o cuidado de te deixar as mãos em cima da manta, como tu gostas. Nesse instante, abriste muito os olhos, sorriste para mim e voltaste a dormir. E eu, que sei que ainda não falamos a mesma língua, voltei também a dormir feliz porque pensei que, em gestos, me tinhas dito: "olha, a minha mãe já sabe como eu gosto de dormir". Todos os dias dou um significado novo ao teu sorriso. O mais provável é que sejam só coisas da minha cabeça - não faz mal, o teu sorriso, por si só, vale tudo.

Parece que isto virou um baby blog...
Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

.Coisas que aprendi, que conheço, que sei, que passei a saber, que ainda não sei, ..., nestes 3 meses + 37 semanas

Há 3 meses, conheci a minha filha. Desde aí, tantas coisas mudaram. A começar pelo meu amor por ela.

Primeira coisa que aprendi ao ser mãe: o amor pode sempre aumentar. Quando achamos que já chegámos ao nosso limite, basta vir um novo dia e percebemos que não - amo-a sempre um bocadinho mais.

Segunda coisa: o tempo passa mesmo depressa de mais. 3 meses? Mas como é que passaram 3 meses? Já tens quase o dobro do peso, aumentaste 8 cm, já tenho caixas com roupas que não te servem, e outras nem chegaste a vestir! Tantas coisas lindas que nem saíram do armário porque, em casa, andar de babygrow é que é bom. E o tempo passa a correr.

Terceira coisa: sei muito pouco sobre ti. Há dias em que penso que te conheço muito bem. Que sei como vais acordar, mamar, adormecer. Como te vais portar a mudar a fralda ou no banho. Como te arrancar um sorriso ou fazer parar as lágrimas. Mas, depois, vem um novo dia e tudo muda. E eu adapto-me a ti, todos os dias.
Desde que nasceste que adoras o banho. Assim que começas a ficar sem roupa, notamos logo a tua alegria. Quando entras na água, a festa continua. E era sempre assim, até ao fim. Agora, sempre que te tiramos para a toalha e começamos a sessão de cremes e roupas, começas num choro sem fim, com lágrimas e tudo. E nós aceleramos o processo, mas sem qualquer resultado - queres leitinho. E não adianta dar-te antes, porque a água abre-te sempre o apetite. Não faz mal, eu estou cá para isso. A minha licença é para estar contigo e nada mais. Por enquanto, há uma coisa em que ainda não mudaste: adoras mudar a fralda. Podes estar com a maior birra do mundo, podes estar doentita ou com fome, que mudar a fralda é sempre sinónimo de sorrisos, gargalhadas e conversas.

Quarta coisa: as meninas são sempre filhinhas dos papás. Passo um dia contigo em casa, dou-te mama quando pedes, mudo os maiores cocós do mundo, contra todos os conselhos passo o dia contigo ao colo porque choras na espreguiçadeira e não consegues dormir ali de dia por muito tempo (mas de noite dormes bem na tua alcofa). Tenho o braço esquerdo super musculado porque já consigo varrer, lavar o chão, estender roupa, cozinhar, comer contigo ao colo. E, com tudo isto, ganho apenas uns sorrisos na muda da fralda. O pai precisa apenas de telefonar ou de chegar a casa para ganhar os maiores sorrisos, as maiores gargalhadas, as maiores conversas. Menina do papá.

Quinta coisa: adoro amamentar. Antes mesmo de nasceres, eu já sabia que queria muito fazê-lo. E sou tão feliz quando o faço! É um momento só nosso, em que te posso dar aquilo que mais ninguém pode. E fazes uns barulhinhos deliciosos enquanto mamas! E dás ou entrelaças as mãos de forma tão mimosa. Tenho a sorte de poder fazê-lo contigo a olhar-me olhos nos olhos. E não me importo quando estes momentos acontecem a meio da noite, nem quando acontecem várias vezes a meio da noite. Vou ter saudades disto, tantas.

Sexta coisa: mãe sofre muito. O tempo todo. Porque às vezes não queres comer, não queres dormir, o meu colo não te sossega, e eu não sei o que se passa. Porque às vezes tens fungos no rabo, tens uma hérnia umbilical e nasceste com um hemangioma. Porque é aflitivo ver-te de nariz tapado, a tossir, a espirrar, com ranhocas, a vomitar, com febre, a levar vacinas, ... . Porque não consigo pôr-te a água do mar ou o soro no nariz sem te fazer chorar. Porque não conhecemos aqui ninguém e quando fizeres 7 meses vais para um colégio, onde também não conhecemos ninguém, com uma mensalidade maior que a prestação da nossa casa. Porque às vezes não sei se serei a boa mãe que mereces e se te conseguirei proteger de tudo.

Sétima coisa: os filhos não prendem ninguém nem unem um casal, pelo menos nesta fase. Com tanto cansaço acumulado e falta de tempo, há sempre alguém mais negligenciado, e esse alguém é o pai. Quando estamos os dois em casa, aproveito para fazer aquilo que não consigo quando estamos sozinhas. E, quando adormeces, só quero adormecer também. Se não existir amor antes, se a relação não for forte, um bebé só piora as coisas. É muito fácil desistir e escolher o lado óbvio. Mas, quando existe amor, não há escolha possível porque tudo junto faz muito mais sentido. Olho para a Aurora como a melhor coisa que fizemos, e que só podia ter nascido de um amor assim.

Sétima coisa: um pai faz muita falta. Pelo menos um como o da Aurora. Eu reclamo, pois sim. Mas, desde o momento em que ela nasceu, que vejo todos os dias que ele é um pai espectacular. E ela também, tamanha é a felicidade da rapariga quando o vê. Não sei o que é dar um banho sem ele, por exemplo. No outro dia alguém me falava de um casal em que a mãe não deixa o pai fazer quase nada, porque ela é que sabe. Nós também entramos em conflito, porque às vezes um acha que sabe fazer melhor do que o outro, mas, sempre que ele está em casa, faço questão que ele a ponha a arrotar, que lhe mude a fralda, que lhe dê colo. Eu serei sempre a mãe dela, e tratarei sempre dela da melhor maneira que sei - mas deixa-me feliz saber que há mais alguém a tratá-la tão bem e a amá-la tanto quanto eu.

Oitava coisa: coisas várias. Sei que o único creme que não te deixa o rabinho assado é o Mitosyl. Mas que quando fica o que te salva é o Nutraisdin. Que as melhores fraldas são as da Chicco, mas usamos Dodot, que também são muito boas. Que não gostas de ter a fralda suja. Que se queremos que faças cocó basta tirar-te a fralda e deixar-te uns minutos assim no fraldário - somos contemplados com quatro ou cinco de esguicho. Que os teus xixis de muda da fralda saem em todas as direcções. Que quando apagamos a luz do candeeiro do fraldário antes muito os olhos, de susto e curiosidade. Que és pouco paciente, quando queres uma coisa é para ontem e não páras de chorar até a conseguires. Que gostas de andar a passear pela casa ao nosso colo. Que não gostas de te vestir. Que adoras estar sem roupa. Que veneras luzes - basta levar-te para perto de uma para sossegares, e, se estiverem apagadas, vais alternando o olhar entre elas e nós até que um de nós as acenda. Que iluminas a vida dos avós e dos bisavós de uma maneira que nunca imaginei sequer. Que cresces depressa de mais. Que adoras dormir no colo, de pé, bem encostadinha a nós. E que, nessas alturas, cruzas os braços sobre o nosso peito e deitas a tua cabecita neles. Que quando começas num choro sem fim só sossegas com colinho, de alguém que ande a passear contigo, a dar-te umas palmadinhas no rabo, de preferência perto de uma luz acesa. Também resulta encostar a cara à tua, cantar-te ao ouvido enquanto andamos ou dar saltos gigantes na bola de Pilates. Que tens um sensor que te faz chorar quando a pessoa que te tem ao colo se senta. Que gostas de ser abanada de cima para baixo e não para os lados. Que depois de adormeceres no nosso colo vais abrindo um olhinho às vezes - se nos vês, voltas a dormir, se te enganámos e percebes que já não estás nos nossos braços, começas a chorar. Que quando te espreguiças esticas muito o pescoço e me fazes lembrar o E.T.. Que tens as melhores bochechas do mundo para dar beijinhos. Que as tuas coxas são iguais às do teu pai. Que quando queres sair da espreguiçadeira te ris muito para nós e depois, quando percebes que isso não funciona, começas a chorar. Que gostas de pessoas e conversas, não gostas de silêncio, nem de bonecos (por enquanto, espero). Que já agarras na boneca Aurora enquanto mudas a fralda. Que não aguentas mais de 10 minutos no parque ou na espreguiçadeira - a não ser que seja na cozinha, com o exaustor ligado, ou enquanto tomo banho, com o termo-ventilador ligado. Que te ris mais para os homens do que para as mulheres. Que adormeces automaticamente no carro. Que tens o melhor cheiro do mundo, mesmo sem cremes (mas que gosto muito da loção da Isdin). Que tenho tanto orgulho em passear-te agora como quando passeava a minha barriga. Que as ruas não estão feitas para carrinhos de bebé - os carros estacionam nos passeios, as passadeiras não têm uma pequena rampa que ligue a estrada ao passeio. Que não gostas de levar fralda no ovo, preferes a capa transparente da chuva para poderes ver tudo. Que és muito observadora - enquanto andamos de um lado para o outro, ou quando paramos em qualquer sítio, a tua cabecita e os teus olhos não páram. Que não gostas de chupeta - já tentámos naqueles dias em que estás mesmo impaciente, mas chegas ao ponto de te engasgares. Que não dormes se tiveres as mãos tapadas. E que dormes com elas no ar. Que choras a vestir casacos e a entrar no ovo, mas que te calas assim que o levantamos do chão. Que gostas de adormecer encostada à minha maminha depois de mamares. Que um filho é um investimento a fundo perdido só compensado pelo amor que se recebe em troca - todos os dias faltam compressas, cremes, roupas, consultas, vacinas, cadeiras, ... . Vai correr tudo bem.

Nona coisa: eu nunca mais vou ser a mesma pessoa, de maneira nenhuma. E podemos começar pelo óbvio, a parte física. Vejo tanta gente elegante que me diz estar assim por causa da amamentação, e eu não estou porquê? Para já, ainda não estou muito chateada com este pneu que ganhei, e com coisas várias que ficaram moles de mais, mas quando chegar o Verão acho que vou estar. Nunca consegui fazer dieta na vida, e nunca poderia fazer agora, mas a verdade é que parece que continuo grávida ou pior, porque o apetite ainda é maior, principalmente por coisas doces. Mas depois olho para ti, tão perfeita, e quero lá saber destes 2kg a mais que ainda andam aqui. E estar grávida foi tão, mas tão bom. Senti-me tão segura, tão forte, tão poderosa - talvez seja também porque nos deixam passar à frente em todo o lado (dica de ex-grávida: o melhor sítio para fazer compras é o Continente, tem caixas exclusivas e não prioritárias). Com tudo o que ganhei, não me posso queixar das formas que perdi. Perdi também muitas das roupas que tinha - porque não servem, porque deixei de gostar, sei lá. Toda a vida usei calças à boca de sino, mas não encontrei coisas dessas para grávidas. Fui obrigada a usar calças justas e por dentro das botas, coisa nunca antes vista em mim. O pior é que me habituei, agora há um guarda roupa pré-gravidez, que já mandei para o Alentejo, e um pós-parto. E eu, que toda a vida me queixei de ter pouco peito, olho agora com saudade para os vestidos que já não me servem nessa zona - a gravidez é mesmo o silicone dos pobres! E o cabelo? Entre os que caem e os que me arrancas, não sei se chego a 2015 com algum!
Depois há a parte psicológica, que não é de todo fácil de explicar. É um amor inexplicável, uma preocupação constante, uma vida que depende por completo de nós, uma entrega total. Percebo que existam tantas mães com depressões pós-parto. É o melhor do mundo, mas não é sempre fácil. E os pais vão trabalhar cedo, e nós ficamos em casa um dia inteiro sozinhas, a ser felizes mas a pensar em disparates também. Digo muitas vezes ao Z. que não sei como conseguimos fazer uma coisa assim tão perfeita (e ele responde sempre: "queres que te lembre?"). Para mim ela é isso mesmo, a perfeição. E carreguei-a dentro de mim 37 semanas, e fui eu que a trouxe ao mundo, e está nas minhas mãos fazer dela uma pessoa boa e feliz. Como é que isso pode não mudar uma pessoa?
Deixei de me preocupar tanto com pó limpo, casa arrumada, roupa passada - logo se faz. Eu, que tinha poucos medos, passei a ter de sobra. Tenho medo de conduzir quando te levo, ao meu maior tesouro, no carro. Temo os acidentes, os outros, os furos, tantas coisas. Preocupava-me só com a morte dos que amo, agora preocupo-me com a minha também - quero tanto ver-te crescer e estar aqui para ti! Mas passei, quase por completo, para segundo plano, de livre vontade. E sei que também tenho de pensar em mim, mas pareço-me tão insignificante perto de ti. Fico angustiada só de pensar no regresso ao trabalho! Devia ter tirado a licença de um ano. Toda a gente me diz que me vai saber bem regressar, e sei que devo agradecer por ter trabalho, mas agora ainda me custa muito pensar nisso.
Mas ainda tenho de mudar algumas coisas - tenho de arranjar coragem e força para responder quando põem em causa a forma como tratamos de ti, e para dizer que não concordo quando te fazem alguma coisa que eu não gosto ou não acho correcta. Por ti, hei-de conseguir.

Décima coisa: sou mãe, e posso não ser a melhor do mundo, mas tento sê-lo todos os dias. Há tantas coisas que não sabia e continuo sem saber. O peito não é transparente, como sei se ficas bem? Se digo que às vezes pedes mama de hora a hora, dizem-me que é porque passas fome. No centro de saúde não acreditavam que estavas só a mama porque aumentaste muito de peso e concluíram que o meu leite tem feijoada. E eu vou tentando adaptar-me a ti, enquanto oiço estas coisas diferentes de todos os lados. Não sei se já podes sair mais de casa sem apanhares mil e uma doenças, se podes olhar para a televisão sem te tornares numa viciada que não sabe brincar na rua, se vais preferir um tablet a um caderno para fazer desenhos. Não sei ainda tantas coisas. Mas também sou mãe só há três meses. E tu mudas todos os dias, e eu mudo contigo. Mas uma coisa te garanto: nunca fui tão feliz como sou agora contigo na minha vida. Ver-te adormecer no meu colo, abrires os olhos e sorrires só porque me vês e sentes agarrada a ti, é a sensação mais bonita que eu já conheci. Acho que posso resumir tudo assim: de tudo o que sei e não sei, tenho uma grande certeza, sei que te amo mais do que tudo. E isso há-de servir para chegarmos juntas a qualquer lado (com o pai e todos os que te amam também, que são tantos!). Que seja um lado feliz.
Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014

.Noites de mãe

Eram 03:59 quando a ouvi. Não chorava, mas fazia aquele barulhinho que conheço já tão bem de quando anda à procura da mama. Suspira e anda de boca aberta, a apanhar tudo o que está à volta. Desta vez tentava tirar leite da mantinha. Depois percebe que não sai nada dali e, aí sim, começa a chorar. Hoje não foi preciso. Acendi a luz, fiquei uns instantes a observar o meu raio de luz, que me deixa sempre o coração apertado, e meti-a na nossa cama para a refeição da noite. Mamou, adormeceu, despertou, voltou a mamar, a adormecer e a despertar. Aproveitei para lhe trocar a fralda, que é sempre uma aventura. Já sabemos que basta começar o processo para a rapariga se inspirar - chegamos a gastar 4 fraldas na mesma muda. Hoje não foram precisas tantas, mas limpei-a quatro vezes, meti creme quatro vezes, e sempre que ia trocar a fralda lá vinha mais qualquer coisa. Saldo: terminei com cocó na cara, nas mãos, nos braços, no meu pijama, no fraldário, no resguardo, por baixo do colchão da troca. Ela safou-se, desta vez, porque ontem tive de lhe trocar a roupa umas quatro ou cinco vezes à conta de xixis e cocós. Sempre ouvi a expressão "até ao pescoço", mas ela, apesar de também já nos ter presenteado com uns desses, é sempre mais "até aos pés", quando está vestida (não percebo como é que aquilo sai da fralda e encontra caminho pelas calcinhas/collants abaixo!), ou "de esguicho e para todo o lado", em todas as mudas de fralda. Estar perto dela sem fralda é um perigo! No outro dia, só para que a pesassem no centro de saúde, fez um xixi na bancada onde a despimos e outro na balança - deviam meter papel absorvente naquilo e não vegetal, que a moça ficou com urina da cabeça aos pés. Fralda mudada, é hora de adormecer no colo da mamã, antes de passar para a alcofa. Não há música, bonecos, silêncio ou escuro que me valham, ela gosta mesmo é de gente, de ouvir conversas, de calor humano, de olhar para as luzes (é mesmo minha filha, diz a minha mãe) e se puder adormecer com a cara encostada à maminha, melhor ainda. Dizem os entendidos que, se o bebé dorme, a mãe dorme também, vamos lá a isso (e quem é que faz as coisas? E ela deixar? Durante o dia a alcofa e a espreguiçadeira têm picos, o colo da mãe é que tem mel e manda embora as coisas más! A árvore de natal ainda está feita!). Ah, não, espera, tenho de aproveitar que ela faz menos uma refeição de noite e ir buscar a bomba para tirar leite. Vida de vaquinha leiteira - a qualidade que a minha filha mais gosta em mim (por enquanto, espero!). Ser mãe é mesmo o melhor do mundo - à noite também. Até nas noites em que nos encontramos de hora a hora.

Actualização:
Consegui tirar 150ml, enquanto alternava o olhar entre a minha filha (diz que ajuda) e o facebook para passar o tempo. Mais um saquinho no congelador, na preparação para o regresso ao trabalho. Go, go vaquinha leiteira! Agora sim, vamos lá dormir, que às 7 a rapariga deve querer o pequeno-almoço. Às vezes sinto que passo os dias com o peito de fora, que não faço mais nada para além de dar mama e guardar leite. E perdi a vergonha, já saco da mama em qualquer lado. No outro dia, em pleno centro de saúde, tinha 5 senhoras à minha volta a ver, "não se importa, é a coisa mais bonita do mundo! E já viu que os homens não olham? Se entrasse aqui uma mulher com um decote grande, babavam-se todos, assim, respeitam". Já disse hoje que isto é o melhor do mundo? É mesmo!

Actualização 2:
Eram 06:59 quando a ouvi. A minha filha tem um relógio suíço na barriga, de três em três horas o 'despertador' dela toca. Desta vez choramingou um bocadinho, percebeu logo à primeira que a manta não dá leite. Vamos lá repetir o processo todo outra vez. Não cansa. Desta vez chateia-se com a mama e 'discute' com ela, enquanto anda ali a tentar apanhá-la e a fazer barulhinhos engraçados, ao despique com o ressonar do pai. Como é bom senti-la assim, encaixadinha em mim, de olho aberto na direcção dos meus. Mas daqui a pouco podes fechá-los, sim, pequenita? Só um bocadinho! A mãe agradece. Encontramo-nos às 10:00!

Actualização 3:
Ouvi-a resmungar, olhei para o telemóvel, eram 09:00. Não me pareceu que fosse fome, era mais uma conversa. Acho sempre que não assistir a estes momentos da minha filha é um desperdício, o verdadeiro, de tempo, de amor, mas estava tão cansada que voltei a adormecer. Acordei com o barulhinho da fome e pensei que era cedo, só tinham passado 5 minutos desde que tinha fechado os olhos, ou não? Eram 10:00, relógio suíço. Esta foi uma noite boa. Quando nos entendemos, quando até conseguimos dormir e sonhar, tudo está bem. Depois há as outras, como a que tivemos na 6ª, em que a rapariga acorda a todas as horas, quer mama a todas as horas, chora a todas as horas, e nós sem percebermos o que se passa, sem descanso, sem chão, porque ver um filho a chorar sem sabermos o motivo tira-nos tudo. Às vezes é uma dor de barriga, ou uma cólica, ou precisa só do aconchego da maminha por uns breves segundos para atirar a 'guerreira' ao tapete ou é uma luta contra o sono - quem se lembrou de inventar que a noite serve para dormir? Ela não percebe! Tão bom, ter ali a mãe e o pai, e tem de dormir? Que tontos. Essas não deixam de ser noites felizes, que o meu pequeno raio de sol é sinónimo disso mesmo, mas são as noites más. Noites? São noites? Juro que, nessas alturas, nem dou por elas passarem.

Actualização 4:
13:00, hora da mama outra vez. Dez minutos na mama direita, adormece. Mudar a fralda. Aqueço a água para molhar as compressas com que a limpo, ligo o aquecedor, tiro-lhe a roupa, abro a fralda suja e limpo-a para que possa ficar assim um bocadinho, também para ajudar a matar os fungos que por ali apareceram. Fica a conversar e a rir para a boneca que lhe ofereceram para a porta e que eu colei no roupeiro ao lado do fraldário - por enquanto, de vontade, só ri para esta boneca e quando vê a mama. Passados 5 minutos, está na hora de meter a nova. Depois de meter o creme, mesmo no instante em que me preparava para fechá-la, novo presente. Já estou sempre à espera, mas ainda me consegue surpreender e fazer rir. Nova limpeza, novo creme, nova fralda, novo presente de esguicho. Uma só muda, três fraldas. Pequenita, assim estragas as contas ao teu pai! Pela média dele, na folha excel, já tinha fraldas até Agosto, mas parece que lhe vais estragar os planos! Não faz mal, acho que ele gosta tanto de encontrar boas promoções quanto de nós. Brincadeira... Mas não devo andar muito longe da verdade. ;)

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